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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

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A denúncia e o castigo

O infortúnio dos irmãos Miranda após delatarem corrupção

Breno Pires | Edição 194, Novembro 2022

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No Congresso Nacional, o corporativismo é lei, e a máxima “amanhã pode ser você” serve de advertência para que deputados e senadores nunca denunciem transgressões de seus pares. O deputado federal Luis Miranda (Republicanos-DF) ousou romper essa norma tácita. Em junho de 2021, no auge da pandemia, ele e seu irmão, o servidor público Luis Ricardo Miranda, denunciaram um esquema de corrupção no coração do Ministério da Saúde, envolvendo a negociação do item mais urgente do mundo: a vacina.

Os irmãos Miranda levaram o caso em primeiro lugar a Jair Bolsonaro, que lhes teria dado o nome do parlamentar responsável pelo esquema. “Isso é coisa de fulano”, foi a resposta do presidente que o deputado Luis Miranda citou na CPI da Covid, alegando não lembrar quem seria o tal fulano. Espremido por seis horas na CPI, em 25 de junho, ele finalmente deu nome aos bois: “Foi o Ricardo Barros que o presidente falou.” Barros (PP-PR) era – e ainda é – o líder do governo na Câmara dos Deputados.

Um ano e meio depois, o Miranda parlamentar, destroçado pela máquina de propaganda bolsonarista, não conseguiu se reeleger (candidatou-se, desta vez, por São Paulo). O Miranda servidor público, ameaçado de morte, ingressou no serviço de proteção de testemunhas da Polícia Federal e, segundo o irmão, deixou o Brasil.

Luis Miranda acredita que três forças minaram sua candidatura: o ataque nas redes sociais, que ele atribui ao “gabinete do ódio, com hackers profissionais”, a polarização ideológica que marcou a eleição e seu isolamento no Congresso, que resultou até no bloqueio de suas emendas parlamentares. Esta última é a mais grave, pois foi uma punição com as marcas do Poder Executivo. “Eles acabaram comigo”, diz o deputado, que está em seus últimos meses na Câmara – o mandato termina em 31 de janeiro. “Mas estou firme acreditando que ainda posso ajudar o nosso país.” Com esse espírito, ele continua denunciando o governo Jair Bolsonaro.

Agora, o deputado contou à piauí que, em retaliação à sua denúncia de corrupção nas negociações para a compra da vacina Covaxin, o governo cortou 40 milhões de reais em emendas “extras” que lhe havia prometido. A verba não fazia parte de sua cota regular de emendas individuais, mas seria concedida em troca do seu voto a favor do governo em pautas sensíveis na Câmara, com destaque para uma votação específica: garantir que Arthur Lira vencesse a eleição para presidente da Casa, em fevereiro de 2021.

De início, seu apoio a Lira pegou bem. “Prometeram 20 milhões de reais para colocar em obras e estradas aqui no Distrito Federal, pelo Ministério do Desenvolvimento Regional”, diz Luis Miranda, que tratou do tema com o presidente da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). Ele esperava outros 20 milhões por emendas disponibilizadas no Ministério da Educação, mas a verba foi barrada depois que os irmãos fizeram a denúncia. “Me tiraram tudo [os 40 milhões de reais] depois dessa confusão. Não recebi nada.”

Para se eximir de responsabilidade, Bolsonaro gosta de dizer que o orçamento secreto é “coisa do Congresso”, como se ele não tivesse o poder de barrar a liberação das emendas – poder que, no caso, usou sem titubear. Procurada para explicar os cortes de emendas alegados pelo parlamentar, a secretaria de comunicação da Presidência não respondeu.

 

O deputado Luis Miranda enfrentou um processo de meses no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara, acusado de agir de “má-fé” ao revelar a conversa com Bolsonaro, ocorrida em 20 de março de 2021. Terminou absolvido. A pedido do Planalto, a PF tentou incluir Miranda como investigado por denunciação caluniosa, mas a Procuradoria-Geral da República descartou investigá-lo. A própria PF e o Ministério Público Federal concluíram, neste ano, que houve fraudes e estelionato envolvendo o dono e diretores da Precisa Medicamentos, a empresa envolvida no esquema da Covaxin. O MPF apresentou uma denúncia, mas o processo foi paralisado por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

Ao lado da ofensiva legal contra Miranda, havia outra frente de ataque, nos subterrâneos digitais. O deputado diz que sua campanha à reeleição foi sabotada por fake news e pelo uso de robôs. As acusações que lhe faziam eram variadas. “Disseram que eu traí o presidente, que menti para promover a CPI, que me aliei a Renan Calheiros, que queria grana e que, como o presidente não me deu, tentei prejudicá-lo.” Miranda garante que a história foi bem diferente: ele diz que, na verdade, tentou ajudar o presidente: “Fui até ele avisar que meu irmão tinha dado depoimento à PF sobre possível corrupção na Covaxin e que ele deveria agir antes que isso se tornasse um problema midiático. Se ele não fez nada, eu não poderia mentir na CPI e complicar a minha vida para protegê-lo.”

Miranda afirma que as suas contas nas redes sociais tinham visualizações mensais na faixa de 10 milhões, mas sofreram queda de 90% no período eleitoral. Levantamentos apontavam São Paulo como a cidade onde ele tinha a maior audiência, mas, de repente, a ação de hackers, segundo ele, dirigiu para Moscou, na Rússia, a maior parte das visualizações e congestionou suas redes sociais, impedindo que outros tivessem acesso.

Para apoiar a afirmação, ele recorre ao relatório que encomendou à Convexum, uma empresa de monitoramento e comunicação digital. O documento contabiliza o prejuízo causado por robôs que sabotavam suas postagens e por anúncios pagos em rede social.

Um terceiro fator teria esvaziado a campanha de Miranda: depois de seu depoimento à CPI, ele ficou sem lugar em um cenário político fortemente polarizado. “Tive aceitação enorme e carreatas com milhares de pessoas. Porém, em todo o momento perguntavam: ‘Você é Bolsonaro, não é?’”, conta. O deputado diz que não é contra Bolsonaro, mas contra a corrupção. “É impossível a gente se calar sabendo da corrupção na vacina, devidamente comprovada agora pela CGU, pelos órgãos de controle e pelo Ministério Público Federal, que pediu o indiciamento dos envolvidos.” Luis Miranda esperava ter 100 mil votos em São Paulo. Conseguiu somente 8.931.

 

Naquela distante noite em que eletrizou o país na CPI, o deputado Miranda desabafou, como que prevendo o infortúnio: “Vocês não sabem o que eu vou passar por apontar um presidente da República que todo mundo defende como uma pessoa correta.” De forma incisiva, ele criticou a falta de ação de Bolsonaro: “Que presidente é esse que tem medo de pressão de quem está fazendo o errado? De quem desvia dinheiro público das pessoas morrendo pela porra dessa Covid.”

De saída do Congresso, Miranda não se conforma com a eleição recente de acusados de corrupção. “Você tem o presidente do PL [Valdemar Costa Neto, que cumpriu pena por corrupção], que conseguiu a maior bancada do Congresso. Algo incrível. Você tem o próprio Ricardo Salles [ex-ministro do Meio Ambiente, investigado em um esquema de exportação ilegal de madeira, eleito deputado federal], e tantos outros acusados de corrupção, devidamente comprovada ou com o processo em andamento, que tiveram êxito exemplar”, diz. “A população não liga se a pessoa rouba. O que importa para o eleitor de direita é o alinhamento do candidato com Bolsonaro ou se ele é contra o comunismo no Brasil. É essa a narrativa.”

Também exasperam o deputado os ex-aliados que romperam com Bolsonaro, mas depois se curvaram ao presidente em busca da reeleição. “Sergio Moro estava perdendo, fez uma reaproximação com Bolsonaro e se elegeu senador pelo Paraná”, diz Miranda. “A esposa dele [Rosângela Moro, eleita deputada] fez o mesmo aqui em São Paulo. Pablo Marçal, que falou mal do Bolsonaro na campanha, depois de se render e falar ‘Bolsonaro na cabeça’ também se elegeu.” Miranda acha que a população está “hipnotizada” – parte dela por Bolsonaro, parte por Lula.

A piauí tentou ouvir o servidor Luis Ricardo Miranda, que desde outubro de 2021 vive em um país cujo nome não pode ser revelado, segundo o irmão parlamentar. Por razões de segurança, não foi possível contatá-lo. A PF não dá informações sobre integrantes de programas de proteção. “O meu irmão sempre fala que nós destruímos a nossa família para proteger a vida do povo do Brasil. Que um dia, quando ficar tudo inteiramente comprovado, se porventura ficar, nós vamos ser tidos como heróis”, diz o parlamentar Luis Miranda. “Mas, até lá, nós somos os homens que perderam.”