esquina

Discriminar é preciso

Escola campineira reza pela cartilha de Carlito, o Afrancesado

Rodrigo Levino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Deveria ser ao som de All By Myself, canção que fez sucesso nos já longínquos anos 90, interpretada pela canadense Céline Dion que, graças a Deus, anda meio sumida. Mas um problema no sistema de som interrompeu o número musical que, naquela manhã do dia 13 de março, inauguraria em Campinas, no interior de São Paulo, a Escola Jovem LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) – a primeira do Brasil.

Um chabu eletrônico não haveria de abater a drag queen Lohren Beauty. Passado o contratempo, ela voltou ao palco e, com gestos dramáticos, realçados pelos cabelos de fogo – a mesma cor do vestido coladíssimo –, se pôs a dublar a igualmente celinedionesca Because You Loved Me. Ato contínuo, com movimentos fluidos, descerrou com as unhas vermelhíssimas a faixa que atravessava a entrada do prédio.

Uma plateia de cerca de trinta pessoas aplaudiu o breve discurso do professor e fundador da escola, Deco Ribeiro, de 37 anos, que destacou “a importância e o ineditismo que se materializa aqui, com a criação desta instituição de ensino”. Lohren Beauty, nome artístico de Chesller Moreira, 22 anos, que assumia na ocasião uma das diretorias da escola, acrescentou: “Este é um pequeno passo para um homem, mas certamente um salto – alto! – para uma drag!”

O anedotário politicamente incorreto credita a Campinas (em árdua disputa com Pelotas, no Rio Grande do Sul) o título de capital gay do país. A honraria não é desprovida de razões históricas. Nos anos 20, Orosimbo Maia, líder político, próspero dono de fazendas de café e zeloso da educação da família, enviou o único herdeiro para uma temporada de estudos na Europa. Foi um erro, ao menos da sua perspectiva.

Ao retornar, Carlos Maia surpreendeu a todos com modos, digamos, excessivamente afrancesados. A censura deu-se à boca miúda; o mais espalhafatoso estava por vir. Corria a década de 30 quando Carlos, já conhecido como Carlito, fechou o tempo ao se vestir de mulher no tradicional baile de carnaval do clube elegante da cidade.

As melhores famílias da região imediatamente protestaram. Aquilo era uma pouca vergonha. Para efeitos da história, porém, os protestos foram desconsiderados. Como em todo ajuntamento humano há sempre maledicentes, a fama de afeminado que se atribuía ao jovem Maia em pouco tempo foi democraticamente polvilhada, como paetê e purpurina, sobre toda a população masculina da cidade. Iniciava-se uma era.

Carlito então se mudou para o Rio de Janeiro, onde cursou medicina e pôde se apresentar sem amarras nos bailes de carnaval. Nas férias, visitava o interior paulista e, nessas ocasiões, provava ser homem de grande desassombro, pois nunca pensou duas vezes antes de reafirmar o frescor dos seus hábitos.

Segundo Deco, idealizador da Escola Jovem LGBT, o legado histórico de Carlito encontra um complemento natural na nova instituição de ensino. “Campinas se tornou desde então um polo de homossexualidade”, ele diz. A entidade tem paredes cor-de-rosa e funciona numa casa de seis cômodos no bairro de Nova Europa. Os alunos poderão se inscrever em cursos gratuitos de webTV, dança, teatro, canto e fanzine. A escola é financiada com recursos do projeto Pontos de Cultura, um convênio da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo com o MinC. Já há 64 inscritos, com idade entre 13 e 29 anos. O orçamento anual é de 60 mil reais, destinados a pagar o aluguel da sede, o salário de cinco professores e a ajuda de custo de dois alunos vindos de São Paulo. A prestação de contas será auditada pelo próprio ministério e pelo Tribunal de Contas da União.

 

Faixa descerrada, os presentes se atiraram com gosto em delícias fornecidas por uma padaria do bairro “totalmente gay friendly“, segundo Maxwell Silva. Esbanjando juventude e equilíbrio no alto de um scarpin salto 15, ele é o pupilo mais novo da escola. Tem 13 anos de idade. Desde os 11 “se monta”, expressão que significa vestir-se com roupas de mulher. Como ainda está em fase de crescimento, supre a deficiência de formas mais voluptuosas com enchimentos para os seios e pequenos truques, tais como “pôr o cinto um pouco acima da cintura e realçando o bumbum”, estratégia ajudada pelo vestido curtíssimo. Maxwell vai cursar webTV na escola.

Danilo Oliveira, de 19 anos, está tão feliz quanto Maxwell. Não fosse o grupo que deu origem à escola, ainda estaria no armário. Vários encontros em parques e bares da cidade, seguidos de conversas pela internet, acabaram lhe dando coragem para assumir publicamente a homossexualidade. “A escola vai servir para atrair novos gays”, diz.

A animação atinge o pico com a chegada do auxiliar de enfermagem Dino Penélope, 51 anos. Impossível confundi-lo, pois não existem duas motocicletas cor-de-rosa na cidade – cor-de-rosa que também o cobre dos pés à cabeça, “24 horas por dia, meu bem”. Sem perder um instante, Dino conclama os presentes a dançar ao som de Single Ladies, sucesso rebolativo da cantora americana Beyoncé, musa de nove em cada dez gays (dizem que o décimo é surdo). Foi prontamente atendido.

Referência incontestável para sua geração, Dino se emociona ao falar da escola e do papel que ela desempenhará na vida dos gays campinenses: “Na minha época era na base da pedrada, do preconceito. Ser gay nos anos 80 era muito difícil. Ver o nascimento da Escola Jovem é saber que o mundo está mudando e que podemos viver em paz.” Ele enxuga as lágrimas com seu lencinho cor-de-rosa.

O clima festivo é interrompido por Deco, que reclama a presença dos alunos. A primeira aula está para começar. Sob o comando de Leandro Ochialini, 22 anos, onze alunos se acomodam numa sala apertada para dar início ao curso de dança. “Gente, primeiro um alongamento. Todo mundo no chão, encostando o pé esquerdo no Edy!” (Os discípulos dominam o vocabulário especializado, de modo que o mestre não precisa explicar que Edy quer dizer bumbum). Maxwell, Danilo e companhia se concentram e, encostando o pé, dão partida a uma aventura pedagógica que faz jus ao pioneirismo de Carlito.

Rodrigo Levino

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