minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
piauí jogos

    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

esquina

Crônicas da fealdade

Físico português vinga-se de Byron

Nathalia Lavigne | Edição 103, Abril 2015

A+ A- A

Uma típica manhã de nevoeiro encobria o mar quando João Magueijo chegou à cidade de Swansea, no País de Gales, para um fim de semana em meados dos anos 90. Ao avistar as ondas revoltas do canal de Bristol, “podre e malcheiroso, como carne fora do prazo”, teve uma espécie de epifania. Lembrando-se de Dylan Thomas, poeta galês autor de versos refinados que homenageavam a feiura de sua cidade natal, Magueijo arriscou um palpite sobre o ilustre filho da terra: “No Reino Unido, a pérola às vezes nasce do esterco”, pensou. E concluiu: “Se Dylan Thomas tivesse nascido em Veneza, tinha dado em bancário, em vez de versejar.”

O físico português considera Swansea uma “latrina do cosmos” que Deus se esqueceu de “prover de autoclismo”, empregando a palavra que seus conterrâneos usam para designar a descarga. Isso não o impediu de voltar diversas vezes à cidade, onde desenvolveu seu trabalho científico mais importante e polêmico – uma hipótese que contesta a constância da velocidade da luz, um dos pilares da teoria da relatividade de Einstein. O trabalho, em parceria com o americano Andreas Albrecht, tornou Magueijo conhecido entre os cosmólogos, mas fez muitos colegas torcerem o nariz.

O cientista relatou seus momentos em Swansea nas páginas finais do livro Bifes Mal Passados, lançado em junho de 2014 pela editora portuguesa Gradiva e já na 11ª edição. Apesar do juízo pouco condescendente em geral, Magueijo batizou de “Ode ao Reino Unido” o capítulo dedicado à cidade galesa. E, após descrever os britânicos como bárbaros selvagens, o português declara sua paixão pelas Ilhas Britânicas: “Como não amar secretamente a Inglaterra, com toda a sua imensa fealdade?”

Professor de física teórica do prestigioso Imperial College, em Londres, o alentejano João Magueijo, 47 anos, vive há mais de duas décadas nos domínios de Elizabeth II. Morou primeiro em Cambridge, onde fez mestrado e doutorado, e desde 1996 está morando na capital, à qual se refere como “República Independente de Londres”.

 

Bifes Mal Passados é o primeiro livro que Magueijo publica em português e sobre um assunto não científico – sua obra mais conhecida é Faster Than the Speed of Light [Mais Rápido que a Velocidade da Luz], volume de 2003 que explica sua hipótese ao grande público. Numa tarde úmida de novembro, enquanto caminhava pelas imediações do Imperial College, o cosmólogo contou que se inspirou em suas pavorosas experiências de férias pelo Reino Unido para escrever o livro.

A ideia surgiu-lhe durante um passeio ao balneário de Margate, no sudeste da Inglaterra. “Aquilo era tão mau que pensei que dava uma ótima sequência de crônicas para um jornal português”, disse. Quando decidiu deitar as ideias no papel, percebeu que o conjunto de fins de semana subaproveitados era vasto, e os relatos viraram livro. (Escaldado, o português dedicou-se à escrita durante as férias de verão na Grécia há dois anos.)

A despeito da declaração de amor ao Reino Unido registrada no fim do livro, não há elogios tampouco sutileza em suas descrições daquela terra que “não vale uma corneta”. O capítulo “Breve ensaio sobre o bife” – em tempo: os portugueses chamam os ingleses de bifes – traz uma síntese eloquente sobre o mood do autor em relação ao país que lhe proporciona o pão. Como se escrevesse um estudo etnológico, Magueijo escarafuncha os hábitos de higiene do povo local (“o bife cheira mal”), suas práticas gastronômicas (uma “alimentação deplorável, baseada em sebosidades do mais baixo grau”) e outros costumes. Já a prática de ingestão etílica dos anfitriões é investigada em minuciosos trabalhos de campo a que o abnegado pesquisador se submete.

 

Embora não fosse a intenção do autor, Bifes Mal Passados logo foi lido como uma resposta ao poeta romântico inglês Lord Byron. Em poemas do livro Peregrinação de Childe Harold, de 1812, Byron descreve Lisboa como uma cidade fétida, cujos habitantes viviam na mais absoluta imundice. Ainda que a má vontade do bardo possa ter sido ocasionada por uma decepção amorosa, como se especula, nem as belezas naturais foram poupadas: “Por que, Natureza, desperdiçar tantas maravilhas com esses homens?” E com isso Byron deixou um rastro de ressentimento de 200 anos: os portugueses não o perdoaram.

Apesar de não ter sido publicado em inglês, o livro de João Magueijo causou certo alvoroço na imprensa britânica. “Quem disse que os britânicos são bêbados, sujos e deploráveis?” era o título de uma matéria no jornal The Guardian. Lucy Pepper, escritora e ilustradora inglesa radicada em Lisboa, criticou o físico por ter adotado a última flor do Lácio em suas incursões antropológico-literárias. “Se você vai dizer coisas horríveis sobre um país, deve fazer isso na língua deles”, declarou Lucy ao Guardian, certamente esquecida de seu conterrâneo Byron, que falou mal de Lisboa no idioma de Shakespeare. Não bastasse, Magueijo foi alvo de uma enxurrada de e-mails com toda sorte de xingamentos e sugestões de lugares para onde poderia se mudar.

Dois meses após o início da polêmica, o cosmólogo ainda parecia surpreso ao comentar a reação dos ingleses: “Eles não perderam a atitude do Império Britânico, eu cá em cima, o resto lá embaixo. Se a coisa é virada ao contrário fica esse furor todo”, queixou-se em bom português. Não obstante, Magueijo diz ter recebido críticas positivas de outros ingleses vivendo no Algarve, praticamente uma colônia britânica em Portugal durante o verão europeu: “Continuo a achar que eles têm o sentido de humor, a capacidade de rir de si próprios.”

Já o aplomb de seus colegas do Imperial College não chegou a surpreendê-lo: “Eles reagiram de uma forma bem britânica: fingiram que não souberam de nada!”