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Um herói – ou vilão – do cinema nacional

Douglas Duarte | Edição 35, Agosto 2009

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Pedro – se é que ele se chama Pedro – já lançou dezenas de filmes brasileiros no mercado. Graças a ele, seja no Japão, no Canadá, na Romênia ou no Tocantins, cinéfilos tiveram acesso a uma enorme variedade de obras, desde comédias da pornochanchada a documentários papo cabeça vistos por uma meia dúzia de gatos pingados. Ainda assim, Pedro não é famoso; a imprensa especializada ignora seu trabalho. Até onde se sabe, ele não compareceu (porque nem o convidaram) à posse da nova diretoria da Agência Nacional do Cinema, um beija-mão que reuniu o “quem é alguém” do ramo, em junho.

Produtores ciosos, auteurs soberbos, distribuidores neurastênicos, tremei! Neste exato momento, Pedr1nho – com o número 1 no lugar do i – pode estar jogando suas obras na internet, para gáudio dos internautas sedentos por filmes nacionais gratuitos. Pedr1nho é provavelmente – difícil ter certeza, dado que a classe pirata não tem sindicato – o maior fornecedor de audiovisual brasileiro não contabilizável na rede.

O fruto de seu esforço pode ser visto nos principais sites de compartilhamento gratuito de arquivos, como o The Pirate Bay, o Mininova e o Demonoid, que escapam da perseguição aos infratores de direitos autorais materializando-se a cada par de meses em novo servidor, com frequência sediado em outro país.

 

Pedro faz questão de não ser confundido com um camelô que vende DVDs arrasa-quarteirão hollywoodianos, shows de pagode e música sertaneja. Ele tem, com o perdão da palavra, uma griffe. O freguês que recorre aos seus serviços sabe exatamente que nicho ele explora: filme nacional. É pegar ou largar. No catálogo há também documentários de surfe, shows de rock e animações legendadas. (Pedro não quis explicar se é surfista e tem filhos.)

A carreira de pirata desse administrador de empresas de trinta e poucos anos começou em 2004, quando ele pôs na rede o arquivo de Dois Perdidos numa Noite Suja, filme de José Joffily baseado na peça homônima de Plínio Marcos. Pouco mais de 40 mil espectadores pagaram ingresso para ver a fita no cinema, resultado considerado modesto. “Eu achava que ninguém ia se interessar, mas acabou que muita gente baixou e começou a me pedir para lançar outras coisas do Brasil”, ele conta. “A partir daí, não parei mais.”

A sacada foi incluir as palavras “Brazilian Cinema” no nome do arquivo. Assim, para assistir a um filme brasileiro, não é preciso buscar nenhum título específico. Basta digitar as duas palavras no Google e acrescentar a palavra torrent, nome de um tipo de sistema que permite compartilhar qualquer conteúdo com Deus e o mundo. Em frações de segundo, uma variada videoteca da produção brasileira pós-retomada se abre diante dos olhos do cinéfilo deslumbrado. O que se vê são páginas e mais páginas que oferecem, por exemplo, Feliz Natal, de Selton Mello, Doutores da Alegria, de Mara Mourão, O Aborto dos Outros, de Carla Gallo, Querô, de Carlos Cortez, Cão sem Dono, de Beto Brant, e Baixio das Bestas, de Claudio Assis.

 

Pedr1nho já contrabandeou mais de 150 filmes para a rede. A oferta pode ser bem direcionada, mas a clientela é heterogênea. Há o grupo dos que reclamam do preço de um DVD. Outros vivem no interior, em cidades onde a oferta de filmes nacionais nas salas de exibição é especialmente anêmica. Um terceiro grupo, numeroso e especialmente agradecido, se compõe de brasileiros que moram no exterior e dependem da web para ver filmes nacionais. E há, por fim, um número significativo de estrangeiros que se interessam pela produção brazileira. “Um pessoal da Bulgária já me escreveu algumas vezes, dizendo que montaram uma ‘Brazilian night’ em Sófia com os filmes que eu pus na rede”, se empolga o bucaneiro. “Eles baixam as legendas em inglês e traduzem para o búlgaro. Dizem que é um sucesso.” É mais do que Celso Amorim já fez pelas relações Brasil-Bulgária.

 

Em 2005, Pedr1nho se juntou a nomes agora totêmicos do “udigrúdi internético” do país – gente que se escondia atrás de apelidos esdrúxulos como 614uc0, ToToH ou huricane_brazil – para fundar o Compartilhando, um dos primeiros sites brasileiros a oferecer de graça arquivos não só de filmes, mas também de videogames, músicas e livros. O site foi de vento em popa durante dois anos, até a Polícia Federal avisar ao huricane_brazil virtual que sua versão de carne e osso podia acabar na cadeia, caso ele insistisse na pirataria a torto e a direito.

O fato de ter a polícia no calcanhar não quer dizer que piratas como Pedr1nho não tenham um código de ética, ainda que peculiar. “Outro dia caiu na minha mão uma cópia do L.A.P.A“, o documentário de Cavi Borges e Emílio Domingos sobre o mundo do hip-hop no Rio de Janeiro. “Não copiei”, diz ele. É que os produtores estão tentando distribuir o filme pelas comunidades pobres do Rio, e Pedr1nho, como Robin Hood, não gosta de tirar o pão de quem tem poucos recursos.

 

Exemplo contrário é o filme Estômago, de Marcos Jorge. Pedr1nho ficou orgulhoso em pirateá-lo. “Um baita filme, cara. E foi muito mal explorado comercialmente no Brasil. Eu quase não consegui ver. Se o diretor lançasse na rede e as pessoas pudessem pagar o que quisessem para assistir, eu não teria pirateado”, diz ele, propondo um business model alternativo para o cinema nacional. É esse o modelo adotado, por exemplo, pela banda inglesa Radiohead para distribuir seu disco In Rainbows. “O Estômago tinha que ter representado a gente no Oscar, em vez daquele filme horroroso, o Última Parada 174.”

Pedr1nho garante que não se vê como um justiceiro audiovisual, mas, como atesta sua opinião sobre L.A.P.A e Última Parada, há um juízo moral, estético, econômico – político, na verdade –, que o faz decidir se vai ou não gastar as onze horas necessárias para transferir um DVD para a rede. “Eu já coloquei de tudo. Agora, só o que gosto.” Ele cita um exemplo: “Pirateei Irma Vap: o Retorno.” O filme, dirigido por Carla Camurati, não mereceu uma recepção particularmente festiva, nem por parte do público, nem por parte da crítica. “Hoje em dia eu jamais lançaria isso”, diz Pedr1nho. No Brasil, todo mundo é crítico de cinema. Até os piratas.

Douglas Duarte

Douglas Duarte é jornalista. Seu primeiro documentário é Personal Che, que foi exibido na Première Latina do Festival do Rio.

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