esquina

Culpa latejante

Artista tenta dar novo rumo à história familiar

Gustavo Zeitel
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Ao anoitecer, é comum uma névoa espessa encobrir a cidade de Areia, na região serrana da Paraíba, deixando a visão das casas embaçada. As moradias mais recentes, de arquitetura improvisada, contrastam com o impressionante conjunto de construções dos séculos XVIII e XIX, época de prosperidade na região. São cerca de quatrocentos imóveis bem preservados, como o Teatro Minerva, a igreja matriz e a casa do pintor Pedro Américo, que nasceu ali. Em 2006, o conjunto inteiro foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Tamanha opulência histórica não impede que a população tenha uma vida severina: a pobreza em Areia é grande, e o nível educacional, baixo. Na tentativa de encurtar as desigualdades, o artista plástico José Rufino, de 55 anos, resolveu criar na cidade um centro cultural: a Casa de Areia. “É preciso encontrar uma alternativa à cultura canavieira, porque ela é baseada numa estrutura de opressão”, diz ele.

A construção será iniciada quando a vacina espetar a Covid-19. O projeto arquitetônico desenhado pelo próprio artista transformará um sobrado em ruínas numa casa de salão único, com uma mesa oval ao centro. “Quero promover a arte útil. Trabalhar com a educação das crianças, em atividades lúdicas e poéticas”, afirma o artista. Haverá ainda um espaço para exposições e um café. Rufino bancará a obra e irá manter o local às próprias custas.

A Casa de Areia será erguida entre o Casarão José Rufino – construído pelo tetravô do artista – e o Engenho Vaca Brava – onde seu avô produzia cachaça e rapadura. O amplo uso de mão de obra escrava por sua família fez do passado uma doença de pele para o artista. “É um tabu. Tenho uma culpa latejante”, diz. Com o centro cultural o artista espera dar um novo rumo à história familiar. “Vou privilegiar temas de arte indígena e negra. Quero mostrar as potencialidades da população.”

Rufino está focado, num primeiro momento, em promover oficinas para os moradores. Também planeja um curso sobre as diversas formas de criação artística e uma oficina de desenvolvimento de habilidades sensoriais. Das aulas, sempre gratuitas e ministradas por ele e professores de arte da cidade, nascerão exposições.

A Casa de Areia não é a única iniciativa de José Rufino. Em julho de 2015, ele se juntou a um grupo de artistas para transformar em complexo cultural uma usina de açúcar na cidade de Água Preta, em Pernambuco. Hoje, a Usina Santa Santa Terezinha chama-se Usina de Arte. O paço ainda está em reforma, mas o restante do conjunto, equipado com jardim botânico, parque de esculturas e salas de exposições, já pode ser visitado. No local, é possível encontrar obras de artistas como Paulo Bruscky e Liliane Dardot.

 

José Augusto Costa de Almeida – nome verdadeiro de Rufino – foi um menino de engenho, como o personagem do romance de José Lins do Rego. Na infância, dividiu-se entre Areia e João Pessoa, onde nasceu, entre o Engenho Vaca Brava e a casa dos pais, que moravam na capital e foram militantes políticos na época da ditadura. Em Areia, Rufino preferia a companhia dos meninos da cidade à dos primos. Subvertia a ordem familiar, levando os amigos para brincar dentro da casa-grande e, muitas vezes, passava dias dormindo na bagaceira do engenho. A convivência com carpinteiros e artesãos da região dotou o garoto de sensibilidade artística.

Em 1983, Rufino ingressou no curso de geologia da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife. Leitor de João Cabral de Melo Neto, ele passava boa parte do tempo livre fazendo poemas e pensando em arte. Em noites etílicas, saía pelas ruas com o coletivo de poetas Tartarugas Dementes para declamar versos. No ano seguinte, depois de muito tempo longe do engenho, voltou a Areia, onde recebeu um acervo de cartas do avô que se tornaria a matéria-prima para o seu trabalho artístico.

Cartas de Areia, uma série de intervenções visuais feitas na correspondência de quase 6 mil itens do avô, colocou Rufino na órbita das artes plásticas brasileiras. Ele usou guache, aquarela e técnicas de emulsão para fazer desenhos parecidos com manchas. Tratava-se de uma influência do psiquiatra Hermann Rorschach que, no início do século XX, fazia testes de personalidade a partir de dez manchas de tinta. “Vi um lugar onde encontrava monstros do passado. Eu lia a carta e fazia uma ilustração. Depois, fui me afastando. Era uma iconografia pervertida.” Morando em São Paulo, no ano de 1990, Rufino expôs grande parte das cartas no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP).

Ao longo de 33 anos, Rufino participou de 250 exposições no Brasil e no exterior. Sua principal obsessão é o passado familiar, cuja investigação ele estendeu para inúmeras instalações, que, no início, traziam móveis de família. Em 2004, fez uma exposição no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, que incluía a instalação Plasmatio, com móveis e monotipias sobre documentos relativos a desaparecidos políticos durante a ditadura. Em 2010, avançou mais fundo nas suas inquietudes sobre o passado com a obra Faustus: fazendo jus à pós-graduação em paleontologia, ele construiu uma gigantesca criatura de gesso e madeira, parecida com um animal pré-histórico, cujo “fóssil” se espalhava por uma grande sala do Palácio da Aclamação, em Salvador. Dois anos mais tarde, para a instalação Divortium Aquarium, Rufino mandou içar barcos e objetos marítimos de colônias de pescadores até o terceiro andar do prédio do Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

Hoje, Rufino mora em um sítio de 4 hectares em Bayeux, na Região Metropolitana de João Pessoa, onde montou seu ateliê e um jardim botânico. Leciona paleontologia e artes visuais na Universidade Federal da Paraíba, na capital. Durante a quarentena, pensa em Areia, seu lugar de eterno retorno. Com o centro cultural, ele espera que sua relação com a cidade ganhe um novo significado. “Olho para trás e vejo um percurso. Há um nó que desatou e ficou aberto.”



Gustavo Zeitel

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