CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Cuidando dos mortos
Um médico patologista enfrenta o preconceito contra a dissecção de cadáveres
Artur Maciel Rodrigues | Edição 220, Janeiro 2025
“Como você vai?”, pergunta um colega ao médico Anderson da Costa Lino Costa. Ele responde com o humor próprio de seu ofício: “Vou vivo.” O diálogo acontece em um dos corredores do Serviço de Verificação de Óbito (SVO), em São Paulo. Lá são feitas, em média, sessenta necropsias por dia, de segunda a sexta – 15 mil por ano. O processo inclui a dissecção e a análise dos órgãos, a devolução dessas vísceras ao corpo e a sutura do cadáver.
Embora esteja instalado em um prédio da Faculdade de Medicina da USP, nas adjacências do Hospital das Clínicas, o SVO – onde Lino Costa trabalha desde 2000 – é um instituto estadual independente da universidade. O médico também está vinculado ao Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP.
Lino Costa, de 64 anos, faz necropsias há quase quatro décadas. Ele gosta desse trabalho no SVO, onde realizou dois feitos: a dissecção mais rápida, em 25 minutos, e o maior número de necropsias praticadas por um médico em um só dia – foram catorze. Seu apreço pela atividade é tanto que ganhou um apelido dos colegas e residentes: Papa-Defunto. “Tem residente que ri, fala que eu roubo os mortos deles, outros que se assustam”, conta. “Eu falo que o vivo atrapalha o morto.”
Quem morre em um hospital e tem a causa da morte atestada pelos médicos não vai parar no SVO. O serviço recebe apenas as pessoas que morreram em algumas condições específicas, como óbitos em domicílio, sem acompanhamento médico. Quando há sinais de violência, o corpo vai para o Instituto Médico Legal (IML).
Em frente ao SVO sempre há dezenas de familiares esperando a liberação dos corpos para as cerimônias fúnebres. Pode demorar até 24 horas para os defuntos serem examinados e até noventa dias para o laudo da morte ser concluído. No início de abril de 2024, quando o turno da noite foi eliminado, cem corpos ficaram acumulados na espera. “É um serviço público sobrecarregado, com pouquíssimos concursos para novos profissionais”, diz Lino Costa. Na parte patológica do Hospital das Clínicas trabalham, além dele, três médicos patologistas.
Natural de Salvador, Lino Costa formou-se em medicina pela Universidade Federal da Bahia, em 1988. Mudou-se para São Paulo com o projeto de fazer sua segunda residência na área de patologia. Ele recorda com nostalgia o rigor dos exames que prestou na residência. “A gente fazia uma prova escrita e uma prova de lâmina [para apontar doenças em tecidos extraídos de órgãos humanos]. Precisava acertar no mínimo sete de dez dos tecidos nas lâminas de vidro. Hoje os residentes mal veem isso”, afirma.
Em geral bem-humorado, Lino Costa tem suas implicâncias. Detesta quando os colegas falam de medicina durante as refeições. Uma vez, para provocá-los, comentou com as pessoas à mesa de um restaurante que o filé de pescada parecia o pâncreas de um cadáver que examinara. Ninguém comeu peixe naquele dia. O patologista, aliás, recusa carne malpassada: “Sangue na minha mesa de exames eu aguento. No meu prato, não.”
A entrevista com o médico de vez em quando é interrompida por acessos de tosse. Fumante compulsivo, Lino Costa é um homem alto, de olhos verdes cercados de rugas que os óculos disfarçam. Ele se ressente do preconceito que muitos médicos têm em relação ao trabalho com os mortos. “A maioria deles nem chega perto da necropsia. Vê o cadáver uma vez quando está na faculdade, se assusta, e nunca mais”, diz. Ainda que examine tecidos de todo o corpo, o patologista que faz necropsias às vezes nem é encarado como médico, lamenta Lino Costa: “Somos vistos como o porão da medicina.”
Antes de conduzir a piauí em uma visita ao SVO, Lino Costa alerta para o risco de desmaio, não só pela visão de cadáveres, mas também pelo cheiro de sangue com formol. Em um corredor com paredes cobertas de azulejos escurecidos – no passado, já foram brancos –, enfileiram-se vários mortos à espera da autópsia: homens e mulheres de idades diversas, com uma etiqueta de identificação atada ao pé.
Uma das salas que se abre para o corredor é reservada a parentes que vêm identificar o morto. Em outra dependência, alunos de neurocirurgia da USP examinavam um cérebro fatiado. O centro do SVO é a sala de necropsias, que tem cinco mesas de operação, cobertas de metal. Lá dentro, três residentes de patologia da USP suturavam um corpo que tivera seus órgãos removidos para exames. Vestiam um macacão branco com avental de borracha, indumentária que Lino Costa admira. “Parece roupa de astronauta”, compara. Ele explica que o cirurgião veste luvas, macacão e avental para proteger o paciente de infecções, enquanto o patologista usa roupas similares para não ser infectado por doenças que o cadáver talvez carregue.
Os funcionários que circulam pelo SVO com suas galochas brancas parecem levar o cotidiano com certa leveza. Lino Costa considera que os profissionais do necrotério têm um jeito mais objetivo de lidar com a finitude da vida. “Os médicos lidam com a morte. O patologista vive com ela, escuta ela, vira amigo de boteco. Aceita essa realidade da forma mais crua”, comenta.
No SVO, diz ele, o que já foi humano se torna um problema técnico. Mas isso muda quando por acaso o patologista conviveu com o morto. Lino Costa preferiu não fazer a necropsia de um amigo que parou no SVO. “A gente ficava brincando de palitinho no bar. Não tinha como eu cortá-lo, depois dos nossos anos de amizade”, diz.
Foi premiado no concurso “Uma história na minha esquina”
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