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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

esquina

A crise dos aguers

Degustando águas no Rio de Janeiro

Luigi Mazza | Edição 162, Março 2020

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“Apresentação clássica de copo americano e temperatura agradável, com um gelinho top.” A nota? Quatro estrelas para a apresentação e cinco – a pontuação máxima – para a temperatura. “Bom lugar para quem quer se hidratar”, escreveu Gabriella Nadai no Instagram. A publicitária de 27 anos fez a resenha em abril do ano passado, depois de degustar um copo de água filtrada num bar em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A água não estava no menu, mas Nadai solicitou ao barman e foi servida. A boa vontade do atendente foi um ponto positivo na avaliação.

O parecer elogioso foi publicado na página “água da casa”, que reúne mais de 4 mil seguidores na rede social. Nadai é uma das administradoras do perfil, que se propõe a avaliar – sempre de maneira bem-humorada – a qualidade da água que os restaurantes do estado do Rio de Janeiro servem a seus clientes. A conta foi criada em 2016, um ano depois que a Assembleia Legislativa aprovou uma lei que obriga bares e restaurantes fluminenses a servirem água potável, filtrada, não mineral e gratuita a quem o requisitar. A isso se convencionou chamar de “água da casa”, embora a expressão não conste na lei.

Quem criou a página foi uma amiga de Nadai, a estilista Carolina Soares, de 26 anos. Entusiasta da ideia, Nadai se ofereceu para ajudar nas postagens. As duas se conheceram quando estudavam na PUC e passaram a dividir a função. Já publicaram quase 150 resenhas, que sempre vêm acompanhadas de uma foto da água saboreada. Com o tempo, as duas amigas começaram a receber resenhas de fora do Rio, escritas por conhecidos: houve quem experimentasse a água filtrada de São Paulo, Vitória e mesmo de fora do país, como Nova York e Seul.

 

Não há uma lei federal que obrigue os restaurantes a servir água da casa (há um projeto em tramitação no Senado, sem previsão para ir a plenário). Mas alguns estados, além do Rio, tomaram a iniciativa por conta própria, como Sergipe e Distrito Federal. Em São Paulo, a regra não existe. Ainda assim, alguns estabelecimentos servem a bebida como cortesia, o que permitiu que a página recebesse a colaboração de seguidores paulistas.

Como não há uma norma definindo como os restaurantes devem servir a água da casa ou de que maneira ela deve ser filtrada, o universo de opções é vasto. A bebida pode vir num copo de vidro ou de plástico; estar fria ou na temperatura ambiente, com ou sem gelo; ser insípida ou nem tanto. Esses são os requisitos básicos que definem a nota. Alguns lugares inovam, para o bem ou para o mal. Uma das resenhas mais lembradas da página mostra a água servida num galão furado e remendado com fita adesiva. A avaliação foi feita por uma amiga de Nadai, em um bar da Lapa, no Rio. Ela deu nota três no quesito temperatura, e publicou um símbolo de SOS no quesito apresentação.

“Quando você vira uma avaliadora de águas, repara que nem toda água é igual. Nem todas têm o mesmo gosto. E, se tem gosto, tem algo errado”, afirmou a publicitária, que tem forte sotaque carioca e um sarcasmo permanente. Nadai e Soares cunharam o termo aguers para se referir aos degustadores da bebida – que, segundo elas, são cada vez mais numerosos. “No começo havia uma resistência muito grande, as pessoas tinham vergonha de pedir água da casa. A gente passou por alguns constrangimentos. Mas sabíamos que era lei, e os restaurantes foram se acostumando.”

 

 

De fato, a lei da água da casa não agrada tanto aos donos de estabelecimentos. Em 2017, a Associação Nacional de Restaurantes impetrou um recurso tentando derrubá-la no Rio de Janeiro, mas o pedido não passou no Tribunal de Justiça. O relator do caso, desembargador Caetano da Fonseca Costa, lamentou que fosse necessária uma lei para garantir ao consumidor “um simples e honesto copo de água potável”.

A água da casa existe no Rio de Janeiro, a rigor, desde 1995, quando um projeto de lei determinou que os bares e restaurantes só poderiam servir água filtrada aos clientes. Mas o texto não deixava claro se era obrigação servi-la. Em 2014, o deputado estadual André Ceciliano (PT) – hoje presidente da Assembleia Legislativa – fez uma adaptação ao projeto, acrescentando essa imposição e determinando que, caso se recusassem a cumpri-la, os estabelecimentos poderiam ser punidos com uma multa de, no mínimo, 711 reais.

Em julho do ano seguinte, quando o projeto de Ceciliano foi aprovado, o deputado Paulo Ramos (PDT) reclamou que, ao frisar que o consumidor deveria tomar água filtrada, a lei poderia gerar desconfiança sobre a qualidade do serviço da Cedae, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. “Estou fazendo aqui uma defesa da qualidade da água da Cedae. Sou um exemplo de quem, com tranquilidade, bebe a água tirada diretamente da torneira”, disse Ramos, que sugeriu trocar “água filtrada” por “água de boa qualidade”.

 

Hoje, o deputado não faria essa afirmação com tanta tranquilidade.

 

“Está muito difícil ser aguer”, desabafou Nadai numa conversa com a piauí em fevereiro último. Desde o começo do ano, a Cedae detectou na água do Rio de Janeiro grandes quantidades de geosmina, uma substância orgânica produzida por vários tipos de micróbios. É um composto bastante comum no solo, responsável pelo “cheiro de terra molhada” em dias de chuva. Não por acaso, os moradores do Rio e de cidades próximas passaram a sentir odor e gosto de terra na água que vinha dos canos – e muitas pessoas tiveram dor de barriga, ânsia de vômito e outros sintomas. Só em janeiro, a Cedae distribuiu 120 bilhões de litros de água contaminada para a população fluminense.

A crise hídrica, que culminou na demissão do presidente da Cedae, fez com que a página água da casa diminuísse a frequência de resenhas no Rio. “Agora a gente está se aventurando menos. Até em casa, para bochechar, estou usando água mineral”, disse Nadai. “Ironicamente, com essa crise, mais pessoas conheceram o nosso perfil. Acho que, no pior momento, elas perceberam a falta que a água da casa faz.”

A publicitária conta que planejava fazer uma degustação da água da Cedae, mas foi superada pelos fatos. No início de fevereiro, depois da geosmina, a empresa detectou a presença de detergente no Rio Guandu, que abastece a Região Metropolitana do Rio. No Instagram, Nadai publicou a foto de um copo cheio de água com sabão e fez uma legenda debochada: “A água das terras cariocas veio com uma novidade este ano. Ela agora vem em dois tipos: com terra (bosta) e com detergente. Uma água chique, saborizada […] Excelente para lavar a louça. Péssima para beber.”

Luigi Mazza
Luigi Mazza

Editor do site da piauí. Foi repórter da revista em Brasília e diretor do podcast Foro de Teresina

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