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Doutorado quase aos 80

Português realiza sonho no Brasil

Jonathas Cotrim
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

Numa sala de aula da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, o engenheiro elétrico português António Amândio Sanches de Magalhães, um senhor de 78 anos, defendia seu doutorado na área de ciências e aplicações geoespaciais. Apontando com uma vareta as fórmulas projetadas no telão, ele explicava como perturbações solares provocam distúrbios na ionosfera – uma das camadas da atmosfera terrestre – e interferem na propagação das ondas eletromagnéticas.

O engenheiro não escondia o nervosismo no início da exposição, que durou 55 minutos e foi acompanhada por sua mulher, a dentista brasileira aposentada Dulce Soares Pereira Sanches de Magalhães, e mais catorze pessoas. Seguiram-se duas horas e meia de arguição, feita pelos quatro membros da banca. Por fim, veio a recompensa: o título de doutor – “com distinção”.

“A pesquisa de António Magalhães ajuda a entender melhor como fenômenos solares afetam a propagação de ondas de rádio numa região do Brasil e da América do Sul na qual o campo geomagnético é mais fraco que no restante do mundo”, explicou um dos integrantes da banca, o pesquisador Rafael Rodrigues Souza de Mendonça, doutor em geofísica espacial pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e participante do programa chinês Centro Nacional para a Ciência Espacial.

Antes da defesa, realizada em 24 de julho, o engenheiro foi parar quatro vezes no hospital, sempre por causa de problemas cardíacos. Chegou a ser levado para uma UTI. “Mesmo lá, passou o tempo todo estudando”, contou sua mulher. “Desde que o conheço, é uma pessoa voltada para o estudo. Ele consagrou a vida à radioastronomia.”

Além de fazer o doutorado, Magalhães ajudou nos trabalhos de reativação do Rádio Observatório de Itapetinga, um enorme e futurista globo branco no meio da Zona Rural de Atibaia, no interior de São Paulo. Considerado um dos principais laboratórios de radioastronomia do país, está inativo desde 2014, mas voltará a funcionar em novembro. “Se não fosse por António, estaríamos muito atrasados para a abertura. Muitas vezes, tiveram que segurá-lo para ele não subir na antena”, disse o orientador do engenheiro, o professor Jean-Pierre Raulin, coordenador do Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica Mackenzie (Craam).

Em 2017, 1 969 pessoas de mais de 70 anos se matricularam em cursos de graduação, informa o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Mas nem o instituto nem o Ministério da Educação têm dados sobre matrículas de pessoas nessa faixa etária em pós-graduações. “Não perdemos a inteligência com a idade; a única coisa prejudicada é a memória dos fatos recentes”, afirmou o engenheiro, que fez 79 anos em 27 de agosto, pouco mais de um mês depois da defesa.

 

António Magalhães nasceu em Serzedelo, uma aldeia do município de Guimarães, no Norte de Portugal, e fez seus estudos em Lisboa, Coimbra e no Porto. Foi convocado para o serviço militar em 1961 e enviado à África, onde Portugal enfrentava os movimentos independentistas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, então colônias do país.

Em 1965, voltou aos estudos. Seis anos mais tarde, concluiu a faculdade de engenharia elétrica. Trabalhou em uma indústria durante dois anos e, depois, entrou para a vida científica, empregando-se no Observatório Astronômico da Universidade do Porto, onde permaneceria por três décadas. Como não encontrava em Portugal ninguém que pudesse orientá-lo no campo da radioastronomia, cogitou aceitar, na década de 1970, uma bolsa de estudos da Polônia. Mas acabou desistindo ao saber do valor da bolsa, insuficiente para ele se manter no país com a mulher e os dois filhos.

Nos anos seguintes, apesar de não conseguir fazer a sonhada pós-graduação, Magalhães manteve uma diligente pesquisa em sua área científica. Por causa do trabalho que realizou em radioastronomia, considerado pioneiro em Portugal, recebeu em 2011 um prêmio do comitê português da União Rádio Científica Internacional.

Em 1999, o engenheiro conheceu Dulce pela internet. Eram ambos divorciados. Casaram-se e foram morar em Santo Tirso, a cerca de meia hora do Porto. Viveram ali quinze anos. Em 2015, os dois aposentados decidiram se mudar para o Brasil, e o engenheiro pôde realizar seu antigo desejo.

 

Depois da defesa do doutorado, Magalhães e sua mulher resolveram retornar a Portugal: estão com passagens marcadas para o começo de novembro. Pesou na decisão a situação política no Brasil, com o governo Bolsonaro. “Eu passei quase metade da minha vida num regime antidemocrático, e isso deixa marcas”, disse o engenheiro (a ditadura do Estado Novo português durou de 1933 a 1974). “Fico espantado como os brasileiros puderam eleger uma criatura assim.”

O governo tem promovido uma série de cortes de verbas para pesquisas científicas – o que irrita mais ainda Magalhães. “A ciência é iminentemente internacional. Qualquer crise em qualquer país afeta a todos, pois a atividade científica depende muito da cooperação”, afirmou.

Neste ano, 8 629 bolsas de mestrado e doutorado foram suspensas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que, além disso, não vai financiar nenhum novo pesquisador até dezembro. Também o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) suspendeu a seleção de novos bolsistas.

Dulce Magalhães planejava fazer uma série de viagens com o marido pela Europa depois que voltassem para Santo Tirso. Mas é provável que ela acabe adiando os passeios. António decidiu que, assim que chegar em Portugal, vai cuidar da construção de um radiotelescópio para captar dados sobre estrelas com intensa emissão de ondas de rádio durante explosões. “Eu não consigo ficar parado, a vida é boa demais para desaproveitar e eu já desaproveitei muito. Vou começar outra aventura.” Do quintal de sua casa, o engenheiro vai continuar sondando o cosmos.

Jonathas Cotrim

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