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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

E Bruce Lee virou Freud

O paraibano que vive de imitações no Instagram

Clara Rellstab | Edição 193, Outubro 2022

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No bairro Ernesto Geisel, em João Pessoa, mora o maior artista do Brasil. É assim que se apresenta Wytemberg Mariano da Silva, de 47 anos – ou Bruce o Artista, nome que ele assume quando faz suas imitações no Instagram. Há três anos, o paraibano vem ganhando a vida com vídeos nos quais encarna artistas, celebridades, figuras históricas e personagens de ficção. Seu repertório é vasto: vai da ex-BBB Juliette ao filósofo Immanuel Kant (caracterizado por uma peruca branca), do agente Dale Cooper, da série Twin Peaks, ao mago Gandalf, de O Senhor dos Anéis (com longa barba postiça e relâmpagos ao fundo).

Antes de conquistar quase 50 mil seguidores no Instagram com suas imitações, Bruce ralava em apresentações ao vivo. Fez o cantor de axé Bell Marques em aulas de zumba e interpretou Roberto Carlos em aniversários de senhoras idosas. Foi imitando o youtuber Luccas Neto em um parque aquático, em 2019, que conseguiu ampliar seu público na internet. Depois do evento, Bruce marcou o nome de Luccas Neto no vídeo da performance que postou na rede social, imaginando que ele ficaria lisonjeado com a imitação feita por um admirador de João Pessoa. Mas logo recebeu, por WhatsApp, uma notificação da assessoria jurídica de Luccas Neto, pedindo que tirasse o vídeo do ar. Em nota à piauí, a assessoria do youtuber confirmou o episódio, mas não quis comentar a respeito.

A notícia de que um artista anônimo havia sido impedido de imitar uma estrela do YouTube correu o Twitter. Em um único dia, o número de seguidores de Bruce subiu de 3 mil para 5 mil. Ele, que sempre sonhara com a fama, diz que viu então a “profecia se realizar”.

 

Na infância, Wytemberg Mariano da Silva gostava de imitar um único artista. Começou aos 13 anos, quando viu em uma revista a foto do ator norte-americano de origem chinesa Bruce Lee, que nos anos 1960 e 70 fez sucesso em filmes de artes marciais. Tido como bom de bola pelos amigos, o rapaz trocou o gramado pelo tatame. “Acordava para treinar e dormia para descansar para o próximo treino. A disposição era total”, relembra. Foi então que adotou o nome Bruce – apesar de sua aparência tipicamente brasileira passar longe dos fenótipos chineses do seu ídolo.

O Bruce de Mangabeira – bairro de João Pessoa onde foi morar aos 3 anos – começou a trabalhar na adolescência. Foi conferente de documentos, operário em uma fábrica de garrafas e cabeleireiro. Mas gostava mesmo era de exibir, nas escolas de João Pessoa, o Museu Itinerante de Bruce Lee, que nada mais era do que sua coleção pessoal de artefatos do ídolo – pôsteres, figurinos e miniaturas. Nessas ocasiões, impressionava as crianças copiando os golpes de Lee. Passou também a frequentar shows e espaços culturais caracterizado como o ator de O Voo do Dragão. Tudo isso de graça, sem ambições profissionais.

Em um show da banda Harmonia do Samba, em 2000, chamou a atenção do vocalista Xanddy, que anunciou ao microfone: “Bruce Lee ressuscitou para vir num show do Harmonia!” A plateia vibrou, e ele gostou do aplauso. Decidiu que a imitação seria seu ofício. Ampliou o leque de personagens, mas manteve o nome Bruce, com o acréscimo de um substantivo: artista.

Viveu 23 anos de suas apresentações, até a pandemia interrompê-las. Os clientes começaram então a pedir que ele gravasse suas performances em vídeo, como forma de presentear amigos, familiares ou interesses românticos. No início, Bruce fazia isso gratuitamente, até que alguém perguntou quanto ele cobraria por uma imitação de Wesley Safadão. “Eu disse que aceitava qualquer coisa, e me deram 50 reais.”

No mesmo dia, postou o anúncio no Instagram: quem quisesse um “salve” (mensagem para uma pessoa querida) só precisava escolher um personagem – e fazer um Pix. “É baratinho, mas foi o que me salvou”, diz. Entre os salves mais curiosos, está aquele em que Bruce se caracterizou como Sigmund Freud. Foi encomenda do namorado de um psicólogo recém-formado.

 

Bruce toca seu novo negócio com a ajuda da namorada, Andréia Santana. Depois que chega o pedido, o casal pesquisa fotos e informações que possam ajudar a compor o personagem. Ele conta com uma costureira de confiança que produz os figurinos para a performance.

Santana edita os vídeos e controla as finanças. O preço subiu desde as primeiras imitações: 100 reais para personagens que ele já fez e 300 reais para inéditos. Alguns clientes pedem, digamos, efeitos especiais: Bruce até já se pendurou em uma estrutura de metal para reproduzir a cena clássica em que Tom Cruise fica suspenso por cabos em Missão Impossível. Nesses casos, o preço pode chegar a 1 mil reais.

O figurino e a produção lembram aquela estética mambembe da Carreta Furacão. Bruce, no entanto, diz que o mérito de seu trabalho está em aproximar seus personagens – ainda que representados de forma capenga – de seu público. “Só os ricos têm acesso aos originais, aí Bruce chega e leva o personagem de Hollywood para seu vizinho”, diz o artista, falando de si mesmo na terceira pessoa.

O Instagram não é suficiente para o imitador. Seu objetivo maior é realizar um filme no qual o protagonista seria, claro, Bruce o Artista. O longa-metragem conjugaria ação e comédia: Bruce escaparia dos vilões que o perseguem graças à arte do disfarce, assumindo o visual de suas várias imitações. Ele já tem o título do filme: Bruce – Um Novo Herói.