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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

esquina

Da sela à passarela

Um artesão do couro sertanejo que virou mestre da moda

Maria Júlia Vieira | Edição 198, Março 2023

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Espedito Veloso de Carvalho nasceu há 83 anos em Arneiroz, no Ceará, e pertence à quinta geração de uma linhagem de vaqueiros. Na primeira vez que tentou laçar um boi, caiu e se machucou feio. Decidiu, então, se concentrar na outra atividade à qual sua família se dedica há muitas gerações: a selaria. Em meio aos tons acastanhados da paisagem do sertão cearense, tornou-se um inventor de formas, cores e texturas – e passou a ser conhecido como Espedito Seleiro.

Ainda criança, ele aprendeu a tratar o couro de boi e de cabra para dar forma às peças utilizadas pelos vaqueiros da região do Cariri, no Ceará. De início, fazia os tradicionais gibões, arreios, chapéus, sandálias e, é claro, selas, seguindo os passos dos seus antepassados. Porém, quando a modernidade chegou ao sertão e os cavalos foram substituídos por motos e bicicletas, Espedito Seleiro precisou se reinventar. “Tive que criar meu próprio estilo”, diz. Começou a fazer roupas de couro coloridas “para vender aos estudantes, aos padres, aos doutores”.

As peças em couro tingido e enfeitado chegaram mais longe do que seu criador esperava. Espedito Seleiro já foi chamado para fazer figurinos de novelas e filmes, como O Auto da Compadecida (2000) e O Homem que Desafiou o Diabo (2007). Fez parceria com as grifes Cavalera e Farm e teve coleções apresentadas nas passarelas do São Paulo Fashion Week e do Dragão Fashion Brasil, em Fortaleza. Além dos itens de vestuário, criou uma linha de móveis chamada Cangaço, em parceria com os designers Fernando e Humberto Campana. O seu trabalho de referências sertanejas em roupas e acessórios chamou a atenção até mesmo da cantora Anitta. Parte do figurino usado pela carioca em um show no Recife no começo deste ano foi criada por ele: botas, bracelete e cartucheira em couro marrom com arabescos coloridos.

A fama de Espedito Seleiro se estendeu a outras áreas. Ele já foi protagonista de documentários, tema de livros e de teses. Recebeu também diversas homenagens, como o título de Mestre da Cultura Tradicional Popular do Ceará e a Ordem do Mérito Cultural, na classe de comendador, conferida pela Presidência da República. Em 2019, cruzou o Atlântico para apresentar suas peças na Embaixada do Brasil em Londres.

 

O mestre gosta de fazer peças únicas. “Quando me encomendam roupas para um desfile ou figurino, eu faço. Mas normalmente não gosto de repetir, gosto de criar”, diz. O modo de fazer suas peças repete as mesmas sequências: molde, corte, costura, acabamento. Cada item, porém, carrega sempre uma pitada de criatividade e inovação.

“Se a gente trabalhasse com produção, bastava deixar os meninos copiando os modelos e fazer mil sandálias. Mas trabalhamos com arte e, por isso, precisamos estar sempre aqui, criando”, afirma seu filho, Maninho Seleiro, 46 anos, que também segue a tradição familiar.

No ateliê em Nova Olinda, pai e filho ensinam os aprendizes – ou “meninos” – a trabalhar com o couro. Alguns deles pertencem à família; outros, não. Todos querem dar continuidade à arte.

Já são sete gerações de trabalho com couro. Maísa Carvalho, 6 anos, neta mais nova do mestre, está aprendendo a manipular a máquina de costura. Ao chegar da escola, busca os ensinamentos da tradição.

 

Espedito Seleiro ouviu de seu avô, Gonçalves Seleiro, e de seu pai, Raimundo Seleiro, muitas histórias sobre os artesãos pioneiros de selas e gibões. Mas, do passado, gosta particularmente de lembrar os momentos em que ia com o pai nas feiras dos ciganos que moravam na região, com suas roupas nos mais diversos tons e cheias de detalhes feitos à mão. Essas lembranças ainda o inspiram: um tanto de sua criação vem da cultura cigana.

Uma das histórias mais marcantes que ouviu foi contada por Raimundo e ocorreu antes de seu nascimento. Espedito já a repetiu tantas vezes que é como se a tivesse vivido ele próprio. “Um dia, veio um jagunço fazer uma encomenda, com o desenho já pronto. Meu pai achou diferente, porque o solado era quadrado, mas fez mesmo assim”, ele começa. “No dia da entrega, painho perguntou o porquê do formato. O jagunço respondeu: ‘Deixe isso pra lá, você está trabalhando para o Capitão Virgulino.’”

Raimundo ficou tão espantado e com tanto medo que nem cobrou pelo serviço. Virgulino Ferreira da Silva era o nome de Lampião. Em troca pelo trabalho, ganhou um punhal do famoso cangaceiro. Espedito guarda a relíquia até hoje com um misto de respeito e orgulho. “O solado era quadrado para as forças policiais não saberem se Lampião estava indo ou voltando”, explica. “Não saberem se era rastro de gente, de lobisomem, se era de alma ou de bicho.” Inspirado por esses contos do cangaço, o mestre do couro já reproduziu o modelo quadrado algumas vezes. Deu aos calçados femininos o nome de “sandália de Maria Bonita”.

Os tons ocre do couro natural não são suficientes para a arte de Espedito Seleiro, que deseja transmitir a suas peças o que enxerga na paisagem ao redor. No começo, ele não tinha fácil acesso às tintas e fez sozinho uma pesquisa de corantes naturais. Para o preto, enterrou o couro cru na lama do rio. Para o vermelho, misturou urucum com álcool. O branco veio do angico, árvore tradicional da Caatinga. Com a demanda atual, Espedito Seleiro não consegue mais dar conta de todo o processo. É nos curtumes da região que hoje faz a encomenda da matéria-prima nas cores que deseja.

“Mas quando eu cismo de fazer um trabalho que não existe a cor, compro o couro natural e vou me desdobrando para conseguir”, diz. Quem pensa que o cansaço chegou depois de setenta anos de atividade, se engana. “Trabalho mais do que os outros. Levanto antes das quatro da manhã, e venho para a oficina. E gosto de criar modelos à noite, para ninguém atrapalhar”, conta Espedito Seleiro, com a serenidade da experiência e a paixão de quem ainda está começando.