esquina

Da pantalona à piada

Um costureiro prova que os astros tinham razão

Beatriz Antunes
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Num domingo de chuva do mês passado, em São Paulo, o estilista libanês Jacques Lelong se atrasou para o encontro semanal com os amigos. Quando finalmente entrou na cafeteria, o pessoal já adoçava a segunda xícara de café e – estava claro – falavam dele.

Sua mulher, Mireille Tawil, explicava ao grupo que para ela seria muito inconveniente sair à cata de um novo marido, mas não ia ter jeito: a fulminante carreira artística de Jacques inevitavelmente o afastaria dela. Sheilly Kawkhag, amiga de longa data do casal, concordou. Tinha de fonte segura que, a dez dias da estreia, os ingressos já haviam se esgotado. O Teatro Folha, ali no shopping do próprio bairro de Higienópolis, estava pequeno para a demanda: “Todo mundo da colônia adora ele”, disse.

Jacques Lelong sorriu, lembrando a previsão do astrólogo que consultara uma década antes: “O sucesso chegará tarde.” De fato, fazia três meses que tinha completado 70 anos.

 

Judeu nascido no Líbano durante a ocupação francesa, Lelong morou em Beirute, dali foi para a França e veio depois para o Brasil. As pessoas que conheceu ao longo de sua vida errante são a principal fonte de inspiração do espetáculo Beirute, Paris, São Paulo, de sua autoria. É um daqueles shows consagrados por Jerry Seinfeld, em que o comediante fica em pé diante da plateia, sem nada a protegê-lo, salvo o microfone. Homens na força da idade tremem diante do desafio, mas Lelong parece ter nascido para vencê-lo. Um de seus irmãos, Ely Tawil, lembra que desde criança ele gostava de contar piada. “Disso e de costurar roupas para boneca”, acrescenta, sintetizando os dois principais talentos de Jacques.

Como não se ganha a vida com roupas para bonecas, Lelong decidiu virar estilista. Aos 18 anos, achando que não tinha mais o que aprender com os costureiros de Beirute, partiu para Paris. Lá, deslumbrou-se com o jazz, com a profundeza inabalável das conversas sobre arte e política – sem as quais a França não seria a França – e com a desinibição das mulheres: “Nenhuma delas queria se casar e as mais esclarecidas queriam um amante. No Líbano as moças ainda se preocupavam com o dote.”

Quando seu visto de turista estava prestes a expirar, Lelong riscou no papel um vestido bem ousado e o despachou pelo correio para o ateliê de Pierre Cardin. Deu certo. Convidado a fazer parte do corpo de estilistas da maison, ganhou uma profissão e um novo nome. “O funcionário que foi preencher a minha ficha achou que ‘Isaac Tawil’ era muito estranho e sugeriu trocar por alguma coisa mais sonora – ‘Jacques’, por exemplo.” Embalado pela boa solução do prenome, o novato mudou também o sobrenome. Como Tawil significa “comprido” em árabe, foi só traduzir para o francês: le long.

Com emprego, casa e um projeto de família começando a se esboçar – Lelong se casara, mas à la parisiense, sem convidados –, a vida parecia no prumo. Ele credita à herança fenícia a coceira peripatética que o fez dar tchau aos seus dez bons anos de Paris e vir para São Paulo, aceitando o convite de Ely. Aqui reencontrou mãe, irmãos e muitos amigos de infância. Parecia que todo o seu Líbano havia emigrado para o Brasil. Foi aqui também que teve os filhos.

Um dia, num lance de dados, acertou na mosca: sua jaqueta de pelúcia colorida – especialmente a vermelha – arrasou corações no inverno de 1973. Em pouco tempo Jacques Lelong passava a assinar coleções inteiras. A vida não podia ter dado mais certo.

 

São duas horas da tarde na sala envidraçada da Organização Internacional de Mulheres Sionistas, no Pacaembu, entidade que apoia o espetáculo e cedeu um pequeno auditório para o ensaio geral de Beirute, Paris, São Paulo. Não se sabe ao certo se as mulheres sionistas em questão tinham ciência do teor picante do espetáculo, mas logo teriam: “Fortunée!”, grita Lelong com voz empostada. “Que é?!”, ele mesmo responde, em falsete. “Vem pra cama que eu quero te mostrar uma coisa especial!”

Cada vez menos publicável, o diálogo avança até a apoteose, na qual aparecem as palavras “esfiha” e “quibe”. A produtora do espetáculo, Bella Diwan Hakim, se entusiasma: “Tá ótimo, Jacques!” Ao todo serão 46 piadas, vinte das quais passaram pela revista de Bella, que tratou de eliminar estrangeirismos incompreensíveis – Beirute, Paris, São Paulo foi originalmente escrita em árabe e francês.

Nem ela nem Lelong acharam que era o caso de mexer uma vírgula para proteger a inocência da plateia. Satisfeito com os prenúncios do sucesso – a oito dias do espetáculo, já estava agendada uma segunda apresentação para atender à longa lista de espera –, ele também não via razão (até o momento, pelo menos) para se preocupar com a concorrência: “Os comediantes de hoje querem inovar o tempo todo e comédia não é só isso. Mas não é culpa deles, eles são muito moços.”

No grande dia, Jacques Lelong foi interrompido cinco vezes por aplausos delirantes. “Um sucesso! Um sucesso!”, ouvia-se pelo teatro. A piada sobre a velhinha que se candidata a uma vaga no bordel arrancou lágrimas e parte da maquiagem de uma vetustíssima senhora. É o caso de saber onde aquele astrólogo dá expediente.

Beatriz Antunes

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