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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

esquina

Derrota na vitória

A casa caiu meia hora antes

João Moreira Salles | Edição 19, Abril 2008

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Adela Peeva, de 61 anos, é alta, forte e búlgara. Seu rosto é redondo e severo. Seus óculos são de armação grossa. Se trabalhasse num internato de moças, poderia ser a professora de gramática. Em pouco tempo, viraria diretora. A escola seria conhecida pela disciplina impecável. Às 15h45 do dia 4 de março, ela ocupou uma poltrona na sala 18 do cinema Regal, em Miami, para assistir a Razvod po Albanski, ou Divórcio à Albanesa.

O documentário acompanha a triste história de três casais durante os anos 60, o período mais delirante do regime de Enver Hoxha, o ditador da Albânia entre 1944 e 1985. Tendo rompido com a União Soviética e se isolado do mundo, Hoxha decretou que todos os estrangeiros eram espiões. Quem não era casado com albanês foi forçado a se divorciar e viu o cônjuge ser jogado na prisão. Um marido ficou encarcerado mais de vinte anos. Uma esposa polonesa enlouqueceu na cadeia. Uma russa recebeu, na cela, a notícia de que o marido se casara de novo e de que o filho a renegara publicamente.

Antes de as luzes se apagarem, Adela olhou em volta. Além do marido, viu não mais de vinte pessoas. Como o filme integrava a competição do Festival Internacional de Cinema de Miami – e era ela a cineasta responsável pela obra -, uma platéia minguada teria tudo para desapontá-la. Mas não: ela estava vacinada. Diante do que lhe acontecera dezenove anos antes, vinte pessoas era um luxo.

Adela é uma cineasta séria e de renome. Dois de seus filmes já foram indicados para o European Film Awards, o prêmio máximo do cinema europeu. Ao contrário do que indica seu rosto, ela é doce e de conversa fácil. Começou a carreira nos anos 70 e, como qualquer cineasta do seu pedaço de mundo, se pôs a serviço da construção do socialismo. Durante anos foi uma funcionária diligente do Instituto Cinematográfico Nacional da Bulgária, onde dirigia filmes aprovados pelo aparelho de propaganda do Estado. Nunca lhe faltou serviço, pois pertencia ao partido e tinha “boa origem social” – o pai era comunista histórico.

 

Foi assim que, em 1983, começou a rodar Vimeto na Sporta (Em Nome do Esporte), um filme edificante sobre o estado geral do desporto olímpico búlgaro. O foco eram três modalidades esportivas: luta livre, luta greco-romana e sobretudo levantamento de peso. Como todo búlgaro, Adela era entusiasta dos homúnculos de aço que erguiam mais de 100 quilos enquanto assobiavam a Internacional. Medalhistas de ouro e heróis nacionais como Yordan Mitkov e Asen Zlatev. O halterofilismo era “a face do regime”, ela diz.

As filmagens começaram no melhor espírito progressista. Mas, insidioso, o revisionismo foi se instalando na alma de Adela, quando ela, então com 36 anos, entrou em contato com as jovens promessas: meninos e meninas mal saídos da infância, escolhidos a dedo por olheiros que percorriam a Bulgária, identificavam os futuros campeões e os apartavam da família, confinando-os a sete chaves em centros esportivos. Ela testemunhou treinos brutais. Viu o campeão mundial Boleslav Manolov morrer na sua frente, diante da câmera, aos 25 anos, de uma cirrose causada por ingestão indiscriminada de substâncias anabólicas. Conheceu Ivan Abadzhiev, o maior técnico da modalidade, adepto de métodos pouco ortodoxos que “contrariavam todos os princípios mais elementares”, na voz do próprio. Baseavam-se em estresse e treinamentos ininterruptos de alta intensidade. “Já tenho tantos discípulos que você é dispensável”, dizia ele a meninos de 15 anos. “Eu te mato se não perceber progresso até a semana que vem.” Segundo Adela, Abadzhiev ministrava drogas experimentais a seus halterofilistas; horas antes da competição, inseria um cateter na bexiga do atleta, retirava a urina contaminada e devolvia urina limpa que colhera de um funcionário.

Adela não gostou do que viu. Foi para a moviola e começou a montar o filme, e não demorou até que o zunzunzum corresse os gabinetes do Estúdio para Ciências Populares e Filmes Documentários. Um dia, pediu uma sala para projetar o copião. Ao entrar, viu que uma das poltronas estava ocupada por um rapaz que ela identificou como agente da Darzavna Sigurnost, a KGB búlgara. Cancelou a projeção e, dando o filme por acabado, levou o copião para casa, com a intenção de deixá-lo no laboratório no dia seguinte cedo, para montar o negativo e fazer uma cópia.

Às oito da manhã, o telefone tocou e ela ouviu a voz seca do vice-diretor do estúdio: “Venha até minha casa imediatamente e me entregue o copião. Não haverá uma cópia do filme.” Adela começou a chorar. Decidida a recorrer ao diretor-geral, pegou o carro, pôs a lata no banco do motorista e acelerou rumo ao escritório do homem. Implorou: “Faça ao menos uma cópia.” O homem azedou. Antes de ouvir um berro, ela ainda insistiu: “Um dia você ficará feliz por não ter destruído esse filme.” Deu certo. De olho nas possíveis piruetas da história, o diretor-geral acedeu: “Está bem. Você faz uma cópia, me entrega junto com o negativo e eu ponho tudo no cofre.” Adela correu para o laboratório. Saiu de lá com o negativo e duas cópias, uma delas resultado da conversa a meia-voz com o laboratorista. Escondeu-a no porão de casa, embaixo de uma tábua. Ficaria ali por cinco anos.

Em março de 1985, Gorbachev chegou ao poder. “A gente sentia a mudança no ar”, ela conta. Nos anos seguintes, amigos começaram a deixar a Bulgária. Um deles foi parar na Alemanha Ocidental, de onde lhe mandou uma carta: “Todo mundo sabe que o filme existe. Por que você não o inscreve no festival de curtas de Berlim?” Vimeto na Sporta tinha 32 minutos – “Tão curto e tão perigoso”, pensava Adela – e caía feito uma luva no festival. Corria o ano de 1989. A cópia do porão era a única que sobrara. Berlim representava a oportunidade de tirar o filme da Bulgária e exibi-lo ao público estrangeiro.

As negociações levaram meses. Ora permitiam, ora negavam. Adela concluiu que o jeito era não dizer toda a verdade. Na desarrumação de um regime à beira da falência, procurou um burocrata que desconhecia os detalhes da história e o convenceu a deixar que viajasse. Na hora de preencher a ficha, trocou o título do filme. O curta chegou a Berlim na décima segunda badalada.

A exibição no festival foi marcada para a tarde do dia 9 de novembro. Era a primeira vez de Adela em Berlim Ocidental. Mal podia crer que seu filme proscrito seria visto no grande enclave inimigo. Chegou ao cinema uma hora antes da projeção. “Não acreditei”, lembra, “meia cidade estava lá.” Seu coração galopava. Adela respirou fundo, fechou os olhos e agradeceu ao destino. Na sala escura, a tela se iluminou com a vinheta do festival.

E então se ouviu um grito na platéia: “Está acontecendo alguma coisa lá fora!” Silêncio absoluto. Passado um átimo, todos se levantaram e saíram em disparada. “O muro caiu! O muro caiu!”, diziam. Adela não compreendia: “Mas e a projeção? E a projeção?” Ninguém ouvia. Até o projecionista deixou seu posto. Atordoada, ela seguiu atrás. Quando pôs os pés do lado de fora, olhou para o fundo da rua e compreendeu: trepados no muro, jovens acabavam de derrubar a golpes de marreta um bloco maciço do maior símbolo da Guerra Fria. As pessoas se beijavam e riam. Adela chorava. Só conseguia pensar: “Esse regime durou 44 anos. Eu só precisava de mais meia hora.”

No dia seguinte, 10 de novembro, caiu o ditador da Bulgária, Todor Zhivkov. Estava no poder desde 1956. Entre os líderes da Cortina de Ferro, era, na ocasião, o mais longevo de todos. Vimeto na Sporta nunca mais foi exibido.