anais da tragédia brasileira I

Do carvão às cinzas

Causas e efeitos do incêndio no Museu Nacional

Bernardo Esteves e Roberto Kaz
Por trás do incêndio do Museu Nacional está a história das obras que não foram feitas porque o palácio era tombado; dos anexos que não foram construídos devido à burocracia; de sucessivos cortes de verba pelo governo federal; da dificuldade em captar recursos junto às empresas privadas; dos pedidos de socorro ignorados; e, por fim, da falta de pressão nos hidrantes ao redor do palácio
Por trás do incêndio do Museu Nacional está a história das obras que não foram feitas porque o palácio era tombado; dos anexos que não foram construídos devido à burocracia; de sucessivos cortes de verba pelo governo federal; da dificuldade em captar recursos junto às empresas privadas; dos pedidos de socorro ignorados; e, por fim, da falta de pressão nos hidrantes ao redor do palácio FOTO: FERNANDO SOUZA/ADUFRJ

Na sexta-feira anterior à tragédia do Museu Nacional, ocorrida na noite de 2 de setembro, a arqueóloga Rita Scheel-Ybert recebeu de volta um computador de seu laboratório que fora para o conserto. Satisfeita, reviu artigos de alunas e resolveu tarefas administrativas – ela é a coordenadora da pós-gradua-ção em arqueologia da instituição. Teve ainda uma reunião de orientação com uma estudante que defenderá no mês que vem sua tese de doutorado sobre ossos e conchas encontrados num sítio arqueológico no litoral do Rio de Janeiro.

A arqueóloga Leidiana Alves da Mota, de 30 anos, outra de suas doutorandas, estava finalizando a apresentação que faria na semana seguinte num ciclo de debates no museu. Ela mostraria a análise de carvões encontrados na Serra da Capivara, no Piauí, onde há indícios da presença humana que datam de pelo menos 22 mil anos atrás. Já a francesa Caroline Bachelet organizava os carvões coletados em outro sítio arqueológico com sinais de ocupação humana muito antiga, em Santa Elina, no interior do Mato Grosso. Planejava devolver em alguns dias as amostras que retirara do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.

Dois alunos de ensino médio do Colégio Pedro ii, estagiários do laboratório, fotografavam amostras da coleção de frutos e sementes; uma estudante de graduação, que fazia ali sua iniciação científica, usava um dos microscópios para analisar um carvão da coleção de referência. Era uma sexta-feira rotineira no laboratório de Scheel-Ybert, que ficava no 3º andar do Paço de São Cristóvão – o edifício histórico construído por um comerciante de origem libanesa no início do século XIX e cedido a D. João VI quando a família real portuguesa se instalou no Rio de Janeiro em 1808. Em 1892, pouco depois da proclamação da República, o palácio virou a sede do Museu Nacional, e passou a abrigar 90% das suas coleções científicas.

Esse acervo incluía uma das melhores coleções do mundo de madeira carbonizada, que Scheel-Ybert vinha reunindo nos últimos 26 anos. Eram quase 2,5 mil amostras de carvão obtidas a partir da queima de plantas dos diferentes biomas brasileiros – só o pampa não estava representado na coleção, que ficava guardada em gaveteiros de plástico numa estante de madeira. Nenhum outro centro de pesquisa no mundo tinha um acervo tão rico da flora tropical. Em número de espécimes, a coleção de carvões brasileira só perdia para a da Universidade de Montpellier, na França, onde ela fez seu doutorado.

Dois dias depois, tudo seria queimado.

 

O incêndio do Museu Nacional lança luz sobre a história do que poderia ter sido e não foi. A história das obras de segurança que não aconteceram porque o palácio era tombado. Dos anexos que não foram construídos por pendengas burocráticas. Das soluções físicas ou jurídicas que não seguiram adiante por resistência de investidores ou da própria universidade. Dos sucessivos cortes de verba por parte dos governos federais. Da dificuldade em captar recursos – mesmo via renúncia fiscal – junto às empresas privadas. Das denúncias e dos pedidos de socorro ignorados por prefeitura, estado, Ministério Público e sociedade civil. E, claro, da falta de pressão nos seis hidrantes instalados ao redor do edifício histórico.

Em suas coleções, o Museu Nacional tinha mais de 20 milhões de espécimes que guardavam a memória de animais, plantas e rochas encontrados em solo brasileiro no presente e no passado, bem como dos povos que ocuparam nosso território desde a pré-história. Mas tinha também outra dimensão, ignorada por muitos de seus 200 mil visitantes anuais: era um centro de pesquisas prestigiado, com 89 professores e cerca de 500 alunos que se valiam de seu acervo para produzir conhecimento em várias áreas da ciência. Estava vinculado desde 1946 à Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ.

O Museu Nacional foi fundado em 1818, dez anos depois da chegada da família real portuguesa, numa época em que o Brasil ainda não tinha universidades. Surgiu com a finalidade de “propagar os conhecimentos e estudos das ciências naturais no Reino do Brasil”, conforme registra o decreto de criação assinado por D. João VI. Ao longo de um século, se manteve como o principal centro de estudos sobre a história natural do país. Ali foram criados e estabelecidos alguns dos mais antigos laboratórios brasileiros, e também o primeiro periódico nacional dedicado às ciências naturais, os Arquivos do Museu Nacional, lançado em 1876.

Em 31 de outubro de 1843, José Antonio da Silva Maia, ministro e secretário de Estado dos Negócios do Império, enviou um despacho ao frei Custódio Alves Serrão, diretor do museu, informando-lhe que o orçamento para a instituição tinha sido reduzido pela lei orçamentária a 5 contos de réis, “devendo, portanto, com urgência fazer-se as reduções necessárias, quer no pessoal e ordenados, quer na verba material”. O episódio, narrado num livro de 1905 escrito pelo naturalista João Batista de Lacerda (à época diretor do museu), é um dos primeiros registros de uma batalha que opunha, de um lado, governantes às voltas com recursos limitados e, de outro, cientistas que se queixavam da falta de sensibilidade dos gestores para a importância das atividades de pesquisa. No livro, Lacerda citou a declaração de um político, sintomática desse desprestígio: “Não sei que utilidade podem ter os museus, essas casas de amostras de animais empalhados.”

 

Rita Scheel-Ybert é uma mulher de longos cabelos castanhos nascida no Rio de Janeiro há 51 anos. Por ironia, o fogo é para ela um instrumento de pesquisa. Parte do seu trabalho consiste em queimar metodicamente amostras de madeira cortadas em cubos de 4 centímetros de lado e envoltas em papel alumínio antes de ir a um forno especial por até uma hora. Como a madeira carbonizada conserva suas propriedades anatômicas, é possível identificar a que gênero de árvore pertence um pedaço de lenha, mesmo milhares de anos depois de queimado.

A arqueóloga estuda as plantas que existiam no passado, e as finalidades a que serviam. “Isso nos dá pistas para entender em que tipo de ambiente as pessoas viviam, para que usavam determinadas madeiras e quais eram suas escolhas culturais em contexto doméstico e ritual”, explicou. A sua coleção servia de referência para a identificação dos carvões encontrados nos sítios arqueológicos.

Seu doutorado foi na França com Jean-Louis Vernet, que nos anos 70 fundara a antracologia, como é chamada a disciplina que analisa carvões para identificar as espécies vegetais. Na volta ao Brasil, foi fazer pós-doutorado no Museu Nacional e virou pesquisadora da instituição em 2008. Fundou ali o Laboratório de Arqueobotânica e Paisagem, um espaço de 45 metros quadrados que se tornou o centro irradiador da antracologia no Brasil. O lugar recebia com regularidade alunos e professores de outros países. “Desde o doutorado eu queria trabalhar com a Rita”, disse Caroline Bachelet, a arqueóloga francesa de 34 anos que fez doutorado no Museu Nacional de História Natural, em Paris. “O laboratório dela é uma referência para a antracologia na América do Sul”, continuou Bachelet, que se juntou em 2013 ao grupo de Scheel-Ybert.

A ferramenta imprescindível para o antracólogo é um tipo específico de microscópio que permite a observação de lascas de carvão sem a necessidade de prepará-las em lâminas. Nesse quesito o laboratório não fazia feio: havia ali cinco microscópios de luz refletida com campo claro e escuro, bons para a análise de carvão, e outros dois de luz transmitida, usados para a investigação de grãos de pólen e outros vestígios vegetais microscópicos. Caso se confirme a destruição dos aparelhos pelo incêndio, a USP e o Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, serão as únicas instituições brasileiras equipadas com microscópios para a análise de carvões.

 

O incêndio do Museu Nacional também colocou um ponto final na extensa luta dos pesquisadores da instituição para tirar as coleções científicas do palácio histórico, que não havia sido projetado para abrigar um acervo daquela dimensão. Por ser tombado, o edifício de arquitetura colonial nunca pôde ter o assoalho, as vigas, as lajes e as portas de madeira trocadas por qualquer outro material. Daí as reiteradas infestações de cupim, daí a falta de um alvará dos bombeiros, daí a preocupação com a segurança das coleções, muitas delas conservadas em material inflamável.

Na imprensa do Rio de Janeiro, reportagens sobre o Museu Nacional desde sempre foram acompanhadas de termos como “crise”, “problemas”, “falta de recursos” e “risco de incêndio”. Assim foi em janeiro de 1944, quando O Globo noticiou um incêndio que, “não fosse a rápida intervenção dos valorosos soldados do fogo, teria assumido proporções gigantescas”. Em 1971, o então diretor, o botânico Luiz Emygdio de Mello Filho, explicou ao jornal que a casa não recebia recursos para manutenção havia 33 anos. Em 1991, uma reportagem denunciava: “Pragas destroem o Museu Nacional.” Quatro anos mais tarde, o noticiário girou em torno de uma múmia egípcia de 3 mil anos, que ficara encharcada devido às goteiras provocadas por uma chuva. O alerta de incêndio voltou a ser dado em 2004: “Museu Nacional, da Quinta da Boa Vista, corre risco de pegar fogo.”

No diário carioca, o último grito de socorro saiu em fevereiro deste ano, quando uma frase do atual diretor, Alexander Kellner, serviu de título para a reportagem: “Só temos verbas para medidas paliativas.” Seis anos antes de assumir a direção, o paleontólogo já se queixara da precariedade das condições do museu em sua coluna na revista Ciência Hoje: “Só espero que não seja necessário ocorrer algum desastre provocado por problemas de manutenção para que as autoridades resolvam tomar medidas positivas para a mudança do quadro atual.”

O primeiro movimento para tirar o acervo do palácio foi feito em 1985, quando o Museu Nacional passou a se expandir para o Horto Botânico – uma área de 40 mil metros quadrados na borda da Quinta da Boa Vista, o parque que emoldura o Paço de São Cristóvão. A biblioteca de 500 mil livros foi levada para um prédio de dois andares construído ali pelo governo militar. “Naquela época, as ordens que vinham de cima eram cumpridas sem serem discutidas”, disse o arquiteto Ricarte Gomes, de 62 anos, funcionário aposentado do museu e estudioso da história do palácio. “Por isso não houve contestação, mesmo o Horto sendo tombado.”

Sete anos depois, já no governo Collor, o museu recebeu mais de 100 bilhões de cruzeiros (o equivalente a 22,5 milhões de reais), para erguer três novos prédios anexos na área do Horto Botânico. Começou então uma longa contenda burocrática com o Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão do Ministério da Cultura que tem a função de zelar pelos bens tombados. O entrevero, gerado pela derrubada de algumas árvores, está documentado em atas.

Numa reunião ocorrida em maio de 1993, a colecionadora Maria do Carmo Nabuco, que integrava o conselho do Iphan, reconheceu que o museu era “uma instituição venerável e importantíssima”, mas ponderou que isso não o autorizava a erguer edificações em áreas tombadas. “O prejuízo já por ele causado ao Horto Botânico é grande e só reparável a longuíssimo prazo, com o replantio das árvores seculares”, argumentou. O zoólogo Arnaldo Coelho, então diretor do museu, alegou que apenas doze árvores – “duas das quais já mortas” – haviam sido derrubadas. Explicou que outras cinco haviam sido transplantadas para dentro do próprio Horto Botânico, e lembrou que a coleção de aves havia sido recém-atingida “por chuva intensa provinda dos telhados”. Foi seguido pelo antropólogo Gilberto Velho, que destacou “os riscos de incêndio e desmoronamento” do Museu Nacional, e pelo filólogo José Mindlin, que falou do perigo “de preservar-se a norma protetora da integridade do patrimônio e com isso colocar em risco o próprio patrimônio”. Foram voto vencido; o edifício só ficaria pronto dali a quatro anos.

“O embargo do Iphan gerou um processo caríssimo para o museu”, explicou o biólogo Dante Teixeira, de 61 anos, então chefe do Departamento de Vertebrados. “Um dos pareceres dizia que o prédio ameaçaria espécies em extinção. Eu era muito atuante na conservação de fauna, então perguntei quais. Não havia.” Dos três edifícios que seriam erguidos no Horto Botânico naquele período, foi concluído apenas um – no qual passou a funcionar o departamento de Teixeira. “Ficou claro que a continuidade do processo dos anexos enfrentava sérias adversidades”, lamentou. “A iniciativa perdeu ímpeto.”

Além do prédio ocupado em 1985, o Horto Botânico tem hoje outros dois edifícios principais e algumas casinhas anexas, que servem como laboratório ou salas de aula. Nos edifícios estão a biblioteca central, uma pequena parte do acervo de arqueologia e as coleções de botânica e de animais vertebrados – répteis, anfíbios, aves e mamíferos – que acabaram por escapar da tragédia. O acervo remanescente equivale a cerca de 10% do total que havia no Museu Nacional.

 

Foi por meio de um grupo de WhatsApp de professores do Museu Nacional que Rita Scheel-Ybert soube do incêndio, antes que a tevê e a internet começassem a alardeá-lo. Pelo mesmo aplicativo, ela avisou o grupo do laboratório. Nervosa, tentou gravar um áudio, mas apagou as quatro tentativas que fez, por lhe parecerem desesperadas demais. Acabou mandando uma mensagem seca: “O museu está pegando fogo.”

Quando chegaram as primeiras imagens do museu em chamas, o incêndio já havia alcançado o 3º andar, onde ficava o Laboratório de Arqueobotânica, na porção central da ala direita do edifício. Scheel-Ybert pensou em ir ao museu enquanto ocorria o incêndio, mas sentiu que não tinha condições emocionais. “O fogo estava na boca do meu laboratório”, contou. “Nunca me deixariam subir.” No fim da noite, quando os dois andares superiores já haviam colapsado sobre o primeiro, ela registrou outra mensagem no grupo de seus alunos: “Queimou tudo, gente. Acabou.”

Alguns pesquisadores foram até a Quinta da Boa Vista durante o incêndio para tentar resgatar parte das coleções. O zoólogo Paulo Buckup e outros colegas arrombaram portas de gabinetes no térreo e carregaram gavetas com milhares de espécimes de moluscos – alguns deles holótipos, os exemplares usados para descrever uma espécie. Os bombeiros só deixaram os pesquisadores entrar quando perceberam que os hidrantes não tinham pressão. A arqueóloga Claudia Carvalho tentou resgatar Luzia, o crânio humano mais antigo já encontrado no continente americano e um dos itens mais preciosos da coleção do Museu Nacional. O caminho, porém, estava bloqueado pelo fogo. O geólogo Sérgio Alex de Azevedo entrou no laboratório de invertebrados. “As mangueiras estavam no chão, todas murchas”, contou. “Consegui resgatar alguns espécimes que estavam dentro de vidros com álcool.”

No começo do ano, o geólogo participou, junto com outros 93 funcionários, de um curso prático de combate a incêndios organizado pelo museu. “Toda sala tinha um extintor. Se quando o fogo começou estivéssemos lá, poderíamos ter tentado apagar. Só que era domingo de noite, não tinha ninguém”, lamentou. “Pensando bem, se houvesse alguém, as pessoas teriam morrido lá dentro, porque aquilo era a vida delas.”

Procurado pela piauí, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro alegou em nota que houve “um contratempo no que diz respeito à vazão e pressão de água nos hidrantes mais próximos”. Explicou que a corporação é apenas usuária do sistema de hidrantes, e que o controle sobre a vazão e a pressão da água é responsabilidade da Companhia Estadual de Águas e Esgotos, a Cedae. Já a Cedae se eximiu de qualquer responsabilidade: em nota, afirmou que a pressão dos hidrantes estava de acordo com as normas técnicas e que era impossível que as tubulações que abastecem o museu estivessem sem água.

No dia seguinte ao incêndio, imagens da entrada do museu mostravam que o Bendegó, o maior meteorito já encontrado no Brasil, descoberto na Bahia no século XVIII, tinha resistido às chamas. Salvaram-se ainda as coleções que estavam no prédio anexo ao palácio e no Horto Botânico. Mas vai demorar até que se tenha uma ideia precisa da extensão do acervo destruído. No fim de setembro, as ruínas do Paço de São Cristóvão começaram a receber obras estruturais para que equipes pudessem transitar em segurança por elas. Depois das obras, que podem se estender por até seis meses, a Polícia Federal concluirá as investigações sobre o incêndio, e só então equipes de arqueologia de escombros iniciarão a busca por espécimes que resistiram ao fogo.

Claudia Carvalho é quem estará à frente da equipe do Museu Nacional que fará o trabalho de resgate das peças que possam ter sobrevivido – haverá também equipes do Iphan e da Unesco. A arqueóloga tem esperança de que seja possível resgatar parte do acervo de remanescentes humanos, como a coleção de ossadas coletadas em Lagoa Santa, no interior de Minas Gerais, lar de Luzia. “Sabemos que os esqueletos sobrevivem a altas temperaturas, então é uma possibilidade”, explicou. “Nosso grande temor é a conjunção do impacto do fogo e da queda do material, que estava no 3º andar.”

Duas semanas após o incêndio, o Ministério da Educação anunciou que destinaria ao menos 10 milhões de reais para as obras emergenciais de recuperação do Museu Nacional. A licitação foi vencida pela Concrejato, que cobrou 8,9 milhões de reais para escorar as paredes e erguer um telhado provisório; a mesma empresa integrou o consórcio que construiu no Rio de Janeiro a ciclovia Tim Maia, que despencou em 2016 após uma ressaca na orla.

 

Apesar de ser uma unidade da UFRJ, o Museu Nacional tem um funcionamento algo independente da estrutura mastodôntica da universidade. Depende dela para o pagamento da folha salarial – que a UFRJ não sabe especificar quanto consome, por vir misturada com o vencimento de seus demais funcionários. A universidade banca ainda despesas de manutenção e custeio de novos equipamentos; este ano, o valor previsto era de aproximadamente 6 milhões de reais, dos quais já haviam sido empenhados 4,8 milhões até agosto. Além disso, o museu recebe da UFRJ um valor anual – seriam 346 mil reais em 2018 – para o pagamento de bolsas e despesas emergenciais; essa é a única verba da universidade administrada diretamente pela direção do museu.

Em busca de fontes adicionais de recursos, o museu sempre se valeu de fundações e associações de amigos para tentar captar dinheiro junto a estatais e empresas privadas. Uma dessas fundações era o Instituto Herbert Levy – uma sociedade sem fins lucrativos, dirigida por décadas pelo engenheiro José Carlos Barboza. Em 1998, um ano após a inauguração do anexo dos vertebrados, Barboza passou a trabalhar com o antropólogo Luiz Fernando Duarte, então diretor do museu, na tentativa de transferir as coleções e atividades da instituição para uma fábrica desativada da Schindler, que ficava a cerca de 500 metros da Quinta da Boa Vista. “Estávamos com recursos na minha gestão”, explicou Duarte, de 69 anos, que esteve à frente do museu até 2002. A origem da verba era um convênio assinado entre o Instituto Herbert Levy e a Petrobras. Pelo contrato, a estatal se comprometia a doar 4,5 milhões de reais, via renúncia fiscal, para obras de restauração do Paço de São Cristóvão e a aquisição de novas áreas que abrigariam os departamentos e cursos da instituição.

O imóvel foi avaliado por uma equipe da Caixa Econômica Federal, que fixou o valor de compra em 2 milhões de reais. Ficou acertado que o edifício seria adquirido pelo Instituto Herbert Levy e doado para a UFRJ. “Teria sido um lugar perfeito para a realocação do acervo”, explicou o ex-diretor. “Só precisava da decisão da Petrobras, que, em vez de aplicar o dinheiro no palácio, o aplicaria no imóvel.” Duarte chegou a anunciar à imprensa a transferência das coleções, da administração, dos cursos e laboratórios para o novo prédio.

“Eu e Luiz Fernando Duarte tomamos um chá de cadeira de cinco horas na Petrobras”, lembrou José Carlos Barboza, do Instituto Herbert Levy. A estatal acabou abortando a negociação, conforme disse a engenheira química Claira Floret, que coordenava na época o Departamento de Incentivos Fiscais da estatal. “A gente não podia comprar o prédio da Schindler”, justificou Floret pelo telefone, sem especificar o motivo. “Isso chegou a ser submetido à análise jurídica, mas tinha um empecilho das normas da Petrobras.” Procurada pela piauí, a estatal não se manifestou, alegando não ter encontrado o contrato de convênio, que já estaria arquivado.

Naquele mesmo ano, o museu vislumbrou ainda outra possibilidade de ver seus problemas de infraestrutura resolvidos. Dessa vez, a esperança veio com a possibilidade de um aporte milionário do Banco Mundial, incentivado pelo empresário Israel Klabin, que havia sido prefeito do Rio no passado e era amigo do então presidente do banco, James Wolfensohn.

“O Wolfensohn queria criar uma vice-presidência do banco para assuntos culturais”, explicou o embaixador Flavio Perri, de 78 anos, que foi encarregado por Klabin de liderar a negociação entre o banco e a UFRJ. Em maio de 1998, Wolfensohn enviou um de seus vice-presidentes, Ismail Serageldin, ao Rio e a Brasília, para começar as tratativas. Ao fim da visita, Serageldin enviou um relatório para a direção do Banco Mundial, a respeito de suas conversas com Duarte, com o reitor da UFRJ e com os ministros da Cultura, da Educação, da Fazenda e do Planejamento. “As condições físicas do museu estão muito ruins”, escreveu. “O edifício está em mau estado, as coleções estão malconservadas, e as condições de trabalho são pavorosas. Ainda assim, existe um senso de orgulho a respeito do trabalho feito. A equipe inclui algumas das pessoas de maior distinção em seus campos de estudo.” Ele explicou que o telhado do palácio tinha goteiras e chegava “a correr o risco de desabar”. Disse também que, mesmo com os eventuais reparos, o museu precisaria de mais espaço: “Os brasileiros já identificaram um edifício, nos arredores, que poderia ser convertido em um anexo.” Mencionou, por fim, que o acordo só poderia ser feito se o museu tivesse “um estatuto autônomo, que lhe desse certo grau de autogovernança”.

Em junho do mesmo ano, o ministro da Cultura, Francisco Weffort, recebeu um projeto que aventava a criação de uma organização social – uma associação privada sem fins lucrativos – à qual caberia gerenciar o dinheiro enviado pelo Banco Mundial ao Museu Nacional. Previa para o primeiro ano a necessidade de um aporte de 5 milhões de dólares, ou 31,5 milhões de reais em números atuais. (Perri disse, pelo telefone, que o valor de 80 milhões de dólares noticiado após o desastre dizia respeito ao orçamento do banco para o mundo inteiro.)

Uma comissão chegou a visitar o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Impa, para conhecer o modelo implementado ali – o centro de pesquisa federal é gerido por uma organização social e não precisa seguir normas de contratação de pessoal e gestão de recursos que engessam a ação de universidades federais. “Mas o Impa é uma instituição completamente diferente, que praticamente não tem acervo”, argumentou Luiz Fernando Duarte. A congregação de docentes do museu ficou reticente quanto ao novo modelo jurídico, por temer que resultasse numa “privatização do acervo histórico”. O diretor chegou a sugerir a Perri a inclusão de um parágrafo, na portaria ministerial que criaria a nova associação, para impedir qualquer “transformação institucional específica do Museu Nacional” sem a anuência da UFRJ. “É claro que há uma certa dose de paranoia”, escreveu Duarte, num e-mail ao embaixador, “mas também um digno senso de responsabilidade – que não se pode menosprezar.”

Perri afirmou, por telefone, que o status do acervo jamais seria modificado: “Ele é público, no sentido de pertencer à República.” O que estava em jogo, no fundo, era uma queda de braço sobre quem daria as cartas na associação a ser criada. “Em dado momento, o conselho universitário julgou que não era o caso de seguir com o estatuto”, contou. “Diante disso, me retirei da história, e deixei o museu tratar diretamente com o banco.” A negociação desandou, ainda mais porque, ao fim da história, a vice-presidência para assuntos culturais do Banco Mundial acabou não sendo criada. “Produzimos uma pilha de documentos para nada”, lamentou Duarte. “Foi a experiência mais decepcionante da minha gestão.”

 

Duas semanas após a tragédia, Rita Scheel-Ybert não parecia muito esperançosa quanto a recuperar parte do material que havia em seu laboratório. “Eu vi o monte de escombros dos três andares compactados em cima do restaurante no térreo”, afirmou, com a voz embargada. “Na manhã seguinte ainda estava soltando fumaça e havia um resto de fogo.” A pesquisadora disse que amostras da coleção de referência podem ter resistido. “O carvão é uma coisa que se preserva, é possível que não tenha virado cinzas”, ponderou. Mas lembrou que não basta resgatar os espécimes. “Para ter significado, um objeto precisa de contexto, e algumas informações estavam anotadas em etiquetas de papel.”

No caso dos equipamentos, como os microscópios, o prejuízo material pode se elevar a 1 milhão de reais, segundo sua estimativa. Mas não é o que vai lhe fazer mais falta. “Equipamento é material, a gente batalha para comprar mais”, disse a pesquisadora. “As coleções são uma perda muito mais dolorosa e prejudicial para nossa capacidade de produzir conhecimento. Não se tratava de memória, mas de um acervo vivo.”

O arqueólogo Lucas Braga da Silva, doutorando que integra o grupo de pesquisa de Rita Scheel-Ybert, provavelmente perdeu no incêndio seu objeto de estudo, guardado em outro laboratório do museu. Ele estava prestes a iniciar a análise de dentes humanos encontrados em três sambaquis da região de Saquarema, no Rio de Janeiro (sambaquis são grandes montes de conchas e sedimentos erguidos por grupos humanos que viveram no litoral brasileiro entre 7 mil e mil anos atrás). Estudaria vestígios microscópicos de plantas encontradas nos dentes para entender como elas eram usadas pelos construtores dessas estruturas.

Sem esse material, o aluno agora precisa definir outro tema para sua tese. Não vai partir do zero, porém. “Continuo com o mesmo corpo teórico e metodológico e com as mesmas perguntas, o que muda é o material e o contexto arqueológico”, explicou. “Precisamos achar um sítio e equipamento.” Braga tem que concluir sua tese até o começo de 2021.

Leidiana Mota, a doutoranda que estuda carvões encontrados na Serra da Capivara, acredita ter perdido as amostras que vinha analisando – estavam armazenadas em caixas de plástico numa estante do laboratório. Ela estava impressionada com a diversidade das plantas que vinha identificando nesses carvões. “Os resultados estavam começando a ficar interessantes”, disse a arqueóloga.

Mota não perdeu, porém, a maior parte do material que pretende analisar no doutorado. Em agosto, ela foi a São Raimundo Nonato, no Piauí, buscar carvões coletados em sítios arqueológicos da região por pesquisadores brasileiros e franceses. O material que ela selecionou vinha de camadas com idades de 14 mil a 28 mil anos. Mas a pesquisadora teve que deixar tudo na Fundham, a fundação que administra o patrimônio arqueológico da região da Serra da Capivara, pois não saiu a tempo de seu retorno ao Rio a autorização do Iphan para o transporte das amostras. Os carvões estão salvos. “Mas para fazer a análise, preciso de microscópio, e sem microscópio…”, continuou, deixando a frase no ar.

Caroline Bachelet, a pós-doutoranda francesa, se prepara para voltar para seu país em novembro depois de cinco anos fazendo pós-doutorado no Museu Nacional. Antes do incêndio, concluiu a primeira análise dos carvões de Santa Elina; faltava-lhe fazer a revisão do trabalho e preparar os resultados para publicação. As amostras ainda guardavam informações valiosas para os arqueólogos – foram encontradas no sítio mato-grossense evidências de uma ocupação humana de 23 mil anos. “Eu tinha escolhido apenas algumas camadas que faziam sentido para a minha pesquisa, mas muitas outras ainda não tinham sido estudadas”, afirmou Bachelet. “Esse material não existe mais.”

 

Enquanto não volta a ter espaço e equipamentos próprios, o grupo de Rita Scheel-Ybert tem usado como quartel-general provisório a Casa da Pedra, uma pequena edificação na área do Horto Botânico onde funcionava um laboratório de arqueologia. A algumas dezenas de metros dali, está o prédio onde são realizadas as aulas de pós-graduação, retomadas poucos dias após o incêndio. Duas semanas depois do fogo, os pesquisadores ainda tinham o ar de desterrados. “Estamos como baratas tontas, porque perdemos também o espaço em que tínhamos os vínculos de afetos cotidianos”, disse a arqueóloga Celia Boyadjian.

Paulistana de 38 anos, a arqueóloga é a responsável por gerenciar as coleções de microvestígios, frutas e sementes do Laboratório de Arqueobotânica e Paisagem. Integra o grupo de Scheel-Ybert há quatro anos, primeiro como pós-doutoranda, depois como professora visitante. “Esse trabalho todo foi embora”, contou. Boyadjian perdeu também uma coleção de amostras que vinha acumulando há dez anos. Guardava em tubinhos pequenos fragmentos de raízes, caules e tubérculos de onde tinha feito extrações. “Estavam todos numa caixinha que ficou lá dentro”, disse. “Essa caixinha e o meu caderno de laboratório, que tenho desde o doutorado, vêm à minha cabeça o tempo todo.”

Scheel-Ybert ainda não se sente à vontade em seu ambiente de trabalho provisório. “É como estar na casa dos outros”, ela disse ao receber a piauí na Casa da Pedra em meados de setembro. Durante a entrevista, preferiu caminhar pelo jardim em frente à casa e segurou o choro ao ser perguntada sobre como os carvões podiam ajudar a ratificar as evidências – contestadas por alguns especialistas – da presença humana em sítios de ocupação muito antiga, como Santa Elina e os da Serra da Capivara. “É uma coisa que me corta o coração.”

A pesquisadora explicou então que, numa fogueira intencional, a diversidade de espécies de plantas encontradas é maior do que no caso de um incêndio natural. “Imagina um incêndio aqui”, propôs Scheel-Ybert, apontando para a vegetação à sua volta. Se aquelas árvores pegassem fogo, um arqueólogo do futuro não encontraria uma grande variedade de espécies queimadas. “Mas quando alguém faz uma fogueira, ele pega um galho seco dessa espécie, outro daquela e de mais uma, e reúne tudo num lugar só.” Com pistas como essa, continuou a arqueóloga, a antracologia poderia contribuir para determinar se um carvão encontrado numa camada muito antiga é fruto da atividade humana. “Só que agora vamos precisar de mais tempo para responder.” Em dado momento, a pesquisadora atentou para a ironia da imagem que estava propondo: “Meu Deus, como dói falar de incêndio.”

 

Em outubro de 2006, o então diretor do Museu Nacional, Sérgio Alex de Azevedo, recebeu o e-mail de um visitante que dizia ter estado no museu num domingo, quando constatou a existência de goteiras, além de “exemplares de animais estragados, demonstrações científicas rasgadas, lâmpadas queimadas, e experiências da década de 60 totalmente ultrapassadas”. Ao final, perguntava: “Como diretores dessa instituição, o que os senhores estão fazendo? Quais são seus projetos? Por que o museu está nesse estado lastimável?”

Azevedo respondeu ao e-mail no dia seguinte. Reconheceu a “correta indignação” do visitante, acrescentando que tal “angústia certamente é compartilhada por nós, por gestões anteriores e pelas demais equipes deste museu”. Em seguida tentou justificar a situação: “O palácio é tombado pelo Iphan, o que por um lado demonstra o reconhecimento de sua importância histórica, mas por outro torna qualquer obra ou intervenção extremamente penosa e burocratizada.” Citou um exemplo: “Mesmo com os recursos garantidos, levamos mais de um ano para obter aprovação do Iphan para consertar o reboco que estava caindo na cabeça dos visitantes e pintar as paredes do pátio interno.” Reclamou também dos bombeiros: “Tentamos instalar duas escadas de incêndio (aprovadas pelo Iphan), mas o sistema burocrático do Corpo de Bombeiros nos impediu de fazê-lo, e os recursos tiveram que ser devolvidos.”

A atual presidente do Iphan, a historiadora Kátia Bogéa, é funcionária do instituto há 38 anos. Procurada pela piauí, ela respondeu, pelo telefone, em tom indignado: “Não é o Iphan que diz que não pode, é a legislação.” Reclamou que sucessivas direções do Museu Nacional lhe apresentaram “projetos ruins, que nos faziam gastar um tempo enorme”. Depois passou a palavra ao diretor de Patrimônio Material e Fiscalização da instituição, o arquiteto Andrey Rosenthal Schlee: “A ufrj tem uma das maiores carteiras imobiliárias de universidades do país. Ter deixado o Museu Nacional dentro do palácio foi uma opção da universidade.” Procurado, o atual reitor, Roberto Leher, alegou, por meio da assessoria de imprensa, que não poderia dar entrevista em razão de um problema pessoal.

Azevedo, que é geólogo, assumiu a direção do Museu Nacional em 2003, e contou ter recebido no final daquele ano alguns integrantes da equipe de transição do governo Lula, que prometeram apoiar os projetos do museu, por intermédio da Petrobras. “Antes a Petrobras investia esporadicamente, ali passou a haver um programa de apoio”, disse ele, que tem hoje 62 anos. Em paralelo, a instituição também conseguiu aportes da Fundação Vitae e da Souza Cruz – ambos por meio da Lei Rouanet –, além de uma verba conjunta dos ministérios da Educação e da Cultura. As contribuições foram usadas para reformas, para a instalação de um sistema de alarmes contra incêndio e para a construção de um terceiro anexo – o da botânica –, inaugurado em 2007, no Horto.

Em 2010, Azevedo passou a direção do Museu Nacional para a arqueóloga Claudia Carvalho. O momento coincidiu com o encerramento das atividades do Instituto Herbert Levy – que representava o museu na captação de recursos – e com uma crise na política de patrocínios da Petrobras (um ano antes, a Fundação Sarney fora acusada de desviar uma verba recebida da estatal). As intervenções no prédio rarearam. “O sistema de alarme contra incêndio passou a ter problemas”, admitiu Carvalho. “Era preciso abrir uma licitação para contratar uma empresa de manutenção, só que isso era muito caro.” A penúria acabou por adiar o projeto de construção de dois novos anexos, para as coleções de insetos e invertebrados. “Ficariam no Horto Botânico. O Iphan já tinha até aprovado.”

 

Na quinta-feira seguinte ao incêndio, a Universidade Federal do Rio de Janeiro organizou uma plenária em comemoração aos seus 98 anos numa tenda montada na frente do palácio queimado. Num depoimento emocionado ao microfone, Rita Scheel-Ybert reclamou que, na cobertura do incêndio na imprensa, o Museu Nacional vinha sendo apresentado como uma casa onde só se olhava para trás. “Sou arqueóloga e estou olhando para a frente”, afirmou. “Estamos construindo o futuro a partir do conhecimento do passado.”

Dentre as centenas de pessoas que circularam pela Quinta da Boa Vista naquela manhã, era possível encontrar outros pesquisadores do Museu Nacional que, como a arqueóloga, tiveram seus laboratórios devastados. Assistindo à plenária do lado de fora da tenda estava João Wagner de Alencar Castro, um especialista em geologia marinha e costeira. “Nosso laboratório é uma referência no estudo das variações do nível do mar e mudanças globais”, disse. Os resultados de seus estudos, perdidos nos escombros, ajudariam a projetar os impactos da mudança climática no litoral fluminense. Castro lamentou especialmente a perda de uma ossada de baleia com cerca de 5 mil anos encontrada por sua equipe a 15 quilômetros da linha costeira de Cabo Frio. “Esse material ainda seria estudado, sua perda vai atrapalhar muito nossas pesquisas.”

Houve outros estudantes que, a exemplo de Lucas Braga da Silva, tiveram seus objetos de tese de doutorado provavelmente dizimados da noite para o dia. Foi o caso de uma aluna da entomologista Marcela Monné, que estuda os besouros, o mais numeroso grupo não só dos insetos, mas de todo o reino animal, com 400 mil espécies conhecidas. “Minha aluna ia trabalhar com uma família de besouros na qual não há especialistas no Brasil, ela abriria essa linha de pesquisa”, disse Monné. A doutoranda teve que mudar o tema da tese. Outros estudantes tiveram problemas parecidos – só na entomologia são cerca de quarenta alunos, e a maioria pesquisava o próprio acervo do museu.

Monné contou que perdeu os espécimes que analisava em dois artigos nos quais vinha trabalhando ultimamente. “Vamos precisar repensar quatro ou cinco manuscritos que estão em preparação.” Isso sem falar nas espécies do acervo que nunca serão descritas. “Só em relação à família de besouros que estudo, os cerambicídeos, tínhamos material para pelo menos dez anos de pesquisa.” A entomóloga lembrou que algumas das coleções guardam a fauna e flora de ambientes que não existem mais. “Perdemos espécies que nem sabemos quais são.”

Com a destruição parcial do acervo, os pesquisadores do Museu Nacional e de outras instituições também perdem a possibilidade de revisitar as coleções à medida que vão surgindo métodos de pesquisa capazes de extrair novas informações de velhos espécimes. Dois anos atrás, uma equipe de várias instituições descobriu o coração fossilizado de um peixe encontrado na Bacia do Araripe após analisá-lo num acelerador de partículas europeu similar ao Sirius, que deve ser inaugurado em Campinas neste ano pelo governo. “É possível que houvesse nas coleções do Museu Nacional fósseis com tecido mole preservado que a gente nem desconfiava que existissem”, disse a paleontóloga Taissa Rodrigues, professora da Universidade Federal do Espírito Santo que fez doutorado no museu.

No estudo das populações humanas pré-históricas, uma área que vem ganhando espaço é a análise de material genético extraído dos fósseis. O Museu Nacional tinha uma coleção de crânios de botocudos, índios praticamente dizimados no século XIX, que poderia ter pistas importantes sobre o povoamento das Américas. Estudos genéticos recentes feitos com esse material apontaram um parentesco entre os botocudos e grupos polinésios. “Havia a ideia de se fazer uma análise de DNA mais detalhada desse material, que talvez pudesse iluminar o problema da ocupação do continente”, disse a arqueóloga paulista Mercedes Okumura, que foi professora do Museu Nacional por quatro anos. “Nada disso vai acontecer agora.”

Okumura trabalha desde o começo do ano na Universidade de São Paulo, onde lidera o laboratório criado pelo bioantropólogo Walter Neves, que estudou a morfologia de Luzia nos anos 90 e se aposentou no ano passado. Outro projeto de pesquisa da arqueóloga foi abortado por causa do incêndio. Ela pretendia estudar, junto com colaboradores de Estocolmo, a cabeça mumificada de um munduruku que havia no acervo do museu. A pesquisadora explicou que, assim como outros grupos humanos não relacionados pelo mundo afora, os mundurukus tinham o costume de guardar como troféu a cabeça de inimigos capturados em confronto (eles abandonaram essa prática depois do contato com os brancos). “Até onde eu saiba, a única cabeça munduruku que havia no Brasil estava no Museu Nacional”, disse Okumura.

 

Cinco anos atrás, os docentes do Museu Nacional se reuniram numa comissão criada para organizar a comemoração dos 200 anos da instituição, chefiada pelo antropólogo Luiz Fernando Duarte. Para tentar fazer face à falta de verbas, o grupo resolveu contratar a assessora de políticas públicas Ruth Saldanha, hoje com 59 anos, que havia integrado a equipe do ex-deputado federal Fernando Gabeira. Saldanha sugeriu levar os professores ao Congresso Nacional, para pressionar os deputados da base fluminense a aprovar uma emenda orçamentária. “Eu tinha esperança de que o prestígio do museu seria suficiente para convencê-los”, contou.

Em novembro daquele ano de 2013, Saldanha, Duarte e a então diretora Claudia Carvalho foram para Brasília. “Tínhamos conseguido agenda com os gabinetes do Glauber Braga, do Jean Wyllys e do Alessandro Molon”, contou a assessora. “Os outros deputados fomos abordando ali no meio do Congresso mesmo.” Embora a lida com lobistas e parlamentares fosse uma completa novidade para os pesquisadores, o esforço deu certo. Um mês depois, os 46 deputados da bancada do Rio de Janeiro aprovaram uma emenda parlamentar que destinava ao museu 20 milhões de reais do orçamento do Ministério da Cultura para o ano seguinte. Além dessa verba para obras, a investida resultou em duas emendas individuais, de valores bem menos vultosos, dos deputados Alfredo Sirkis e Chico Alencar. “Era para compra de novos armários, que agora estão retorcidos lá dentro”, disse Saldanha.

Teria sido um final feliz, não fosse um importante detalhe: ao contrário das emendas individuais, que são impositivas, as de bancada funcionam para o governo federal apenas como sugestão de gasto. Dependem de lobby junto aos ministérios responsáveis, para que não sejam contingenciadas. Em janeiro de 2014, Saldanha e Carvalho voltaram a Brasília, para conversar com a então ministra da Cultura, Marta Suplicy. “A Marta foi calorosa, colocou a gente num carro e nos levou ao Ministério da Educação, para ver se conseguíamos apoio político”, contou Saldanha (em última instância, a decisão cabia à ministra do Planejamento, Miriam Belchior, e à presidente Dilma Rousseff). “Não deu em nada, foi uma ducha de água fria.”

Procurada pela piauí, a assessoria da senadora Marta Suplicy explicou que, naquele ano de 2014, o orçamento do Ministério da Cultura havia caído de 3,2 bilhões de reais para 1,9 bilhão – sendo que só 172 milhões de reais eram voltados a despesas não obrigatórias. Respondeu também que, apesar de existir a emenda da bancada, a UFRJ não havia apresentado ao ministério um projeto descrevendo como o valor seria utilizado.

Ao fim e ao cabo, os 20 milhões de reais foram contingenciados. Das dezenove emendas coletivas aprovadas pela bancada do Rio de Janeiro para o orçamento de 2014, apenas duas resultaram em investimentos da União: uma para o Tribunal Regional Eleitoral e outra para o Ministério Público Federal.

Com a frustração gerada pelo contingenciamento da emenda parlamentar, o museu voltou a tentar captar dinheiro por meio da Lei Rouanet – dessa vez usando a Associação Amigos do Museu Nacional como proponente. De 2013 em diante, apresentou nove projetos ao Ministério da Cultura –, mas apenas um deles conseguiu recursos.

Dois anos atrás, quando precisou se manifestar em função de uma denúncia apresentada ao Ministério Público Federal que documentava a precariedade da instituição, Claudia Carvalho mencionou o “magro orçamento da UFRJ” (embora a universidade tenha uma receita de mais de 3 bilhões de reais, 87% do valor é usado no pagamento de salários). Enumerou, porém, algumas melhorias: “Atualmente o Museu Nacional possui quase a totalidade de seu telhado recuperado, a parte elétrica foi reestruturada, novos quadros de força foram implantados, um sistema de para-raios foi instalado.” Explicou, também, que o museu contava com extintores e monitoramento parcial por câmeras – que seriam acrescidos “de um plano contra incêndio e pânico”, caso saísse um aporte financeiro, que estava sendo negociado no BNDES, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social. O MPF se deu por satisfeito com a resposta, e não levou a investigação adiante – mesmo tendo recebido uma segunda denúncia no ano passado, que falava de “gambiarras e fios desencapados”.

“A gente tinha essa posição, defendida até pelos bombeiros, de que era melhor um museu aberto, caindo aos pedaços, do que fechado”, disse a procuradora da República Solange Braga, responsável pelo caso. “Mas isso levou o museu às ruínas.” Após o acidente, Braga pediu à Justiça que interditasse outros seis museus do Rio de Janeiro, que não contam com alvará dos bombeiros. “Mas a juíza não se comoveu”, lamentou.

O canto do cisne, por assim dizer, foi entoado no dia 6 de julho deste ano – data em que o BNDES formalizou o contrato de parceria, comprometendo-se a direcionar ao Museu Nacional 21,7 milhões de reais, via renúncia fiscal. O documento foi assinado durante a cerimônia de comemoração do bicentenário da instituição. “Me magoou muito que a autoridade mais alta presente fosse o diretor do Instituto Brasileiro de Museus”, disse Duarte, referindo-se ao Ibram, autarquia do Ministério da Cultura, da qual o Museu Nacional sequer faz parte. O desinteresse das autoridades e políticos pela comemoração foi, para ele, “um prenúncio do holocausto”.

Por ser um ano de eleição presidencial, ficou acertado que o BNDES começaria a liberar a verba a partir de novembro, assim que terminasse o pleito – era uma medida de precaução, para que nenhum candidato se beneficiasse nas urnas com a medida. Não houve tempo.

 

Depois do incêndio, Rita Scheel-Ybert recebeu dezenas de manifestações de pesquisadores do Brasil e de vários continentes. “Até gente que eu nem conhecia me escreveu”, disse a arqueóloga. Muitos colegas colocaram seus gabinetes e laboratórios à disposição para acolher integrantes do grupo, e ofereceram amostras para que a brasileira comece uma nova coleção de madeira carbonizada.

A pesquisadora conta com a ajuda de colegas para encaminhar o trabalho dos alunos que tiveram suas pesquisas de tese interrompidas. Leidiana Mota tem o material para estudar, mas não o equipamento; poderia passar uma temporada na Universidade de Montpellier ou em outra instituição equipada com os microscópios de que precisa. Lucas Braga da Silva vai estudar amostras de sambaquis do litoral fluminense de outras coleções; no seu caso, o problema do equipamento é menos crítico, pois o microscópio que precisa existe em outras instituições brasileiras. “Nenhum aluno vai perder o doutorado”, afirmou a orientadora. Enquanto não definem como continuarão o trabalho nas teses, os alunos estão trabalhando na preparação e revisão de artigos com resultados obtidos antes do incêndio. “O capital humano a gente não perdeu”, disse Scheel-Ybert.

Resta recompor as coleções e os equipamentos. Para o acervo, uma saída seria repatriar parte do material que Scheel-Ybert deixou em Montpellier, onde havia duplicatas de grande parte de suas amostras. Procurado pela piauí, o arqueólogo Jean-Frédéric Terral, chefe do laboratório que abriga a coleção de carvões na universidade francesa, foi consultar o material. “Nunca tinha me debruçado sobre essa coleção e confesso que é extremamente rica”, afirmou. “Está informatizada e perfeitamente classificada.” Terral disse que pretende dividir sua coleção com a brasileira, e que seu laboratório está mobilizado em busca de soluções para ajudar pesquisadores do Museu Nacional de várias disciplinas.

Scheel-Ybert agradeceu a oferta, mas está inclinada a recusá-la. “A coleção foi partida uma vez, quando vim para o Brasil. Não gostaria de parti-la de novo”, explicou. A pesquisadora disse que talvez vá a Montpellier para obter registros digitalizados do acervo. “A intenção num primeiro momento é recomeçar a coleção e não trazer para cá metade do que está na França.”

O laboratório também já se articula para tentar conseguir novos equipamentos. Em 17 de setembro, que era a data-limite de envio de propostas para um edital do CNPq, agência federal de fomento à ciência, Scheel-Ybert concluiu a redação de um projeto de 120 mil reais, solicitando a compra de um microscópio com as configurações para analisar carvões. “É o mais urgente para as pessoas voltarem a trabalhar”, justificou. O prazo vencia à meia-noite; a pesquisadora enviou o pedido às 23h50 pela internet.

Em 2015, ela havia submetido à Faperj, a fundação fluminense de amparo à ciência, um pedido de financiamento para ampliar seu laboratório e adquirir equipamentos. Pretendia instalar na área do Horto Botânico dois contêineres que abrigariam os microscópios e demais equipamentos de pesquisa, bem como as coleções de referência, que os pesquisadores precisam ter sempre à mão. A escolha dos módulos pré-fabricados se justificava “em virtude da severa falta de espaço e inadequação, em termos de segurança, do Palácio de São Cristóvão”, argumentou no projeto.

A proposta de Scheel-Ybert foi aprovada pela Faperj em dezembro daquele ano, num edital que distribuiu 12 milhões de reais entre 110 projetos. Seu laboratório foi contemplado com 250 mil reais. No ano seguinte, contudo, o estado do Rio de Janeiro mergulhou numa crise fiscal da qual ainda deve demorar a sair, e a Faperj não conseguiu bancar os projetos que tinha se comprometido a financiar. As coleções e os equipamentos permaneceram no prédio histórico.

Procurada pela piauí, a Faperj alegou por escrito que, no cenário da crise econômica, o governo do estado “foi obrigado a tomar medidas de adequação em sua execução orçamentária”, comprometendo os recursos para o edital, e lembrou que a fundação vem apoiando há mais de uma década as pesquisas de Scheel-Ybert. No dia seguinte ao incêndio, o presidente interino da Faperj divulgou uma nota de luto lamentando a tragédia e colocando a instituição à disposição para a reconstrução do Museu Nacional.

 


Confira aqui algumas das peças atingidas pelo incêndio no Museu Nacional e retratadas pela artista Carla Caffé ao longo da versão impressa desta edição.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Roberto Kaz, repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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