esquina

Desenhos para AAA

As aquarelas do sr. Lee

Juliana Deodoro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O coreano Chan Jae Lee, morador do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, começou a fazer os desenhos que lhe trariam fama internacional em meados de 2015. Tinha então 73 anos de idade e a verdade é que levava uma vida de poucas alegrias. Seja como for, ele era – ainda é – um senhor muito simpático e afetuoso. Quando quer assentir e concordar com o interlocutor, o sr. Lee, que não fala português, costuma sorrir e mostrar o polegar em sinal de “positivo”.

No início daquele ano sua filha mais nova, Miru, havia anunciado que iria se mudar com o marido de volta para a Coreia. Levaria consigo os dois netos mais velhos do sr. Lee, Arthur e Allan, privando-o assim do hábito de levá-los e buscá-los na escola, de passear com os meninos à tarde e almoçar, todos juntos, nos fins de semana. “Não existe avô melhor do que eu para brincar e dar risada”, gabou-se o patriarca, em coreano, numa conversa recente.

Foi por essa mesma época que nasceu o terceiro neto do aposentado, Astro, filho de Ji Lee, irmão de Miru. O problema é que Astro morava longe. Ji também havia emigrado, vinte anos antes, para Nova York, onde fez uma carreira de sucesso e hoje trabalha como designer no Facebook. Em junho de 2015, o sr. Lee e a mulher, Kyong Ja Lee Ahn, fizeram as malas e cruzaram a linha do Equador para conhecer o bebê.

Logo nos primeiros dias, Ji Lee ficou impressionado com a melancolia do pai. Tentou convencê-lo, então, a transformar numa atividade diária algo que o sr. Lee fazia esporadicamente, ao que tudo indicava com grande gosto: desenhar. A ideia era mantê-lo ocupado, oferecendo uma opção às tardes vazias passadas quase sempre diante do canal de tevê coreano. “Argumentei que essa poderia ser uma herança dele para os netos, uma maneira que eles teriam de conhecer o avô, de se lembrar dele.”

Ji Lee gostou do resultado, das aquarelas que aos poucos se acumulavam, e usou o Instagram para divulgar o trabalho do pai, num perfil chamado “Drawings for my Grandchildren”, desenhos para os meus netos. Hoje, quase dois anos depois, mais de 290 mil pessoas de todo o mundo aguardam, diariamente, por um novo trabalho do sr. Lee. O sucesso foi tamanho que o aposentado do Bom Retiro se tornou objeto de atenção e de reportagens para a tevê, tanto no Brasil quanto na Coreia.

Nas imagens que o sr. Lee cria há desde representações de cenas paulistanas – feiras de bairro, camisas de times penduradas no varal – até reproduções de plantas, animais e retratos, muitos retratos. Sempre em fundo branco, os desenhos oscilam entre a falta total e a abundância de cores. As figuras humanas são singelas e em geral não têm expressões faciais. A exceção são os netos, retratados em detalhes, com rostos expressivos. Astro aparece recém-nascido, depois caminhando, outra hora na praia, em visita a um museu, em casa. Arthur e Allan – os mais velhos – dividem um guarda-chuva, usam bonés, fazem graça durante uma viagem. Há cenas reais. Outras são produto da saudade e da imaginação, como uma em que o sr. Lee está sentado na praia, na companhia dos três meninos, e todos miram as estrelas no céu, numa noite de verão. Seja qual for a imagem, está lá sempre a mesma assinatura: For AAA. Para AAA. Arthur, Allan e Astro.

 

Chan Jae Lee nasceu na Coreia, em 1942. Perdeu o pai cedo e foi criado pela mãe. Disse que chegou a passar fome na infância. Na faculdade, estudou para se tornar professor de geociências. Por lá também conheceu Lee Ahn, que viria a se tornar sua esposa. Aos 40 anos, casado, pai de um menino de 10 anos – Ji Lee – e de uma menina de 6 – Miru –, o sr. Lee fez as malas e atravessou o oceano.

A mudança para o Brasil não resultou de uma ideia ou de um desejo seu. O mentor dessa viagem definitiva foi o sogro, Kae Sung Ahn, que buscava melhorar de vida numa época em que a Coreia do Sul ainda não era o colosso econômico de hoje.

No início, Lee Ahn e o sr. Lee trabalharam como revendedores de roupas. “Não precisávamos saber muito português, né? Bastava decorar tamanhos e cores”, lembrou a mulher, que no Brasil adotou um novo nome, Marina. Mais tarde eles abririam uma loja e uma fábrica de cintos. Fã do pastel de feira e da feijoada semanal, o sr. Lee pareceu se adaptar bem ao novo país, mas para os filhos algo dentro dele se perdeu quando deixou a Coreia. “Meu pai era uma pessoa criativa, alegre. No Brasil, ele se fechou em si mesmo, nunca aprendeu português e passou a seguir os passos da minha mãe”, conta Ji.

Basta passar alguns minutos na companhia do casal para entender que o sr. Lee e a mulher têm personalidades muito distintas. Enquanto ela é ativa e falante, o marido parece uma esfinge, difícil de decifrar. Enquanto todos à sua volta conversam, ele dá a impressão de estar em outro lugar. Quando o encontrei em seu apartamento no Bom Retiro, perguntei o que ele ambicionava com o seu trabalho e o que esperava do futuro. Sem dar muita ênfase à resposta, o sr. Lee me disse que nunca tinha sonhado na vida. Ji conta que, em suas visitas anuais ao Brasil, sempre teve que fazer um esforço para puxar conversa com o pai – do contrário, corriam o risco de fazer em silêncio todo o trajeto do aeroporto até a casa.

“Sempre tivemos muitos conflitos”, lembrou Ji Lee, referindo-se ao pai. “Eu tenho mentalidade ocidental, fiz anos de terapia, é importante para mim resolver coisas verbalmente, mas não é o mesmo para ele. Esse Instagram nos obriga a conversar, discutir, trazer histórias do passado.”

Algo da relação entre os dois às vezes transparece nas aquarelas. Não raro o sr. Lee desenha cenas que vê na televisão. O desfile das escolas de samba em São Paulo, atletas que competiram na Olimpíada no Rio e até baleias encalhadas na Nova Zelândia já foram retratados. No final do ano passado, uma cena da novela coreana Os Alfaiates de Loureiro mereceu sua atenção. Na imagem reproduzida por ele há dois homens: um mais idoso, de chapéu, e outro, mais jovem, ajoelhado aos seus pés. A legenda, escrita pela mulher, explica o que se passa: “Um filho está pedindo perdão ao pai por ter saído de casa. Ele tinha vontade de explorar novas aventuras. O pai olha-o cheio de sentimentos. Você consegue sentir?”

Juliana Deodoro

Jornalista, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalhou em O Estado de S. Paulo e Veja São Paulo

Leia também

Últimas Mais Lidas

Bolsonaro contra-ataca

Estimulada pelo pronunciamento do presidente, militância bolsonarista faz ação orquestrada nas redes e nas ruas, convocando atos para romper quarentena

Um patinho feio na luta contra a Covid-19

Sem experiência no ramo, pequena empresa de Minas recebe autorização para importar e revender testes que detectam anticorpos no organismo de quem entrou em contato com o coronavírus; resultado dos exames sai entre dez e trinta minutos

Amor em tempos de coronavírus

Fronteiras fechadas, travessia dos Andes, drible no Exército boliviano: as idas e vindas de um casal de jornalistas para voltar ao Brasil

Decepção ambulante

Para um terço dos brasileiros, atuação de Bolsonaro contra coronavírus é ruim ou péssima; ex-apoiador do presidente, camelô rompe quarentena para não passar fome, mas reclama: “Gostaria que ele levasse a sério”

Foro de Teresina #93: O Brasil de quarentena, o isolamento de Bolsonaro e a economia à deriva

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana

(Quase) todos contra um 

Desgastado até entre aliados, Bolsonaro se isola cada vez mais; as 24 horas seguintes ao pronunciamento do presidente tiveram embate com governadores e declaração ambígua de Mourão

“Se não tem teste, como saber se é coronavírus?”

Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

Com tornozeleira, sem segurança

No Acre, preso que ganha liberdade provisória recebe também sentença de morte

Cinema em mutação –  É Tudo Verdade reinventado

Festival adia mostra presencial, mas fará exibições online; quando a epidemia passar, o hábito de ir ao cinema persistirá?

A carteira de trabalho como alvo

As idas e vindas de uma jovem repórter para conseguir o documento, enquanto direitos trabalhistas são cada vez mais ameaçados pelas medidas de Bolsonaro e pela crise, em meio à epidemia de coronavírus

Mais textos
1

Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

Como a China barrou a transmissão do coronavírus enquanto a Itália tem mais mortes em metade do tempo de epidemia

2

O enigma japonês

Com pouco mais de mil casos de coronavírus, Japão contraria recomendações sanitárias e causa desconfiança às vésperas de uma Olimpíada cada vez mais improvável

3

Bolsonaro contra-ataca

Estimulada pelo pronunciamento do presidente, militância bolsonarista faz ação orquestrada nas redes e nas ruas, convocando atos para romper quarentena

4

Contágio rápido e silencioso: a matemática do coronavírus

Doença pode ser transmitida por pessoas infectadas e sem sintomas; para epidemiologista de Harvard, perspectivas globais são preocupantes, mas no Brasil, é mais provável contrair sarampo

6

Com tornozeleira, sem segurança

No Acre, preso que ganha liberdade provisória recebe também sentença de morte

7

“Se não tem teste, como saber se é coronavírus?”

Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

8

Um médico a menos

Fora do Mais Médicos desde a eleição de Bolsonaro, clínico cubano sobrevive aplicando acupuntura em Salvador enquanto sonha em combater o coronavírus

9

Decepção ambulante

Para um terço dos brasileiros, atuação de Bolsonaro contra coronavírus é ruim ou péssima; ex-apoiador do presidente, camelô rompe quarentena para não passar fome, mas reclama: “Gostaria que ele levasse a sério”

10

Posto Ipiranga, o último a admitir

Em meio ao avanço do coronavírus, demorou dez dias até Paulo Guedes ser convencido por auxiliares de que a cartilha fiscalista seria insuficiente e o aumento de gastos, inevitável