dossiê natação ao ar livre

O último aqualouco

Os splashes mais alegres dos anos 50

Denise Mirás
Divertimento de uma época mais inocente, os aqualoucos eram despretensiosos e anônimos — tudo o que um candidato a celebridade de hoje abomina
Divertimento de uma época mais inocente, os aqualoucos eram despretensiosos e anônimos — tudo o que um candidato a celebridade de hoje abomina FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Lá, bem na ponta do trampolim, um homem se apresenta: capa esvoaçante, boca cheia de gasolina, uma tocha acesa em cada mão, que leva para a frente do rosto. Um sopro, uma labareda na noite. A piscina toda iluminada, os olhos vidrados dos espectadores, luzes no homem, que volta com as mãos para baixo e para trás, põe fogo na capa e salta. Um risco de fogo mergulha na água. É o Homem-Tocha, uma invenção de Oswaldo Lopes Fiore. Mas o número ainda não está bom. Na próxima vez, à frente do trampolim, é colocado um arco de fogo; na água, flutua uma “poça” de gasolina, cercada por pequenas bóias. Depois de atear fogo à capa, o super-herói atravessará ainda o arco em chamas, mergulhará e acenderá um círculo de labaredas na piscina. Tecidos antichamas? Que nada. Como proteção, um pano molhado no pescoço – esquecido, naquele dia! O homem pega fogo, se engancha no arco, se desespera, se debate e despenca lá do alto na piscina. Número novo? O público não entende nada quando os outros saltadores e mergulhadores se atiram na água, desesperados. Foi Fiore quem puxou o Homem-Tocha para a beira da piscina. “O nariz dele parecia uma calabresa frita”, relembra Fiore, um empresário paulistano de 75 anos e um passado meio louco. Louco, não. Aqualouco.

O surgimento da espécie aqualouca brotou da timidez desse campeão sul-americano de saltos ornamentais. Há meio século, durante os treinos, ele disfarçava eventuais desequilíbrios ou erros de salto, que lhe provocavam imensa vergonha, fazendo micagens ainda no ar. Notou que as brincadeiras arrancavam mais aplausos do que seus saltos. De folia individual para show aquático em grupo, com script, coreografias, estrutura profissional e figurinos próprios, foram quase dez anos. Os aqualoucos brasileiros eram atletas-palhaços em “trajes de banho”, como se dizia então. Eles faziam estripulias com halteres de madeira, iô-iôs gigantes, meias que iam sendo tiradas do alto do trampolim e não acabavam mais, tinham mais de três metros, atingiam a água lá embaixo. Eram uma combinação, orginalíssima, de saltadores e mergulhadores exímios com palhaços de circo.

 

 

Oswaldo Lopes Fiore nasceu no tradicional bairro imigrante do Brás, filho de comerciante espanhol e dona-de-casa italiana. Felicidade absoluta, para ele, era pegar o bonde e chegar às margens do rio Tietê para dar salto mortal de um barranco nas proximidades do Corinthians. Um pouco mais adiante ainda havia o Clube dos Alemães, com um lago artificial e… nudismo! Um dia, apareceu no rio o técnico de natação do Corinthians, o alemão Napoleão Buck, e convidou o loirinho de olho azul para treinar no clube. Fiore passou a treinar nas águas represadas do rio, e ainda detém o recorde mais antigo do Brasil: o paulista dos 3 x 25 metros, em nados peito, costas e crawl (o nado golfinho ainda não existia). A marca é de setembro de 1940.

Aos 14 anos, teve de começar a trabalhar e migrou para saltos ornamentais, que exigiam menos tempo de treino – três vezes por semana, às cinco e meia da manhã. Entrava pelos fundos do Clube Tietê, que passou a freqüentar quando a família se mudou para o bairro do Bom Retiro, e iniciava suas séries de saltos, sozinho e com medo. Nenhum técnico o orientava naquele horário. Lá de cima do trampolim, houvesse nevoeiro espesso ou ainda estivesse escuro, no inverno, Fiore lembra de falar sozinho: “Nossa, como isso aqui é alto. Não vou errar nada, senão me machuco. E se eu morrer? Não tem ninguém para me acudir aqui”.

Passou a observar a técnica dos atletas mais velhos. Percebeu que quem esticava totalmente os braços fazia um salto mais bem “emoldurado”, obtendo pontuação mais alta. Também começou a assistir a documentários sobre natação e entendeu porque “só os norte-americanos”, como se dizia na época, conseguiam dar saltos de três voltas e meia: eles tomavam impulso na ponta do trampolim e saltavam para o alto, enquanto os brasileiros já saltavam para baixo, conseguindo no máximo duas voltas e meia. Era a diferença de uma pirueta. Uma revelação.

Notou, por fim, quantos atletas consagrados saltavam com “pé de defunto” – pés juntinhos, puxados em 90 graus, em vez de serem esticados – o que valia mais na soma geral de pontos. Assim, lá ia Fiore sentado no ônibus fazendo exercícios de esticar as pernas e os pés por baixo do banco da frente, improvisando um treino. Chegou até a dormir com as pontas dos pés amarradas no pé da cama. “Era uma obstinação”, diz.

Fiore não parava quieto. Imitava sapo, dobrando as pernas atrás do pescoço e andando com as mãos. Dava saltos acrobáticos em seqüência, de costas, na grama do clube. Chegou a praticar levantamento de peso nos fins de semana – o que era considerado tabu, “para não endurecer os músculos”. Sentia o corpo tinindo, preparado para as acrobacias, que exigiam explosão. Diz que a cabeça inventava e o corpo fazia. Treino para ganhar fôlego não havia, mas todos acabavam se exercitando com as apostas de “quem ficava mais tempo embaixo d’água”.

Ele gostava de experimentar. E sem técnico para impedi-lo de se testar. Passou a freqüentar a TV Record para rever os próprios saltos, quadro a quadro, identificando erros e acertos. Muitas dessas experimentações fazem parte, hoje, da rotina dos atletas de alta performance. Hoje, o treino de seis, oito horas por dia de um saltador inclui malhação em academia e trampolins de saltos no seco, para treinar saídas. Também virou rotina a análise de teipes.

O ponto de partida para a popularização dos aqualoucos foi o título sul-americano nos saltos ornamentais que Fiore conquistou em 1952, aos 21 anos. Começaram a chover convites para que ele inaugurasse piscinas pelo país inteiro. Invariavelmente, depois da exibição, público e direção de clubes reclamavam: “Ah, só dez saltos?…”. Surgiu assim a idéia de chamar mais atletas, para alongar as apresentações. Fiore convidou o grupo de amigos-saltadores com os quais fazia apresentações nas festas do Clube Tietê. Passou a organizar shows. Além dos saltadores, convocava ginastas e patinadores para fazer evoluções em volta da piscina. Botou um locutor e um baterista para acompanhar os saltos, fazendo o suspense com a caixa na caminhada, o bumbo no salto e o prato no mergulho.

 

Da primeira vez que foi convidado por um prefeito – de Ribeirão Preto -, não sabia o que cobrar. Pensou em 100 cruzeiros para cada um dos dez, o que foi aceito: mil. Depois da festa (era aniversário da cidade), outros prefeitos correram para encomendar shows que, no fim da fila, já valiam 10 mil. Com o tempo, Fiore decidiu que, sendo ele o autor, coreógrafo, figurinista, contador, relações públicas, roupeiro, roteirista e estrela do espetáculo, passaria a empresário do grupo, com direito a 50% da receita. Até mesmo a inspiração pela padronização do figurino – maiô antigo listado – veio de uma foto dele mesmo, ainda menino. Fiore percebeu que o que nascera como brincadeira estava lhe valendo cachês maiores do que o salário que recebia como bancário. Conseguiu comprar um fogão novo para a mãe, depois uma geladeira a gás, porque a de querosene “sujava muito a parede”. Comprou até uma lambreta, para ele mesmo.

No início, Fiore chamava o grupo de ‘aqualegres’. Mas o jornalista Henrique Nicolini, d’A Gazeta, rebatizou-os de ‘aqualoucos’ numa crônica, e assim ficou. O público se deleitava com tudo, mas tinha suas preferências. “A Evolução da Natação” era uma delas. Nesse número, um locutor narrava a evolução das braçadas desde o “cachorrinho” da Pré-História. Depois vinha o estilo dos índios, com um braço para fora; o crawl australiano; o do português, nadando para trás; havia a imitação do campeão olímpico Johnny Weissmüller, o Tarzã, o nado “rio Tietê”, com um atleta nadando com as pontas dos dedos esticadas, cara de nojo, o nado “Carmen Miranda” – “com a bunda arrebitada para fora da água”, conforme conta, no ritmo do “Tico-tico no fubá”…

Mas nada se igualava ao número do bêbado de terno, que escorregava do trampolim, se segurava no sovaco, saltava, ficava de cócoras no trampolim, saltava, ficava de pé de novo, escorregava, ficava com as pernas no ar, segurando com o outro braço. Só mesmo com muita musculatura de abdômen e de pernas. Para o número, Fiore inventou um par de sapatos dotado de solas com dois engates de ferro, que enganchavam na ponta do trampolim – o aqualouco simulava a iminência de uma queda, rodava os braços, inclinava-se mais, mais, mais, até atingir um ângulo impossível… e então voltava à posição vertical.

Um outro número tinha segundas intenções. Dez moças pescadas por Fiore na Escola de Educação Física de São Paulo apresentavam “A Evolução do Maiô”: com saiote, sem saiote, duas peças, biquíni. Ao final, o locutor perguntava como seria o maiô do futuro. Aparecia uma loira com um maiô cor-de-pele. “Era uma coisa meio americana, com um ponto de interrogação bordado, meio besta”, lembra ele. Quem fazia todos os maiôs para o grupo era o seu Faro, da fábrica Jantzen. “O maiô do futuro? Nada melhor que maiôs Jantzen!”, concluía o locutor. Foi a estréia de Fiore no marketing.

 

Por dez anos, os aqualoucos percorreram o Brasil de ônibus e avião. Até Fiore se casar com Regina, ter três filhos e seis netos. Virou empresário, depois dono de fábrica de equipamentos esportivos, como balizas para raias de piscina, tubos para natação, aparelhos de fitness. Sua fábrica chegou a ter 140 funcionários. Hoje tem quarenta.

Oswaldo Lopes Fiore continua treinando em piscina com trampolim. Também continua ganhando medalhas – a última, de ouro, foi num campeonato masters de saltos ornamentais. Seu maior tesouro, porém, são as lembranças. “Saltei até de uma fragata de guerra no rio Amazonas”, começa. Parece conversa de pescador, reconhece. Mas mostra as fotos. Queriam que fizesse um salto. Mas, do barranco do rio? Não tinha graça. Tinha de ser no mastro. Subiu. Mas se pulasse de lá, se esborracharia no tombadilho. A solução: colocar uns trinta marinheiros correndo juntos, de um lado para outro do navio, uma, duas, dez vezes. “O navio foi se inclinando, o mastro também, baixando de um lado para outro, como um pêndulo ao contrário, e deu para pular na água! Pulei! Eu era jovem e louco.”

Denise Mirás

Denise Mirás é jornalista baseada em São Paulo.

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