chegada

Duelo na selva

Os ingleses se preparam para ir a Manaus

Felipe Marra
ILUSTRAÇÃO: LAERTE_2014

O professor de escola primária James Titley é um tipo alto, forte e simpático, que sorri com facilidade e não aparenta os 38 anos que tem. Animado, ele está entre os torcedores que planejam viajar até Manaus em junho para assistir in loco, no dia 14, ao jogo de estreia da Inglaterra na Copa do Mundo, contra a Itália, ninguém menos. As duas seleções, que figuram na seleta lista dos campeões do mundo, se enfrentaram uma única vez na história das Copas. Foi em 1990, na cidade italiana de Bari, na disputa do terceiro lugar, e deu Itália – 2 x 1.

Natural de Shropshire, região que faz fronteira com o País de Gales, o professor Titley vive em Londres com a mulher há nove anos e diz ainda se sentir “um pouco intimidado” na capital do país, onde não encontra o “aconchego” e a “simplicidade” de seu vilarejo. Nas últimas semanas, porém, Titley esteve mais incomodado com o que leu nos jornais britânicos sobre a remota capital do Amazonas. Manaus, segundo manchetes que ele citava a esmo, seria uma localidade assolada por um “exército de bichos peçonhentos”, conforme o Daily Mail, ou um “buraco do crime” povoado de “bandidos enlouquecidos por narcóticos”, segundo o Daily Mirror.

Retórica inflamada à parte, os tabloides, neste caso, não podem ser acusados sem mais de sensacionalismo. O Mapa da Violência de 2013, uma publicação do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, mostrou que a cidade ocupa a sexta pior posição entre as capitais do país em matéria de homicídio: 56,2 para cada 100 mil habitantes (dados de 2011). No Reino Unido, no mesmo ano, houve um homicídio para cada 100 mil pessoas. Em Londres, o índice foi de 1,6 – dados de 2009.

Apesar de tudo, Titley acha interessante passear pela selva. “Um toque exótico é sempre bem-vindo. Me Lembro de ter ganho um colar de flores quando cheguei ao Havaí. Quem sabe lá eles distribuam aquelas coroas usadas pelos índios, como chama aquilo? Cocar? Então, quem sabe ganhe um daqueles na chegada?”, comentou, sorridente, com seu ar de caipirão.

 

O sorteio dos grupos e jogos da primeira fase da Copa, realizado em dezembro, em Salvador, foi um desafio à habitual fleuma inglesa. Assim que o resultado saiu, o presidente da federação de futebol britânica foi flagrado pelas câmeras fazendo o gesto de quem corta a própria garganta com o dedo. A seu lado, o técnico da seleção, Roy Hodgson, não conseguia conter o riso nervoso. Dias antes, havia dito que Manaus era “a sede a ser evitada” por causa do clima. O prefeito da cidade, o tucano Arthur Virgílio, respondeu de bate-pronto, de maneira pouco inglesa: “Nós, amazonenses, também preferimos que a Inglaterra não venha. Torcemos para que venha uma seleção melhor, com mais futebol e com um técnico mais sensível, culto e educado.”

No dia fatídico, logo depois do sorteio, a BBC abria seu noticiário sobre a Copa com Welcome to the Jungle, dos Guns N’ Roses. A letra escancarava o pânico nacional: “Bem-vindos à selva, aqui piora todo dia, você aprende a viver como um animal na selva onde nós jogamos.”

De dezembro para cá os ingleses tomaram algumas providências. O Ministério das Relações Exteriores criou um site chamado Be on the Ball, algo como “De Olho no Lance”. O site faz uma série de recomendações aos que se aventurarem a assistir a sua seleção em terras amazônicas. Os torcedores devem se vacinar contra febre amarela entre seis e oito semanas antes de viajar; devem ter cuidado ao desbravar a floresta, onde “animais selvagens são motivo de preocupação”; e convém também evitar o banho na praia de Ponta Negra, onde pessoas já morreram afogadas “por causa da areia movediça”. A lista é mais extensa.

Agências de turismo britânicas identificaram na fatalidade a chance de fazer uma limonada. A Infinity Tours, com sede próxima ao estádio de Wembley, avalia que Manaus aqueceu seus negócios. “Muita gente que normalmente faz seus planos de viagem sozinha acabou deixando tudo com a gente porque não sabe como chegar direito nem o que vai encontrar por lá”, disse Manan Shah, dono da empresa.

Cada um dos 250 torcedores que a Infinity Tours trará ao Brasil vai desembolsar 18 mil reais, com direito aos jogos da seleção inglesa em São Paulo e Belo Horizonte. Shah contou que alguns dos seus clientes se decepcionam ao tomar conhecimento de que Manaus não fica no litoral. “Eles não querem ficar no meio de uma reserva ambiental”, explicou.

A BAC Sport, especializada em turismo esportivo, pretende levar outros cinquenta torcedores só a Manaus, ao custo de 12 mil reais por cabeça. Para atrair a clientela, a agência prometeu operar com o mesmo esquema de segurança que utilizou no mundial da África do Sul e, mais recentemente, na Ucrânia, durante a Eurocopa. A ideia é que uma trupe de seguranças da agência ande com os torcedores para todos os lados, inclusive nos estádios.

“Temos um cliente que vai levar seu filho de 13 anos para assistir à Copa e a mulher dele nos liga quase todos os dias com diferentes perguntas sobre as condições de segurança. Precisamos convencê-la de que tudo vai correr bem”, disse David Pearson, diretor da BAC.

Mais bem-humorado, Tom Forshaw, um dos diretores da Thomson Sport, agência oficial da federação inglesa, recorre ao entusiasmo etílico dos seus compatriotas quando é questionado a respeito dos transtornos derivados da temperatura e da umidade. “São só os jogadores que vão correr. Os torcedores não precisam se esfalfar sob o calor. Basta tomar umas geladas que passa”, disse, sorrindo.

 

A capital amazonense foi defendida por Chris Westwood, um inglês que se mudou há dois anos para lá depois de conhecer uma família brasileira proprietária de uma escola na cidade. “Essa é uma cidade grande, nem dá para ver a selva daqui. Dizer que os torcedores poderiam acordar ao lado de uma cobra é risível”, ele esclarece. Westwood montou o site INBrasil2014 para ajudar os torcedores de seu país com dicas sobre o Brasil e faz ressalvas ao estigma da violência que acompanha Manaus: “Os crimes acontecem longe do estádio ou das áreas onde os turistas devem se hospedar. O torcedor inglês também não é mais aquele hooligan, é mais sensato e sabe viajar. Vai dar tudo certo.”

No final de fevereiro, o técnico Hodgson decidiu visitar a Arena da Amazônia, elogiou o estádio e selou as pazes estratégicas com o prefeito Arthur Virgílio. A imprensa britânica disse que o técnico “foi sentir o calor de perto”. Numa de suas tiradas dirigidas aos súditos da rainha Elizabeth, Arthur Virgílio disse: “Aqui eles não encontrarão onças nas ruas, mas sim gatas.” Em matéria de humor, parece que o Brasil já perdeu.

Felipe Marra

Felipe Marra é jornalista e editor brasileiro residente em Londres. 

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