esquina

De mãos dadas

Os resistentes do Porto

Adriana Negreiros
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

O fotógrafo Juliano Mattos, de 36 anos, levantou, apanhou o computador e, de volta à cama, iluminou o quarto com a tela aberta em um editor de texto. Pôs-se a digitar as primeiras frases que construíra enquanto se revirava no colchão durante a noite insone, assombrado pela lembrança dos dedos imitando uma arma. Jair Bolsonaro havia sido eleito presidente do Brasil. Na véspera, logo depois do resultado das urnas, ele e um punhado de amigos, abraçados, cantaram Sorriso Negro, do repertório de Ivone Lara, tentando ignorar a alegria do grupo que, ao lado, celebrava a vitória do “Mito”.

A cena havia se passado em frente à Casa da Música, um dos principais pontos turísticos do Porto, ao norte de Portugal, onde Mattos vive. Dentre os eleitores brasileiros que votaram na cidade, 66,5% escolheram Jair Bolsonaro. Diante dos números, a atitude mais prudente seria evitar qualquer brasileiro desconhecido.

Depois de algumas horas de digitação frenética, Mattos deu por concluído o manifesto da recém-criada Frente de Imigrantes Brasileiros Antifascistas do Porto – a Fibra. Na sequência, buscou na internet um desenho de perfil da vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em março de 2018. No Photoshop, sobrepôs duas cópias da ilustração – uma vermelha e outra preta –, acrescentou-lhes raízes na base (em referência aos indígenas do Brasil) e aplicou o resultado sobre fundo amarelo. Quando terminou, já eram quase duas da tarde.

No dia seguinte, o fotógrafo apresentou o resultado para um grupo de amigos mais chegados – entre eles, as cariocas Juliana Costa, 26 anos, e Vivian Andrade, de 28. Costa é um protótipo da estudante de humanas: com cabelos que já foram descoloridos e óculos de aros grossos, cursa mestrado em história e realiza um estudo comparativo entre as mulheres intelectuais da corte portuguesa e as da corte espanhola dos séculos XIV e XV. Andrade, por sua vez, não corresponde em nada ao estereótipo de cientista: festeira e com jeitão hippie, é doutoranda em física com bolsa do programa Ciência sem Fronteiras.

O manifesto foi aprovado na íntegra: considera as ideias de Bolsonaro “bisonhas” e ataca os “arroubos conspiracionistas do astrólogo aspirante a pseudofilósofo Olavo de Carvalho”. Todos gostaram da sigla, mas a maioria rejeitou a logomarca, com receio de que a imagem da vereadora gerasse problemas. Então o fotógrafo substituiu o perfil pelo desenho de um punho erguido, igualmente resgatado da internet – o gesto foi adotado como símbolo por movimentos de resistência surgidos ao longo do século XX. Em novembro criou uma página no Facebook que usou para divulgar o primeiro evento da frente: um ato contra a posse de Jair Bolsonaro, diante do Consulado do Brasil no Porto, em 1º de janeiro.

 

Mattos nasceu em São Paulo e cresceu em Aracaju, de onde se mudou aos 18 anos. Em Portugal – terra da mãe –, aproximou-se dos grupos de esquerda, com alguns dos quais ainda mantém relação. Dois deles – a Frente Unitária Antifascista e o Núcleo Antifascista do Porto – ofereceram apoio logístico na organização do evento contra o novo presidente brasileiro. Graças à ajuda, os integrantes da Fibra – que, à época, eram pouco mais de quinze, sem liderança constituída – conseguiram receber um público itinerante de cerca de 300 pessoas com faixas e megafones que ecoavam palavras de ordem contra Bolsonaro. No segundo evento, em um centro cultural do Porto, o grupo apresentou o filme O Processo – um documentário de Maria Augusta Ramos sobre o impeachment de Dilma Rousseff – para uma plateia de cerca de sessenta pessoas.

Mesmo organizados às pressas, os eventos atraíram a atenção para a Fibra, que em pouco tempo já tinha mais de sessenta integrantes, a maioria mulheres, muitas delas estudantes da Universidade do Porto. Com a popularidade também vieram as críticas e ameaças. Em entrevista ao jornal Público, Mattos criticou o chefe de Estado de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, por declarar que o encontro com Jair Bolsonaro, a cuja posse compareceu, foi uma “reunião de irmãos”. Na página do grupo no Facebook, um rapaz se indignou com o brasileiro que se metia em assuntos da política de seu país: “Não faltava mais nada, vir estrangeiros mandar nos portugueses. Se não gostam de cá estar, façam as malas e boa viagem.”

Os jovens passaram a receber desaforos em mensagens privadas. Em uma delas, um homem com duvidosas pretensões poéticas disse que Mattos deveria ir embora, “tu e toda a lixeira que aqui vem desaguar, escondidos no meu país a roubar”. Prosseguiu informando que “a guerra começou”. “Vais a bem ou queres ir a mal?”, concluiu. Ao levar a mensagem à delegacia, o fotógrafo foi informado de que nada poderia ser feito a respeito – segundo o policial que o atendeu, a ameaça não era explícita. Pelo sim, pelo não, o pessoal da Fibra passou a adotar medidas de segurança e não divulga mais nas redes sociais o local dos encontros semanais.

 

Nas reuniões do grupo, os brasileiros contrários a Bolsonaro encontram gente com quem têm a liberdade de desabafar, comentam as notícias do Brasil e se solidarizam com os amigos em dificuldades em Portugal. No terceiro evento público, uma feijoada vegana cujo ingresso (4 euros) arrecadou fundos para a confecção de adesivos e panfletos, o diretor de cinema Daniel Eizirik, de Porto Alegre, apresentou três curtas sobre os indígenas Guarani Mbya, do Rio Grande do Sul, e pediu aos presentes – em torno de sessenta pessoas, quase todos brasileiros – que ajudassem a dar visibilidade às ameaças sofridas pelo povo. Nas rodas de conversa, um assunto recorrente era o pedido de amigos do Brasil interessados em saber o que fazer para se mudar para Portugal.

“Não podemos facilitar a fuga, mas estamos dispostos a colaborar com informações sobre a documentação”, explicou Vivian Andrade, que se prepara para retornar ao Brasil e fazer um pós-doutorado. A Fibra também pretende oferecer cursos de defesa pessoal para quem se sinta ameaçado em situações do dia a dia, como os encontros em supermercados, livrarias ou bares em que o tema “Bolsonaro” venha à baila. A recomendação é que ninguém aceite provocação e tente, na medida do possível, neutralizar os ataques vindos do outro lado. Na medida do possível.

Adriana Negreiros

Jornalista freelancer, foi editora das revistas Playboy e Claudia. É autora de Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço

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