questões ludopédicas

Depois do 7 x 1

O “verdadeiro futebol brasileiro” está matando o futebol brasileiro

Nuno Ramos
O futebol é o único esporte com disparidade tão grande entre o possível (as jogadas, a iminência do gol) e o efetivamente realizado (o placar final); o 7 x 1 da Alemanha pertence às raras exceções em que não dá para imaginar outras possibilidades
O futebol é o único esporte com disparidade tão grande entre o possível (as jogadas, a iminência do gol) e o efetivamente realizado (o placar final); o 7 x 1 da Alemanha pertence às raras exceções em que não dá para imaginar outras possibilidades FOTO: ROBERT CIANFLONE_GETTY IMAGES_2014

A

bsolutamente globalizado e absolutamente singular, o futebol contemporâneo parece oferecer-se como um cordeiro à moenda contemporânea, ao mesmo tempo que escapa a ela como ninguém. Pois acho difícil negar que estamos vendo, em Copas do Mundo, Champions League e em alguns poucos momentos de campeonatos regionais, alguns dos melhores jogos de todos os tempos, com uma riqueza tática, potência física e primor técnico impensáveis há alguns anos. Toda vez que me confundo numa Bienal, em que me perco (como me perdi na Feira de Frankfurt) na imensidão kafkiana de uma feira de livros, gosto de lembrar que a bola continua rolando, a grama levantando, gols extraordinários saindo. Messi, Cristiano Ronaldo, Robben, Neuer, Neymar, são alguns dos maiores jogadores de todos os tempos e arrebentariam em qualquer Copa do Mundo anterior àquelas em que participaram. Se o futebol, com toda a pressão midiática, econômica e de padronização de imagem (capitaneada pela grande estrela, a câmera lenta em close), continua produzindo surpresas, dribles novos, gols impensáveis (o de Van Persie contra a Espanha, por exemplo, talvez a cabeçada mais bonita que já vi, incluindo a famosa de Pelé contra Banks), algo semelhante, tenho a esperança, deve estar ocorrendo na área da cultura.

A globalização e as cifras improváveis, o controle do jogo pela repetição das imagens em close, a hipérbole do preparo físico, a hipérbole das estatísticas, a hipérbole dos técnicos e dos esquemas táticos não conseguem furar a cifra básica do jogo: futebol está armado sobre um chão movediço e improvável, aberto ao acaso e à frágil exceção. O mundo contemporâneo parece querer controlar esse animal disjuntivo, orgulhoso em sua fuga, e quanto mais o procura menos o alcança. Vejo no futebol quase que um resíduo cultural de contato com o risco e o improvável, o detalhe fatal e a injustiça final, que se opõe às 700 monadas discursivas, todas voltadas para si mesmas, que organizam o mundo contemporâneo, anodizando-o.

Já escrevi antes sobre esse ponto, então resumo aqui rapidamente: o placar simplesmente não dá conta do significado do jogo, isto é, de suas possibilidades. O futebol, neste sentido, é o único esporte com tamanha disparidade entre o possível (as jogadas, a iminência do gol) e o efetivamente realizado (o placar final), que parece sempre em débito, aquém do que de fato se passou.

Não que com isso absurdos constantes aconteçam, o que tiraria o poder de foco e de organização interna que o futebol mantém. Há algum retorno virtuoso, alguma reação na adversidade, algum contato mais enraizado com a “bola parada” (escanteios, faltas), com fundamentos técnicos básicos (que seleções africanas parecem descumprir), até mesmo com a trave, que criam um circuito de excelência entre seleções. Não é à toa que, apesar de tantas promessas na fase de grupos, dos quatro semifinalistas três já tinham mais de um título mundial.

No entanto, para um argentino, por exemplo, o jogo contra a Alemanha será sempre injusto, com suas três bolas fatais, perdidas diante do goleiro, uma delas na perna esquerda (a perna certa) do maior jogador dos últimos quarenta anos (Messi). Mas e a cabeçada alemã na trave, no final do primeiro tempo (ou a cabeçada belga na trave, aos 45 do segundo tempo das quartas de final, que levaria a partida para a prorrogação)? Em nenhum outro jogo esse circuito de possibilidades grita com tanta força – ele tem quase a mesma verdade do placar final, e países inteiros estão presos a ele, rodando infindavelmente em seu circuito. Por exemplo: e se Júnior tivesse dado um passo à frente, após o escanteio, e deixado Paolo Rossi em impedimento, no terceiro gol italiano, em 1982? Como num conto de Borges, este possível continua nos incluindo e assombrando.

Nesse sentido, futebol é essencial e naturalmente parte da cultura, joga por ela e para ela, contrapondo-se à vida, alargando o real. A diferença com o real (o placar final), na verdade, é sua vocação e sua cifra, e essa partida refeita na cabeça de cada torcedor, entre o pesadelo e o sonho, sua conquista. Me impressiona vivamente que, num mundo tão controlador, ele sobreviva assim, cavando ainda mais a sua identidade, sem temer a grana nem a Fifa, nem o replay, nem a comissão disciplinar, nem o patrocinador, nem o hino, nem as criancinhas, nem a transmissão televisiva.

 

Sugeri que o futebol está ancorado numa diferença estrutural entre significado e quantificação, entre jogada e placar. Um 0 x 0 resume isso bem: o placar não se altera, mas a máquina de possibilidades do jogo está inteira em funcionamento, e cada torcedor produz seu próprio tribunal do justo e do injusto.

Mas há uma exceção: placares muito dilatados fazem a balança pender irremissivelmente para um dos lados. O significado (as jogadas, a iminência não cumprida do gol) fica frágil demais diante da enormidade do que foi efetivamente cumprido (o placar). O 7 x 1 contra a Alemanha pertence com certeza a esse hiato do futebol, no qual pouco há para discutir – difícil imaginar outro placar, difícil botar a culpa no juiz, difícil lembrar as chances de gol. Normalmente, nos dias de hoje, placares assim são construídos nos últimos quinze ou vinte minutos de jogo. Por exemplo: um time que perde por 2 x 0 tem de partir para cima do outro, leva um terceiro gol, coloca um atacante no lugar do lateral e acaba levando mais um ou dois gols. Nesse sentido, nossa partida contra a Alemanha foi uma exceção completa. O jogo chegou ao meio tempo já com 5 x 0 e muita gente teve a sensação de que deveria ter sido interrompido antes, quase como se não fizesse mais sentido jogar.

O 7 x 1 contra a Alemanha é um buraco difícil de sair, pois vai um pouco a contrapelo da própria estrutura do jogo. Tem o desenho de uma verdade acachapante e nada ambígua, como se dez mandamentos devessem nascer de algum arbusto ardente, com novas leis e proibições. É que, de certa forma, em situações como essa, o próprio futebol perde generosidade, e nesse sentido as declarações dos jogadores alemães, dando força ao adversário derrotado, me pareceram mais do que educadas, como se quisessem tirar a fatalidade ao placar que construíram.

Sem o halo do possível, o futebol moraliza-se facilmente, servindo como estampa para qualquer coisa. A discussão recai diretamente, sem mediação nenhuma, sobre raça ou esforço, sobre o técnico, sobre o salário e a vida pessoal dos jogadores, sobre a CBF, sobre o país, sobre chavões. É ótimo que se discutam todas essas coisas, que o todo do futebol nacional entre em pauta e em crise, mas acho que não devíamos perder o próprio jogo de vista, nem (mais ainda) nossa campanha nesta Copa, sob risco de cair no vazio.

 

Basicamente, o Brasil jogou cuidadosamente contra times de menor tradição (Chile, México, Colômbia), todos superestimados em sua potência, e de peito aberto contra um dos melhores times da Copa e dos últimos anos, que subestimamos gloriosamente. Tivemos três volantes (Oscar foi um deles) e três laterais (Hulk cobriu Marcelo o tempo todo) durante a Copa inteira, e fomos para o pau no jogo mais difícil, em que estávamos sem nossas duas grandes virtudes até as semifinais: Neymar e a dupla de zaga que, como irmãos siameses, casais simbióticos ou duplas de patinadores, produz uma química difícil de explicar (como consequência, na falta de um, o par inteiro se perde, e a ausência de Thiago Silva na semifinal, nesse sentido, valeu bem mais do que a de um único jogador). Isso é o que tínhamos de melhor, e foi isso que perdemos antes do jogo contra a Alemanha – ou seja, praticamente tudo. O resto do time (já tínhamos jogado cinco vezes) estava: a) normal (Luiz Gustavo, Fernandinho, Julio Cesar), b) mal (Hulk, Oscar, Maicon, Marcelo) ou c) péssimo (Fred). Parece pouco para uma Copa do Mundo.

No entanto, entramos eufóricos contra a Alemanha, encurralando-a em seu campo, escalando Bernard, avançando Oscar e Hulk. Estávamos flutuando no querer-ser, nos cinco títulos, na vitimização de Neymar – e tomamos de sete. O Brasil jogou o jogo possível ao longo da Copa – basicamente, como diz o chavão, não jogou nem deixou jogar. Construiu pouquíssimo, mas, por outro lado, foi pouco ameaçado, e os resultados, nesse sentido (com a sorte de uma trave contra o Chile), me pareceram justos.

A originalidade é que, em vez de utilizar um grande número de defensores, travamos o jogo com dois atacantes (Oscar e Hulk) absurdamente recuados e comoventemente dedicados ao esquema tático. A potência de Neymar e dos dois zagueiros disfarçou um pouco o feitio dos jogos, mas estávamos mais próximos daquilo que, no Brasil, atribuímos tantas vezes à Argentina ou à Itália – capacidade de matar o jogo alheio maior do que a de construir o próprio.

Pois bem, a questão é: por que, em nome de Deus, alteramos tudo, contra o adversário mais difícil e sem nossas principais virtudes? Contra a Colômbia “óóóóó, James”, contra a Alemanha “é tóis”? Esse desvario, obviamente, não estava apenas na cabeça de Felipão. Ele precisa ser compreendido em sua dimensão nacional, como uma energia de fundo que está e sempre esteve lá.

A derrota do Santos para o Barcelona na final do Mundial de Clubes de 2011 me pareceu ter o mesmo fundamento – uma sobreavaliação do jogo fluente, brasileiro, que teria no lentíssimo Paulo Henrique Ganso sua expressão maior: 4 x 0 Barcelona – e foi pouco.

O Brasil produziu, em seu ciclo de Ouro (1958–62–70), um futebol de toques, de quem joga e deixa jogar, com uma transição fluente e contínua entre ataque e defesa – Pelé, com sua potência dispersa pelo campo, em todas as posições do ataque, e a iminência constante de um gol que trazia nos pés, representa como ninguém este momento. Esse modelo talvez tenha se imposto como o modelo dourado do próprio jogo, um pouco como a Renascença para a pintura ou o século IV grego para a tragédia ou a filosofia. Como dom Sebastião, ele paira agora sobre o país, numa espera sem fim. Perdemos 82 e 86 em nome dele, ganhamos 94 sem ele, ganhamos 2002 com uma presença difusa dele, mas ainda esperamos por ele a cada canelada. É ele o “verdadeiro futebol brasileiro” que nove entre dez comentadores solicitam.

Gilmar Rinaldi, por exemplo, o novo coordenador técnico da Seleção, em sua primeira entrevista, logo repetiu o chavão: “No Brasil vamos ter sempre o plus do craque, que ninguém tem. Eles [os craques] vão ser sempre nosso diferencial, mas temos que buscar enfoque na parte coletiva.” Ninguém tem? Messi não é craque? Neuer? Robben? E, justamente, no caso brasileiro, não será esta uma geração de poucos craques, que tinha conseguido, nos cinco jogos até a semifinal, uma “parte coletiva” no mínimo razoável? O “semicraque” Oscar não estava se sacrificando na marcação?

Acho que a Argentina chegou às finais porque aprendeu enfim a superar o modelo Maradona–86. Não, Messi não seria um novo Maradona, dando uma Copa ao país; ele até que jogou bem, mas não como núcleo central de todo e qualquer significado (como o próprio dom Diego, enquanto técnico, quis fazer dele na Copa passada). O resultado é que o time, bastante limitado, cresceu inacreditavelmente, merecendo a vitória no último jogo, contra o melhor time da Copa. Está na hora de nós também superarmos nossos modelos.

 

O

modelo imóvel do “verdadeiro futebol brasileiro” está matando o futebol brasileiro – aquele que efetivamente jogamos, e que precisamos aprender a enxergar (e, no limite, a amar) em suas possibilidades e limites. Claro que precisamos mudar tudo, deixando de infantilizar os clubes, aumentando o público nos campeonatos nacionais, conseguindo assim prender nossos jogadores mais tempo no país, profissionalizando e multiplicando as escolinhas, trabalhando o antigo armador para que se torne esse animal bifronte, que desarma e arma, que tanta falta nos faz, atacando a corrupção e o circuito interno autorreferente que caracteriza a CBF, colocando esse sobrevivente do malufismo (Marin) em sua tumba.

Mas a bola continua rolando, e certamente não é toda geração que produz um Didi. Luiz Gustavo e Fernandinho não trocavam três passes à frente da linha do meio de campo porque, simplesmente, não conseguiam. Não têm visão de jogo, matada e evolução com a bola para isso. Hulk mata muito mal a bola, Fred não vira sobre o zagueiro, enfim – o time tinha dificuldades técnicas evidentes. Como exigir que um belo dia acordasse Nilton Santos? Claro que algumas coisas deveriam ter sido diferentes, em termos táticos. Era obrigação de Felipão compreender que Jô não é, por princípio, jogador de Copa do Mundo e que Fred, que passou o ano anterior à Copa quase inteiro sem atuar, estava fora de jogo – ou seja, deveria ter se aproximado (ao menos como alternativa) do modelo Mano Menezes, sem centroavante de ofício. Mas, diferentemente da Seleção de Dunga, que deixou Ganso e Neymar de fora, houve pouquíssimas queixas quanto à própria convocação. Os reservas acionados não mudaram tanto assim o que se viu em campo. O time esteve próximo de seu limite. Deveria ter persistido.

Acho que um jogo mais humilde ia aos poucos se formando, e nesse sentido quero recuperar aqui, não em relação ao 7 x 1 acachapante, mas à campanha da Copa, um pouco daquele possível, daquele “e se…” que descrevi como inerente ao futebol. A ilusão da Copa das Confederações ia sendo deixada para trás. Isso não é retranca, é autoconhecimento. O futebol permite brechas nas quais times de menor qualidade podem crescer e ganhar, desde que partam do que efetivamente são. Não vi o jogo, mas dizem que algo do gênero aconteceu na final de 54, entre Hungria e Alemanha. Ganhamos 94 assim, com o país dos comentadores inteiro exigindo um camisa 10 que o país do futebol simplesmente não tinha para oferecer (a ilusão, nesse caso, estava depositada em Raí). Em 82, a Itália ganhou da gente numa dessas – éramos nós a Alemanha. Mas para nós não – tem de baixar o Didi no Hulk ou torcemos o nariz. Com isso, muitas vezes, sequer somos capazes de reconhecer quando estamos de fato próximos ao nosso modelo. Em 2006 era esse time, com um elenco inacreditável de meias, atacantes e volantes com excelente toque de bola, entre reservas e titulares, estragado pela pachorra deprimida e deprimente de Parreira (que, no entanto, parece ter sido afim ao espírito do time em 1994).

Talvez perdêssemos de qualquer jeito – mas acho que tomamos aquela enfiada porque, depois do 2 x 0, os jogadores não tinham identidade nenhuma para a qual se voltar. Deveriam estar se impondo e estavam rendidos, deveriam estar pressionando e estavam pressionados, deveriam estar marcando e estavam marcados, deveriam estar fazendo gols e estavam levando. Os frequentes apagões em nossa história futebolística (1950, 1998, 2010, 2014) parecem entrar por essa brecha identitária – querer ser o que não se é.

 

Mas não é pouco o que somos. Não apenas pelos cinco títulos – tivemos virtudes nesta Copa, como na Copa passada, que não deveriam ser jogadas no lixo. A tal ligação direta, tão criticada, só podia ser tentada a partir dos lançamentos inacreditáveis de David Luiz. Thiago Silva também tem ótima qualidade de passe (seu toque de peito para Paulinho contra a Croácia foi um dos passes mais bonitos da Copa). Isso são armas, se bem trabalhadas, e não defeitos. Jogar de formas muito diferentes, como temos feito ultimamente (o time de Dunga, por exemplo, tinha um excelente contra-ataque), não é para qualquer um. Desnecessário dizer que há continuidade e contato com esse modelo mitológico que mencionei – Neymar, por exemplo, é sua encarnação atual, em todo o esplendor e glória, conseguindo misturar, às vezes, os dois deuses maiores, Pelé e Garrincha. Mas esquecer é também encontrar – e estou chamando a atenção para outros modelos que estão à nossa frente e que precisaríamos incluir em nosso repertório (não é inacreditável, por exemplo, a sequência de grandes zagueiros centrais que tivemos depois de 94? Isso não é grande futebol?). A crise que vivemos não me parece dar-se tanto em relação ao que efetivamente somos, mas ao que queremos ser. Há um desvario em nossa cultura futebolística (Simão Bacamarte teria muito a dizer sobre isso) que precisa ser atacado antes de qualquer limitação técnica em campo.

Nesse sentido, talvez haja algo sacrificial no 7 x 1, e em sua réplica, quase como farsa, o 3 x 0. Era a Alemanha que encenava nosso modelo (ainda que caricato, por excesso de facilidade). Não me impressionou apenas o tempo que separou os quatro gols (seis minutos), mas o sentido da bola, quase reta em direção ao gol, com pouquíssimos desvios – uma espécie de gol de Pelé coletivo. Havia um grande número de defensores na área, mas a bola quase não precisava desviar-se, bastando tabelinhas curtas, de Pelé e Coutinho. Éramos postes estanques, apoiados no pé errado. Tínhamos nos transformado em amadores, em peladeiros, num 4-1-5 (a observação é de Tostão) inédito no futebol, em plena semifinal da Copa do Mundo – e assistíamos ao nosso fantasma, em plena forma, eufórico, acertando tudo, mas contra nós.

 

Preciso explicar a mim mesmo a raiva exagerada que tenho de Galvão Bueno e de seus parceiros na Globo. Às vezes, me pego em frente à tevê respondendo, aos berros, ao que dizem. Passei a assistir aos jogos em outros canais, variando sempre, mas dou umas incertas na Globo. Acho que percebo ali um achatamento constante, minucioso, de tudo o que o jogo tem de libertário (e que Tostão, na outra ponta, parece sempre acessar), como um urubu rondando. Por exemplo, quando Julio Cesar pegou os pênaltis contra o Chile e Galvão gritou “Julio Cesar do Brasiiil!”, numa referência clara ao “Ayrton Senna do Brasiiiil!”, deu vontade até de ver a bola entrar. Então tudo o que há de caótico e duro numa decisão por pênaltis numa oitava de final em casa, tudo o que há de louco nisso, vai terminar em um mini-Senna, como uma reedição extemporânea de Amaral Netto, o Repórter?

Esse nacionalismo grosseiro, querendo enganchar em alguma coisa, sempre servil ao poder (e traidor do poder quando, digamos, o poder perde), logo modula, na derrota, para a reivindicação pelo “verdadeiro futebol brasileiro”, o saudoso, o original – e tome lista de notáveis. O “Pedala, Robinho!”, de Galvão, como se se dirigisse a um hamster, era uma espécie de caricatura disso, e após perdermos a Copa de 2010, um joguinho amistoso contra os Estados Unidos em que Ganso e Neymar jogaram bem foi suficiente para decretar a volta do – adivinhem? – verdadeiro etc.

Nesse momento de descontentamento, o clamor ufanista – de aparência crítica, mas ufanista – pelo “verdadeiro futebol brasileiro”, em detrimento da compreensão do que efetivamente está acontecendo em campo e das possibilidades reais que tínhamos nos pés, parece unir a direita e a esquerda. Ele está tanto na locução da Globo como nas crônicas de gente “do bem”, como Juca Kfouri (a quem o Brasil deve uma trajetória exemplar de combate aos poderosos) ou de Paulo Vinicius Coelho, o PVC (a quem o Brasil deve um novo patamar de elaboração do jogo de futebol como um todo). No entanto, em ambos, dom Sebastião continua chegando. Há uma espécie de consenso aqui. “O Brasil tem de lembrar a si mesmo e ao adversário quem ele é” (a frase é de PVC, cito de memória) – parece puro sebastianismo. O Brasil não tinha de lembrar nada a ninguém. Tinha de compreender o que era naquele momento – um time pior que a Alemanha, sem Neymar e manco na dupla de zaga. Tinha de jogar a partir desse autoconhecimento, aprofundando as possibilidades que desenvolveu nos cinco primeiros jogos.

 

Comecei descrevendo o futebol como suspenso num movimento indeciso entre jogada e gol; significado (beleza da jogada, possibilidade aberta por ela, proximidade do gol) e placar (a vitória ou a derrota, os números finais). Essa dinâmica cria, de certa forma, famílias e modelos: o time de 94, por exemplo, era mais próximo do efetivo, do real, do placar, enquanto o de 82, das jogadas, do alargamento do possível (daí que seja, ainda hoje, tão amado). Atribuímos, normalmente, a adversários como Alemanha, Uruguai, Itália, maior proximidade com o resultado e a nós uma potência próxima das jogadas, do prazer de jogar, que seria revertida sem sobressaltos em gols e em vitórias. Acho, no entanto, que temos os dois modelos em nosso menu, e deveríamos saber enxergar, e admirar, ambos. Não são, necessariamente, opostos: 2002 tinha um pouco dos dois, e mesmo 70 exalava um autoconhecimento, uma cicatriz, que a Copa de 66 e a idade de alguns jogadores, como Gérson e Pelé (era a última Copa dos dois), tinham deixado – uma noção de limite (e limite é contato com o placar que dá), que me parece ausente em 82. O que há de fascinante no futebol brasileiro é sua flutuação entre esses modelos aparentemente opostos: daí sua enorme capacidade de decisão em finais, maior que a de outros times. A seleção alemã precisou de oito finais para ganhar quatro; a Argentina cumpriu duas em cinco; a francesa, uma em duas; a holandesa, nenhuma em três; a brasileira, cinco em sete. Talvez porque trabalhe num tudo ou nada muito nosso, e porque numa final de Copa o “modelo” se sinta à altura de si mesmo, é com certeza a de melhor desempenho nesse quesito.

O curioso, no entanto, é que mesmo depois da vitória é ao mesmo modelo que voltamos, sem que seja ameaçado pelas novas conquistas (e novas características, posições em campo que se destacaram etc.). Seríamos, ainda, um país de meias-atacantes (o antigo camisa 10); de alegria nas pernas; de dribles incríveis. No entanto, hoje os volantes com capacidade de armação é que ganham jogo; fica cada vez mais difícil encontrar a tal alegria nas pernas, já que a marcação, com o desenvolvimento absurdo do preparo físico e certa condescendência dos juízes, chega a paroxismos de antialegria e de botinadas “legais”, como se viu no que fizeram com Neymar nesta Copa (e não foi apenas Zúñiga – a pancada do começo do jogo contra o Chile fez com que seu desempenho caísse absurdamente); os dribles, nesse sentido, se ainda desequilibram, enfiando uma cunha improvável em tudo o que se preparou taticamente, devem ser feitos em momentos precisos, e não parecem, como opção de jogo, tão disponíveis como antes. O futebol mudou e o time do Brasil normalmente nada tem de ingênuo em campo; na verdade, vem divergindo há décadas de nossa cultura futebolística, que continua olhando para trás.

Talvez porque jogássemos em casa, sinto que foi ela, a “nossa cultura futebolística”, que entrou em campo contra a Alemanha. Tivemos o que pedimos, e o time esteve à altura da platitude de tantos comentários.

***

Acabo de saber que Dunga foi indicado para técnico da seleção. É inacreditável, depois de uma trombada como a que levamos. Parecemos presos a um revezamento infindável, que nada tem a ver com futebol, entre “autoridade” e “família”. Em 2002 – família paizão Scolari; 2006 – família titio Parreira, com crianças crescidas e voltando tarde para casa; 2010 – autoridade sargento Dunga, todo mundo jogando como quem vinga um cadáver; 2014 – família Scolari, permissiva e meio fora da real; 2014 – autoridade sargento Dunga etc.; 2018 (se perdermos) – família não sei quem. É nesse imaginário medíocre que o “Simãobacamartismo” de que falei antes mergulha os pés.

Se houvesse na iniciativa da CBF algo além de covardia (se for mal, a culpa fica para Dunga, como ficou para Felipão; se ganhar, vai para a CBF), teria sido o caso de mantê-lo na Copa passada. Eu não defendo nem defendi isso, mas conseguiria ver sentido aí, já que algo estava sendo desenvolvido. Teríamos isolado a questão fundamental daquela campanha, o enlouquecimento quase psiquiátrico do time, que entrou em parafuso com a falha de um dos soldados (Julio Cesar) e preferiu renunciar ao jogo e dar botinada nos holandeses do que tentar reagir em campo (havia tempo para isso e não jogávamos mal). Mas, é claro, em vez de enxergar o time, voltamos ao longo desvio moralista que a palavra “comprometimento” (espécie de sinônimo chique para “raça”) resume, transformando em moralismo barato o que era para ser compreensão do jogo. Acho que Dunga não foi um mau técnico, mas sei que ocupa um lugar desastroso em nosso imaginário futebolístico, comprometendo suas possibilidades.

As manifestações de junho de 2013 apontaram para isso: há uma disjunção radical no Brasil entre a potência do país, com suas novas possibilidades e desejos, e a incrível caretice e sem-gracice de tantas instituições, que parecem falar ainda a língua de quarenta anos atrás, o que vai irradiando para o todo do imaginário político/institucional. O futebol, como de costume, nos expressa e antecipa – é de fato inacreditável que Marin esteja onde está e que a CBF tenha a cara de pau de fazer o que fez.

Nuno Ramos

Nuno Ramos é artista plástico e escritor. Publicou, entre outros, os livros Ó e Sermões, ambos pela Iluminuras

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