esquina

Dindim para Don L

Resoluções de um rapper

Peu Araújo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

No último dia de 2017, o rapper Don L lançou nas plataformas digitais a música Verso Livre Nº 2 (018), que ele definiu como seu “indulto de Réveillon”. A letra trazia uma série de projeções para o ciclo prestes a começar: 2018 seria o Ano de Júpiter, Xangô/Ano da justiça/Ano de colher os frutos. O refrão anunciava a resolução mais importante: Esse ano eu fico rico.

A julgar pela velocidade com que foram vendidas quase 800 entradas para o show que ele fez dezoito dias depois no Sesc Pompeia, em São Paulo, talvez o vaticínio tenha fundamento. A apresentação marcaria o lançamento do seu segundo trabalho solo. Na bilheteria, os ingressos se esgotaram em duas horas; na internet, em treze minutos.

Gabriel Linhares da Rocha – seu nome de batismo – nasceu em Brasília, mas aos 4 anos se mudou para Fortaleza, de onde carrega o sotaque, as gírias e as referências. Saiu de casa ainda adolescente, flertou com a ilegalidade e acabou por encontrar o rap. Projetou-se com o grupo Costa a Costa, que reuniu vários rappers do Ceará. Com a mixtape Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa, de 2007, o grupo cantou a vida dos guetos na periferia de Fortaleza e ajudou a projetar no Sudeste o rap feito fora do eixo Rio-São Paulo. O discurso sobre dinheiro sem tabu que acompanharia Don L ao longo da carreira já estava ali. Uma das letras questionava: Cê não tá por dinheiro?/Pelo que cê tá nesse jogo mesmo?

Em 2013, o rapper mudou-se para a capital paulista e lançou seu primeiro trabalho solo, a mixtape Caro Vapor – Vida e Veneno de Don L. A obra até hoje é cultuada na cena hip-hop – algumas faixas alcançaram 500 mil visualizações no YouTube –, mas não chegou a repercutir fora dela. A aposta do artista era que a consagração viria com o novo disco, Roteiro pra Aïnouz Vol. 3, lançado no ano passado – o álbum foi pensado como uma espécie de roteiro musical para um filme imaginário dirigido pelo cearense Karim Aïnouz.

 

Magro e alto, o rapper de cabelo raspado até a altura da testa estava sentado com as pernas inquietas enquanto aguardava no camarim a hora de entrar em cena. Não seria a sua estreia naquele palco. No dia em que se apresentou ali pela primeira vez, em maio de 2014, o noticiário destacou uma paralisação dos metroviários. Por coincidência, uma nova greve no metrô aconteceu naquela quinta-feira de janeiro. Don L tirou sarro da situação. “Agora eu tenho esse poder.”

Vestido de preto e com óculos redondos dourados, o rapper saiu do camarim, desceu as escadas e tomou o rumo do palco, seguido por um cinegrafista e um séquito de quase uma dezena de pessoas. Segurando o microfone com a mão direita – a mesma que ostenta um grande anel no dedo mindinho –, Don L entoou os versos de Eu Não Te Amo, a primeira música do novo disco: E quando eu contar minha história você vai amar,/mas vai ter que pagar/E já que eu tô falando em dólares não tem amor,/quero cada centavo.

Durante esse número, ele recebeu o primeiro convidado da noite, o pernambucano Diomedes Chinaski, que entrou no palco com um respeitável São Jorge de prata pendurado no pescoço. Com uma energia raivosa, ele cantou o verso que se repete três vezes: Amigos viraram números. Um dos muitos artistas influenciados pelo Costa a Costa, Chinaski tem o rosto de Don L tatuado no antebraço esquerdo. “Eles são os Racionais do Nordeste”, explicaria mais tarde, comparando o grupo cearense aos paulistas da mais conhecida banda de rap nacional.

Outro convidado daquela noite foi Carlos Gallo, um velho parceiro do Costa a Costa e amigo de Don L há vinte anos. Gallo, um homem baixo de 43 anos, entrou olhando com cumplicidade para o colega e cantou com ele Aquela Fé, um rap de fundo autobiográfico que explora as contradições do autor, seu amigo: Eu devo tá errado/Eu sou comunista e curto carros/Eu quero vencer e faço amizades com fracassados.

Don L apresentou-se ao lado de um DJ e de um guitarrista, à frente de um cenário montado com três estruturas de andaimes metálicos e sob luzes de LED. O rapper supervisionou cada detalhe técnico da apresentação – só delegou o figurino ao estilista Apolinário, idealizador da marca Cemfreio. O clima da noite foi de jogo ganho, e a plateia cantou com Don L como se o novo disco fosse um clássico. Ao fim da apresentação, os músicos, os convidados da noite e o figurinista se alinharam com a estrela da noite para os aplausos catárticos do público, enquanto uma garrafa de conhaque Hennessy – marca muito exaltada pelos MCs – repousava vazia ao lado do palco.

 

Com a mesma agilidade que mostrara ao entrar no palco, Don L fez o caminho de volta até o camarim. Aparentando cansaço, mas com um largo sorriso no rosto, afundou-se no sofá para descansar por alguns minutos antes de atender os fãs que aguardavam na entrada da área reservada para o ritual de autógrafos e selfies com o ídolo.

O rapper falaria depois à piauí sobre a sua carreira e o projeto de riqueza. No que depender da sua ambição, ele acredita que ainda vai “longe pra caralho”. Mas reconhece que o saldo na conta bancária – um tanto aquém ainda do primeiro milhão – é incompatível com as projeções feitas no Réveillon. “Às vezes fico com a mente tão no futuro que me esqueço de onde estou”, disse Don L. “Quando eu caio na real, vejo o quanto estou longe.”

Quando faltavam três minutos para a meia-noite, um bolo de brigadeiro entrou pela porta do camarim do Sesc Pompeia. Ainda era tempo de comemorar o aniversário do rapper, que completou 37 anos naquele 18 de janeiro. Sobre o bolo estava escrito DON L RICO. Um dos convidados aproveitou a deixa para puxar, depois do Parabéns pra Você, uma variação do grito É pique/É hora: “É rico, é rico, é rico, é rico, é rico. É ouro, é ouro, é ouro, é ouro, é ouro.” A resolução de Ano-Novo do rapper segue de pé. Para o mês de março, sua página no Facebook anuncia shows no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Peu Araújo

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