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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

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Debaixo dos caracóis

Idéias e andanças de uma ex-maoísta

Luiz Maklouf Carvalho | Edição 24, Setembro 2008

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“Dinheiro eu não dou”, disse Jandira Feghali a uma senhora que se aproximou dela na favela de Manguinhos. A interlocutora arregalou os olhos: “Mas eu só vim agradecer à senhora, porque dinheiro o seu assessor já me deu.” A dirigente do Partido Comunista do Brasil e candidata à prefeitura do Rio de Janeiro ficou sem jeito.

Alta e desenvolta, meio grandalhona, Jandira chama logo a atenção aonde chega. Os cabelos abundantes e anelados – “Sem escova”, sublinha – são sua marca registrada. Já encrencou algumas vezes por causa deles. A vítima mais recente foi o colunista Ancelmo Góis, de O Globo, que afirmou o contrário. “Eu tenho a vaidade da auto-estima, então jamais faria uma escova progressiva para transformar o meu cabelo num cabelo liso.” Ligou para o jornalista, passou-lhe uma carraspana, obteve a correção e voltou a ser feliz.

Jandira cumprimenta com disposição as vinte pessoas que a esperam. Uma delas, de megafone com amplificador na mão, vai anunciando a visita da candidata pelas vielas de Manguinhos. Às tantas, um menino esperto se fizera notar pelo assessor e, ensaiadinho como um quadro orgânico, declinara nome completo e partido da candidata. Conversa daqui, conversa dali, e pimba: ele sacou do bolso uma embalagem de Concor, o remédio da mãe cardíaca. O assessor puxou a carteira. Jandira, que estava longe, não assistiu à cena. Quando a mãe veio agradecer a caridade já feita, a candidata lançou um olhar na direção do assessor. Ficaram ambos meio ressabiados e deu-se o caso por encerrado.

Em outra ação eleitoral, o assistencialismo foi menos involuntário e teve sinal invertido. A pedinte era Jandira. Num almoço oferecido pelo Sindicato das Empresas do Transporte Rodoviário de Cargas e Logística do Rio de Janeiro, o que estava em causa não era troco para remédio, mas um caminhão.

O que os anfitriões queriam de imediato era a promessa de que a candidata, se eleita, revogaria o decreto municipal que restringe o horário de circulação de veículos de carga. Jandira prometeu – e ainda disse que cumpriria nos primeiros dias de sua administração. Foi aplaudidíssima, e aí aproveitou: “Como nós não vamos comprar votos e vamos andar muito, eu espero que vocês me dêem um caminhão, que depois pode até virar o gabinete itinerante da prefeita.”

O empresário Cézar Holanda, presidente do Sindicarga, não negou fogo: “Eu gostaria de dizer à nossa madrinha Jandira que o caminhão vai ter ar-condicionado e vai ter também uma rede. É o meu presente, do Ceará. Eu mesmo vou armar!” “Não foi pragmatismo meu”, diria Jandira mais tarde, a respeito do pedido. “Pensei aquilo na hora. Foi uma criatividade vinculada
a um sentimento democrático, de fazer um gabinete itinerante da prefeitura para girar os bairros da cidade.”

 

Jandira Feghali se formou em medicina aos 22 anos. Quase foi desencaminhada pelo irmão mais velho, Ricardo, que tentou levá-la para o conjunto Roupa Nova. Ela tocou bateria, se profissionalizou e chegou a fazer parte de uma banda chamada Los Panchos. No fim, nem bateria nem estetoscópio. Preferiu as urnas. Em 1986, elegeu-se deputada estadual constituinte do Rio de Janeiro e não parou mais. Ou parou: depois de ser eleita quatro vezes para a Câmara Federal, perdeu a campanha para o Senado. Foi brecada por Francisco Dornelles e por uma campanha de gosto duvidoso em que a criminalizaram por defender a legalização do aborto.

A comunista Jandira não se aborrece quando lhe perguntam se acredita em Deus. “Acredito”, responde, sem nada daquela atrapalhação que uma vez pegou Fernando Henrique Cardoso. “E não vejo contradição nenhuma. É a dimensão espiritual.”

Ela é da estirpe dos que tentam sempre calcular as respostas. Lula? “Grande sensibilidade popular.” Sérgio Cabral? Pausa prolongada. “Hábil” – e mais não diz. Crivella? Espinhoso: “A candidatura do bispo Crivella representa a pluralidade e a diversidade do Rio de Janeiro.” George Bush? Essa vem de bate-pronto, com uma contundência que dá até medo: “Inimigo da humanidade!” José Dirceu? Quase sinuca: “Ele já está punido, eu não gostaria mais de opinar sobre pessoas que já foram claramente… Acho que ele já teve as devidas… Já foi claramente… O que é que eu vou dizer? Não sei nem que palavra usar…”

Melhor falar de Cesar Maia. Aí, é pedrada sem hesitação: “Autoritário”, “imperial”, “gestão criminosa”, “vou auditar as contas da prefeitura”. Maia não fica atrás. Agora que decidiu não mais administrar a cidade, um de seus esportes prediletos é provocar diariamente Jandira no seu ex-blog. Batizou o penteado dela de “Luís XIV”, o que é golpe baixo, porque as vastas madeixas da candidata nem se parecem tanto assim com a peruca do Rei-Sol.

Jandira explica que “comunista vem de comum, de comunidade“. Ser comunista no mundo de hoje “é saber que as coisas só podem ser resolvidas no plano coletivo. Isso tudo que está aí, o atual regime capitalista, não deu solução. Continuo acreditando no socialismo”. E também na luta de classes, que “é real, existe, é fato”, afirma. “Mas nós faremos uma prefeitura nos marcos de um país capitalista. Será uma prefeitura do campo popular, que aposta na aliança do setor produtivo contra a financeirização dos recursos.” Deixa claro que sua formação teórica inclui leituras “muito exigidas” de Marx, Engels e Lênin.

A campanha a faz acordar cedo – às 6h30, diz – e dormir tarde. Mesmo que o rosto exiba cansaço e, às vezes, até algum enfado, sobra disposição para as palavras. Foi assim no encontro com cerca de vinte diretores e produtores de cinema que pediam mais verbas públicas para a Riofilme. Jandira chegou com uma hora de atraso, vestindo a mesma roupa com que saíra de casa de manhã. Registre-se sua paciência para ouvir a lamentação dos presentes. Lá pelas onze da noite, achou que era hora de aplicar outra sova verbal em Cesar Maia e ainda teve fôlego para desfiar todas as promessas da campanha, entre a quais, sim, a de que a Riofilme será alavancada.

Algumas promessas já vêm sendo quebradas antes mesmo da eleição. No caso, de correligionário. Na segunda quinzena de agosto, Cézar Holanda disse que o pedido de Jandira havia sido “uma brincadeira” e que ela não ganharia caminhão nenhum. “Mas a rede eu vou dar”, gracejou. Resta saber onde pendurá-la. Até ali, Jandira ocupava o segundo lugar nas pesquisas. Dias depois, foi ultrapassada pelo candidato Eduardo Paes.