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Davi e Golias

O que faz o cônsul de San Marino no Brasil?

Leandro Vieira
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

O território de San Marino é seis vezes menor que o de Porciúncula, na divisa do Rio de Janeiro com Minas Gerais. Sua população equivale à de Pau dos Ferros, um município no interior do Rio Grande do Norte. Logo, o cônsul desse país não tem muito o que fazer, certo?

Errado. Há mais de duas décadas que Giuseppe Lantermo di Torre di Montelupo é o cônsul-geral de San Marino no Brasil. Aos 70 anos, sem um fio de cabelo fora do lugar, e extremamente alinhado no terno cinza com listras brancas, ele ainda acumula a presidência da Sociedade Consular de São Paulo e a diretoria da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria.

A sereníssima república que Montelupo representa cabe em 61 quilômetros quadrados. Napoleão tentou aumentá-la, quando invadiu a Itália na virada do século XVIII, mas a população recusou a oferta, alegando sabiamente que era assim, pequena e economicamente inviável, que a região resistira à cobiça externa desde a queda do Império Romano. Independente, San Marino manteve a alcunha de república mais antiga do mundo. E, somados seus quase 30 mil habitantes, uma pauta comercial com o Brasil que o próprio Montelupo sabe de cor.

O país vive do castelo que atrai turistas à distância, como uma miragem medieval, e do comércio de selos raros para filatelistas. Recebe 3,5 milhões de visitantes por ano. Suas ruas, poucas e estreitas, são entupidas de barracas vendendo suvenires. Até 2006, era disputado ali o Grande Prêmio de San Marino de Fórmula 1, que a rigor se realizava numa pista em solo italiano, sob pena de todos os carros entalarem para sempre nas vielas de pedra. Sobrou apenas o Grande Prêmio de Motociclismo, em San Marino, que também é corrido na Itália.



Com essas características, San Marino, em si, é o posto que menos trabalho dá a Montelupo. “O que mais recebo são pedidos de estudantes em busca de estágios na Europa. Mas não tem como, nossa estrutura é muito pequena”, ele conta. O serviço constitui no envio de relatórios mensais ao governo de lá, formado por dois Capitães Regentes e um Parlamento com 68 cadeiras. E “só em casos específicos, como uma crise”, Montelupo manda notícias extras. Segundo ele, os 23 cidadãos san-marinenses que residem no Brasil “são bonzinhos”. O único problema contabilizado até hoje ocorreu quando um político, em visita não oficial, morreu acidentalmente no Nordeste.

A burocracia consular fica por conta da chancelaria, onde o professor doutor Nelson Lombardi concede vistos e atende a consultas do público. Há também um adido cultural, o Sr. G. Quagliotti Silvestri Faà. E a ENAS, sigla de Ente Nazionale di Assistenza Sociale, uma organização patronal que, na prática, presta assistência aos italianos e san-marinenses que queiram informações sobre o Brasil, e vice-versa. Ultimamente o cônsul-geral ganhou ainda a companhia bissexta de Mario Mariani, que, como embaixador de San Marino em Portugal e no Brasil, passa por aqui no máximo duas vezes por ano.

O consulado fica na avenida XV de Novembro, no centro de São Paulo, mas Montelupo faz da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria, na avenida Paulista, a sua sede. É ali que gasta a maior parte de seu expediente, como diretor de comércio para a região do Piemonte, importante pólo industrial do norte da Itália. De sua pequena sala, atulhada de folhetos e equipada com dois computadores antigos, tem acesso a todas as informações do consulado. E é de lá que também comanda a Sociedade, criada há 85 anos, depois que a cidade de São Paulo se tornou a segunda do mundo em número de consulados (tem 94, contra os 113 de Nova York). Montelupo entra em ação em casos que exijam contato direto com o primeiríssimo time de autoridades municipais, estaduais ou até federais. “Mas, claro, não faço isso sozinho. Se preciso, peço ajuda dos meus colegas”, explica.

 

Seus três cargos, embora de altíssima confiança, não lhe rendem um único centavo. “Vivo com o auxílio de amigos, com economias que fiz ao longo da vida e com trabalhos esporádicos em consultoria jurídica que faço na Itália”, ele esclarece. Não tem, sequer, uma secretária. A faz-tudo Maria Manduca o atende de jeans e tênis, cuida das ligações e trata de evitar que ele esqueça o celular no armário. “Ele é superatencioso. Procura atender todo mundo da melhor forma possível, mesmo com esse monte de coisas que tem para fazer”, ela atesta.

Embora more no Brasil desde 1986, Montelupo é piemontês da melhor cepa. Dirigia uma indústria têxtil em Turim, sob a administração de sua família há mais de um século, até que San Marino reatou as relações diplomáticas com o Brasil, rompidas desde a II Guerra. Convidado para assumir a vaga de cônsul honorário, ele trocou o empresariado pela “vocação para a política internacional”. Em 2002, foi finalmente efetivado como cônsul-geral. Gosta de tudo em seu trabalho. “Uma das coisas que mais me encantam é o tamanho do Brasil”, afirma. Vai freqüentemente à Amazônia. E, nas horas vagas, escreve livros. Tem três obras publicadas em italiano. Uma sobre heráldica. Outra sobre sua família materna, “a mais antiga da Provence”. E uma terceira sobre fragmentos de 2 mil anos de história piemontesa. O próximo livro, já a caminho, será sobre a dinastia de Savóia. Traduzi-los para o português? Ele nem pensou nisso, por falta de tempo.

Sua agenda anda tão carregada que, em São Paulo, ele abandonou o golfe. Faz caminhadas de uma hora, “só para não deixar o corpo parado”. E não deixa dúvidas de que está em forma, percorrendo os corredores da Câmara de Comércio com velocidade de office-boy, na hora de entregar um documento urgente. Mas a diplomacia não eclipsou inteiramente seu lado de empreendedor. O cônsul acaba de trazer para o Brasil o Bianco dei Colli di Montelupo, um vinho branco produzido em San Marino que pode ser provado no Tomato L’Antico Ambrosiano, o único restaurante paulistano especializado na cozinha san-marinense. Além desses pequenos trunfos gastronômicos, o título consular só lhe dá “um passaporte diferente e direito a um carro com placa azul”. Ah, sim! “E talvez certo prestígio do cargo.” Mas essa afirmação ele faz sem nenhuma ênfase.

Leandro Vieira

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