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    Como decana dos bicentenários nacionais, a banda do Corpo dos Fuzileiros Navais tem o ano inteiro para ver se aonde ela for o povo vai atrás, como lhe ensinou Napoleão Bonaparte FOTO: ACERVO DO COMANDO-GERAL DO CORPO DE FUZILEIROS NAVAIS

chegada

Dez meses de dois milênios

De março a dezembro, o Brasil comemorará uma dezena de bicentenários

| Edição 18, Março 2008

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Não faltam bicentenários em 2008. Tem os 200 anos da chegada de dom João VI. Os do Jardim Botânico. Os da indústria gráfica e da publicidade. E também do Judiciário, da Biblioteca Nacional e da Polícia Militar. Até os Dragões da Independência, apesar do nome nascido às margens do Ipiranga em 1822, estão completando 200 anos.

Serão, no mínimo, dez bicentenários até dezembro. Somados, dão dois milênios, contando por baixo. Nunca na história deste país, incluindo os cinqüenta anos em cinco da Era JK, 200 anos foram espremidos em tão pouco tempo.

O programa de aceleração dos bicentenários nem esperou pelo 7 de março, data do desembarque da família real no Rio de Janeiro. Zarpou de Lisboa no ano passado, comemorando o bota-fora dos navios que deixaram Portugal, à francesa, em 29 de novembro de 1807. Na pressa, sobraram caixotes e móveis no embarcadouro. Mas vieram os 60 mil livros que virariam a Biblioteca Nacional, as prensas que inaugurariam a tradição brasileira dos diários oficiais e o estoque genético dos Orleans e Bragança.

A partida dos portugueses não seria nossa sem a presença do almirante Álvaro Augusto Monteiro, comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais. “ad sumus”, disse ele na Torre de Belém. Seu quartel-general ficava no Rio de Janeiro. Mas o almirante que se criou em Arouca, a “Arouca das cavas e do pão-de-ló”, na ocasião estava duplamente em casa na cerimônia. O “aqui estamos” em latim que abriu seu discurso é o lema dos fuzileiros. Eles participariam do embarque de dom João como Brigada Real da Marinha.

Como o príncipe regente trouxe a bordo esses “valorosos combatentes anfíbios”, os fuzileiros navais se estabeleceram automaticamente no Brasil assim que puseram as botas no Rio de Janeiro. As outras instituições bicentenárias, por mais urgentes que fossem, tiveram que esperar pelos decretos e as providências administrativas de uma corte em crise de aclimatação. Com essa vantagem nas mãos há 200 anos, os fuzileiros agora largam na frente. Sobra-lhes em disciplina interna o que lhes falta em recursos orçamentários ou patrocínios privados. Mas eles têm fôlego treinado para esticar o bicentenário até dezembro. E uma agenda carregada de comemorações.

O selo dos 200 anos figura em todos os papéis dos Fuzileiros Navais desde janeiro. Seus ensaios começaram no segundo semestre do ano passado, com o ducentésimo aniversário do almirante Tamandaré, patrono da Marinha. Desde fevereiro estão mobilizados para uma campanha nacional de doação de sangue. Este mês, 200 fuzileiros partem a pé para Brasília, numa marcha de 1 220 quilômetros, reeditando a caminhada que fizeram em 1960, para a inauguração da capital, em 21 de abril. No caminho, reformarão escolas. Promoverão uma regata na Lagoa Rodrigo de Freitas, remando escaleres. Organizarão uma corrida rústica de 10 quilômetros no Aterro do Flamengo. Farão concursos de fotografia e artes plásticas abertos ao público, mas com temas navais. Está prevista até uma competição de ordem unida, com “instrução reguladora específica”.

Ordem unida, por sinal, é um dos pratos fortes do programa, com três Paradas Após o Pôr-do-Sol na fortaleza de São José, que os fuzileiros ocupam, desde 1809, na ilha das Cobras. São apresentações fechadas para 500 convidados, em palanques camuflados e expostos à chuva e ao sereno. Por baixo do pátio, estão os túneis por onde passava o ouro de Minas Gerais, rumo a Lisboa. Nos subterrâneos, as chaves de ferro ainda giram em fechaduras do século XVIII. Ainda brilha uma baixela de prata que parece ter entrado para o serviço da Marinha em 1852. Estão em perfeita ordem um periscópio de trincheira da I Guerra Mundial e uma das chibatas que serviu de estopim à Revolta dos Marinheiros, em 1910. Há visitantes que reencontram lá dentro até a memória de dias passados na masmorra, como presos políticos, durante o regime militar.

 

A fortaleza é uma dessas raras instâncias do serviço público em que as coisas dificilmente se perdem. Por exemplo, o gosto pelas bandas marciais. A dos fuzileiros tocou no desembarque de dom João, que fugia do exército napoleônico, mas não escapou aqui de sua influência estratégica. “Ponha uma banda na rua e o povo a seguirá” é um conselho de Napoleão Bonaparte que continua em vigor na ilha das Cobras. A companhia dispõe de 120 músicos, com todo o rataplã a que tem direito: bombos, taróis, pífaros, cornetas, pratos, dois canhões para salvas de pólvora seca e dezesseis gaitas de fole, presenteadas pela Marinha britânica mais de meio século atrás. Com as gaitas, toca até o quarto movimento da Nona Sinfonia, de Beethoven.

A banda deu origem a um coral de 25 vozes, uma orquestra sinfônica, que este ano tem concerto marcado no Teatro Nacional, além de uma turnê por vinte estados, e fez germinar o Fuzibossa, conjunto que animará os jantares dançantes do bicentenário. Ela já gravou seis CDs, com um repertório que vai da canção marcial A Vanguarda, que começa com o verso “Sentinela e falange aguerrida”, ao tango A Media Luz. Suas Paradas ao Pôr-do-Sol começam com retretas e dobrados. Mas podem acabar com fragmentos do Concerto para Piano e Orquestra nº 1, de Chopin. Ou com os sargentos Samuel Alves e Patrícia Monção cantando os duetos do Fantasma da Ópera, que o locutor apresenta como “ópera gótica”.

Tem banda para todo gosto. E esse, no fundo, é o segredo do bicentenário. No Quinto Centenário do Descobrimento, os pataxós protestaram na reencenação da primeira missa no Brasil, os celebrantes pediram perdão aos índios pela conquista evangelizadora e o parque nacional do Monte Pascoal foi invadido pelos sem-terra. O resultado foi uma festa típica de país dividido. Mas, neste bicentenário, cada brasileiro pode escolher o que quiser. É um novo jeitinho de unidade nacional.