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Dois partos para Arthur

O bebezinho nasceu menor do que a largura de uma página da piauí - e sobreviveu

Cristina Tardáguila
Nas imagens do alto, os pés de Arthur ao nascer (3,7 cm) comparados a pés de recém-nascidos de tamanho e peso normais. Duas vidas
Nas imagens do alto, os pés de Arthur ao nascer (3,7 cm) comparados a pés de recém-nascidos de tamanho e peso normais. Duas vidas FOTO: DIVULGAÇÃO

O menino que carrega o título de menor bebê prematuro nascido vivo no Brasil já tem o seu número da sorte: o 2. Arthur nasceu duas vezes, rompeu com dois cordões umbilicais (o que o atrelava à mãe e o que o manteve preso à tecnologia médica) e tem duas festas para comemorar. O 4 de agosto passado, o dia em que foi extraído do útero de sua mãe pesando 0,385 quilo – equivalente a uma berinjela de tamanho médio – e o 7 de dezembro último, quando teve alta na Clínica Perinatal, no Rio de Janeiro, e pesava seis vezes mais. Quatro longos meses e três dias separam as duas datas.

Nos 125 dias que passou na UTI, Arthur foi assistido por trinta médicos, 17 enfermeiros e 58 técnicos de enfermagem. Nesse período, deixou para trás os 23 centímetros que faziam dele um bebê menor do que a largura desta página, e se transformou numa criança tão grande quanto dois palmos bem abertos de um homem adulto. Se tivesse vindo ao mundo quando as técnicas para tratar bebês prematuros ainda se aperfeiçoavam, há uma década, provavelmente teria sido considerado um aborto embrionário. Segundo a Organização Mundial de Saúde, para ganhar o status de aborto fetal, o bebê precisa pesar pelo menos 500 gramas no momento da interrupção da gravidez, o que não era, nem de longe, o caso de Arthur.

O obstetra carioca Paulo Gallo, que identificou o arriscado quadro de pré-eclampsia da mãe na 25ª semana de gestação, e optou por realizar a delicada cesariana naquele estágio da gravidez, lembra exatamente a pergunta que lhe passou pela cabeça quando viu que o menino tinha 115 gramas a menos do que meio quilo: “Meu Deus, e agora? Precisamos começar a agir imediatamente”. Gallo conta como fez para tirar Arthur do útero da mãe: “Bastou inserir os dedos indicador e médio da mão direita em forma de V e agarrá-lo pela nuca. Foi um parto incrível, pois, em cesarianas normais, costumo colocar a mão inteira na barriga para poder puxar a criança”.

Nos seus primeiros segundos de vida, Arthur teve que ser bombardeado com uma substância chamada surfactante. Graças a ela, seus alvéolos puderam ser mantidos abertos e realizar as trocas gasosas necessárias à sobrevivência. Para garantir a função respiratória definitiva do recém-nascido, a equipe médica precisou intubá-lo. Foi quando surgiram as primeiras dificuldades.

“O laringoscópio, que se usa na introdução do tubo, era grande demais para a boca de 1 centímetro de Arthur”, explica o pediatra Jofre Cabral, que, até hoje, cuida do menino. Numa segunda fase, o tubo foi sendo substituído por uma máscara de oxigênio, em elevadas concentrações. Arthur estava atrelado a dois cateteres no umbigo: um para transportar substâncias essenciais que reverteriam o quadro de desnutrição intra-uterina, o outro para ajudar na realização de exames rotineiros como os de pressão e sangue. Era Arthur ganhando seu segundo cordão umbilical, o artificial. “Não podíamos ficar furando a sua veia”, explica Cabral. “Apesar da pele fina, lisa e quase transparente, a veia de Arthur tinha a espessura do fio mais fino que se possa imaginar, não poderíamos nos arriscar a machucá-lo.”

Setenta e duas horas depois do parto, como todo bebê, prematuro ou não, Arthur perdeu peso. No seu caso, qualquer grama a menos tinha significado extremo. Caiu de 0,385 quilo para 0,280, peso de uma lata de ervilha pequena, e um fio de desesperança perpassou a equipe médica. Já os pais do recém-nascido, católicos fervorosos, mantiveram a serenidade e a confiança. Foi no seu nono dia de vida que Arthur pôde finalmente começar a comer. Com a ajuda de uma sonda orogástrica de 2 milímetros de diâmetro, passou a ingerir 0,5 mililitro de leite materno, de quatro em quatro horas. Eram dez gotas retiradas de um conta-gotas infantil, que o bebê levava uma hora inteira para digerir. “Os médicos tinham medo de que o líquido perfurasse o seu intestino”, lembra o pai de Arthur (que prefere permanecer no anonimato) e hoje observa o filho engolir 70 mililitros de leite a cada três horas.

Na incubadora de Arthur, um adesivo alertava a equipe: “Mínimo manuseio”. Significava que as enfermeiras encarregadas de monitorá-lo a cada hora, para fazer os controles vitais (tomada de pressão, verificação de batimentos cardíacos, oxigenação e temperatura), deveriam reduzir drasticamente o contato físico com o bebê. “Um germe ou uma bactéria oportunista seriam fatais para Arthur”, diz o pediatra.

 

Com o passar das semanas, Arthur trocou os cateteres de umbigo por outro, no braço, cujo percurso chegava até perto do coração. Já pesava 1 quilo e crescia. Crescia tanto, e tão rápido, que seu sangue não conseguia acompanhar a expansão dos órgãos. Como lhe faltavam hemácias para suprir a demanda de todo o corpo, teve de ser submetido a três transfusões. Mais uma vez, tudo correu bem.

Arthur era pequeno demais para poder usar as menores fraldas existentes nas farmácias. A solução encontrada para não deixá-lo nu, e ainda mais desprotegido, foi usar absorventes femininos no lugar. O tamanho do protetor era perfeito. Além de manter Arthur limpo e seco, ele evitava o arqueamento de suas pernas.

A única cirurgia a que Arthur teve que ser submetido foi uma feita com raio laser. Ela corrigiu uma retinopatia da prematuridade, o crescimento desordenado de vasos sanguíneos no fundo do olho. Se não fosse estancada, a expansão dos vasos poderia acabar descolando a retina. O problema foi resolvido, e os olhos de Arthur parecem funcionar normalmente.

Arthur deixou a clínica pouco mais de um mês depois do dia em que deveria ter realmente vindo ao mundo, se sua gestação tivesse seguido o curso habitual. No período em que ficou incubado, outros 160 bebês prematuros entraram e saíram da mesma UTI. Apenas dois morreram. No dia em que médicos e enfermeiras lhe deram adeus, seus exames não indicavam qualquer dano no cérebro ou no coração. Estava quase seis vezes mais pesado, e duas vezes maior, do que no dia do parto. Mas ainda era pequeno. Na primeira consulta com o pediatra depois da alta, no dia 15 de dezembro, Arthur pesava 2,32 quilos e media 43,5 centímetros. Ainda bem menor do que um recém-nascido.



Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)