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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

esquina

Demência 13 é médio

3 834 filmes depois, ele conquistou um lugar entre os dez-mais

Clara Becker | Edição 33, Junho 2009

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É sábado à tarde num apartamento da Tijuca, bairro de classe média do Rio de Janeiro. O engenheiro naval Claudio Carvalho, de 53 anos, assiste ao filme Demência 13, de Francis – “Ainda sem o Ford”, sublinha, com minúcia de especialista – Coppola. Precária, a cópia do longa-metragem de 1963 não faz jus às seis caixas de som, ao sistema surround, à tevê plana e demais traquitanas que levam o cinema para dentro da casa de Carvalho.

O que não o impede de se concentrar no enredo do filme de horror. Já na primeira cena, de caneta na mão, ele encontra razões para sair anotando com fúria de grafômano: Louise, John, greedy, heart attack, dump in the lake. “Escrevo direto em inglês para facilitar o trabalho”, avisa. Terminado o filme, ele ocupa a cadeira diante do computador e, de um golpe, produz uma resenha. “Curious to see in 2009” é a primeira frase que digita.

Quarenta minutos depois, o texto, pronto, será enviado para o IMDB.com, onde se juntará às outras 3 834 colaborações de Carvalho ao site. Longe dele a ambição de ser considerado um novo Paulo Emílio Salles Gomes ou um Alex Viany, mas ninguém lhe tira a distinção de ser atualmente – e com folga – o mais prolífico crítico de cinema do país.

O IMDB, The Internet Movie Database [Banco de Dados de Cinema na Internet], é uma das principais fontes de informação sobre cinema, televisão, música, comerciais e jogos de computador na rede. Criado em 1990 e comprado pelo Amazon em 1998, acessado 57 milhões de vezes por mês, arquiva perto de 1,5 milhão de resenhas, todas enviadas gratuitamente. Um filme pode receber mais de uma crítica, não há limite. A única regra é que sejam escritas em inglês.

Com seis anos de casa, Carvalho é o quinto colaborador mais fértil do IMDB. Seu concorrente número 1 é americano, professor de psicologia e história, autor de 6 392 comentários assinados com o pseudônimo planktonrules, algo como “os plânctons mandam no pedaço”. (Cinéfilos têm dessas esquisitices.)

A produtividade de Carvalho é notável – são quase duas resenhas por dia –, ainda mais em se tratando de um relativo novato. Tudo começou em 17 de junho de 2003, uma terça-feira. Ele acabara de assistir pela primeira vez ao filme Anazapta, um thriller de 2001 ambientado na Idade Média, durante a Peste Negra. É possível que o leitor não esteja ligando esse título a coisa nenhuma (não estará sozinho). É que o filme não foi longe, apesar de atores como Jason Flemyng, Lena Headey e David La Haye – este no papel de um personagem corajosamente batizado de Jacques de Saint Amant – e da direção sempre vigorosa de Alberto Sciamma. A frase criada para divulgá-lo – “Eu destruirei tudo: o servo que te obedece, o médico que te cura e o padre que te absolve” – acabaria por se revelar profética. Na sanha de destruir tudo, foi-se também o público.

Sobrou Claudio Carvalho, que resiste ao que vier. “Uma obra surpreendentemente boa”, afirmou com sinceridade. À época, acostumado a um regime de quinze filmes por semana, Carvalho começava a notar que sua cabeça já não guardava boa parte do que via. Decidiu que a solução seria resenhar tudo, indiscriminadamente. Ao terminar a última frase da crítica de Anazapta, num inglês que se aperfeiçoaria muito com os anos – “Indeed a good movie and fans of movies of Middle Age will not be disappointed [De fato um bom filme e fãs de filmes sobre a Idade Média não se desapontarão] –, teve uma certeza: era amor à primeira crítica.

 

No início ele não tinha estilo definido; precisaria de tempo para encontrar uma voz própria. Hoje suas críticas seguem uma estrutura rigorosa: sinopse, opinião, nota e tradução do título para o português. Para dar fluência ao texto, ele usa os verbos sempre no presente, truque que aprendeu num curso de roteiro. Sério e metódico, não lê revistas de cinema nem críticas em jornais, “para não ser influenciado”.

Também não vai ao cinema. “Me irrito com o barulho das pessoas comendo pipoca e rindo na hora errada”, diz Carvalho, repetindo uma reclamação cada vez mais frequente entre cinéfilos. Colecionador fervoroso desde 1985, orgulha-se de ter 13 mil títulos: 6 mil em VHS e 7 mil em DVD. Cada um deles traz uma etiqueta amarela com a data em que foi visto e a impressão que deixou no crítico.

Seu gosto, eclético, percorre toda a gama que separa Coppola de Sciamma e se espraia por outras infinitas direções. Há clássicos de Hollywood, histórias bíblicas e raridades nacionais, como Amor, Estranho Amor, filme banido do mercado no qual Xuxa Meneghel, nua, desperta a volúpia de um baixinho. “Lamento que as futuras gerações não vejam esse filme”, diz Carvalho. Talvez elas tenham dificuldade também em encontrar uma cópia de Limite (1931), de Mário Peixoto; o melhor filme brasileiro de todos os tempos, segundo Carvalho (e aqui ele não está sozinho), ainda não existe em DVD – a cópia dele é em VHS. No topo de seu panteão estão os clássicos Casablanca, A Malvada e Crepúsculo dos Deuses.

De um ano para cá, ele enfrenta o grave problema de espaço físico. Todas as estantes, gavetas, paredes e prateleiras de seu apartamento de 140 metros quadrados já estão ocupadas por filmes. Os mais recentes jazem em caixas de papelão na área de serviço. Banheiro e quarto de empregada viraram trincheiras em que o visitante é obrigado a entrar de lado. Lílian, a mulher de Carvalho, teme pelo dia em que encontrará um DVD no freezer ou no armário da cozinha. “Isso só não aconteceu porque o frio e a gordura estragam o filme”, ele diz. Da família, apenas a filha Jéssica, de 23 anos, parece acompanhar a paixão do pai. Colaboradora do IMDB desde 2005, já adicionou 500 resenhas ao patrimônio do site.

 

Para quem se interessou por Demência 13, aqui vai a opinião de Carvalho, postada no dia 18 de abril: “Esse filme em preto e branco tem um início abrupto, no qual inexiste qualquer desenvolvimento prévio dos personagens ou situações. Segue-se daí um enredo sobre demência e maldição familiar, previsível e cheio de falhas, que copia claramente o estilo de Hitchcock. Dou nota 5.”  Quem preferir correr menos riscos hoje à noite pode experimentar Anazapta. Carvalho deu um 8 às aventuras do nobre Jacques de Saint Amant.