esquina

Cristo e Alá sem confronto

O debate do teólogo muçulmano com o professor cristão

Branca Vianna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

Num debate recente sobre religião e opressão na Universidade de Princeton, em Nova Jersey, a opressão foi representada por um policial postado à porta do salão. Alto, louro e polido, ele cumprimentava todos que entravam. Já as religiões, no caso a muçulmana e a cristã, foram encarnadas pelo teólogo Tariq Ramadan, que explicou Maomé, e pelo professor Eric Gregory, do seminário da universidade, defensor de Jesus Cristo.

Ramadan ficou conhecido quando participou de um debate na televisão francesa com Nicolas Sarkozy, na época ministro do Interior. Acusado de conivência com o apedrejamento de adúlteras, prescrito por algumas correntes muçulmanas, o teólogo recusou-se a condená-lo e defendeu uma “moratória” da punição. Argumentou que assim se manteria contato e diálogo com setores ortodoxos do islamismo, dificultando a sua radicalização antiocidental.

Sarkozy o trucidou no debate, mas ele virou figura fácil na imprensa europeia, na qual faz figura de intelectual muçulmano moderado. Cidadão suíço, Ramadan é mestre em filosofia e literatura francesas e doutor em árabe e estudos islâmicos pela Universidade de Genebra. É casado com uma suíça convertida que usa o véu islâmico tradicional.

Em 2004, foi contratado como professor pela Universidade de Notre Dame, no estado de Indiana. O governo Bush, no entanto, o acusou de apoiar organizações terroristas e não lhe concedeu o visto de entrada. O “apoio” era uma doação de 900 dólares a uma instituição de caridade suíça que ajudava palestinos na Faixa de Gaza. A Universidade foi aos tribunais, nos quais o governo americano alegou que a instituição filantrópica dava dinheiro ao Hamas. A Universidade perdeu a causa e Ramadan, o cargo. Mas foi contratado pela Universidade Oxford, na Inglaterra. Só em 2010, no governo Obama, e a pedido da secretária de Estado Hillary Clinton, o teólogo pôde visitar os Estados Unidos.

O avô de Tariq Ramadan é Hassan al-Banna, fundamentalista falecido em 1949 e um dos fundadores da Irmandade Muçulmana, organização egípcia perseguida pela ditadura até a derrubada de Mubarak, em fevereiro. Desde o ataque do 11 de Setembro, com o qual não teve qualquer envolvimento, a organização é tratada como terrorista pelo governo americano. Com o passar dos anos, apesar de tratá-la em público como um bicho-papão, Washington busca canais de contato com a Irmandade. Ramadan nasceu em Genebra, em 1962, porque seu pai, um dos líderes da organização, se refugiou na Suíça.

 

O salão, com quase 500 lugares, estava cheio. É uma construção grandiosa no estilo Tudor, feita no início do século XX, com pé direito altíssimo e enormes vigas de madeira, encimadas por leões segurando brasões estilizados. No público, três jovens amigas cristãs, Susan, Clara e Abigail, queriam ver Eric Gregory. Ele é professor de Abigail no seminário de Princeton e um dos autores prediletos das outras duas, agricultoras de produtos orgânicos. “Espero que eles falem de como a religião pode ser opressiva para os fiéis”, disse Abigail. Flora e Lauren, jovens muçulmanas, uma negra e outra branca, ambas vestindo túnica e véu islâmico, estavam lá para ouvir Ramadan: “Nunca li nada dele, mas vim porque ele é muito conhecido”, explicou Lauren.

O evento foi apresentado pelo capelão muçulmano de Princeton como um ato de coragem por parte da universidade, por ousar ligar religião e opressão, ideia aparentemente controversa nos Estados Unidos. O capelão pontuava cada pedido de aplauso com um “graças a Deus” e se referia ao público como “irmãos e irmãs”. Disse esperar um debate animado e civilizado.

Sempre que há debates potencialmente explosivos, a administração de Princeton põe a polícia de sobreaviso. Não poderia ter havido, no entanto, debate menos explosivo e um público mais respeitoso. Não se falou nada sobre as revoltas populares no mundo árabe, ou sobre a aparente desimportância do Islã nas manifestações. Também não se disse nada sobre o papel da Irmandade Muçulmana no Egito pós-Mubarak, ou sobre Kadhafi, ou a Líbia, ou Israel.

 

Ramadan é um orador eloquente, que fala um inglês excelente, com leve sotaque francês. De terno cinza-escuro, camisa bege sem gravata e barba minuciosamente aparada, parece um Ahmadinejad (o presidente iraniano), que tomou banho de loja em Savile Row. Numa apresentação de vinte minutos, discorreu sobre a noção de jihad pessoal, definida como um caminho indo do estado de guerra característico do ser humano a um estado de paz, a que se almeja. Segundo ele, o Islã aceita o fato de que o homem é naturalmente violento e prega instrução e disciplina como formas de se chegar à reconciliação entre as partes escura e clara de nossa natureza.

Citou dom Hélder Câmara e a Teologia da Libertação como influências importantes em sua vida: “Dom Hélder dizia que religião é amor, mas não abria mão de lutar por justiça. Essa era a sua jihad, a luta contra a injustiça social.” Falou de como os muçulmanos podem aplicar em suas vidas o preceito islâmico de resistência à opressão. “O Corão diz que temos a obrigação de resistir à opressão usando os mesmos meios dos que nos oprimem. A ética da guerra descrita no Corão nos proíbe de matar inocentes, mas a luta pelo poder e a violência fazem parte da vida e a jihad é a resolução dessa tensão. A ideia de oferecer a outra face ao opressor não faz parte da religião muçulmana.”

O outro debatedor, Eric Gregory, falou de seu “querido santo Agostinho”, sua área de especialização, e do conceito de amor no cristianismo. “Entendo que, com a história do cristianismo sendo o que é, os outros fiquem nervosos quando os cristãos começam a falar do amor que sentem por eles”, afirmou. “Acham logo que vai acontecer alguma catástrofe.” Disse também se espantar não apenas com a ignorância dos americanos com relação às outras religiões, mas também com relação ao cristianismo. Segundo ele, 15% dos americanos acham que Joana d’Arc era a mulher de Noé, o da Arca.

Na plateia, as duas irmãs fãs de Ramadan tinham levado livros para o autor assinar. Outro que tinha levado era Mobassuk Poonawala, de 18 anos. Americano de origem indiana, ele cursa o último ano do ensino fundamental na escola islâmica Noor-Ul-Iman, também em Nova Jersey. Leu todos os livros de Ramadan e o considera um modelo. Poonawala é o público principal de Ramadan: são jovens como ele que lotam suas palestras em universidades e mesquitas por toda a Europa, muçulmanos instruídos, filhos ou netos de imigrantes, que sentem dificuldade em conciliar sua fé, sua origem étnica e a cultura ocidental em que cresceram, e os tornam diferentes de seus pais.

A plateia não pôde fazer perguntas, de modo que o debate entre o intelectual muçulmano e o estudioso de santo Agostinho não teve nenhum confronto real de ideias. No final, o capelão pediu ao público que ficasse sentado até que Ramadan e sua família saíssem da sala. “Eles têm um voo daqui a pouco e não podem se atrasar.” Ainda bem que as irmãs palestinas já tinham garantidos seus autógrafos.

Branca Vianna

Branca Vianna é linguista, intérprete e professora da PUC-RJ.

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