esquina

De volta ao pó

A ressurreição do rapé

Julia Duailibi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O barman é um garoto de cabelos bagunçados, do tipo que não economiza quando serve a dose de Jack Daniel’s. Perto dele há um pôster do poeta e romancista americano Charles Bukowski. Apesar da luz baixa, é possível identificar, sobre as paredes de cor escura, as fotos de Bob Dylan e dos Ramones, desenhos pornográficos e uma ou outra frase rabiscada: “Feliz Halloweed”, “Pó-Esia Concreta”.

O ambiente funciona como sala de estar para a companhia de teatro Cemitério de Automóveis. Num espaço anexo, no bairro da Consolação em São Paulo, o grupo ensaia e apresenta os seus espetáculos. Naquele sábado à noite, o ator e dramaturgo Mário Bortolotto, diretor da companhia, tinha acabado de sair do palco. Um dos principais nomes do teatro brasileiro, Bortolotto faz lembrar o vocalista de uma banda de rock – dessas cujos integrantes sobreviveram a décadas de excessos e já têm os cabelos brancos.

Ele vestia uma jaqueta de couro, camiseta preta e coturno. Assim que o vi, perguntei se poderíamos cheirar o pó. Era preciso sair dali. Passamos por baixo de um luminoso vermelho e amarelo – “Foda-se”, dizia o enfeite – e entramos no camarim.

Bortolotto tirou do bolso um pequeno recipiente de plástico, onde guardava o produto. Depositou na palma da mão uma parte do conteúdo e com a outra sacou um canudo. Com a ajuda do apetrecho, consumiu o pó. Os olhos do dramaturgo lacrimejaram, Bortolotto fungou, mas não pareceu se abalar. O pó que ele havia acabado de consumir era rapé, uma mistura de tabaco com cinzas de casca de árvore, ervas e sementes. A substância tem a aparência de pimenta do reino moída e, no Brasil, é produzida por tribos indígenas.



Depois de um longo período no ostracismo, o rapé voltou a ser adotado, de uns tempos para cá, por uma combinação curiosa de usuários: artistas, hipsters e ativistas da causa indígena. Seu consumo é visto por alguns como um ato de resistência à indústria tabagista, uma maneira de parar de encher os bolsos dos poderosos fabricantes de cigarro. Como na aplicação do produto não há combustão, seus entusiastas também celebram o fato de poderem usá-lo livremente, sem precisar recorrer aos fumódromos de bares e casas noturnas. O rapé é soprado (e não aspirado) no nariz com a ajuda de um canudo de bambu em forma de “V”, chamado kuripe, uma espécie de estilingue sem o elástico. É preciso introduzir uma das pontas na narina – a outra se coloca na boca, para assoprar o produto. A aplicação também pode ser feita em dupla, com o tepí, um canudo comprido usado pelos índios.

Na falta de um tepí, Bortolotto colocou uma pitada de rapé em seu kuripe e me passou o instrumento. A primeira sensação que tive foi a de uma ardência extrema, como se tivesse cheirado uma carreira de wasabi, o tempero usado no sushi. Em geral os olhos lacrimejam, e o corpo fica mole. Outro efeito comum é o acesso de espirros. O nariz começa a expelir o pó marrom.

Os índios dizem que se trata de um ritual de limpeza. O Ministério da Saúde adverte que, por conter nicotina, o produto causa dependência. De fato, o efeito se assemelha ao do tabaco. É como se você tivesse fumado um cigarro inteiro, em três segundos.

 

No século XIX, havia no Brasil algumas fábricas de rapé, principalmente no Rio. Em 1878, Machado de Assis escreveu a comédia O Bote de Rapé, na qual Tomé, o protagonista, dialoga com o próprio nariz. “Uma boa pitada as ideias areja”, diz o personagem, celebrando a substância. “Dissipa o mau humor.” O órgão olfativo de Tomé é ainda mais enfático: “O nariz sem rapé é alma sem amor.”

Disso já sabiam os índios, que consumiam o produto antes mesmo da chegada dos portugueses. Depois o rapé atravessou o oceano. Por algum tempo, fez sucesso com a elite europeia, até cair no esquecimento, quando passou a ser mais elegante fumar charutos.

Hoje é possível comprar rapé em tabacarias, mas o produto faz sucesso mesmo em lojas online especializadas em enteógenos – substâncias que alteram a consciência, usadas em rituais religiosos –, sementes psicodélicas, ervas medicinais e artesanato xamânico. “A venda aumentou nos últimos tempos”, garantiu Sarita Moura, proprietária da Mukani Shop, estabelecimento na internet que comercializa “moda étnica”, sementes, óleos e incensos. “Mas é uma parcela muito pequena que faz o uso adequado, no contexto espiritual. Grande parte usa porque é moda.” A Mukani vende rapé das etnias Kaxinawá, Yawanawá, Nukini e Apurinã. O preço varia de 35 reais (5 gramas) a 310 reais (100 gramas), e o rótulo do produto garante que seu consumo causa “fortalecimento do espírito, limpeza mental, concentração e foco”.

Bortolotto gosta do produto feito com cascas de tsunu, árvore nativa conhecida como pau-pereira. Em seu camarim, o dramaturgo contou que experimentou o rapé pela primeira vez há mais ou menos um ano. Foi apresentado à substância por uma amiga. Desde então consome o pó “várias vezes” por dia. “Dá uma limpeza total e deixa você mole. Tem índio que aplica na criança que está chorando. Aí ela acalma e dorme.”

Algum tempo depois da primeira fungada, Bortolotto voltou a se servir do potinho. Colocou um pouco mais de pó no kuripe. Uma amiga do dramaturgo, que pouco antes havia se juntado a nós, comentou que tinha em casa um saco de 100 gramas de jurema-preta, uma árvore cuja raiz tem propriedades psicoativas. “Vamos usar isso aí”, ele reagiu, animado. “Como é que faz? Você cheira ou você toma?”, quis saber.

“Tem que fazer um ritual, acender uma fogueira”, respondeu a amiga. “Ah, ritual, não. Aí é coisa de pajé”, respondeu o dramaturgo, antes de colocar os óculos escuros. Depois saiu do camarim, decidido, e foi se encostar no balcão do bar. Queria tomar mais uma dose de Jack Daniel’s.

Julia Duailibi

Julia Duailibi trabalhou na piauí, na TV Bandeirantes, na Folha de S.Paulo, na Veja e n’O Estado de S. Paulo

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