esquina

Depois da chuva dourada

O performer que chocou Bolsonaro

Guilherme Pavarin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Na sala de sua casa-ateliê no Centro de São Paulo, o artista performático Paulx Castello coça a barba com gestos delicados. Seus cabelos são curtos, raspados dos lados, no estilo moicano. Ele usa óculos de armação dourada fina e veste bermuda e uma camiseta preta longa. Seu tênis é preto, sem marca aparente. A indumentária seria a de um típico jovem paulistano descolado, não fosse um mero disfarce.

Há mais de três meses, Castello, 29 anos, vem tentando apagar a imagem com que ficou conhecido em todo o país no último Carnaval. Na segunda-feira, dia 4 de março, ele e um parceiro artístico subiram no alto da cobertura de um ponto de táxi durante o desfile de um bloco LGBTI+ no Centro da cidade e resolveram apresentar uma performance que vinham ensaiando havia alguns dias. Primeiro, Castello, vestido de bustiê preto e cueca tipo jockstrap (que deixa o traseiro à mostra), curvou-se para exibir as nádegas para os foliões na rua; em seguida, jogou os cabelos (então longos) para a frente e esperou que sobre eles e sua cabeça o amigo urinasse à vontade, à vista de todo mundo.

“Subimos pra fazer o que a gente sempre faz. Sei lá, deu uma vontade de se explorar sexualmente numa situação que não caberia ou que precisaria de validação. E a gente estava interessada em invadir o imaginário das pessoas”, disse Castello à piauí. Ele contou que repetiu a performance por quase quatro horas, com intervalos, no meio da rua e nas calçadas. “Estávamos seguros naquele ambiente, em torno de um carro alegórico, cercado de bichas cantando. Sempre rola um estranhamento, mas alguns elogiaram e a maioria nem ligou.”

No dia seguinte, um vídeo da performance, de cerca de 1 minuto, foi postado pelo presidente Jair Bolsonaro no Twitter – onde ele tem cerca de 4,5 milhões de seguidores –, acompanhado de crítica aos blocos carnavalescos de rua. A repercussão foi gigantesca e, poucos minutos depois, uma multidão de brasileiros estava discutindo essa prática antiga das artes do erotismo: o golden shower, ou chuva dourada, em português.



Castello achou graça da postagem do presidente, quando a viu pela primeira vez. Logo em seguida, ao se dar conta da repercussão, entrou em pânico. “Foram mais de mil mensagens em pouquíssimo tempo na rede. Eu estava na rua, fui para casa na mesma hora.”

Com medo de agressões, Castello e o amigo passaram três dias trancados na casa-ateliê. Entraram em contato com advogados, que os instruíram a trocar o número dos celulares e a apagar os perfis nas redes sociais. Os dois também se afastaram dos amigos próximos. No quarto dia, como o episódio do Carnaval continuava a ser discutido e a imprensa tentava descobrir a identidade dos performers, os dois decidiram se metamorfosear.

“A gente se travestiu de heterossexual padrão”, afirmou Castello. Além das roupas sóbrias, os dois adotaram agasalhos com capuz, para ocultar um pouco o rosto. “A gente precisava estar invisível na rua, e essa é a identidade invisível, né?” Pegaram um carro emprestado, deixaram São Paulo e foram para uma cidade do litoral paulista – sem data para voltar.

 

Paulx Castello usa o prenome artístico há três anos. O “x” serve para indicar que não se sente confortável com nenhum gênero sexual pré-definido. Como a letra, nesse caso, é pronunciada como “i”, seus amigos e conhecidos o chamam de Pauli.

No registro civil, seu nome é Paulo. Nasceu na capital paulista, filho de uma família de classe média alta. No colégio particular onde estudou foi vítima de bullying, por causa do jeito afeminado. As perseguições continuaram até o ensino médio, que ele desistiu de completar, trocando por um supletivo. Na nova escola, sentiu-se livre para expor a sexualidade. “Já entrei bicha”, resumiu, enquanto enrolava um cigarro de palha. “Estava mais seguro. Usava caneta de pluma, bolsão, ninguém mexia comigo.”

Optou por fazer faculdade de moda. Graduou-se em estilismo no Senac e trabalhou como figurinista de teatro. Aos 23 anos, foi para Buenos Aires fazer um curso de arte contemporânea na Universidade Nacional das Artes (UNA). Passou a fazer performances e vídeos com temas ligados à pornografia e à religião.

Foi na Argentina que teve contato com o movimento da pós-pornografia, surgido nos Estados Unidos no final dos anos 80. “A pornografia reafirma estereótipos de gênero, de corpo, de relação, reforça a misoginia e o falocentrismo. A pós-pornografia remexe, critica, discute tudo isso de alguma forma”, disse. Adotou como referências intelectuais a ex-atriz pornô e sexóloga Annie Sprinkle – que difundiu o termo post-porn – e o pensador transgênero espanhol Paul B. Preciado. “O que fiz com o golden shower conversa com isso. As pessoas falaram do tema bem mais do que eu planejava”, completou, rindo.

O assunto deve continuar vivo no imaginário brasileiro enquanto Bolsonaro estiver no poder. O vídeo do Carnaval, porém, desapareceu da página do presidente no Twitter. Foi apagado após os advogados dos performers, evocando violação do direito de imagem e de direitos autorais, impetrarem um mandado de segurança contra o compartilhamento feito por Bolsonaro.

Depois disso, Castello se sentiu seguro para deixar o esconderijo. “Tínhamos ido para um lugar muito afastado no litoral, e as pessoas pareciam não ligar para o que estava acontecendo na política ou com Bolsonaro”, disse. “Ninguém nos reconheceu, mas ficamos muito preocupados, a gente se perguntava quando deixariam de falar no assunto.” De volta a São Paulo, ele concluiu que tinha cumprido uma missão. “No ‘hackeamento’ do imaginário, deu muito certo. Ser pivô de uma pequena crise no governo Bolsonaro foi uma honra.”

Castello está cheio de planos. Um deles é lançar, ainda este ano, uma produtora de filmes pós-pornográficos. “Já estava com o projeto na cabeça, mas vou acelerar pra aproveitar o empurrãozinho que o Bolsonaro deu.” Não serão filmes pornôs quaisquer, ele garante, mas “transfronteiriços”. Tanto assim que o foco principal será o prazer dos atores, e não o dos espectadores: “Estamos aqui para quebrar as expectativas, queremos gozar e dividir nossos prazeres desviantes.”

Guilherme Pavarin

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