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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

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Deuses do subúrbio

Um artista de Salvador se consagra esculpindo orixás

Danilo Thomaz | Edição 202, Julho 2023

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Otávio Bahia costumava vender suas esculturas no Mercado Modelo, no Centro de Salvador, em frente ao Elevador Lacerda. Em 2010, ele foi descoberto pelos curadores José Eduardo e Vilma Ferreira Santos, empenhados em registrar o trabalho do maior número possível de artistas residentes na periferia da capital baiana. Para abrigar as obras, o casal fundou o Acervo da Laje, hoje um centro importante de formação e divulgação de artes visuais. Otávio Bahia quase não teve oportunidade de participar do projeto: morreu naquele mesmo ano. Mas uma das revelações do Acervo da Laje é seu herdeiro direto, César Bahia.

O casal Ferreira Santos conheceu César quando foi visitar o local de trabalho de Otávio, no bairro Fazenda Coutos, no Subúrbio Ferroviário, assim chamado por causa de uma linha de trem que passava por lá. Um dos nove filhos do primeiro casamento de Otávio – que teve outros três, de uma segunda relação –, César trabalhava com o pai na marcenaria de pé-direito alto e paredes descascadas.

Otávio fazia esculturas de divindades africanas usando o maquinário da marcenaria. “Ele dava um acabamento inacreditável nas peças. São obras monumentais no refinamento. Os orixás dançam, têm rostos, gestos, são singulares”, diz José Eduardo. César também cria divindades africanas, mas em um estilo diferente, que privilegia o trabalho manual. Ele lixa, esculpe e pinta sempre à mão, em cores fortes – preto, azul-marinho, vermelho, amarelo e roxo.

Em 28 de abril, o Museu de Arte do Rio (MAR) abriu as portas para uma mostra individual da obra de César, chamada Uma Poética do Recomeço, com mais de duzentos trabalhos. De toda a numerosa família, só César e sua irmã Nilcéia Francisca seguiram a arte do pai.

 

Nascido e criado no subúrbio de Salvador, César Bahia tem 58 anos e marcas de expressão que parecem esculpidas no rosto negro. De olhos pequenos e nariz protuberante, ele anda sempre com a mesma indumentária: bermuda, camisa de manga curta aberta até o peito e boné cobrindo os cabelos grisalhos. Tímido, prefere se expressar mais pelas esculturas do que pelas palavras.

Sua mãe era empregada doméstica e separou-se de Otávio quando César tinha 8 anos. O pai ficou com as crianças e ensinou aos filhos as técnicas que aprendera por conta própria. “Meu pai arrastou a gente, fui criado e nascido na arte”, diz César. “Não fui muito pra escola, não. Parei na quarta série do primário. Mas deu para ler alguma coisa.”

É uma tradição na qual César se insere: a dos grupos familiares dedicados à arte e ao artesanato. “São famílias inteiras no Brasil que vivem desse ofício, mas que não são contempladas pelo sistema da arte”, diz Marcelo Campos, curador-­chefe do MAR e um dos responsáveis pela individual de César, que fica em cartaz até 30 de julho.

O escultor trabalha na marcenaria que herdou do pai. A sua matéria-prima vem da mata do Subúrbio Ferroviário. Em geral, são pedaços de tronco de jaqueira que ele mesmo recolhe. A madeira é lixada, marcada à caneta e então esculpida em uma mesa atulhada de apetrechos de trabalho – uma espécie de bagunça organizada.

De início, César fazia máscaras de orixás. Com o tempo, passou a esculturas de corpo inteiro. “Aí fui criando Xangô, Oxum, Iemanjá”, conta. Assim como o pai, César desenha antes as figuras. Os desenhos surpreendem pela forma realista, como se fossem saltar do papel. De acordo com Campos, as esculturas de César, em cores vivas, vão na direção oposta à tendência que predominou na escultura moderna, de valorizar as características do material usado e o aspecto construtivo das obras, em vez da figuração e das cores. “Você vai ter, por exemplo, escultores do metal que ficaram presos a uma relação em que o próprio material vai ter sua verdade”, diz Campos, citando o brasileiro Amílcar de Castro e o norte-­americano Richard Serra.

 

César Bahia não deixou os pedaços de jaqueira, as tintas e as machadinhas de sua marcenaria para comparecer à abertura de sua exposição no Rio de Janeiro. “Não fui, não. Não gosto de avião”, diz. O artista prefere a vida tranquila que leva em Salvador. Divorciado, mora com o irmão, Fábio, que é marceneiro, na casa que pertenceu ao pai, onde também está instalada a marcenaria.

Ele vende seus trabalhos na internet e no Mercado Modelo de Salvador (por preços entre 100 e 200 reais; no Rio, as peças chegam a 1 mil reais). Algumas obras são feitas por encomenda e outras vão para o Acervo da Laje. Dedicado ao seu ofício, de onde tira o sustento, César trabalha com muita concentração e apuro, como se pode verificar em cada peça que faz.

Nem sempre foi assim. O alcoolismo foi um entrave sério na vida do artista, que começou a beber ainda na adolescência. Seu casamento fracassou em boa parte por causa disso, e foi também o álcool que atrasou em alguns anos o seu progresso profissional e artístico. “Queria trabalhar, mas a bebida não deixava”, conta. Só aos 50 anos ele conseguiu se concentrar de vez nas madeiras e nas divindades que esculpe. “Já estou sem beber faz oito anos.”

Dois anos atrás, ele enfrentou um dos piores testes de resistência que um alcoólatra em recuperação pode suportar: perdeu sua filha mais velha, de 30 anos (ele prefere não lembrar a causa da morte). Conseguiu seguir em frente, sem recorrer à garrafa. “Deus não permitiu”, diz César, que é católico. Ele tem outra filha e duas netas. E segue adiante, contando com o apoio dos curadores José Eduardo e Vilma Ferreira Santos. “Estão me ajudando, me empurrando aos poucos”, diz. “É tocar para frente. Estou com saúde, graças a Deus.”