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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

Dobrando a aposta

Como a Noruega driblou Bolsonaro para investir no Brasil

João Batista Jr. | Edição 195, Dezembro 2022

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Em novembro passado, o cientista político sueco Kristian Bengtson deixou a sua residência em Brasília para se reunir em São Luís, no Maranhão, com lideranças envolvidas em um projeto financiado pela Embaixada da Noruega em parceria com a ONU Mulheres. Com o ambicioso título Direitos Humanos das Mulheres Indígenas e Quilombolas: Uma Questão de Governança, o programa criado em 2021 busca incentivar políticas públicas que contribuam para eliminar desigualdades de gênero, raça e etnia e para incentivar as mulheres atendidas a implementarem boas práticas ambientais.

As ações vêm sendo realizadas nas cidades de Mocajuba e Santa Luzia, no Pará, e Grajaú e Penalva, no Maranhão. Ao longo de 36 meses, houve reuniões com governantes, como o então governador maranhense Flávio Dino (PSB), com a sociedade civil e lideranças de entidades como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas. Todo o projeto foi financiado pela Embaixada da Noruega, onde Bengtson ocupa um cargo chamado programme officer: ele é o responsável por promover o desenvolvimento de povos indígenas e combater o desmatamento.

Esse não é um projeto isolado. Nunca a Noruega investiu tanto em comunidades indígenas do Brasil como durante o governo de Jair Bolsonaro. Até o fim deste ano, o país terá doado 100 milhões de reais a iniciativas ligadas ao ambiente e à biodiversidade no país. Metade desse montante doado foi destinada a povos originários e quilombolas. Dentre os agraciados, está o programa Comunidades Tradicionais, Povos Indígenas e Áreas Protegidas nos Biomas Amazônia e Cerrado (Copaíbas), que teve recursos para 21 Unidades de Conservação cujo foco é prevenir incêndios e conservar matas nativas.

“Até o começo do governo Bolsonaro, esse valor era de 10 milhões de reais por ano”, compara Bengtson. O aumento substancial do investimento foi uma resposta aos entraves impostos desde 2019.

 

A Noruega é um dos principais doadores do Fundo Amazônia, para o qual já contribuiu com 3,1 bilhões de reais. Esse fundo, proposto pelo governo brasileiro durante a COP12 – a conferência da ONU sobre mudanças climáticas de 2006, em Nairóbi, Quênia –, tem como objetivo arrecadar doações voluntárias de países desenvolvidos para ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento.

Funcionou muito bem até 2018. Logo no primeiro ano do governo Bolsonaro, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, passou a fazer ataques sistemáticos ao fundo. O ministro alegava haver interesses escusos por parte de países que contribuíam, embora os recursos fossem geridos pelo BNDES. As doações estão condicionadas à queda do desmatamento e à política de transparência entre o Brasil e os países contribuintes.

Em vista das reações do governo Bolsonaro e do aumento do desmatamento, as doações foram suspensas em 2019 pela Noruega e pela Alemanha, outro importante doador. Sobraram 3,1 bilhões de reais do fundo para serem utilizados em novos projetos, mas o programa ficou parado.

Com o congelamento dos acordos bilaterais entre os países, a Noruega decidiu fazer doações de forma direta, que dispensam o aval de Brasília. E dobrou a aposta. Firmou parcerias com comunidades indígenas e ONGs indigenistas com sedes no Pará, no Maranhão e em Roraima, entre outros estados. “O volume de recursos que o Fundo Amazônia consegue apoiar é muito maior do que o da embaixada. Mas procuramos amenizar o impacto da paralisação do fundo, uma sinalização de que em nenhum momento a Noruega se retirou ou desistiu do Brasil”, diz Bengtson. Os 100 milhões de reais investidos por ano nesses novos projetos ainda são pouco perto do que a Noruega já doou ao Fundo Amazônia, mas demonstram que o compromisso com o Brasil vai além de qualquer governo.

 

Filho de pai sueco e mãe brasileira, nascido em Uppsala – cidade a 70 km ao Norte de Estocolmo, a capital da Suécia –, Kristian Bengtson chegou a Brasília em 1998 para fazer um programa de estágio de mestrado na embaixada de seu país. No primeiro dia em solo brasileiro, conheceu o amor de sua vida, a jornalista Cláudia Gonçalves, carioca radicada em Brasília. Os dois estão juntos desde então. “Após o meu estágio, chegamos a pensar se iríamos para a Suécia, mas eu amo muito o Brasil”, diz ele.

Bengtson também caiu de amores pelo futebol brasileiro, mais especificamente pelo Palmeiras. O sueco que hoje trabalha na Embaixada da Noruega se transformou em um assíduo torcedor do time fundado pela comunidade italiana de São Paulo. Há doze anos, criou um site chamado Anything Palmeiras, com notícias e informações em inglês para os torcedores do clube. A devoção levou com que fosse convidado a fazer a tradução oficial em inglês de textos divulgados em viagens por atletas palmeirenses. Há três anos, ele e a mulher fundaram em Brasília a Escola Bailarinas Por que Não?!, voltada ao público adulto e onde o próprio Bengtson faz aulas de balé.

O programme officer reconhece que, embora a questão dos direitos indígenas não seja uma pauta fácil para os governos, houve avanços nas gestões anteriores a Bolsonaro. “Tem sempre muito sangue e suor, no Brasil e no mundo inteiro.” Agora, com a eleição de Lula, espera que os indígenas sejam incluídos na conversa governamental, para reduzir o “passivo enorme” que existe nas demarcações de terras.  “A expectativa é que volte a existir um diálogo construtivo em relação a esses temas. Vemos também sinais positivos do governo eleito em reabrir diálogo para o retorno do Fundo Amazônia. Para colocar de volta aquilo que foi extinto”, diz.

Durante a reunião da COP27, no Egito, dirigentes da Noruega mostraram alta expectativa com o governo Lula. O país escandinavo disse estar pronto para retomar o investimento no Fundo Amazônia e apoiar outros projetos ligados à preservação ambiental.