dossiê natação ao ar livre

De maiô, rumo à Antártida

A temperatura da água era zero grau, e a praia ficava a quase dois quilômetros de distância

Lynne Cox
Em meio a blocos de gelo do tamanho de um Volkswagen e a um bando de pingüins a maior nadadora de distância do mundo cruza as águas do Pólo Sul
Em meio a blocos de gelo do tamanho de um Volkswagen e a um bando de pingüins a maior nadadora de distância do mundo cruza as águas do Pólo Sul FOTO: GABRIELLA MINOTTO

De pé, junto à popa do Orlova, um navio iugoslavo que, no Canal de Beagle, rumava para a Península Antártica, agarrei-me com força à amurada de metal enquanto as ondas de um metro e meio de altura se espatifavam contra o casco, fazendo o barco balançar, e salpicavam espuma gelada no meu rosto. Eram oito horas de uma noite de dezembro, faltavam duas para o pôr-do-sol, e as coloridas encostas de Ushuaia, a cidade mais ao sul da Argentina, ficavam cada vez mais indistintas, prestes a desaparecer no mar cinzento. Dali a poucos minutos, a chuva misturada com gelo e um vento com rajadas de mais de 100 km/h me expulsaram para a cabine, onde vesti agasalhos quentes e me acomodei no beliche, preparando-me para a travessia da Passagem de Drake, à beira do Oceano Austral. Em condições favoráveis, a viagem de Ushuaia à Península Antártica leva um dia e meio, mas tudo depende das condições do tempo e do tamanho das ondas. Na Passagem de Drake propriamente dita, as ondas podem chegar a quinze metros, e à medida que o Orlova avançava para leste, na direção do Atlântico, eu podia senti-las aumentando de tamanho e freqüência. No beliche de cima, em que eu tentava dormir, não havia grade de contenção, de maneira que me virei de lado, enfiei a mão entre a cama e a parede e me segurei com força. Com dificuldade, consegui dormir, até que uma onda fora do comum atingiu o barco e me vi atirada para o outro lado do beliche. Eram duas da manhã. Cadeiras viraram, armários se abriram, a bagagem se espalhou pelo chão. Dali a pouco, ondas de oito metros se arrebentavam contra a vigia do meu camarote. Eu passara os dois anos anteriores treinando para enfrentar as águas mais frias do mundo e chegar nadando ao litoral da Antártida. Agora nem tinha certeza de que meu barco conseguiria se aproximar de lá.

Aos três anos de idade, aprendi a nadar num lago chamado Snow Pond, no Maine, onde o pai da minha mãe também lhe ensinara a nadar. Comecei a entrar em competições anos mais tarde, mas foi só depois de 1969, quando minha família se mudou para a Califórnia, e participei de uma competição no Pacífico, que percebi o quanto adorava nadar em águas abertas. Em agosto de 1971, aos quatorze anos, percorri 43 quilômetros a nado, da ilha de Catalina, no sul da Califórnia, até o continente. A travessia levou doze horas e trinta e seis minutos e, quando cheguei à costa, sabia que meu desejo era atravessar o Canal da Mancha, o Everest da natação em distância.

No verão, as águas do Canal da Mancha oscilam entre 12 e 15 graus centígrados, uns cinco graus a menos que o Canal de Catalina em agosto. Eu acreditava que conseguiria cumprir a distância, mas não tinha idéia se seria capaz de sobreviver ao frio. De acordo com as regras da travessia do Canal da Mancha, os nadadores só podem vestir maiô, uma touca de natação e óculos protetores, embora lhes seja permitido untar o corpo com graxa, que serve como isolante. Meu pai, que é médico, acreditava que, quanto mais me aclimatasse à água fria ao longo do ano, menos eu me desgastaria na minha prova. Comecei a só nadar nas águas do Pacífico, o que segui fazendo mesmo depois do começo do inverno, quando a temperatura da água chegava a 10 graus. Usava roupas leves o ano todo, e dormia sempre sem cobertores e de janela aberta. Meu pai tinha razão. Aos quinze anos, quebrei os recordes masculino e feminino de travessia do Canal da Mancha, percorrendo um total de 43 quilômetros em nove horas e cinqüenta e sete minutos. No ano seguinte, meu recorde foi batido por um homem. Voltei à Inglaterra e tornei a batê-lo, terminando uma travessia de 53 quilômetros em nove horas e trinta e seis minutos.

 

Depois disso, queria fazer alguma coisa inédita. Ouvi falar da travessia do Estreito de Cook, entre as ilhas Norte e Sul da Nova Zelândia. Três homens haviam completado a travessia, mas nenhuma mulher jamais conseguira. As ilhas ficam a cerca de dezesseis quilômetros de distância, e achei que poderia completar a travessia em cerca de quatro horas. Em fevereiro de 1975, ao cabo de cinco horas na água, estava mais longe do ponto de chegada do que quando começara a nadar. As ondas tinham três metros de altura, havia ventos com rajadas de 70 km/h e duvidei que fosse capaz de continuar. Entre os tripulantes do barco de apoio, que vinha ao meu lado, estava um locutor de rádio, transmitindo o progresso da travessia. Os ouvintes começaram a ligar para a rádio, e o locutor retransmitia suas palavras para mim. A confiança e o carinho de suas mensagens forçaram-me a continuar. Ao cabo de doze horas na água, cheguei finalmente à Ilha Sul. No dia seguinte, os sinos de todas as igrejas tocavam no país para comemorar a travessia. Isto me fez perceber que uma travessia a nado podia ser mais que um mero evento esportivo. Era um modo de congregar as pessoas. Um ano mais tarde, em 1976, atravessei o Estreito de Magalhães, ao largo do litoral sul do Chile. Nos anos seguintes, contornei a nado o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África; atravessei o Lago Titicaca, da Bolívia ao Peru, e o Golfo de Aqaba, do Egito a Israel e em seguida de Israel até a Jordânia. Em 1987, aos trinta anos, completei meu desafio mais difícil – a travessia a nado do Estreito de Bering, dos Estados Unidos até a União Soviética. Levei onze anos para obter uma permissão das autoridades soviéticas, e um denso nevoeiro no estreito me desviou perigosamente da rota, mas ao cabo de duas horas alcancei a costa, onde havia um comitê soviético de boas-vindas à minha espera.

Cientistas vieram perguntar se me dispunha a participar de estudos sobre o frio. Voluntários para esses estudos são escassos e existem poucos dados reunidos sobre a resistência à água fria. Barbara Drinkwater, estudiosa da fisiologia do exercício na Universidade da Califórnia, queria saber como eu conseguia nadar em águas geladas sem entrar em hipotermia. Esses estudos seriam um modo de entender como meu corpo funciona. Em 1976, assim, tornei-me uma cobaia humana. Numa das experiências do instituto, passei uma hora sentada de maiô dentro da água a uma temperatura de 10 graus Celsius, enquanto uma sonda retal era usada para medir minha temperatura. Minha reação foi incomum: todos os outros participantes da experiência tremiam muito enquanto sua temperatura interna caía; eu não tremi nada, e minha temperatura permaneceu estável.

Na água fria, a perda de calor ocorre até 25 vezes mais depressa que no ar, e pode ser letal. Para a maioria das pessoas, exercitar-se na água fria intensifica essa perda de calor. Durante o esforço físico, o sangue do núcleo do corpo é enviado para os músculos ativos nas extremidades – os braços, as pernas, os dedos das mãos e dos pés. Quando se aproxima da superfície da pele, o sangue é resfriado pela água e pelo ar circundantes antes de ser bombeado de volta. O corpo tenta combater o frio e manter-se aquecido por vasoconstrição – fechando os vasos sangüíneos que se comunicam com a superfície e as extremidades, e conservando o calor corpóreo em torno de órgãos vitais como o coração e o cérebro. Em algum momento, contudo, num processo oposto conhecido como vasodilatação, o sangue torna a fluir para a periferia como forma de assegurar o aporte de oxigênio aos tecidos das extremidades. Novamente, o sangue mais frio é devolvido ao núcleo do corpo, e as pessoas podem desenvolver hipotermia, ficar desorientadas, incapazes de reagir, gravemente desidratadas, apresentar irregularidades nas batidas do coração ou até entrar em parada cardíaca.

No outono daquele ano, comecei a treinar para uma travessia do Estreito de Magalhães em dezembro. Meu maior obstáculo seria a temperatura da água, que estaria entre 5,5 e 6 graus Celsius. Ninguém jamais tentara essa travessia. Drinkwater acompanhou-me, colhendo dados, num trajeto experimental ao largo de Santa Barbara. Ao cabo de quatro horas nadando em água à temperatura de 10 graus, a temperatura do meu corpo na verdade aumentou, subindo do valor normal, que é de 36,4, para 38,8 graus Celsius. Drinkwater acredita que meu corpo teria uma eficiência especial na interrupção do fluxo de sangue para as áreas periféricas. Essa capacidade, associada ao fato de que, como a maioria das mulheres, tenho uma camada de gordura distribuída regularmente pelo corpo todo, acabaria atuando como um traje protetor interno. Tenho músculos grandes, e me exercitava com tanto vigor na água, disse Drinkwater, que conseguia criar mais calor do que perdia.

 

No início da década de 1990, William Keatinge, um dos maiores especialistas do mundo em hipotermia, perguntou-me se eu me dispunha a participar de uma experiência em seu laboratório da Universidade de Londres. Durante uma parte do estudo, fiquei sentada por uma hora e meia numa Jacuzzi regulada para 5,5 graus Celsius, movendo meus braços para a frente e para trás. Num primeiro momento minha temperatura interna caiu, mas logo se estabilizou. No entanto, a temperatura da minha pele se igualara à temperatura da água, e assim que saí da água minha temperatura interna também caiu muito. Keatinge me aconselhou a entrar num banho quente para me reaquecer. Senti muita dor. Minha pele começou a arder e coçar, e ficou coberta de manchas. A imersão na água quente provocou um aumento da vasodilatação, e quando saí do banho quente o interior do meu corpo estava mais frio do que no período que eu passara sentada na Jacuzzi.

Outra parte do estudo examinou se era possível regular o fluxo sangüíneo na ponta dos dedos. Juntamente com 76 estudantes de medicina, precisei ficar meia hora com a mão esquerda imersa em água a zero grau. A água doce congela a essa temperatura, mas na experiência era mantida em circulação constante, para evitar sua cristalização e manter a temperatura estável. A dor era intensa. Alguns dos estudantes gritavam e esmurravam a parede, e um deles cantava. Fiquei absolutamente quieta, só me dizendo que precisava manter a mão dentro da água. Keatinge acredita que, devido a meu treinamento em águas frias, fui capaz de controlar o fluxo de sangue na ponta dos meus dedos, o que me impedia de perder calor na água. E as experiências me deram o que pensar: se eu era capaz de ficar com a mão imersa em água tão fria, conseguiria nadar àquela mesma temperatura?

Em 2000, cruzei a nado os lagos do norte da Itália. A travessia foi apenas por diversão, e até pedi a uma amiga que é cantora de ópera que cantasse para mim enquanto eu nadava. Mas depois senti que me faltava alguma coisa. Tinha 43 anos de idade, e precisava de um projeto que fosse mais desafiador, que demandasse toda a minha experiência, e então me ocorreu que o que eu queria era nadar na Antártida.

A água mais fria em que eu já tinha nadado era a do Estreito de Bering, onde a temperatura caíra de 5,5 para 3,3 graus Celsius nos últimos trinta minutos das minhas duas horas de travessia. As águas em torno da Península Antártida podem ser de dois a três graus mais frias que isso. Depois da experiência da mão com Keatinge, demorei três meses para recuperar a sensação na ponta dos meus dedos. Não sabia ao certo o que poderia acontecer nas águas antárticas, mas minha intenção era nadar o mais depressa que podia.

Sou uma nadadora de fundo, habituada a longas distâncias, e não uma velocista. Precisava desenvolver minha força e velocidade. Entre dezembro de 2000 e dezembro de 2001, exercitei-me numa academia, e no mar, cinco dias por semana, duas ou três horas por dia. Ao final de um ano ainda não me fortalecera o bastante, de maneira que comecei a trabalhar com Jonathan Moch, treinador e ex-lutador. Naquela primavera, Moch e eu começamos com exercícios destinados a aumentar minha força, usando pesos e cuidando de manter minha cabeça erguida ao longo de toda a série de exercícios. Em seguida começamos a trabalhar a estabilidade e o equilíbrio, para me ajudar na água. E, finalmente, nos dedicamos à resistência. Nadar com a cabeça em pé aumenta o arrasto do corpo do nadador na água, e pode dar a impressão de que você está nadando morro acima. A fim de me preparar para isso, eu levava cada exercício da série ao ponto da exaustão.

Também caminhava oito a dez quilômetros por dia com um amigo, Barry Binder, que me acompanhara em travessias anteriores e planejava ir comigo para a Antártida. Na parte da tarde, ainda nadava uma hora em alta velocidade numa piscina doméstica, com a água à temperatura ambiente. E todo fim de semana fazia exercícios de velocidade – nadando o mais depressa que podia por cinco ou seis quilômetros no Oceano Pacífico, ao largo da Seal Beach, na Califórnia. Entre uma sessão e outra de exercícios, passava horas escrevendo cartas, dando telefonemas, marcando encontros e participando de reuniões com possíveis patrocinadores. A Quark Expeditions, empresa com base em Connecticut que promove excursões educacionais à Antártida, concordou em ajudar, permitindo que eu usasse um de seus navios como base para a travessia, além de me fornecer apoio logístico.

Em novembro de 2002, ao cabo de quase dois anos de treinamento, visitei o Robert Schoene, um especialista em fisiologia respiratória da Universidade de Washington. O dr. Schoene aplicou-me uma série de exames de função pulmonar e de carga máxima de exercício, ao fim dos quais ficou demonstrado que eu estava em excelente forma física.

 

Interessei-me muito pelas maneiras como os animais antárticos se adaptam ao frio; talvez pudesse aprender alguma coisa que me ajudasse a aumentar meu tempo de permanência na água. Os pingüins são dotados de uma camada dupla de penas, e o ar entre as duas camadas serve como isolante. Resolvi deixar crescer meus cabelos até poder enrolá-los em torno da cabeça para funcionarem como se fossem penas de pingüim, aprisionando o ar dentro da minha touca. Quando os pingüins mergulham no mar, suas penas se comprimem e deixam de funcionar como isolante, e é a gordura de seus corpos que passa a fazer o papel de traje de mergulho interno. Já os mamíferos marinhos da Antártida – as focas de Weddell, Ross e a chamada caranguejeira, além dos leopardos e elefantes-marinhos – conseguem manter-se aquecidos porque acumulam camadas de gordura sólida em seu corpo. Na época em que a temperatura da água da piscina do jardim chegou a 10 graus Celsius, eu já aumentara meu peso em cinco quilos e meio, acrescentando carboidratos e gorduras à minha dieta. Uma grande preocupação era o efeito que o frio intenso poderia produzir nos meus dentes e nos meus ouvidos. O explorador antártico Apsley Cherry-Garrard descreveu em seu livro como seus dentes se tinham simplesmente esfacelado a uma temperatura de 55 graus negativos. Meu dentista, o dr. William Poe, explicou que, por terem poros microscópicos, os dentes costumam ser sensíveis ao frio. E fez-me uma série de aplicações de flúor que preencheram esses poros. Também se ofereceu para fabricar tampões sob medida para os meus ouvidos com material usado para moldar dentaduras, produzindo um encaixe perfeito que evitaria a entrada de água fria e possíveis danos aos meus tímpanos.

O período imediatamente posterior à minha chegada representava um grande risco potencial, e era talvez ainda mais crítico que a travessia propriamente dita, porque já não estaria mais me exercitando. Quando atravessei o Estreito de Bering, uma especialista russa em hipotermia, trazida especialmente de Moscou, deu-me assistência após a chegada. Fez-me entrar num saco de dormir, aplicou sacos de água quente às artérias dos dois lados do meu pescoço, debaixo dos meus braços e na área das virilhas, enquanto se encostava em mim para transmitir-me o calor do seu corpo; foi muito menos doloroso do que entrar de imediato num banho quente. Para a travessia antártica, uma das minhas amigas desenhou um cachecol, um casaco e calças especiais para a fase do reaquecimento. Aplicou dois bolsos ao cachecol, dois bolsos debaixo dos braços do casaco e dois na frente das calças, onde poríamos aquecedores de mão (pequenos pacotes plásticos contendo substâncias químicas que geram calor intenso quando ativadas, muito usado para aquecer mãos e pés em esportes de inverno e outras atividades ao ar livre a temperatura muito baixa). Quando eu saísse da água ao final da travessia, minha equipe se reuniria à minha volta, para bloquear o vento e me ajudar a vestir roupas quentes.

Quanto às informações sobre as marés, o clima e as correntezas, eu contava com Susan Adie, guia de excursões da Quark Expeditions. Em minhas outras travessias, tanto meus pontos de partida quanto de chegada sempre tinham sido massas de terra, mas nesse caso não havia nenhum trecho de terra de onde eu pudesse iniciar o trajeto. Susan Adie e eu decidimos que eu nadaria do barco para a costa. Os pontos onde eu poderia tocar a costa eram poucos. Não existem muitas praias no continente Antártico, e as poucas que existem às vezes são bloqueadas por icebergs. Além disso, como o clima pode mudar de um instante para outro, transformando um mar calmo e sem vento numa superfície varrida por ondas de um metro e meio e ventos de 90 km/h, não existe meio de prever as marés. “Na Antártida, você precisa ser maleável e paciente”, disse-me Susan, acrescentando que poderia haver plaquetas de gelo – pequenas lâminas flutuantes – capazes de me cortar. Se houvesse na água gelo solto em blocos – que podem chegar ao tamanho de um Volkswagen – eu não poderia nadar. “Quando os icebergs se desprendem dos glaciares e caem na água, provocam minitsunamis”, explicou-me ela. “Se você estiver na água quando isso acontecer, cercada de blocos de gelo, pode morrer.”

 

Depois de dois dias e meio de viagem pelos mares violentos da Passagem de Drake, o Orlova chegou a águas mais tranqüilas. Viajávamos a cerca de 20 km/h, e se o tempo se mantivesse estável chegaríamos à Península Antártica dali a dois dias. Eu tinha uma equipe de sete pessoas comigo, entre as quais três médicos, e a maioria delas tinha sofrido muito enjôo nos dois dias anteriores.

Antes de tentar nadar um pouco, sentei-me com Susan Adie, Anthony Bloch, o médico de bordo, e dois outros membros da minha equipe. Concordamos que a equipe se dividiria entre os três barcos infláveis do Orlova, chamados Zodiacs. Barry Binder me daria as instruções, os médicos estariam coletando dados e me observando para detectar qualquer sinal de hipotermia, e outros membros da equipe ficariam de vigia à procura de leopardos-marinhos, orcas e icebergs. Uma equipe de cinegrafistas da CBS viria junto, para documentar a travessia. Em caso de emergência, um dos membros da equipe, vestindo um traje de mergulho especial – uma roupa de neoprene semelhante aos trajes de mergulho comuns, mas selada e cheia de ar, para evitar a entrada da água – estaria pronto para pular na água, inflar seu traje de mergulho e me puxar para fora.

O dr. Bloch queria organizar mais um treinamento com meus três médicos para o caso de eu sofrer uma parada cardíaca durante a tentativa. Quando ele me pediu para participar de um treinamento de padiola para ver se os membros da minha equipe seriam capazes de me carregar para bordo subindo a íngreme rampa do Orlova, eu recusei, imaginando que seria como um treino da minha própria morte. Por dois anos, talvez umas cem vezes por dia, eu ensaiara mentalmente o meu sucesso, e não a minha morte. Alguém se apresentou como voluntário para me substituir no treinamento, mas os membros da equipe não conseguiram subir a escada carregando a padiola, de maneira que decidimos que, numa emergência, prenderiam o guincho do navio a um dos Zodiacs e o trariam, comigo dentro, para bordo. E havia uma outra questão: como é que a equipe me puxaria para fora d’água, se eu estaria apenas de maiô? Meu maiô tinha muito pouco tecido, não dava para agarrá-lo. Sugeri a Barry que passasse uma corda com dois metros de comprimento por dentro das tiras dos ombros do meu maiô, e amarrasse suas pontas num nó. Isso funcionaria como uma alça eficaz.

 

Queria fazer um breve teste antes de tentar nadar um trecho mais longo, nadando por dez minutos para poder avaliar minha resistência dentro da água. Finalmente, no quarto dia de nossa viagem, quando chegamos à Ilha do Rei George, nas Shetlands do Sul, ao norte da Península Antártica, as condições do tempo melhoraram. Vesti meu maiô e fiquei à espera na sala de jogos do navio, olhando pela janela enquanto o vento agitava a flor d’água. As ondas de meio metro acalmavam-se e transformavam-se em carneiros. Imaginando meu corpo como uma garrafa térmica, tomei quatro copos de 250ml de água quente para gerar mais calor interno e prevenir uma desidratação grave ao final da minha permanência na água. Quando um dos médicos tirou minha temperatura antes de eu começar a nadar, ela estava em 37,5 graus Celsius, bem acima do normal, o que poderia me dar um tempo adicional na água. Mas quando tornei a olhar pela janela, vi que as ondas aumentavam depressa. O vento aumentara e chegara a 50 km/h. Respirei fundo, tentando me acalmar. Sabia que meu ensaio poderia ser cancelado a qualquer momento. Finalmente, um dos membros da equipe veio me dizer que estavam todos prontos, e os barcos em posição.

Quando saí para o convés do Orlova, fui atingida por uma rajada de vento glacial. Meu corpo todo se arrepiou, e meus cabelos se agitaram girando em torno da minha cabeça como rotores de helicóptero. Bati rapidamente em retirada para o interior do navio, tentando conservar cada migalha do meu calor corporal. A temperatura da água na Baía do Almirantado era de 0,5 grau Celsius, e a temperatura do ar de um grau, mas o vento vindo dos glaciares que a rodeiam produziam uma sensação térmica igual à do interior de um frigorífico. Enrolando os cabelos em torno da cabeça e enfiando tudo para dentro da touca de natação, voltei para fora e caminhei até a rampa. Segurando meus óculos de proteção na mão esquerda e agarrando a balaustrada com a outra, sentindo o metal gelado debaixo dos pés, desci os degraus. Ao fazer uma pausa, vi minha equipe abaixo de mim distribuída pelos três Zodiacs, as expressões tensas e animadas. Quando cheguei à plataforma na base da rampa, sentei-me e tive a sensação de ter sentado numa bandeja de gelo de metal molhado. A plataforma sacudia e balançava. As ondas eram de um azul prateado, quebrando poucos centímetros abaixo dos meus pés. Inclinei-me para trás para tomar impulso, e atirei-me para a frente.

A água estava de um frio cortante. A sensação era de que eu estava nua, parada de pé, e alguém me golpeava com o jorro de água gelada de uma mangueira de alta pressão; precisava de toda a minha força de vontade para me mover. Nadava com a cabeça para fora da água, arquejando. Era muito difícil deixar de perder o fôlego; a sensação era de que meus pulmões estavam sendo espremidos por um espartilho muito apertado. Não havia meio de expandi-los por completo, mas eu precisava de oxigênio. Sabia que não conseguiria continuar por mais de um ou dois minutos caso não conseguisse superar minha tendência a hiperventilar. Forcei-me a reduzir a velocidade, a inspirar pela boca e depois expirar até o fim. Era extremamente cansativo, mas concentrar-me na respiração me impediu de pensar no frio. Quando minha respiração se regularizou, comecei a perceber outras sensações. A água parecia mais sólida do que fluida. Minhas mãos estavam vermelhas e inchadas e, como meus pés, tinham ficado dormentes e doloridas. Eu mal conseguia bater as pernas, mas sempre nadara assim: 99% da minha propulsão na água vêm dos braços e do alto do tronco, enquanto minhas pernas se limitam a estabilizar minhas braçadas. Como eu não batia muito os pés, não bombeava muito sangue para os pés e as pernas. Parei no meio de uma braçada para olhar meu relógio. Fazia apenas um minuto que eu tinha entrado na água.

 

Uma onda se quebrou na minha cara. Engasguei e comecei a entrar em pânico. Sabia que precisava continuar nadando, que estava frio demais para eu parar. Sustentei meu corpo com um movimento giratório dos braços, tentando engolir e limpar a garganta. Outra onda rebentou no meu rosto. O engasgo foi pior, e meu pânico aumentou ainda mais. Não conseguia respirar. Pensei em boiar de costas, mas decidi que estava frio demais e que isto me faria perder velocidade. Então, em vez de me virar, mergulhei o rosto na água, para parar de engasgar com os borrifos. Meu corpo adquiriu uma postura horizontal, e comecei a nadar através da água, em vez de tentar escalar para fora dela. Respirar ficou mais fácil; eu conseguia fazer o movimento de rolar a cabeça e o ombro para um lado ou para o outro. Nadava quase normalmente, a sensação era de que meu tronco e minha cabeça estavam quentes por dentro, e consegui relaxar um pouquinho. Levantando a cabeça, consegui ver os rostos da minha equipe, cheios de preocupação. Tirei o pé direito da água e acenei com ele. Era um sinal de que estava tudo bem. Eles sorriram e acenaram de volta.

Quando olhei no relógio, vi que tinha atingido minha meta de dez minutos. Quanto mais eu conseguisse nadar agora, mais confiança acumularia para a travessia final; na verdade, se o tempo mudasse, essa poderia ser minha única oportunidade de nadar naquelas águas. Quando cheguei à marca dos quinze minutos, vi que à minha esquerda se erguiam icebergs. Avançávamos na direção deles, e a equipe começou a gritar para mim, apontando para a água. Contornei os icebergs a nado, e comecei a sentir mais frio nos braços. A equipe inteira estava em alerta máximo, ajudando-me a cruzar o campo de icebergs. Um pedaço de gelo do tamanho de uma bola de futebol americano bateu na minha testa, e trouxe lágrimas quentes aos meus olhos. Outro pedaço, duas vezes maior, me atingiu no lado da cabeça. Sacudi a cabeça para aliviar a dor, e aumentei a velocidade, tentando me livrar logo do campo de gelo.

A equipe desceu dos barcos e se amontoou pela beira do mar, esperando-me com toalhas e cobertores. Quando me pus de pé, ouvi vivas e aplausos abafados. Tinha surpreendido a todos, inclusive a mim mesma. Planejara nadar por apenas dez minutos, mas ficara na água vinte e dois minutos e quatorze segundos. A equipe me cercou, bloqueando o vento e me secando. Em poucos instantes, comecei a sentir um frio intenso. Minhas pernas estavam muito vermelhas, e sangravam de pequenos cortes feitos por pedacinhos de gelo que boiavam na água. Meus pés e minhas pernas estavam dormentes. Um dos membros da equipe tirou as botas, ajudou-me a vesti-las e saímos caminhando pelas pedras. Enrolada em cobertores, tremia violentamente enquanto dois médicos me ajudavam a me reaquecer. Um dos médicos tirou minha temperatura; tinha caído muito pouco, só a 36,5 graus Celsius. Estava muito mais alta do que eu esperava. Ainda assim, eu tremia muito e meus dentes batiam, mas essa atividade ativava o meu metabolismo e criava calor para contrabalançar o retorno do sangue esfriado para o núcleo do corpo. Passaram-se quase quarenta e cinco minutos até que eu parasse de tremer e tornasse a me sentir aquecida.

 

Naquela noite, passei em revista o que tinha e o que não tinha funcionado durante o tempo que passara nadando. Sabia agora que era capaz de nadar mais de uma milha (ou um quilômetro e meio) em águas antárticas e estava satisfeita, mas precisava admitir que ficara exausta, e perdera um pouco da sensibilidade nos meus dedos das mãos e dos pés, além da pele. Não gostei de ter sentido tanto frio ao sair da água. Resolvi que da vez seguinte iria nadar mais depressa, para gerar mais calor. A água estaria provavelmente meio grau mais fria, porque muitos glaciares estavam se desfazendo.

No outro dia, o tempo ficou tão ruim que continuamos navegando mais para o sul, esperando que a tempestade amainasse. Na manhã seguinte o tempo tinha melhorado. Tomamos o rumo do porto Neko. Duas horas mais tarde, ancoramos ao largo, e tudo parecia promissor. O sol surgia e sumia atrás das nuvens enquanto o vento soprava dos glaciares em rajadas curtas – um sinal de que aquele bom tempo poderia não durar muito. O vento soprava a apenas 20 km/h, mas se nos desviássemos do rumo ficaríamos diretamente abaixo da fachada de um glaciar. Se este se partisse enquanto estivéssemos abaixo dele, a queda do gelo poderia nos matar, ou produzir uma onda capaz de virar nossos barcos. De qualquer maneira, não teríamos como dar em terra, porque os glaciares entravam na água praticamente na vertical.

Barry passou a corda pelo meu maiô, e eu lhe disse que, quaisquer que fossem as circunstâncias, queria percorrer pelo menos uma milha. Eremin nos observava da ponte de comando. Ele acompanharia nosso trajeto, plotaria o curso e, usando o sistema de posicionamento global do navio, calcularia a distância exata que teríamos coberto. A equipe embarcou nos Zodiacs, eu tirei meus agasalhos e desci a rampa correndo. A temperatura do ar era zero grau – um grau a menos que no dia anterior – e o vento drenava o calor do meu corpo. Sentei-me na plataforma, olhei para a água gélida cinza-azulada e depois para a costa. Parecia muitíssimo distante.

Respirando fundo, lancei-me para a frente, mas escorreguei e caí de cara na água. Embora estivesse meio grau mais fria que da vez anterior, na verdade minha sensação é de que estava mais quente. (Depois da travessia, descobri que danos aos nervos ocorridos no primeiro mergulho tinham diminuído minha capacidade de perceber o frio.) Demorei mais do que antes a recuperar o fôlego, e minha respiração era muito mais difícil. Eu estava cansada, e não conseguia entender por quê. Soube depois que eu movia meus braços a noventa braçadas por minuto, trinta braçadas por minuto mais depressa do que meu ritmo normal. A equipe sentiu que eu estava em dificuldades, e percebi a dúvida no rosto de alguns. Disse a mim mesma que precisava nadar mais depressa do que jamais nadara na vida.

Podia sentir meus ombros descrevendo círculos, mas meus braços estavam dormentes e ardiam, e havia alguma outra coisa errada – os barcos estavam derivando para a esquerda. Rumávamos direto para um dos glaciares. “Aonde estamos indo, Barry?”, gritei. Ele apontou para o glaciar. Não fazia sentido, mas confiei que ele soubesse alguma coisa que eu ignorava. De repente, os barcos mudaram de rumo, virando bruscamente para a direita. Eu estava ficando nervosa, mas os segui. E então percebi que, descrevendo um ziguezague, Barry estava aumentando a distância percorrida, para garantir que eu nadasse pelo menos uma milha. Enfiei o rosto na água e senti o choque percorrer meu corpo. “Estique-se”, eu me disse. A água estava mais densa e muito mais fria do que na antevéspera.

Passamos pelo porto Neko e seguimos na direção de uma pequena península. Ondas de meio metro quebravam às minhas costas, empurrando-me em frente. A correnteza estava ficando mais forte, deslocando-se a quase um nó. Minha velocidade normal era um pouco superior a 4 km/h, de maneira que quando eu me virasse minha velocidade se reduziria à metade. Pensei que, se avançasse muito naquela direção, jamais conseguiria voltar. Barry e a equipe me sinalizaram mostrando-me dois dedos – fazia vinte minutos que eu estava nadando. Meu tempo normal para a milha ficava entre vinte e dois e vinte e três minutos, e eu estava nadando muito mais depressa que o normal. Senti uma correnteza ainda mais forte, deslocando-se a quase 4 km/h, atingindo-me a noventa graus. Se eu continuasse em frente, jamais conseguiria retomar o rumo da praia de Neko. Na mesma hora, virei-me e comecei a dar tudo na direção da praia. Pela primeira vez, desde que começara a nadar, sentia-me forte e puxava com energia cada vez maior, sentindo a pressão das minhas mãos contra a água. Provei seu gosto, que era muito doce, com apenas uma leve sugestão de sal, provavelmente devido à grande quantidade de água produzida pelo derretimento dos glaciares. Barry ergueu o indicador e sinalizou que eu já percorrera a milha. A equipe comemorou, e comecei a ter a idéia de continuar – talvez pudesse percorrer mais meia milha; ainda sentia calor na cabeça e por dentro do corpo. Quanto mais eu permanecesse na água, porém, mais o frio iria penetrar e mais tempo eu levaria para me reaquecer. A uns duzentos metros da praia, um bando de pingüins-de-barbicacho, até então reunido à beira do mar, começou a se atirar na água. Passaram a uns três metros de mim, e afloraram à minha volta para tornarem a mergulhar como golfinhos.

Poucos minutos depois, um dos membros da minha equipe entrou na água até a cintura para me ajudar a ajustar-me à mudança de pressão quando fiz a transição da posição de nado para uma postura ereta. Na praia, a equipe me abraçou e eu pensei, conseguimos! Eu passara vinte e cinco minutos na água. A equipe imediatamente me ajudou a subir num dos Zodiacs para que pudéssemos retornar ao Orlova, onde eu me reaqueceria. Quando voltamos a bordo, Eremin me disse que eu percorrera 1,06 milha náutica – ou 1.930 metros. Minha temperatura tinha caído a 35,2 graus Celsius, e eu tremia violentamente. Depois que os três médicos me ajudaram a me vestir, pus-me de pé e os médicos e outros membros da equipe me abraçaram. Quinze minutos mais tarde minha temperatura era de 35,5, e ao cabo de trinta minutos chegara aos 36 graus. Então fui para a cabine e tomei um longo banho de chuveiro quente. Não sabia tolerar o frio como um pingüim, uma foca ou uma baleia, mas, tendo entrado por alguns momentos em seu mundo, tivera uma experiência extraordinariamente bela e árdua.

Lynne Cox

Lynne Cox, nadadora e escritora, foi a primeira a atravessar a nado o Estreito de Bering, no Círculo Polar Ártico.

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