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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

esquina

E ela escreveu “orgasmo”

O jornalismo mudou, Fatima Ali continua a mesma

Angélica Santa Cruz | Edição 197, Fevereiro 2023

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Toda mulher pode sentir prazer no amor. Você também; 12 Mulheres contam como faturam milhões no mercado das finanças (que já foi só dos homens); Explore as vantagens de morar sozinha. Com os cabelos brancos desarrumados em um corte arrojado e óculos imensos de armação preta, a jornalista Fatima Ali está sentada na sala com paredes de vidros de sua casa em São Paulo. Ela comenta as chamadas de capa da primeira edição da revista Nova, que chegou às bancas em outubro de 1973, trazendo uma modelo com olhar assertivo e decote abusado. “Está vendo? Era uma coisa incrível”, diz ela.

Ali lançou e dirigiu por dezessete anos a versão brasileira da Cosmopolitan, revista secular relançada nos Estados Unidos em 1965 para ser uma grande ruptura do jornalismo feminino. “Antes, as revistas para mulheres falavam de marido, de filho, de decoração, de jardim, de culinária. A mulher não existia. Veio a pílula anticoncepcional e as coisas mudaram. Nova foi a primeira a usar a palavra ‘orgasmo’ na capa, a falar abertamente ‘mulher solteira pode ter sexo’. Foi um escândalo”, lembra.

Realmente, foi um fuzuê. No auge da ditadura militar, Ali todos os meses precisava submeter uma cópia da revista, antes da publicação, aos censores em Brasília, que devolviam as páginas rabiscadas, com textos e fotografias vetados. Mesmo com a censura prévia, dois números de Nova foram apreendidos nas bancas.

A revista também enfrentou fogo amigo. Jornalistas antiquados rejeitavam o formato. “Eles achavam que o jornalismo feminino era uma coisa menor, uma besteirada”, diz Ali. “E a liberdade sexual que as matérias emanavam era motivo de gozação na imprensa.” Colunista do Jornal da Tarde conhecido pelas tiradas ferinas, Telmo Martino fez parte da velha guarda que desdenhava Nova. “Ele dizia que a revista era o Kama Sutra das estenodatilógrafas, ou seja, das secretárias que transavam com o chefe. Não era. Era da mulher que escolhia com quem queria ficar. Eu nem ligava. Também fui estenógrafa.”

 

A nove meses de completar 80 anos, com três filhos e quatro netos, Fatima Ali é uma decana da geração que rompeu o cercadinho masculino do jornalismo no final da década de 1960 chegando pelas bordas, a partir das funções permitidas para mulheres: secretárias ou pesquisadoras nos arquivos.

Filha de um sírio e de uma descendente de libaneses, Ali parou de estudar aos 16 anos para procurar emprego. Virou secretária em agências de publicidade. Aos 21 anos, bateu na porta da Editora Abril, pedindo para trabalhar na revista Manequim. Não foi considerada suficientemente elegante para isso, mas virou a primeira mulher a vender anúncios na empresa. Seu excelente desempenho a catapultou, aos 23 anos, para a direção da Manequim – o que, diz ela, provocou um pedido de demissão coletivo da equipe, que se recusou a ser chefiada pela jovem e inexperiente vendedora de anúncios.

 

Quando completou 29 anos, Ali soube que a Editora Abril faria a versão brasileira da Cosmopolitan e se ofereceu para dirigi-la. “Pensei: ‘Essa revista fala com mulheres como eu’ – e eu era um típico produto do meu tempo. Fui morar sozinha cedo, tinha um impulso grande de ganhar dinheiro e, com a liberdade exagerada que veio depois da pílula, dormia com todo mundo, não tinha problema, eu não queria casar”, diverte-se.

Ali se tornou a primeira mulher a assumir uma vice-presidência na Editora Abril, na época um portento que publicava mais de cem títulos e tinha cerca de 10 mil funcionários. “Eu era um corpo estranho, foi dificílimo”, recorda. “Uma vez, em uma reunião, um colega começou a gritar e me chamar de vagabunda. Mantive a linha e respondi da mesma forma que os homens falavam comigo: ‘Você está nervoso? Está menstruado?’ Mas cheguei em casa e desabei no choro.” A jornalista foi ainda uma alta executiva da tevê: lançou e dirigiu por quatro anos a MTV brasileira.

Em todas essas posições, diz, sobrevivia porque gerava lucro – e fazia o que queria. Enlouquecia os colegas, pois era a única a ter duas secretárias. “Eu tinha três filhos e casa para administrar. Eles não precisavam fazer isso”, explica. Nos anos 1980, Ali convocou todos os seus funcionários para eliminar um boato pela raiz, confirmando que ele era verdadeiro: sim, ela estava namorando uma mulher. “Durou poucos meses, em uma fase em que eu estava me separando do meu marido. A fofoca se espalhou, chamei todo mundo, disse que não tinha nada a esconder e encerrei: ‘Agora vamos trabalhar.’”

O mundo corporativo desbravado por ela derreteu. A maioria das revistas que dirigiu não existe mais, a MTV já não é a mesma. Mas Fatima Ali continua por aí, jogando granadas nos mecanismos regulatórios do comportamento feminino.

 

“Exclusivo! Saiba quem é a mulher mais velha apontada como affair de Tiago Ramos”, estampou o site BuzzFeed, em outubro do ano passado. Influenciador que namorou a mãe do jogador Neymar – Nadine Santos, 31 anos mais velha –, Ramos passou pela edição de 2022 do reality show A Fazenda, da Record. Antes de ele ser expulso do programa porque arrumou uma briga, outro participante contou, no ar, uma história apimentada: Ramos, de 25 anos, teria sido flagrado pelo ex-namorado com uma mulher de mais de 70 anos.

Os sites que cobrem televisão cravaram: a mulher era Fatima Ali. “Sou amiga do Tiago, mas essa história toda é uma grande fofoca”, diz a jornalista. Em seguida, retoma a velha verve: “Eu namoro homens mais novos. Aos 79 anos, minha libido segue a mesma.”

Em tempos de famílias mosaico, gêneros fluidos e conteúdo correndo solto pela internet, Ali acredita que publicações pensadas apenas para mulheres perderam o sentido. Mas, se relançasse a Nova ho­je, que conselhos distribuiria? “Os mesmos que dei para minhas filhas: Não case com homem rico – ele vai querer dominar você; não compre roupas, é uma besteira que entope o planeta de resíduos – renove o look comprando sapatos quando os seus estragarem; participe de sua comunidade – faça alguma coisa para melhorar o seu entorno.” E ela fecharia com a sua lei pétrea: “Seja sempre você mesma!”