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Crescei e multiplicai-vos

O baobá João Gordo renasce numa praça em Paquetá

Roberto Kaz
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Foi na manhã de 31 de julho, quando passeava com o marido e o cachorro pela orla de Paquetá, que a professora aposentada Nadja Mara Barbosa deparou com o corpo da vítima – ou com o que restava do corpo. “Amor, olha lá!”, comentou, assustada, apontando para o toco de uma árvore. Caminhou até o local: uma praça à beira-mar, onde até o dia anterior havia um baobá ainda jovem, medindo 3 metros de altura. Fotografou o que parecia ser o cenário de um crime – além da árvore, uma placa descrevendo a espécie havia sido depredada – e postou no grupo de Facebook do jornal A Ilha. “Cortaram o João Gordo”, escreveu, referindo-se ao baobá. A grita foi geral.

Por coincidência, o matemático Ricardo Saint Clair Matos já havia agendado uma reunião, naquela manhã, com o grupo Plantar Paquetá, do qual é fundador. “Nossa ideia era discutir o plantio de uma muda de mangueira em outro canto da ilha, mas nem deu tempo. Já rumamos direto para a praça do baobá”, ele contou. Estava acompanhado de Pedro Veludo Gouveia e Alessandra Bruno, ambos professores e integrantes do grupo. Os três avaliaram o toco da árvore, procuraram em vão por câmeras de segurança e, depois, seguiram ao posto de polícia para registrar um boletim de ocorrência. “Era um crime ambiental, mas o motivo me pareceu ser de intolerância religiosa”, disse.

No dia seguinte, Matos voltou uma vez mais à praça, acompanhado de quatro integrantes do grupo. Limparam o toco, passaram um composto cicatrizante e fizeram um corte na diagonal, para que a água não acumulasse no topo. Quando terminavam de colocar adubo no entorno, Alessandra Bruno viu um pedaço de árvore boiando no mar. “Era o João Gordo”, contou Matos. “A maré deve ter trazido ele de volta.” Retiraram o tronco da água e o colocaram na calçada, para que fosse recolhido pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana. Por via das dúvidas, Matos quebrou cinco galhos, para tentar replantá-los em casa. Recebeu mais de cem mensagens de pêsames naquela semana. “As pessoas colocaram flores e até uma cruz ao lado do toco do João Gordo. Eu falava para terem calma, que ele ainda podia renascer.”

 

O baobá é um gênero de árvores de origem africana que pode viver mais de mil anos, expandindo-se para cima e, principalmente, para os lados (há um baobá na África do Sul cujo tronco, oco, foi transformado em um bar). No candomblé, é tido como árvore sagrada; os poucos exemplares plantados no Brasil servem, não raro, como ponto para oferendas e despachos. Com João Gordo não era diferente.

João Gordo era um baobá-celebridade – e daquele tipo de celebridade que já nasce celebridade, como um herdeiro do trono britânico. Sua semente foi colhida em uma praça no Centro do Rio, que pode ser o Passeio Público ou o Campo de Santana, a depender de quem conta a história. Dali seguiu para uma casa no Grajaú, onde vivia um bombeiro militar chamado Messias Breschnik Ribeiro Lima, já falecido. Lima passou anos cultivando a semente e depois a muda, transplantando-a de vaso em vaso à medida que crescia. Quando o baobá beirou 1 metro de altura, achou por bem entregá-lo ao mundo. “Ele viu que não daria conta de ficar com aquilo no quintal”, contou o engenheiro eletricista Ayrton Violento, parente de Lima. “Sugeri que o plantasse em Paquetá.”

A proposta vingou, em primeiro lugar, porque Lima gostava de Paquetá, o bairro carioca situado numa ilha em meio à Baía da Guanabara. Em segundo, porque já naquela época corria um movimento na ilha para que o baobá Maria Gorda – então já imponente, com mais de 100 anos de idade – ganhasse um companheiro.

João Gordo foi plantado e batizado em 21 de setembro de 2013, Dia da Árvore. A cerimônia contou com a presença de Lima e do amigo que lhe dera a semente, Harding Jorge Leite. A muda ganhou um cercado de ferro e uma placa, que atestava sua importância: “Minha família é da África. Também sou conhecido como imbondeiro, embondeiro, ou árvore da vida, mas pode me chamar de João Gordo.”

 

Ricardo Saint Clair Matos nasceu em Paquetá sessenta anos atrás, por acaso, quando seus pais passavam um fim de semana na ilha. Nos anos 1990, comprou ali uma casa com um jardim extenso, onde plantou 25 árvores. Quando esgotou o terreno, estendeu o plantio para as ruas do bairro – e assim surgiu o Plantar Paquetá. “Plantamos as mudas e depois informamos à Fundação Parques e Jardins, para que a prefeitura fique a par”, disse. Foram plantadas mais de trezentas árvores desde que o grupo foi criado.

No início de novembro, Matos recebeu uma ligação inusitada, de um segurança particular e colaborador bissexto do grupo chamado Edson dos Santos Almeida. “Você sabe que eu estou com o Joãozinho lá em casa?”, contou Almeida, explicando que havia colhido o pedaço de João Gordo achado na praia para tentar reanimá-lo. Levou-o para casa, banhou-o com água doce, colocou-o num vaso com adubo e depois o envolveu em plástico, de forma a criar uma espécie de estufa para que expelisse o sal do mar. Dois meses depois, surgiram os primeiros brotos – e Almeida procurou Matos para dizer que João Gordo estava a salvo.

A ideia inicial era que o tronco fosse replantado próximo ao toco, que também sobreviveu, gerando quatro novos galhos de baobá (assim como os galhos plantados por Matos, que também floresceram). Mas quis o destino que João Gordo refizesse o caminho de sete anos atrás. Na sexta-feira, 20 de novembro, o baobá foi levado até uma estação de barcas na região central do Rio e de lá seguiu, num carro, para a Zona Norte. Foi entregue à Escola de Samba Portela, que aproveitou o Dia da Consciência Negra para plantá-lo no Parque Madureira, onde a árvore passou a residir, com um novo sobrenome: João Gordo da Portela. O enredo da escola no próximo ano é, justamente, em homenagem aos baobás.

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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