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Desmame

Os bichos do Pantanal voltam a se alimentar da flora

Roberto Kaz
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Aquele sábado, 30 de janeiro, começou igual a todos os sábados dos cinco meses anteriores para a ativista e funcionária pública Jenifer Gonçalves Larrea. Por volta das cinco da manhã, ela acordou para fazer o trajeto que leva de Cuiabá, onde mora, ao Pantanal mato-grossense, enquanto o sol ainda raiava. Duas horas depois já estava na Transpantaneira, uma estrada de terra cujo entorno havia sido completamente lambido pelo fogo que atingiu a região sobretudo de julho a outubro do ano passado, queimando uma área equivalente à do estado do Rio de Janeiro. Com a ajuda de quinze voluntários, divididos em seis carros, ela deixou pedaços de melancia, melão, mamão e banana sob algumas das pontes que cortam a estrada. “Foram doze horas direto, sem pausa pro almoço”, contou.

Servidora da Secretaria de Fazenda de Cuiabá, Larrea tem 30 anos e integra um grupo de defesa dos animais chamado É o Bicho. Ao longo de cinco meses o grupo se encarregou de levar frutas, ovos e legumes ao Pantanal, na esperança de ajudar as espécies que sobreviveram ao incêndio. O esforço, que envolveu 130 voluntários, além de bombeiros, funcionários da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e integrantes de ONGs, era uma tentativa de fazer a fauna “respirar por aparelhos”, por assim dizer, até que a época de chuva recomeçasse.

As primeiras gotas caíram em novembro. Em janeiro deste ano, Larrea percebeu que os animais – antes numerosos onde seu grupo deixava comida – começaram a rarear. “Essa ausência me fez pensar que eles estavam migrando para áreas com árvores frutíferas que, possivelmente, haviam se regenerado.” Ela disse ter segurado a emoção durante aquele sábado, mas à noite, já de volta a Cuiabá, permitiu-se chorar. “Foi quando eu vi um vídeo, feito pelo drone de um voluntário.”

A imagem aérea mostrava um amplo tapete verde onde meses antes só havia fuligem e brasa – a flora do Pantanal é muito resiliente, por estar em uma área alagada e de Cerrado. “Então tive a certeza de que a gente havia parado no momento certo”, continuou Larrea. “Foi uma sensação de dever cumprido.” Depois de levar 280 toneladas de comida ao Pantanal – a maior parte doada por comerciantes da Ceasa/MT, a Central de Abastecimento do Estado de Mato Grosso –, o esforço de seu grupo já não se fazia mais necessário.

 

Três semanas antes, a bióloga Cristina Cuiabália, de 36 anos, também havia forçado o “desmame” dos animais selvagens na Reserva Particular do Patrimônio Natural do Sesc-Pantanal, localizada a 100 km da Transpantaneira. A fazenda, de 108 mil hectares – mais de três vezes a área de Belo Horizonte – perdeu 93% de sua vegetação para o fogo (o incêndio de 2020 foi o pior da história do Pantanal desde 1998, quando os dados passaram a ser compilados; até agora ninguém foi responsabilizado por ele).

“O fogo veio com muita força, porque estávamos enfrentando uma seca extrema”, contou Cuiabália, que é gerente de pesquisa e meio ambiente do Sesc-Pantanal. “Em agosto, nossa brigada de incêndio ainda conseguiu fazer um trabalho de contrafogo que preservou 23 mil hectares. Mas, em setembro, surgiu outro foco de incêndio, que veio com muita velocidade.” De tão forte, as novas labaredas “pularam” o Rio São Lourenço, queimando o trecho que havia sido preservado.

Dias depois, Cuiabália já contava com a ajuda de duas equipes. A primeira, a cargo da bióloga Gabriela Schuck, passou a distribuir água e comida por 186 pontos da reserva florestal (a maior parte dos alimentos foi doada pela ONG Ampara Silvestre). Já a segunda, capitaneada pelo biólogo Luiz Flamarion, professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), passou a fazer um levantamento da fauna morta.

Da primeira equipe, Cuiabália teve notícias animadoras. “Colocamos vinte câmeras pela reserva, que produziram 10 mil vídeos. Dá pra ver que os animais estão ganhando peso.” Ela acredita que o trabalho de combate ao fogo tenha ajudado na sobrevivência de parte dos bichos. “No Parque Encontro das Águas, que tem o mesmo tamanho da reserva, o fogo pegou tudo de uma vez. Aqui, uma parte dos bichos pode ter fugido para a área preservada, e depois, quando essa área pegou fogo, retornado para a que já havia sido queimada.” (O Parque Encontro das Águas, localizado no fim da Rodovia Transpantaneira, foi onde se resgatou a maior parte das onças, antas e veados com queimaduras de terceiro e quarto graus).

Da segunda equipe, o levantamento não traz um resultado animador, aparentemente. “Colocamos quase vinte pessoas em campo, que mapearam 423 unidades de amostragem ao longo de toda a área”, disse Luiz Flamarion, que deve publicar o estudo em breve. “Achamos muito esqueleto de primata e de porco-do-mato. Já os pequenos anfíbios, répteis e aves foram simplesmente transformados em carbono, ficou impossível detectar.” Ele se preocupa também com o impacto nas árvores, que não é medido a curto prazo, já que algumas podem tardar a aparentar o óbito. “E tem também o efeito do fogo no banco de sementes do solo. Alguns animais que sobreviveram podem vir a morrer no futuro por falta de alimento.”

Por via das dúvidas, Cristina Cuiabália guardou os cochos que foram usados nos últimos meses para dar comida aos bichos. “Mas a gente espera nunca mais ter que utilizar.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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