esquina

Delação anônima

Constrangimento é coisa do passado para denunciar o mau hálito

Mariana Filgueiras
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Ao entrar em casa, voltando de uma prova, Carlos Junior da Rocha notou que era o primeiro a chegar à república de estudantes em que morava no bairro Lourival Parente, em Teresina. Notou um envelope preso na soleira da porta, meio escondido pelo capacho. Rocha estranhou – não era lá de receber cartas. Sua mãe, que morava com a família em Parnaíba, no interior do estado piauiense, só lhe dava notícias do pai e dos três irmãos por telefone, aos domingos. Mas o destinatário era ele mesmo.

Ficou imaginando se não seria propaganda quando viu o remetente – uma tal Associação Brasileira de Halitose, ABHA. Parecia mesmo mala direta: em tom burocrático, o texto apresentava o programa SOS Mau Hálito. Rocha começou a ficar cismado quando viu que talvez fosse com ele mesmo. “Um amigo próximo a você solicitou que entrássemos em contato para alguns esclarecimentos”, informava. Cheio de dedos, o texto discorria sobre as causas e o diagnóstico do mau hálito e oferecia ajuda: “Caso você se identifique com esse problema, estamos à disposição para esclarecer, informar ou mesmo indicar um profissional qualificado.” Não havia dúvida: a carta era uma insinuação diplomática de que ele tinha bafo.

O estudante de 18 anos confirmou mais uma vez que estava sozinho em casa e correu para esconder o envelope na gaveta de um armário. Não, dentro de um caderno seria melhor. Ou quem sabe embaixo do travesseiro. Estava desnorteado. Tirou a carta do esconderijo provisório e a releu. Pôs a mão em concha na frente do nariz e expirou forte, mas não sentiu cheiro de nada. Voltou ao trecho da carta em que a associação se eximia da responsabilidade por um eventual trote. “Não estamos livres de e-mails enviados por pessoas que queiram fazer brincadeiras de extremo mau gosto”, alertava. Era isso: só podia ser gozação de algum colega, Rocha tentou se convencer.

Mas continuava encucado. Sentado na cama com a carta na mão, lembrou-se sobressaltado da primeira namorada. Assaltou-lhe o espírito a cena do primeiro passeio que fizeram a sós, no rio Parnaíba. A moça passara o dia se esquivando dos seus beijos. Na época ele achou que fosse por timidez, mas o comportamento ganhava novos contornos diante da denúncia anônima. “Será que…?”, Carlos imaginou, sem coragem de completar o raciocínio. Agora tinha certeza.



Alguns dias antes, a carta que tanto o transtornara havia sido envelopada e lacrada pelo próprio presidente da ABHA, o dentista paulistano Marcos Moura. Tratava-se da mensagem padrão do programa SOS Mau Hálito, serviço criado para poupar amigos e parentes do constrangimento de avisar alguém de seu bafo. É muito fácil fazer a delação: basta mandar o nome e o endereço ou e-mail do suspeito. “Recebemos cerca de 150 pedidos de envio de cartas anônimas por semana”, contou Moura. “E-mails são muito mais.”

O serviço foi criado em 1998, num congresso de odontologia em Brasília. A dentista baiana Ana Kolbe foi quem organizou a iniciativa – o programa chamava-se então Clique Mau Hálito. “O mais difícil em todo o processo era fazer as pessoas perceberem que tinham o problema”, explicou ela. “Quem tem mau hálito não sente o cheiro porque o olfato se acostuma. Começa a ser rejeitado socialmente, mas não sabe por quê, e isso pode levar a perder emprego e até a acabar casamento.” Kolbe fala com conhecimento de causa: ela própria foi casada com um portador de halitose, como o problema é chamado pelos especialistas. Mas garante que essa não foi a causa do divórcio.

 

Na avaliação de gente do meio, um brasileiro em cada três sofreria de mau hálito, o que equivale a 57 milhões de pessoas – quase uma França inteira com mau odor bucal. A ABHA oferece estatísticas e curiosidades sobre a halitose para todos os gostos. Afirma, por exemplo, que a doença é mais comum entre adolescentes e idosos do que na média da população. E assevera que existe até a “halitose imaginária”, provocada por alucinações olfativas.

O mau hálito não escolhe gênero, credo ou cor. Que o diga David Beckham, galã do futebol inglês acusado há três anos pelo Daily Mail de ter o problema. Seu bafo, afirmou o tabloide, era provocado pelas vinte pílulas de suplemento alimentar sabor peixe que ingeria pela manhã – uma obrigação contratual por ele ser garoto-propaganda das drágeas infames.

Se Beckham foi mesmo vítima desse implacável infortúnio, estava ao lado de alguns protagonistas da história do século XX na galeria de notórios bafos de onça. O camarada Mao Tsé-tung, por exemplo, a julgar pelo relato de seu médico, não era dado a escovar os dentes (aos que ousassem aludir ao fato, ele retrucava que “um tigre não precisa escová-los”). Adolf Hitler é outro líder de quem não convinha ficar muito perto. Se a denúncia do mau hálito fosse tão frequente quanto outros tipos de delação na Alemanha nazista, talvez ele tivesse se tratado e a história teria sido diferente.

Delação não foi o que faltou à dançarina brasileira Laura Keller, que se apresenta em inferninhos sob o codinome de Mulher Múmia. Um antigo namorado, o dançarino e ex-BBB Kleber Bambam, revelou ao vivo num programa de tevê o apelido maldoso de sua ex: Mulher Bafinho. Múmia preferiu não comentar o caso, mas segue com a boca coberta por gaze, como parte do figurino de seu show.

Para se evitar a delação anônima, ou em cadeia nacional, a dica dos especialistas é que, na dúvida, se recorra à sinceridade implacável das crianças. Não foi o que Carlos Junior da Rocha fez. Depois de receber a denúncia por carta, preferiu perguntar a um amigo, que negou o seu bafo, como muitos adultos fariam. Mas a tormenta da incerteza acabou levando-o a buscar orientação médica.

Descobriu que, de fato, tinha o problema, e a causa era a baixa salivação – um fator comum por trás da halitose, junto com gengivites e excesso de saburra da língua. Seu tratamento envolveu o uso de medicamentos e uma mudança de hábitos – passou a beber mais água e a mastigar melhor. Com três meses, estava livre do odor. Ficou tão confiante que decidiu arriscar odontologia no vestibular. Em agosto, começou a namorar.

Mariana Filgueiras

Mariana Filgueiras é jornalista.

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