esquina

Dona Rosa in concert

O fado da mulher cega que enche as ruas e o Concertgebow

Vitor Sorano
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Dona Rosa é uma fadista de grande apelo internacional. No dia 25 de maio, ela se apresentou no Castelo Real de Poznan, na Polônia, de onde seguiu para outras quatro cidades, incluindo a capital, Varsóvia. Holanda, Alemanha, Austrália e Taiwan são alguns dos outros países em que já soltou a voz. Portanto, quem quiser contratá-la deve se preparar para cavar espaço na agenda. Para aumentar as chances, convém procurá-la em sua base de trabalho, nas adjacências turísticas do centro velho de Lisboa. Mais exatamente, na rua Augusta, é desnecessário se preocupar com o número do prédio e do apartamento, pelo bom motivo de que eles não existem. Dona Rosa se apresenta na rua mesmo. Seu gogó disputa a atenção e o bolso dos passantes com estátuas humanas, flautistas bolivianos, vendedores de haxixe e mendigos sem pendor artístico conhecido.

Ela está com 53 anos e é cega e rechonchuda. A cegueira confere ao seu canto uma intensidade peculiar, como se ela se fechasse ao mundo, sem se relacionar com nada além da música. É longa a tradição que liga cegos a profetas, e algo assim é sugerido quando canta. O acético triangulozinho que usa para se acompanhar só aumenta a sensação de vate austero. A carreira de rua começou já se vão 32 anos, logo depois de um assalto que a deixou sem dinheiro e sem os bilhetes de loteria que eram o seu ganha-pão. Resolveu se defender com a voz, adestrada em cantorias caseiras.

A trajetória internacional é mais recente e deslanchou graças a uma confluência de circunstâncias meio estapafúrdias. Não se sabe por que cargas d’água um austríaco dono de circo veio a nutrir o desejo bastante específico de rodar no Marrocos um documentário estrelado por cantores de fado. Quis o acaso que a ideia estivesse viva na sua cabeça quando de uma pernada pela Baixa lisboeta. Sendo o conceito completamente dadá, o homem certamente abriu um sorriso ao dar com a senhora cega de voz deslumbrante que repicava um triângulo na calçada.

Em 1999, Dona Rosa foi para Marrakesh. Lá, conheceu o empresário alemão Uli Balss e, no ano seguinte, gravou o primeiro de seus três discos. O terceiro, Alma Livre, chegou a ocupar a 7a. posição na Billboard de world music europeia. Deixou Manu Chao para trás. O mundo foi consequência. No último dia de 2008 e no primeiro de 2009, ela deu duas récitas no Concertgebow de Amsterdã, uma das mais prestigiosas salas de concerto da Europa. O empresário Balss estima que Dona Rosa já tenha atingido a razoável marca de 20 mil CDs vendidos e ultrapassado as 200 apresentações.



Viajada, Dona Rosa tem birra com os transportes aéreos. “O que mais me chateia são os voos cancelados e as mudanças de avião. Se me pedissem para ir à Austrália de novo, acho que não ia. Às vezes não é só dinheiro que conta, também tem as comodidades”, diz. De incômodos, bastam os que ela enfrenta na rua. Pode-se bem imaginar o que seja não saber direito se o céu fechou e a chuva está para cair. O tédio  dos quartos de hotel – de três estrelas para cima, por exigência da gravadora – às vezes incomoda. E não é que se coma mal no estrangeiro: “Mas não dá para comparar com os nossos temperos. Nosso comer é um espetáculo.”

 

Hoje em dia, a calçada é meio gosto, meio necessidade, ela diz, admitindo que já pensou em largar. “No começo, quando gravei o primeiro disco. Achei que ia ser melhor, mas acho que já não estão querendo gravar outro. Estou aqui com a sacola cheia de CDs mas não vendo quase nenhum.” Funciona assim: quando retorna a Portugal com uma boa bolada, Dona Rosa põe um freiozinho na sua lide de rua. “Também depende de quantos CDs eu vendi lá fora.” Se a venda foi boa, ela aparece para trabalhar só nos fins de semana.

Por ora, quando bate a vontade ou a precisão, ela sai de Almada, cidade na periferia de Lisboa, atravessa o Tejo pela manhã, bota o banquinho entre uma vitrine e outra, pendura um de seus CDs na camiseta com alfinetes de segurança, apruma o triângulo e começa a desfiar o repertório. Só para de vez em quando para beber um gole de água ou conferir a letra de uma canção, num braile que ela própria escreve – ganhou o aparelho de presente depois de um show na Alemanha.

A fama a deixou meio deslocada nas redondezas. Ouvem-se maledicências. Colegas de rua não deixam de sugerir que agora Dona Rosa estaria apenas fazendo gênero na calçada. Afinal, ficar por aí dizendo que o destino predileto foi a Áustria, mas que a Finlândia também agradou, não é coisa de quem vive de moedas. E mais: volta e meia, geralmente depois de apresentações, ela aparece com cabelos de salão de beleza. Para agravar, Dona Rosa não revela quanto ganha lá fora. Só fala em valores quando é para reclamar: a gravadora lhe paga 1 euro por CD vendido. Na rua, cobra 15 – “Fifteen euros, que isso eu já aprendi” – e fica com 6.

De uns tempos para cá, a desconfiança em relação à ceguinha amainou. Morador de rua há quinze anos, Vitor Manuel lhe dá o que pode. “Ela até canta bem. Quando posso, ajudo.” O jornaleiro Jorge Carrilho não vacila: “Acho que o produtor a passa para trás, não paga o que é devido.” Outros julgam que ela tem talento, mas que lhe faltam atributos estéticos: “A mulher, quando ainda é boa, tem um corpo, você sabe. Do contrário, de duas, uma: ou a voz é muito espetacular, como a daquela inglesa que apareceu há uns tempos, ou se está desgraçado”, diz Faustino Pinto, frequentador da região. “Falou-se muito dela durante um tempo, apareceu o disco, mas o pessoal já se esqueceu. Sem marketing por trás, a coisa não anda”, avalia António Cardoso, vendedor de discos de fado.

Para quem passa, é triste e bonito. “Há muito sentimento na voz dela. Me tocou”, diz o americano Don Stilo, de visita a Lisboa, pingando uma moeda. O problema é para quem fica. Dona Rosa tem a sua lista de mais pedidas e gosta de repetir os refrões. “Acho que o trabalho dela deve ser bem acolhido, mas são sempre as mesmas músicas. Os estrangeiros não se incomodam, já a gente está aqui o dia inteiro…”, diz Ana Maria, vendedora de uma loja de roupas. “É um bocado maçante. Ela começa cedo e só vai embora depois que as lojas fecham. Ninguém merece”, diz Kátia Pascoal, da loja vizinha, que apesar da expressão é angolana.

Não se pode condenar. Por mais afinada que seja a voz, passar o dia ouvindo Minha amora negra/ Meu amor silvestre/ Toda gente sabe/ Que um beijo me deste… é coisa para bravos. Dona Rosa compreende: “É raro que reclamem. Mas, quando fazem isso, vou um bocadinho mais para baixo.”

Vitor Sorano

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