esquina

É dando que se recebe

Negócios eróticos de uma evangélica

Anna Virginia Balloussier
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Seu nome é Mônica Alves, mas aqui ela prefere ser chamada de Munik, “para não confundir a cantora e a empresária”, seus dois cartões de visita. Traz a mercadoria disposta em tupperwares empilhados dentro de uma bolsa de lona verde-limão.

“Vamos lá atrás”, sussurra Nilza. A mulher do sobrinho de Munik é uma freguesa fiel, tanto em lealdade (torra sempre uns 50 reais do salário de 1 200 reais) quanto em credo (frequenta a Igreja Evangélica Movimento Pentecostal Arca Sagrada). Ela puxa a vendedora pelo braço até uma sala no fundo da pet-shop onde trabalha, em São Bernardo do Campo (ABC paulista), uma casa amarela com anúncio de “Banho e Tosa” pintado em azul na fachada. O recato da cliente de 29 anos é inversamente proporcional ao louro “Koleston 120” nas madeixas, o piercing de argola branca no nariz e os elásticos laranja no aparelho ortodôntico.

Agora, sim, Nilza está mais à vontade, no pequeno cômodo azulejado, atrás dos aquários que vendem o peixe paulistinha por 2 reais. Dá uma espiada na sacola da amiga. “O que você tem pra mim hoje?” Munik faz uma pausa dramática e, com um sorriso enigmático de jogador de pôquer, saca um potinho plástico no formato de uva. Tira de lá o Boca Loka (33 reais), seu royal flush. “Pelo tamanho, não parece que faz tanta coisa”, diz enquanto encosta o minivibrador lilás de 10 centímetros na ponta do nariz da outra. O “brinquedinho” zune e treme como um besouro dançante.

E não é só isso. Na bolsa, a ex-consultora da Avon traz quase 3 quilos “do bom e do melhor”. Há quase dez anos, Munik revende produtos eróticos como o anel peniano estilizado com cara de gatinho (25,50 reais) e o Power Pump, aparelho para bombear sangue no pênis (69 reais).



Adepta da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, tem trânsito fácil com clientes evangélicas como ela, mas que levam a vida sexual num peculiar ménage à trois: a mulher, o marido e o Senhor. “Ih, vibrador é o maior tabu. Elas acham que é pecado. Sempre pergunto: ‘Já parou pra pensar no que o pastor faz com a esposa? Acha que ele conta pros fiéis? Então, bobinha.’” Curiosamente, o quesito lubrificação é o ponto G das vendas. Pomadas contra secura vaginal, “para ficar mais molhadinha”, são campeãs entre a clientela religiosa, conta Munik, segurando um chaveirinho de borracha cor-de-rosa em formato de pênis. Quando apertado, expele uma geleca branca.

 

Filha de baiana com português, Mônica Alves nasceu na avenida Paulista no dia 10 de junho de 1968, sob o signo de Gêmeos, que dizem ser dotado de “grande poder de persuasão”. Lembra que quando criança foi modelo mirim (“era a única negra de Adidas”) e brincava com o cantor Supla em Higienópolis, onde a mãe trabalhava como empregada.

Aos 46 anos, é uma baixinha bem porreta, os olhos castanhos pequenos destacados nos óculos de armação branca, o cabelo curto e o sorriso sempre largo. Usa camiseta branca de manga comprida, sobre a qual veste outra vermelha, que aparenta ser um número menor do que o seu, revelando um “pneuzinho”. Nela se lê: “Realize seus sonhos! Pergunte-me como.”

Hoje Mônica responde como e quanto faz com a naturalidade de quem pede um copo d’água. Mas falar de sexo também já foi “o maior tabu”. Católica de criação, ela recorda dos “dias santos” que a família instaurava, cheios de restrições, quando não se podia pentear o cabelo nem jogar o lixo fora. “Eu não me olhava no espelho até uns 13 anos.”

No início dos anos 2000, separou-se do primeiro marido. Antes de ficar “deprê”, foi atraída pelo canto da sereia evangélica. Cantora desde os 10 anos de idade – atualmente especializada em “cantar velha guarda e bossa nova em cruzeiros marítimos” –, ela passava por um templo da Renascer em Cristo na Vila Mariana quando ouviu uma cantoria. Gostou da música gospel, entrou e ficou por ali mesmo. Na época, trabalhava na recepção da boate Danger, conhecido ponto LGBT no Centro de São Paulo. Enquanto recebia a bênção da bispa Sônia Hernandes, acumulava uma poderosa agenda de contatos, “com 1 500 gays que eu chamava para as festinhas”.

Alguns frequentadores das baladas começaram a pedir produtos que Mônica não fazia ideia do que eram. “Comprava em lojinhas do Bom Retiro umas cápsulas que você introduz lá, para sexo oral e sexo normal. Não sabia para o que serviam. O perfume era agradável… Eu vendia como espuma de banho.”

 

Uma amiga percebeu que a geminiana dava para a coisa e sugeriu que ela trabalhasse como revendedora. “Acho que não vai ser legal, minha religião não permite”, Mônica respondeu. E ouviu de volta: “Escuta, tudo o que você faz você fala para o pastor? É ele quem paga as suas contas?”

Desde então, a cantora que fazia bicos na boate gay se desdobrou em Munik, a empresária do sexo. No notebook LG preto que usa até hoje, seguiu cursos virtuais sobre excitação e técnicas de venda. Uma voz computadorizada discorria sobre cremes japoneses térmicos e ensinava a nunca empregar termos chulos. “Você não podia falar: ‘Ah, passa o gel lá na perseguida, no capitão.’ Eu sempre fiz questão de conversar num português bem claro com os clientes. E de enfatizar que sou casada. Dou respeito para receber respeito.”

Com o “noivorido”, porteiro cearense doze anos mais moço que conheceu na estação Paraíso do metrô, Mônica testa as últimas novidades antes de oferecê-las à freguesia (isso quando ele não vem com desculpas do tipo “Amor, tô com dor de cabeça”, conta, rindo). “A turma tem comprado muita calcinha estilo colegial. Tanga xadrezinha com lacinho. Não importa a idade, o lance é voltar a ser menininha.”

Vira e mexe é recriminada pela família e as amigas evangélicas. A mãe está convencida de que vibrador provoca câncer no útero. Foi um deus nos acuda quando presenteou sobrinhas na faixa dos 17 anos com calcinhas fio dental.

“Não tem coisa pior do que mulher mal-amada”, diz. “Muita gente na igreja fala mal, mas compra.” E se não compram, diz Mônica, deveriam. “Tá todo mundo evoluindo, e elas continuam paradas no tempo. Quando ficarem mais velhas e a bexiga começar a cair, vão desejar ter feito pompoarismo.” Ora, bolas.

Anna Virginia Balloussier

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