diário

Tudo acaba em barro

Um coveiro em Manaus conta seu cotidiano durante a pandemia

Marcos Antonio da Silva Santos
Silva Santos, no cemitério em que trabalha: “Faço compra para o mês inteiro. Alugo um carro particular pra caber tudo e vou dirigindo pro mercado. Minha mulher vai junto. Eu chamo ela de ‘Pai’, não sei por quê. Ela me chama de ‘Amor’”
Silva Santos, no cemitério em que trabalha: “Faço compra para o mês inteiro. Alugo um carro particular pra caber tudo e vou dirigindo pro mercado. Minha mulher vai junto. Eu chamo ela de ‘Pai’, não sei por quê. Ela me chama de ‘Amor’” FOTO: RAPHAEL ALVES_2020

Marcos Antonio da Silva Santos tem 42 anos e trabalha há dezessete como coveiro em um cemitério da Prefeitura de Manaus, o Nossa Senhora Aparecida, que ficou conhecido em todo o Brasil por causa das valas coletivas abertas ali para o enterro de pessoas mortas pela Covid-19. Naqueles dias de abril, Santos chegou a enterrar 115 corpos em um único dia. “O defunto que morre de Covid vem sempre mais pesado do que os outros”, ele conta no diário a seguir. “A gente não sabe qual é o mistério que tem.”

 

25 DE MAIO, SEGUNDA-FEIRA_Ontem fui ao Rio Solimões com mais cinco amigos dar uma pescada. Eram duas canoas, a gente usou tarrafa e linha comprida. Deu pra pegar uns 30 kg de surubim, caparari e dourado. No Solimões tem muito peixe sem escama, que é mais gostoso de comer. No Rio Negro dá mais tambaqui, pacu, piranha, peixes com escama. A gente foi bem cedo, eram umas seis e meia da manhã. Voltamos lá pelas seis da tarde. Quando cheguei em casa, botei logo os peixes no freezer. A minha mulher, a Etelvina, vai fazer guisado e cozido com eles. Estamos casados faz catorze anos. Nossa filha, a Geovana, já está com 6 anos. Tenho também um filho de criação, o Ítalo Roger, de 22 anos. Ele trabalha numa igreja, fazendo serviço geral.

Hoje acordei às 4h45. Tomei banho e fui pro estacionamento perto de casa pegar minha moto. Eu pago 100 reais por mês pra deixar a moto lá, porque tenho medo de ela ser roubada se eu deixar na rua. Cheguei no cemitério às 5h40, não tenho um horário de entrada fixo. O importante é chegar antes do almoço e cavar dez covas novas por semana. O cemitério fecha às cinco da tarde.

Tomei café com o Alcindo e o Chiquinho. Os dois também são coveiros. O acordo no trabalho é que todo mês cada um leva um pacote de café e um de açúcar. Além disso, quem pode leva pão, bolacha, macaxeira, o que tiver. Eu paro todo dia numa padaria que fica no meio do caminho pra comprar 2 reais de pão. Dá uns oito pãezinhos. Às vezes alguém leva manteiga, às vezes, não.



Às 7h15 teve o primeiro enterro. Cova normal, não era morto de Covid, mas de arma de fogo. Fomos eu, o Alcindo e o Rafael colocar o caixão no buraco. Eu tenho enxada, picareta, pá, ferro de cova e espátula. Gosto muito da minha enxada de cabo curto pra cavar. O Nossa Senhora Aparecida é um cemitério bem antigo, tem quase uns 50 anos, e aqui o trabalho de cavar sempre foi manual. Mas agora, com essa pandemia, passaram a usar trator. Como é muito defunto, a gente não estava dando conta. A administração alugou dois tratores. Um de draga, que rasga o chão todo, e um de concha, pra furar vala por vala. Também contratou um caminhão frigorífico, pra guardar caixão quando tem muitos corpos.

O cemitério aqui termina dentro da floresta e teve que ser aumentado. Primeiro, o trator de draga derrubou uma parte da mata e abriu espaço pra uma quadra só com defunto de Covid. Depois, o trator de concha furou os buracos das covas. A gente só precisava arriar os caixões, porque o próprio trator jogava terra em cima, e fazer o acabamento, aplanando com a pá e botando uma cruz. A cruz tem o endereço da quadra, o nome do defunto e a data do nascimento e da morte dele. Quem escreve tudo na cruz é o Batalha, que também é coveiro e tem letra bonita. Além da cruz, a sepultura tem também o castilho, que é aquela muretinha de madeira, mais ou menos do tamanho do caixão, cercando a cova pro pessoal saber onde está o defunto.

No auge da Covid, a gente enterrou 115 corpos num dia. Em dia normal, não passa de vinte. Eu e mais seis coveiros. Já tinha o trator pra ajudar, mas, mesmo assim, o trabalho durou até sete da noite. Como era muito corpo, a gente passou a enterrar de cinco em cinco. Era tanta coisa acontecendo que eu nem percebi se estava com medo, mas minha mulher ficou bem assustada de eu levar a doença comigo pra casa. Passei a tomar banho com álcool quando chegava, num chuveiro que tem do lado de fora. Só depois eu entrava.

Antigamente, o enterro era normal, cada um na sua enxada. O caixão chegava, ficava uns minutos na mesa pra receber homenagem e a família carregava até a cova. Agora é assim: se é morte por Covid, o corpo vai direto pra cova. Se é morte morrida normal, fica mais tempo na mesa, até juntar cinco caixões. Aí o pessoal coloca todos eles num tratorzinho com carroceria e leva os cinco pra serem enterrados de uma vez só. Fizeram esse protocolo aí porque o pessoal não estava tendo tempo de enterrar um por um.

O enterro é em cova coletiva, a não ser que a família tenha algum jazigo antigo. O cemitério aqui é da prefeitura. Quem quer enterrar em cova particular precisa comprar no cemitério da frente, o Parque Tarumã, que é privado. Mesmo quando não é Covid, a gente tem que usar máscara. Se é Covid, tem que usar roupa especial. Por causa da doença, o prefeito também baixou um decreto que só deixa cinco familiares do defunto acompanharem o enterro. Agora tem aparecido pouco morto de Covid, mas varia. Hoje, por exemplo, foram sete enterros. Só um era da doença. O João e o Rafael fizeram esse aí.

Larguei o trabalho às cinco da tarde. Cheguei em casa meia hora depois. Tomei banho e fui pra sala ver televisão. Boto sempre no canal A Crítica, que tem o programa do Sikêra Junior. Ele falou de um homicídio de uma moça de 14 anos, de sábado pra domingo. Acharam o corpo na Estrada da Praia Dourada. Acho que ela não foi enterrada lá no cemitério, não. Teve dois enterros de arma de fogo, mas os mortos eram homens.

 

26 DE MAIO, TERÇA-FEIRA_O celular despertou antes e acordei mais cedo, às 3h45. Fiquei vendo televisão e saí de casa uma hora depois. Passei na padaria, depois abasteci a moto: 4 reais de gasolina, pra completar o tanque. A moto é flex, mas eu só boto gasolina. Não gosto de andar com o tanque na reserva, pra não dar risco de ficar vazio quando saio do cemitério.

Tomei café da manhã com o Chiquinho e o Alcindo de novo. Quando deu 7h15, o fiscal mandou a gente abrir uma cova na quadra 56, pra um defunto que ia ser enterrado na parte da tarde. Foi feita na mão mesmo, com enxada e pá, porque o trator não chega até lá. O Sidney me ajudou. A gente cavou 1 metro pra baixo, que é o espaço de dois caixões.

Quando a família tem sepultura, a gente tem que tirar o caixão mais antigo pra poder caber o novo. Mas só pode fazer isso depois que o caixão tem quatro anos debaixo da terra, que é o tempo que o defunto leva pra virar só roupa e osso.

A gente cava, arranca os pedaços do caixão e joga fora a calça, a camisa, o tênis ou o sapato, essas coisas. Quem come defunto não é minhoca. É o barro mesmo. Quando o caixão é aberto, depois de muito tempo, está tudo misturado no meio do barro: a madeira, as roupas, os ossos. A gente cata os ossos que sobraram e coloca dentro de um saco, mostra pra família e, depois, enterra de novo. O saco fica em cima do caixão do defunto novo. Se a família quiser, até pode colocar os ossos numa gaveta, mas aí tem que pagar a mais. Esse serviço de gaveta só tem no Parque Tarumã.

Umas semanas atrás, fiz um desses enterros, só que mais difícil. Precisei tirar um caixão de anjinho, que é como a gente chama a criança que morreu, e refazer a cova toda pra caber um adulto. A parte da terra onde ficava o caixão antigo é mais molinha, porque já foi revirada antes. A parte de terra virgem, que nunca foi remexida, é bem mais dura. Tem que fazer assim: primeiro a gente mede tudo pra dar o tamanho do caixão novo. Aí joga água pra amolecer a terra e cava um palmo pra baixo. Depois joga mais água, espera uns vinte minutos, cava de novo, e assim por diante. Se não fizer isso, você bate a enxada e ela não tira nada.

O defunto da cova que a gente abriu de manhã chegou às quatro e meia da tarde. Era um senhor de idade, morreu de Covid. Eu já estava com roupa especial, tinha botado uns dez minutos antes. O fiscal, o Átila, avisa quando tem Covid e traz a roupa pra gente. É uma capa de pano feita de napa, tipo capa de chuva. Tem também touca, luva e máscara. Depois de usar, tem que jogar tudo na lixeira. Até agora, nenhum coveiro adoeceu. Por isso eu não fico mais tenso. Passo álcool em gel, e é vida que segue.

Depois de enterrar esse morto de Covid, tomei um banho e fui embora. Tomei outro banho quando cheguei em casa. O jantar vai ser guisado de peixe.

 

27 DE MAIO, QUARTA-FEIRA_Acordei às 5h40. Comprei pão e fui pro cemitério. Quando cheguei, o Átila pediu pra eu e o Sidney cuidarmos da parte de Covid. O primeiro sepultamento foi às dez da manhã. Era um rapaz. Botei a farda, enterrei, descartei a farda. No fim da tarde, enterrei uma mulher. A família e os amigos dos mortos ficam chorando enquanto a gente enterra os defuntos, mas eu quase não me emociono. Só uma vez eu chorei, num enterro de uma mulher que tinha sido morta pelo marido a facada. Quando vi os filhos chorando na beira do caixão, eu chorei também.

Almocei costela e guisado. Tem um rapaz que fornece comida no cemitério. Ele liga pra gente por volta de nove da manhã, diz qual é o cardápio do dia, a gente escolhe, e lá pelo meio-dia chega a quentinha, que custa 10 reais. A gente come numa mesa improvisada, bem longe das covas. Normalmente, eu almoço junto com o Chiquinho, o Carlinhos e Irmão Zé, que tem esse nome porque é pastor. O Chiquinho sempre faz um café.

 

28 DE MAIO, QUINTA-FEIRA_Hoje foi bom, deu só dois enterros. A gente aproveitou o tempo livre pra lembrar os sepultamentos de antigamente. Falamos do finado Bigode e do finado Cairara. Os dois eram coveiros, morreram de velho. O finado Cairara foi um dos fundadores do cemitério, passou 46 anos nesse trabalho. Depois dele, o mais antigo é o João Montenegro, que tem mais de quarenta anos como coveiro e vai se aposentar daqui a um tempo. A prefeitura afastou ele, o Macedo e o Lázaro, todos de idade, por causa da Covid. Como não contratou gente nova, a gente teve que dividir as funções. Mas não foi muito trabalho, não, porque o João e o Lázaro só enterravam anjinho.

No ano passado, teve um dia que enterrei um defunto de 386 kg. Era um rapaz novo, que engordou muito. O caixão nem era caixão. Era uma caixa de madeira tão grande que nem cabia no esquife, aquele carrinho de transportar o corpo até a cova. A família levou a caixa de madeira na caçamba de um caminhão. Eu nunca tinha cavado uma cova grande daquele jeito. Primeiro, a gente usou umas tábuas pra arriar a caixa do caminhão pro gramado. Depois, todo mundo ajudou a levar do gramado pra cova, porque só os seis coveiros não davam conta. Foi gente segurando pelas beiras, pelas cordas. Deus me livre.

Outra história curiosa no trabalho foi com um colega meu, o André, que era fiscal. Um dia a gente saiu do cemitério lá pelas seis e pouco da tarde, no carro dele. Quando o carro estava passando entre as quadras 18 e 17, nós vimos uma mulher sentada num banco, com o cabelão todo jogado na frente da cara. Eu falei: “Ô André, você viu isso aí?” Ele tinha visto também e logo deu marcha à ré, para poder conferir quem era. Mas a mulher tinha sumido, assim, rapidinho. Até hoje eu não sei o que foi aquilo que a gente viu, porque naquele horário já não podia ter mais ninguém visitando as covas. Teve uma vez que a gente estava cavando na quadra 17 quando caiu um raio por perto. Todo mundo sentiu um choque na perna e caiu no chão. Depois o pessoal se levantou de volta e continuou enterrando.

Tem dezessete anos que eu sou coveiro, mas trabalho desde que era criança. Minha mãe morreu quando eu tinha 5 anos, de tétano, depois que ela pisou num prego enferrujado. Quando eu tinha 8 anos, foi a vez do meu pai, que morreu de câncer. Minha madrasta passou a cuidar da casa e de quatro irmãos menores que eu. Larguei a escola e fui aprendendo a dar meu jeito. Comecei empacotando coisas na feira e nas Casas da Banha, um supermercado que existia na época. Também trabalhei de engraxate e em conserto de carro.

Quando eu tinha uns 16 anos, fui pro interior. Tenho uma irmã bem mais velha que mora em Itacoatiara. Fiquei um ano lá, plantando mandioca. Depois voltei e fui trabalhar de auxiliar na Zona Franca, enchendo caminhão com dvd, televisão e outros aparelhos. Como não era todo dia que davam carreta pra encher, passei a ir bastante na Secretaria Municipal de Limpeza Pública e perguntar se tinha vaga de gari. O salário era melhor. Comecei a lavar carro do pessoal que trabalhava lá, pagar conta no banco para eles, essas coisas. Um dia a chefa do setor de pessoal me avisou que ia aparecer uma vaga. Deu certo, fiquei uns três anos varrendo a cidade. Em 2003, o pessoal da secretaria me perguntou se eu não queria mudar pra coveiro. O salário era igual, mas tinha uma parte melhor: no cemitério, a gente trabalha uma semana inteira e folga na outra. Hoje ganho 2 100 reais por mês, sem carteira assinada.

No começo, eu vinha pro trabalho de ônibus bem cedo e descia no portão de entrada. Tinha que atravessar o cemitério inteiro a pé, de madrugada, e às vezes ainda estava escuro. Dava um pouco de medo. Depois, fui ganhando coragem. Hoje, gosto do que faço. Já enterrei juiz, promotor, policial e um cantor famoso, o Arlindo Júnior, que cantava no Festival de Parintins. Enterrei os defuntos do micro-ônibus que bateu num caminhão na Djalma Batista, uma avenida daqui de Manaus. Foram dezesseis mortos numa tacada. Enterrei também aqueles presos do Compaj [o Complexo Penitenciário Anísio Jobim], depois da rebelião que aconteceu lá em 2017. A imprensa deu que foram 56 mortos, mas a gente abriu 147 covas. Essa tragédia foi no dia 1º de janeiro, dia do meu aniversário.

Fui eu que enterrei também o Fábio dos Santos Maciel, aquele sargento da Marinha que morreu na própria festa de casamento, no Rio de Janeiro. Ele caiu em cima de uma taça de vidro, que cortou a veia da perna dele. No enterro teve homenagem, e o chefe do Fábio pediu pra gente arriar o caixão bem devagar. De vez em quando, a viúva visita a sepultura.

Quando o defunto vem de outro estado, o caixão tem que ter uma proteção de zinco por dentro, pro chorume não escapar. Se não tiver, a empresa aérea não faz o traslado. E, dependendo do tempo que vai levar até o enterro, o defunto precisa ser embalsamado. Colocam formol na coxa, no antebraço e no pescoço, e dessas partes o líquido se espalha pelo corpo todo. Tem funerária que também tira as tripas.

 

31 DE MAIO, DOMINGO_Tive dor de cabeça e febre na sexta-feira, mas passou rápido. Acho que foi por causa do sol quente. Bateu uns 38ºC. Eu não uso protetor solar, porque o corpo fica muito liguento. O verão pior aqui é em agosto e setembro. Faz mais de 40ºC. A cigarra canta tanto que espoca. Até já gravei uma cigarra cantando e coloquei como toque do meu celular. Nessa época é ruim de cavar porque não chove. O barro vai ficando mais duro. A gente chega no cemitério ainda de madrugada pra poder cavar antes do sol aparecer. Antes da Covid, cada coveiro tinha que deixar prontas dez covas por semana, pra quando chegasse o defunto. Agora, no caso de morto de Covid, quem faz isso é o trator.

Hoje foi meu último dia de trabalho na semana. O Rafael, meu colega aqui, teve a ideia de a gente fazer um churrasco no cemitério, numa área longe das quadras de enterro. Cada um deu 10 reais pra comprar bisteca, linguiça, farinha e banana-prata. A gente montou a grelha com uma grade velha, daquelas da parte de trás de geladeira, e usou como base um pedaço de meio-fio. No lugar do carvão, usamos umas madeiras que estavam lá mesmo. Queimou rapidinho. Cada um se revezou como churrasqueiro. Teve uma hora que o Rafael, o Batalha, o Alcindo e o Carlinhos foram fazer um enterro, e eu fiquei no fogo. O churrasco durou umas duas horas. Sem bebida, pois não é permitido.

Hoje foram sete enterros no total. Nenhum era Covid. Teve o de um morto por arma de fogo e o de uma moça que teve o pescoço cortado por uma linha de pipa quando andava numa moto. A moto dela não tinha aquele ferrinho no guidão que protege contra isso. A minha também não tem, mas não tenho medo porque nunca passo em área que tem pipa.

Peso de defunto varia muito. O defunto de Covid vem sempre com o corpo mais pesado do que os outros, por exemplo. A gente não sabe qual é o mistério que tem. Defunto morto por arma de fogo também costuma pesar mais. Não é por causa do chumbo, porque o IML costuma tirar as balas. Mas uma vez eu exumei um cadáver que estava enterrado tinha uns quarenta dias. O laudo dizia que o defunto morreu por asfixia. Mas a mãe dele não estava convencida disso, achava que o rapaz tinha sido morto por arma de fogo. Quando o perito foi examinar o corpo, viu o buraco de um tiro atrás da orelha.

Outra vez, em 2008, fiz a exumação de um defunto de 48 dias. Era um traficante de um bairro chamado Praça 14 de Janeiro. Ele tinha morrido de tiro. A gente desenterrou, abriu o caixão, mas na hora de transferir pro esquife o corpo partiu no meio, na altura da barriga. A gente pegou as duas metades e colocou no rabecão pra ir pro IML. Já estamos acostumados com isso.

Quando tem exumação, o pessoal do IML vem acompanhar, porque é caso de polícia. Às vezes vêm também agente, delegado e juiz, pra não deixar ninguém chegar perto do corpo. A gente usa máscara e roupa especial. Quando termina a exumação, joga a máscara fora e a roupa também, porque ela fica com cheiro do chorume do defunto. A última exumação que eu fiz tem uns dois anos. Foi o de uma mulher morta pelo marido, um pastor que não aceitava a separação. O caixão estava no barro tinha uns vinte dias, que é até um tempo tranquilo. Quando passa disso, o cheiro começa a piorar. A gente tirou o corpo e botou num caixão novo, que foi levado pra outro cemitério, no interior do Amazonas, onde a família tinha jazigo, pra ser enterrado de novo. A família tinha conseguido autorização pra fazer a exumação.

O defunto aqui no Nossa Senhora Aparecida pode ser enterrado em três lugares: gaveta, porão e chão. A gaveta é uma sepultura de concreto que fica em cima da terra, às vezes numa capelinha, se a família tem dinheiro pra fazer a construção de uma por cima. A sepultura de porão também é feita de concreto, só que pra baixo da terra, num buraco. A gente cava e cimenta as paredes. Já a sepultura que a gente chama de chão é aquela cova de barro mesmo, também pra baixo da terra, mas sem concreto em volta. Acho que uma capela com umas quatro gavetas custa uns 10 mil reais. O porão sai por uns 6 mil. O barro é mais barato, uns 800 reais.

Coronel e capitão costumam ser enterrados no barro. General é no concreto. Juiz e desembargador também são em sepultura de concreto. Mas isso varia. Já enterrei policial federal em cova de barro. Tem gente que tem interesse em enterrar bem, tem gente que não. Hoje em dia tem até um crematório em Manaus, as coisas estão mudando.

O cemitério chique aqui na cidade é o São João Batista. É da prefeitura, mas quem tem capela lá é barão. Custa uns 28 mil reais. É como no Cemitério Morada da Paz, no Recife. Fui lá em 2016, quando viajei de férias com a minha mulher e a minha sobrinha. A gente fez um city tour que passou na frente do cemitério. No dia seguinte, deixei as duas no hotel e voltei lá sozinho. É tipo cemitério da Europa, todo bem cuidado. Também fui sozinho, uns dias depois, no crematório de Olinda.

Tenho medo de morrer, mas nosso destino é esse, não é? Quando eu morrer, posso ir pro Santa Helena, onde tem uma sepultura da minha família, ou posso ficar por aqui. A prefeitura dá uma cova no barro pra cada coveiro que trabalha no Nossa Senhora Aparecida. Acho que prefiro ficar aqui, porque todo mundo já me conhece.

 

1º DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_Ontem, depois do jantar, fiquei na frente de casa jogando dominó com os vizinhos. Moro na beira de um igarapé, no bairro Educandos, numa vila cheia de casas de palafita. A última vez que teve um grande alagamento na vila foi em 2012, mas eu ainda não morava lá. Depois, teve só uns alagamentos menores.

Na semana de trabalho, durmo lá pelas sete e meia da noite. Minha mulher fica vendo novela até mais tarde. Já me acostumei tanto com esse horário que, em semana de descanso, também durmo cedo e acordo cedo, tipo cinco da manhã. Aí vou pra casa da minha sogra e tomo café lá. Ela mora numa casa quase encostada na minha.

Hoje foi o primeiro dia dessa minha semana de folga. Fui no banco pagar minha moto. Pago com boleto: 416 reais por mês. Já quitei 12 das 48 parcelas. Pago também o rastreamento da moto, que custa 59 reais.

Desde sábado, minha geladeira está ruim. Não está gelando. Botei as coisas no freezer e pedi pro meu sobrinho vir consertar. Estou querendo fazer compra, mas dependo da geladeira. Faço compra para o mês inteiro. Alugo um carro particular pra caber tudo e vou dirigindo pro mercado. Minha mulher vai junto. Eu chamo ela de “Pai”, não sei por quê. Ela me chama de “Amor”.

 

8 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_A geladeira queimou mesmo. Dei pro meu sobrinho naquele dia a estragada e comprei outra, uma Panasonic, de 1 mil e poucos reais. Vou pagar em três vezes. Minha mulher gostou. A gente foi na loja Tvlar, porque Manaus liberou a abertura do comércio no dia 1º. Por enquanto está tranquilo na cidade. Eu uso máscara e álcool em gel na rua, mas vi gente que não estava usando.

No sábado, fui no Rio Solimões com a minha mulher, meus cunhados e uns vizinhos. Alugamos quatro lanchas aqui perto de casa e seguimos pra comunidade do Lago Janauari. Tem gente que vai pra lá com caixa de som e assa peixe na beira do rio. A gente fez uma caldeirada de bodó. Só tirei a máscara pra comer e tomar banho no rio.

Acordei hoje com uma dor de cabeça horrível e não fui trabalhar. Amanhã, se Deus quiser, eu vou.

9 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA_Foi devagar hoje, fiz três enterros só. Um era acidente de carro, os outros dois eram arma de fogo. Em Manaus as mortes por Covid diminuíram. Agora, está mais no interior. São enterrados por lá mesmo.

O caminhão frigorífico foi embora. Nessa semana vão levar os tratores também. Eles ajudaram bastante porque a demanda era muito grande. Vou voltar pro manual, mas não vou sentir saudade das máquinas, não. Já estou acostumado a cavar o chão.

 

11 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA_Hoje é Dia de Corpus Christi. O cemitério enche mais, apesar de a prefeitura ter proibido as visitas já tem uns meses. Os feriados mais cheios são o Dia das Mães, o dos Pais e o de Finados. No Dia das Mães teve gente desavisada que veio para o cemitério, mas foi barrada no portão. Eu estava de folga, mas soube que teve muita reclamação.

Enterrei dois de Covid. Continuo sem medo de pegar a doença. O caixão já chega aqui lacrado, protegido num plástico, que a gente fura na hora de botar a corda pra arriar na cova. Quem deve correr mais risco é o pessoal da funerária, que tem que botar o defunto num saco, fechar com zíper e depois colocar dentro do caixão.

Ontem teve um caso que mexeu comigo. Enterrei uma senhora de idade, morta a facada pelo filho. Parece que ele estava preso e só saiu porque ela pagou a fiança. Aí o filho voltou pra casa e matou a mãe. No cemitério, estavam as irmãs e a filha da mulher, todas chorando. Fiquei um pouco emocionado. Isso é uma tragédia, né?

Difícil mesmo é enterro de defunto que não tem ninguém da família. Acontece muito quando é indigente. O corpo chega no rabecão do IML, em caixão bem simples, de compensado. Aí vai pra uma área só deles, onde é enterrado no barro. Não tem nem cruz por cima. O cemitério só manda colocar a cruz quando aparece alguém da família pra pagar pela cova. O defunto indigente fica enterrado lá quatro anos, que é o tempo de tudo virar barro. Quando chega um morto novo, a gente enterra por cima, sem nem tirar os ossos.

Marcos Antonio da Silva Santos

Trabalha como coveiro num cemitério municipal de Manaus

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