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Crusoé, Peter Pan e Quindim

Um refúgio para a literatura infantojuvenil na Serra Gaúcha

Leonardo Pujol
Criado por Monteiro Lobato, o rinoceronte Quindim empresta o nome para a biblioteca de Caxias do Sul
Criado por Monteiro Lobato, o rinoceronte Quindim empresta o nome para a biblioteca de Caxias do Sul ILUSTRAÇÃO_BELMONTE_REPRODUÇÃO DO LIVRO EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA_1934

Volnei Canônica vai até a estante, corre os olhos sobre os volumes e, sem hesitar, pega um livro de páginas amareladas. Trata-se de uma antologia de contos escritos por Charles Perrault. Nascido em 1628, o francês é considerado o pai da literatura infantil. São dele clássicos como O Gato de Botas, Chapeuzinho Vermelho e A Bela Adormecida – algumas das histórias presentes na coletânea que Canônica segura. “Eu tinha uns 22 anos quando comprei esse exemplar”, relembra. “Nem imaginava, naquela época, que viria a trabalhar com literatura para crianças.”

Hoje, Canônica tem o dobro da idade, barba e cabelos grisalhos, e vê nos livros a oportunidade de transformar Caxias do Sul, sua terra natal, num centro de incentivo à leitura na infância. Ele e o companheiro, Roger Mello – único ilustrador brasileiro a vencer o Hans Christian Andersen, o prêmio de literatura infantil mais prestigioso do mundo –, são idealizadores de uma “biblioteca privada de serviço público”, como costumam dizer. É o Instituto de Leitura Quindim, inaugurado em novembro.

Nele se encontram quase 5 mil títulos, todos voltados a crianças ou adolescentes. A coleção reúne desde os célebres Robinson Crusoé, do inglês Daniel Defoe, Peter Pan, do escocês J. M. Barrie, e O Lobo do Mar, do americano Jack London, até livros de autores e ilustradores que ganharam o Andersen, como Onde Vivem os Monstros, do nova-iorquino Maurice Sendak, e O Menino que Espiava pra Dentro, da carioca Ana Maria Machado. Zuenir Ventura, Ângela Lago, Tino Freitas, Bartolomeu Campos de Queirós e Lygia Bojunga também figuram na biblioteca, à semelhança de Ernest Hemingway, Fiódor Dostoiévski e Gabriel García Márquez. Sem falar dos escritores que se dedicam ao universo indígena ou afro-brasileiro, à literatura de cordel e aos quadrinhos.

A maior parte dos volumes está em português, mas há exemplares em mandarim, japonês, coreano, árabe e hindi, além do alemão, espanhol e inglês. O próprio casal garimpou as obras em feiras nacionais e internacionais, livrarias e editoras. As crianças que se cadastram no instituto adquirem o direito de retirar até quinze títulos e ficar com cada um deles durante duas semanas. “Queremos que elas levem uma minibiblioteca para casa”, explica Canônica.



Seu apetite livresco não surgiu com a aquisição da coletânea de Perrault, como pode parecer. Na verdade, o bibliófilo desenvolveu o amor às palavras ainda pequeno. Ele se recorda do avô materno que adorava lhe contar histórias, de uma professora que o incentivava a visitar a biblioteca da escola pública onde estudava e do ferro-velho mantido pelo pai. Lá os livros recolhidos do lixo se juntavam a outros tipos de papel e iam para a reciclagem. A exceção eram os exemplares que o menino surrupiava – e que hoje estão disponíveis em sua simpática biblioteca.

 

O Instituto de Leitura Quindim fica num casarão tombado pelo patrimônio histórico de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, às margens do arroio Tega. Erigido por descendentes de italianos, no final do século xix, o imóvel abrigava um moinho de trigo, que reduziu paulatinamente suas atividades a partir dos anos 30 e terminou fechando.

Depois de passar décadas abandonado, o espaço se revitalizou em 2014, graças a um grupo de teatro que o reocupou, o Ueba Produtos Notáveis. Nasceu, assim, o Centro Cultural Moinho da Cascata. Agora, o acervo de livros se distribui por um dos salões do casarão. Não há computadores, smartphones nem outros equipamentos eletrônicos na biblioteca. “A interatividade das crianças é só com as palavras”, sentencia Canônica.

Instalar o Quindim ali não foi obra do acaso. Na juventude, Canônica dirigiu algumas peças teatrais e se aventurou como ator. Mais tarde, formou-se em relações públicas, fez diversas especializações em literatura e assessorou programas culturais da prefeitura. Daí a aproximação com o Ueba.

Em 2008, Canônica se mudou para o Rio de Janeiro e trabalhou em duas organizações de apoio à leitura. Sete anos depois, durante o governo de Dilma Rousseff, assumiu o departamento responsável por elaborar políticas para o setor, no Ministério da Cultura. Em maio de 2016, sob a gestão de Michel Temer, se tornou secretário executivo da pasta. Durou apenas um mês na função. “Não consegui segurar a barra”, afirma, sem dar detalhes. “Tanto é que o próprio [Marcelo] Calero deixou o cargo.” Ele se refere ao ex-ministro da Cultura, recém-eleito deputado federal, que também pediu demissão em 2016, após embate com Geddel Vieira Lima, um dos homens fortes do governo, hoje preso por corrupção.

Àquela altura, Canônica e o parceiro mantinham o Centro de Leitura Quindim em Caxias. O projeto surgiu em 2014 para fomentar a leitura na cidade de cerca de 500 mil habitantes. O nome da iniciativa faz referência ao rinoceronte criado por Monteiro Lobato, que foge do circo e vai parar na porteira do Sítio do Picapau Amarelo. “Foi um modo de homenagear não só o Lobato, mas o poeta Mario Quintana, que adorava comer quindim”, esclarece Canônica.

A empreitada acabou se convertendo num clube de assinatura de livros infantis. Atualmente, 800 assinantes recebem todos os meses obras indicadas por Ziraldo, Marina Colasanti, Walcyr Carrasco e outros curadores. O negócio segue em paralelo com o novo Instituto de Leitura Quindim, que fica aberto nas tardes de quarta a domingo e se sustenta tanto com doações quanto com recursos de Canônica e Mello.

 

A biblioteca seria inaugurada em 2019, mas a crise no mercado editorial e, sobretudo, a eleição de Jair Bolsonaro levaram o casal a antecipar os planos. “Difícil saber o que vai acontecer com a cultura nesse governo”, diz Canônica.

A ideia é que o Quindim se transforme, ainda, num polo de pesquisa sobre a infância e a literatura para crianças. O projeto prevê que estudos e artigos a respeito desses temas sejam publicados bimestralmente numa revista impressa pelo instituto e que a versão online do material tenha traduções para o inglês, o espanhol e o italiano – uma vez que a maior feira internacional de livros infantojuvenis ocorre em Bolonha, na Itália. A criação de uma pequena livraria dentro da biblioteca e de um prêmio literário anual também está em curso.

Caso os projetos se consolidem, Canônica espera que Caxias do Sul vire, para a literatura infantil, o que a mineira Brumadinho, sede do Instituto Inhotim, virou para a arte contemporânea. “E só com livros de qualidade”, faz questão de frisar.

Leonardo Pujol

Jornalista, é sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo

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