esquina

De boca cheia

Se você é desses que param no quinto cachorro-quente, desista

Tania Menai

Caso a sul-coreana Sonya Thomas conhecesse o jogo do bicho, decerto arriscaria todas as suas economias no elefante. Já se entrasse para a política, bastaria tocar a campainha de FHC para ser recebida com abraços festivos pelo grão-tucano. A moça é uma predestinada do número 45. Tem 45 anos, pesa ínfimos 45 quilos e, no último 4 de julho, engoliu 45 cachorros-quentes em apenas dez minutos.

Não, não se tratava de um caso de fome atávica. Sonya participava, isso sim, do maior concurso de pantagruelismo de que se tem notícia, um evento nos limites da indigestão que acontece anualmente em Nova York no grande feriado nacional.

Promovido há quase 100 anos pela tradicionalíssima casa de cachorros-quentes Nathan’s Famous, em Coney Island, no Brooklyn, o evento é tratado com a seriedade de uma competição olímpica, sendo transmitido para boa parte do planeta pelo canal de esportes ESPN. Naquele dia, sob um calor de 35 graus, 40 mil almas se deslocaram para assistir à comilança desbragada, o que é mais gente do que se costuma ver nas partidas do Brasileirão.

Separados em duas categorias, masculino e feminino, os competidores são convocados a subir ao palco ao som da voz forte do mestre de cerimônias narrando as respectivas glórias gastronômicas de cada um: ali estão engolidores de cannoli, de cupcakes, de hambúrguer, de sushi, de aspargos – e fritos, ainda por cima!



São quinze homens e catorze mulheres de diversas partes do país, todos a relaxar maxilares à cata dos 10 mil dólares destinados aos vencedores. Competiam no mais grandioso palco da modalidade por haverem se distinguido em contendas anteriores.

Os atletas gastronômicos são convidados a se distribuir atrás de uma longa mesa repleta de cachorros-quentes. O centro é ocupado pelos favoritos, que curiosamente parecem ser os mais em forma, quem sabe por terem se abstido de comer nos seis meses anteriores.

Séria e obstinada, Sonya estava a minutos de quebrar o seu recorde de 2011, ocasião em que ingerira 41 HDs – abreviação carinhosa de hot-dogs que todos empregam. O feito é ainda mais impressionante quando se ouve que a iguaria está longe de ser a sua predileta. “Amo batata frita, que cortei do cardápio quando meu médico reclamou da taxa de colesterol”, contou. Era uma prova adicional de sua notável determinação, uma vez que gerencia um restaurante de fast-food numa base militar perto de Washington.

A sul-coreana participa de doze a quinze competições gastronômicas por ano e é a número 4 da Major League Eating, a CBF da comilança: além de abocanhar trinta títulos mundiais, detém a invejável distinção de ser a mais veloz comedora de ostras do globo. “Foram 564 em oito minutos; também tracei quase 3 quilos de asas de galinha em doze minutos. Ninguém me supera”, jacta-se, com razão.

Modesta, nem sequer menciona as medalhas de ouro conquistadas quando ingeriu 274 jalapeños em míseros dez minutos, 26 dúzias de mariscos em outros seis, 5 quilos de cheesecake em nove, 2 quilos e meio de peru em dez e 65 ovos cozidos em seis minutinhos. Há países africanos que consomem menos proteína ao longo de décadas.

A técnica de Sonya exige preparo e astúcia: na véspera da competição, limita-se a uma saladinha. Dada a largada, mergulha os pães num copo de água e, célere, enfia dois sanduíches simultaneamente na boca. Mastigar é para amadores – “Eu perderia de um a dois minutos.” No oitavo minuto, confessa que começa a passar mal, mas, brava, jamais esmorece: 41 (enjoo), 42 (náusea), 43 (asfixia), 44 (…), 45 (vitória).

Radiante, ela se abraça ao pendão americano e é carregada nos ombros da malta, heroína da nação para a qual imigrou em 1997. Causa espanto que, apesar da quantidade do ingerido, seu estômago continue retinho, retinho. O mesmo não se pode dizer do californiano Joey Chestnut, de 28 anos, 100 quilos e 68 HDs. Vencedor das seis últimas edições, subiu ao pódio para receber o prêmio com a desenvoltura de uma parturiente a minutos de dar à luz.

Na véspera, Sonya, Chestnut e os demais contendores foram recepcionados nos jardins da prefeitura pelo alcaide Michael Bloomberg. Apesar de fazer campanha ferrenha contra a obesidade, Bloomberg é administrador astuto e sabe da posição do Nathan’s na geografia gastrocultural de Nova York. Tudo começou em 1916, quando um imigrante judeu polonês, Nathan Handwerker, abriu uma carrocinha de cachorro-quente. Contava com o apoio da esposa, dona de receita infalível de salsicha. A carrocinha virou loja, que permanece na mesma esquina até hoje, ali mesmo onde se ergue o palco do certame. Atualmente, os HDs do Nathan’s são vendidos nos cinquenta estados do país: só em 2011 foram 453 milhões deles, fora os 100 mil doados anualmente a pessoas carentes de Nova York.

Na plateia neste 4 de Julho, estavam lá o neto, o bisneto e o tataraneto de Nathan – que já não está entre nós (faleceu em 1974). Gostam de prestigiar o evento, apesar de não terem seguido o negócio da família. “Tanto antigamente como hoje ninguém sabe direito do que é feita uma salsicha. Então meu bisavô oferecia cachorro-quente de graça para os médicos de um hospital que funcionava logo ali. A condição era atravessar a rua e comer de jaleco e estetoscópio aqui dentro, com vista para a calçada. O público via e pensava: se os médicos comem, está liberado”, conta Ivan Basch.

Pelo Nathan’s passaram Al Capone e Cary Grant; Barbra Streisand mandou entregar dezenas de cachorros-quentes com a marca registrada numa festa que promoveu em Londres; o presidente Franklin Roosevelt abriu precedente em 1939 quando levou HDs do Nathan’s para o rei e a rainha da Inglaterra; Jerry Seinfeld criou um episódio sobre a lanchonete; o ex-prefeito Rudy Giuliani insiste que esse é o melhor cachorro-quente do mundo; e Nelson Rockefeller, governador de Nova York de 1959 a 1973, jurava que nenhum político local ganharia eleições sem ser fotografado abocanhando um Nathan’s Famous. Para isso, é bom esclarecer, basta só um.

Tania Menai

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