tempos da peste

DOIS RETORNOS

De volta à roça

Em razão da pandemia, minha mãe precisou colher café outra vez

Jeferson Batista
Edilene da Silva e a filha, Ana Carolina, na lavoura: o trabalho pesado fez as duas sentirem dor no corpo todo. “O jeito é tomar um Dorflex e tocar o barco”, conformava-se a mãe
Edilene da Silva e a filha, Ana Carolina, na lavoura: o trabalho pesado fez as duas sentirem dor no corpo todo. “O jeito é tomar um Dorflex e tocar o barco”, conformava-se a mãe CREDITO: JEFERSON BATISTA_2020

A pandemia forçou muitos a ficarem em casa, mas outros, para trabalhar, precisaram sair às ruas – ou voltar à roça. Foi o caso da diarista Edilene Penha de Almeida da Silva, que após perder o emprego na cidade teve que buscar trabalho numa lavoura de café. A crise fez evaporar num relance as suas conquistas, exigindo que ela retornasse a um mundo do qual tinha bravamente escapado.

Para o indígena Renato Poriciwi Wai Wai, as coisas aconteceram de forma contrária. Graças ao seu filho arqueólogo, ele conseguiu rever depois de décadas a terra onde nasceu e da qual foi forçado a sair com seu povo. Havia poucos sinais da aldeia antiga no local, mas a visita foi um grande momento de felicidade para Poriciwi, antes de ele ser levado pela Covid-19.

***

“Jé, a coisa vai apertar.” Recebi a mensagem de minha mãe pelo WhatsApp num sábado de manhã. No dia seguinte, 22 de março, o governo de São Paulo baixou um decreto que colocava os 645 municípios do estado em isolamento social por causa do novo coronavírus. Àquela altura, todos lá de casa previam tempos difíceis, mas não tanto quanto os que tiveram de enfrentar nos últimos meses. A pandemia, mais do que nos encher de preocupações com a saúde, fez minha família retroceder quase duas décadas e voltar à lida no campo.



Nasci e me criei em São João da Boa Vista, a 220 km da capital paulista. Quando completei 18 anos, migrei para Campinas, onde vivo até agora. Nunca, porém, me desliguei inteiramente de São João. É ali que minha mãe, Edilene Penha de Almeida da Silva, ainda mora, aos 46 anos. Ela divide uma chácara modesta com meu pai e minha irmã. Embora habite a zona rural, costumava trabalhar como diarista na área urbana. Fazia faxina em quatro residências e faturava uns 2 mil reais por mês. Logo no início da quarentena, as patroas a dispensaram e suspenderam o pagamento. Minha mãe entendeu. Não parecia mesmo seguro que ela continuasse pulando de casa em casa. Só que meu pai, João Batista, não ganha o suficiente para bancar os gastos domésticos. Ele está com 57 anos e opera máquinas de terraplenagem na construção civil. Minha irmã, Ana Carolina, de 22 anos, também não dá conta das despesas sozinha. Estudante de pedagogia, a caçula da família é estagiária numa escola pública.

“Não tem jeito, filho. Vou apanhar café.” Em outra mensagem, enviada no finzinho de março, minha mãe apresentava a solução para o repentino desequilíbrio econômico dos Silva: iria colher novamente os grãos de uma das principais commodities brasileiras. Ela largou o ofício em 2001, quando se tornou diarista, e imaginava que nunca mais precisaria exercê-lo. A mudança de planos, no entanto, não a deixou para baixo: “Graças a Deus, me resta essa alternativa.”

Os dois ramos de minha família vêm da roça. Os antepassados de meu pai, brancos, foram posseiros no interior de São Paulo e legaram um patrimônio considerável. Toda a riqueza se perdeu na geração de meu avô. Jogo, casos extraconjugais e má administração das propriedades dilapidaram a fortuna. Para meu pai, não sobrou absolutamente nada. Nos tempos dourados, ele queria ser padre e estudou em seminário, mas desistiu da carreira eclesiástica ao perceber que lhe faltava vocação. Com 20 e poucos anos, já empobrecido, virou lavrador. Os ancestrais da minha mãe, por sua vez, eram italianos ou negros, oriundos da Zona da Mata Mineira. Jamais acumularam dinheiro e percorriam milhares de quilômetros à caça de trabalho.

Em 1997, quando eu beirava os 4 anos, meus pais compraram uma casa no Macuco, vila rural de São João erguida pelos antigos posseiros da família. Nós teríamos, enfim, um lar definitivo, depois de viver de favor ou aluguel em outros imóveis do lugarejo. A pequena comunidade é constituída por chácaras e sítios. Uma vicinal asfaltada, que atravessa a vila, conduz tanto à área urbana de São João como à cidade vizinha, Santo Antônio do Jardim. Estradas de terra que saem da vicinal margeiam trechos preservados de Mata Atlântica e passam por propriedades banhadas pelo Rio Jaguari-Mirim. Uma dessas estradinhas cruza os limites paulistas e chega até Andradas, em Minas Gerais.

Nunca vi, a não ser em fotos no Google, a ave que nomeia a vila. “Um bocado de gente caçava macuco para comer”, recordava uma velha tia de meu pai. Ela tinha razão. O Tinamus solitarius, que pode pesar 1,5 kg, já ostentou o status de iguaria. Dom Pedro II apreciava a carne do bicho e, em 1931, o então presidente Getúlio Vargas serviu o prato para uma comitiva italiana que visitava o Rio de Janeiro.

Além das chácaras e sítios, o Macuco dispõe de uma escola municipal, três bares e uma capela dedicada a Santa Luzia, onde se celebram duas missas por mês. Líderes católicos na região, meus pais leem a Bíblia para os fiéis durante as celebrações religiosas e organizam eventos beneficentes. A água que abastece o lugarejo brota de poços cavados pelos próprios moradores, e as fossas domésticas fazem o papel de esgoto. Por não existir correio no Macuco, as correspondências de minha família são endereçadas às casas dos parentes que se encontram na área urbana. A vila conta com eletricidade, mas não tem iluminação pública, o que dificulta as caminhadas noturnas. Em contrapartida, a ausência de luz permite que a constelação de Órion fique nítida a olho nu. A internet funciona relativamente bem. Já os celulares nem sempre têm sinal.

O Macuco se localiza a menos de 20 km de Santo Antônio do Jardim, de Andradas e do Centro de São João. Não à toa, boa parte das cerca de duzentas pessoas que moram na vila trabalha, estuda, faz compras e se diverte fora dali. O deslocamento para as áreas urbanas, de carro ou ônibus, é rotineiro. Como diversas mulheres da comunidade, minha mãe resolveu trocar a enxada pela vassoura porque isso significava melhorar de vida. Abandonar a dureza da roça para ganhar mais na cidade não tinha preço. Impressionado com o avanço “da Dilene”, meu pai logo seguiu os passos dela: deixou a sazonalidade do campo e arranjou trabalho numa empreiteira. Chegou, então, a minha vez. Comecei a pelejar na lavoura aos 14 anos. Ralava de dia e frequentava o ensino médio à noite. Aos 16, me admitiram numa loja de materiais de construção. Foi meu primeiro emprego com carteira assinada. Uma vitória!

 

Fundada em 1824, São João da Boa Vista depende bastante do agronegócio. A cafeicultura, o cultivo de cana e a pecuária sustentam o município, que possui 91,2 mil habitantes. No século XXI, quando se converteu em polo universitário, a cidade perdeu muito do jeitão caipira. Há catorze anos, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo instalou uma unidade de ensino superior perto da Paróquia Imaculada Conceição. Mais tarde, em 2012, a Universidade Estadual Paulista inaugurou um campus junto à rodoviária. Finalmente, em 2014, São João recebeu o primeiro curso de medicina da redondeza, oferecido por uma instituição privada. Vindos do Brasil inteiro, os estudantes atraíram hipermercados, lojas de departamentos e franquias de fast-food.

À semelhança do município, minha família se transformou nos anos 2000. A prosperidade que o país vivenciou ao longo do governo Lula refletiu dentro de nossa casa. Graças a um pequeno empréstimo da Caixa Econômica Federal, aumentamos a cozinha, botamos piso de cerâmica em todos os cômodos e substituímos o forro de madeira por laje de alvenaria. Na garagem, um Chevette 1979, caindo aos pedaços, deu lugar a um Fiat Uno dez anos mais jovem.

Alguns vizinhos aproveitaram os bons ventos e decidiram se mudar para a área urbana. Nós preferimos permanecer no Macuco. O sossego do lugarejo após um dia intenso de trabalho nos revigorava. Em 2012, entre assustado e eufórico, acabei rompendo o cordão umbilical que me prendia à vila. Ganhei uma bolsa do Programa Universidade para Todos (Prouni) e fui estudar jornalismo na PUC de Campinas.

 

Mal a quarentena começou, minha mãe procurou os cafeicultores do Macuco e pediu serviço. Não demorou a conseguir. Numa segunda-feira de abril, antes mesmo de o sol raiar, ela já estava diante dos pés de café. Havia milhares deles, com os grãos bem maduros e prontos para o longo processo que os transmutaria em bebida: a coleta, a lavagem, a secagem, o descascamento, a torrefação e a moagem. Outros moradores da vila acompanhavam minha mãe. O distanciamento social também os obrigara a buscar socorro financeiro na safra do café, que se estende de março a agosto. O grupo incluía minha tia Vanda, igualmente faxineira, minha irmã e um casal de perueiros que transportava crianças para a escola até a eclosão da pandemia.

Dos quatro, a única que jamais tinha enfrentado a lavoura era Ana Carolina. Ela e os primos da mesma faixa etária não precisaram amargar a infância ou a adolescência nos cafezais. Minha irmã tampouco necessitou atacar de empregada doméstica, como a avó, a mãe e duas tias. Em vez de limpar as casas e os apartamentos da classe média são-joanense, pôde cursar uma faculdade, privilégio que só outra mulher da família alcançou: a prima Maria Vitória, que faz odontologia. A universidade, sem dúvida, é a principal aliada dos pobres que sonham desbravar novos caminhos. “A gente deve agradecer a Deus por conseguir que vocês estudem”, repete meu pai com certa frequência.

Apesar das vantagens de que desfrutou, Ana Carolina começou a trabalhar cedo. Arrumou o primeiro emprego antes dos 18, como balconista de uma loja que vendia materiais de construção. Entrou em pedagogia numa faculdade particular de São João e virou estagiária num colégio municipal. Saiu do comércio para cuidar de alunos com transtorno do espectro autista. A condição de universitária, entretanto, não a blindou da crise desencadeada pela pandemia. A escola pública onde faz o segundo estágio interrompeu as atividades em abril, e a Prefeitura cancelou por noventa dias as bolsas pagas aos estagiários. Os 800 reais que minha irmã ganhava por mês cobriam os 600 reais da faculdade e algumas despesas extras. As aulas do curso se tornaram online, mas não houve redução da mensalidade, ainda que os estudantes pudessem adiar os pagamentos sem a cobrança de juros. Como não queria contrair dívida, minha irmã resolveu se aventurar nos cafezais.

Impossibilitado de visitá-los, converso com meus parentes por chamada de vídeo e quase sempre me sinto esquisito. Minha situação também não é das melhores. O vírus roubou parte dos meus rendimentos como repórter freelancer, mas pelo menos não me empurrou de volta à lavoura. Se cheguei até aqui é porque minha mãe, que hoje passa por dificuldades, me ajudou muito com seu salário de diarista. Daí o meu incômodo. Um híbrido de culpa e impotência me atormenta durante as chamadas. Mereço de fato estar onde estou? Não tenho realmente como tirar minha mãe do campo? Me lembro de um texto sobre feminismo negro que li enquanto fazia mestrado em antropologia na Unicamp. M. Lee, estudante de direito no Canadá e autora do artigo, descrevia os temores de sua mãe – pobre, negra e sem diploma – diante da filha universitária. Ela receava que a moça internalizasse os “valores classistas” do meio acadêmico e, em consequência, enxergasse a própria família como fracassada. Ao mesmo tempo, a mãe de Lee estava disposta a tudo para não envergonhar a jovem. Caso necessário, até ficaria longe dela. Penso se, em algum momento, minha mãe sentiu algo parecido. Lee terminava o ensaio com uma advertência essencial para os pretos que, como eu, ingressaram na universidade: “Nós precisamos levar nossas raízes conosco, sem esquecer ou embranquecer nossas origens.”

 

Pouco depois de iniciada a colheita, minha mãe me enviou várias fotos do cafezal. Bem magras, ela e Ana Carolina exibiam apenas o rosto descoberto. Os cabelos estavam presos e se refugiavam embaixo de bonés. As duas usavam blusas de manga comprida, calças, luvas e botas. O sol não dava trégua. A madrugada fria de outono antecedera um dia escaldante. Mesmo assim, nenhuma delas trocou de roupa. Os trajes abafados protegiam de queimaduras solares e de outros ferimentos, comuns em quem passa dez horas diárias na lavoura.

É impossível contar quantas vezes as mãos dos coletores se aproximam dos arbustos carregados de café e retiram os frutos vermelhos dos galhos. Os trabalhadores sustentam nos braços um tecido com 5 metros de comprimento ou mais, que se transforma numa espécie de bolsa pela maneira como é dobrado. Os grãos caem no pano, às vezes junto de folhas. Os agricultores se livram delas e colocam o café em sacos de ráfia, uma fibra extraída da palmeira.

Cada saco de 60 kg rende para os coletores entre 10 e 12 reais, dependendo do empregador e da “carga do cafezal”. Quanto mais café houver na lavoura, menos os trabalhadores recebem por saco. Em conjunto, minha mãe e Ana Carolina apanhavam diariamente uma média de 720 kg. Eram doze sacos, que totalizavam 60 reais para cada uma. Como empregada doméstica, minha mãe faturava o dobro por dia.

De segunda a sexta-feira, as duas acordavam às cinco e meia da manhã, “bem antes das galinhas”, como gostavam de dizer. Chegavam à plantação por volta das 6h20 e partiam às cinco da tarde. Descansavam por quarenta minutos enquanto devoravam o almoço. De casa, traziam os galões de água que tomariam durante o expediente. Mochilas e embornais guardavam as marmitas e algumas frutas. “Foi tudo muito difícil nas primeiras semanas”, relembrou minha irmã. “Eu não sabia direito como fazer e sentia dor em cada parte do corpo – mãos, pernas, braços, costas. Mas ia olhando como a mãe fazia, ia tentando, e aprendi.” Minha mãe também reclamava de dor: “Dói bastante, sim. O jeito é tomar um Dorflex e tocar o barco.” Ela pesa 58 kg, menos do que os sacos de café que precisava carregar.

 

Alverina Gomes de Almeida, a Tuti, minha avó materna, conta que pegou na enxada pela primeira vez aos 5 anos. É quase octogenária e, como nunca estudou, não sabe ler nem escrever. Minha mãe debutou na lavoura um pouco mais tarde, aos 10. A cafeicultura sempre guiou sua família. Na juventude, vó Tuti e vô Sebastião – morto em 2019 – saíram de Minas com três filhos rumo à cidade paranaense de Matelândia, onde moraram durante as décadas de 1960 e 1970. O Paraná figurava, à época, como o maior produtor brasileiro de café.

Os dois agricultores tiveram mais três filhos no Sul, incluindo minha mãe e um bebê que não sobreviveu. Em 18 de julho de 1975, uma terrível geada dizimou as plantações do estado. “Catástrofe! Tristeza sem fim!”, proclamavam os jornais de então. Sem alternativas, o casal regressou com a prole para Minas e não conseguiu mais visitar o túmulo do bebê. Todo Dia de Finados, uma vela acesa homenageia a criança na casa da minha avó.

Em 1982, os Almeida migraram outra vez, agora para o interior paulista. Parentes da vó Tuti já viviam em fazendas nos arredores de São João da Boa Vista, onde os cafezais prosperavam. Assim que terminou a quarta série do ensino fundamental, minha mãe abandonou a escola e se tornou lavradora junto dos quatro irmãos e dos pais. Eram tempos de muita luta e pouco dinheiro. Já ouvi inúmeras histórias sobre aquele período. O guaraná de 1 litro que tinha de ser dividido por sete pessoas. As quermesses na cidade em que a família comparecia sem nenhum centavo no bolso. A alegria da meninada quando chovia forte e não dava para trabalhar no campo.

Aos 18 anos, minha mãe se casou com meu pai. O marido rapidamente virou seu novo parceiro de roça. No dia 10 de agosto de 1993, véspera do meu nascimento, ela ainda suava nos cafezais de São João.

 

Cientes de que a pandemia não poderia interromper a safra do café, o governo estadual, prefeituras e entidades rurais anunciaram uma série de medidas para garantir a segurança dos trabalhadores. Já em março, o Centro de Vigilância Sanitária, ligado à Secretaria da Saúde paulista, solicitou que os empregadores incentivassem os agricultores a higienizar as mãos “com água e sabonete líquido, ou preparações alcoólicas, antes de quaisquer refeições ou após tossir, espirrar ou usar o banheiro”. Recomendou, igualmente, que os lavradores utilizassem máscara durante a colheita e respeitassem a distância mínima de 1 metro entre eles. O transporte dos safristas também deveria evitar a proximidade excessiva dos passageiros. Praticamente tudo que se pede na cidade é pedido no campo, embora nem sempre as lavouras ofereçam banheiros e torneiras.

Minha mãe, claro, temia se contaminar. Ela abusava do álcool em gel, não tirava a máscara e lavava as mãos antes do almoço com a água de beber. “As peruas que levam a turma para a roça estão vazias. Têm quatro ou cinco gatos pingados”, relatava. O número de coletores que vêm de outras cidades caiu consideravelmente neste ano. Nas plantações, havia um esforço para que só os habitantes de uma mesma casa trabalhassem próximos.

Por ora, São João da Boa Vista mantém a Covid-19 sob controle. O município somava 390 infectados pelo coronavírus e 11 óbitos em 25 de agosto. Até o dia 12 de agosto, a zona rural registrava apenas 8 contaminações e 1 morte. Oficialmente, o Macuco continua livre do patógeno, apesar de o isolamento social não se revelar muito rígido. Moradores circulam sem máscara pela vila, jogos de futebol são disputados na quadra local e até confraternizações com dezenas de pessoas têm ocorrido em algumas casas.

Divulgado pelo governo federal em abril, o auxílio de 600 reais por mês para trabalhadores informais aliviaria a situação da minha família. Acontece que, até o início de junho, a quantia teimava em não chegar. Minha mãe e Ana Carolina atendiam aos critérios para requerer a ajuda emergencial. Baixaram o aplicativo do benefício, se inscreveram o quanto antes e receberam três nãos. “Dados inconclusivos”, afirmavam laconicamente as mensagens que negavam o dinheiro. Inconclusivos por quê? Ninguém compreendia direito. “Vai ver o Bolsonaro não gosta da gente”, tripudiava minha mãe.

O Ministério da Cidadania só liberou em junho uma ferramenta para a contestação das negativas. Na época, a Caixa Econômica Federal – responsável pelos pagamentos – informou que 107 milhões de pessoas haviam reivindicado o auxílio e que apenas 59 milhões conseguiram sacar. Fraudes e falhas no sistema atravancavam o processo. Atônita, minha mãe via o noticiário e comentava: “Por sorte, o café nos salvou. Imagine a agonia de quem não pode correr para lado nenhum, como os coitados da cidade grande.”

Caso o auxílio estivesse em dia, provavelmente minha irmã não teria se enfiado na lavoura nem sofrido um acidente de trabalho há quatro meses. Ela escorregou numa ladeira e bateu a cabeça. Coisas assim são comuns na região, uma vez que os cafezais costumam se espalhar por montanhas. “É triste quando a plantação fica num morro”, diz minha mãe. “O pessoal labuta, labuta e labuta para apanhar o café e ainda precisa se segurar para não rolar montanha abaixo.” Semanas antes do imprevisto com Ana Carolina, uma colega dela já havia caído e quebrado o braço. A lavradora voltou ao batente logo depois, usando gesso.

Por orientação médica, minha irmã descansou em casa nos dias posteriores à queda. Uma tomografia demonstrou que nada de grave tinha acontecido. Enquanto estava de molho, Ana Carolina se angustiava: “Como vou pagar a faculdade?” A gente dá um jeito, respondíamos. Ajudar uns aos outros sempre foi nossa maior riqueza.

Em 14 de junho, o governo finalmente aprovou o benefício das duas. Juntas, embolsarão 1,2 mil reais por mês até outubro, o que vai fazer enorme diferença no orçamento familiar. A colheita do café terminou no fim de agosto, e minha mãe se despediu mais uma vez daquele mundo tão conhecido para garimpar faxina na cidade. Com as escolas fechadas, Ana Carolina manteve os sonhos em suspenso e saiu atrás de algum bico.

Jeferson Batista

É jornalista e mestre em antropologia social pela Unicamp

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