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E o chiquê, que fim levou? 

No Jockey Club do Rio, agora vale até barriga de fora

Consuelo Dieguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Dagoberto Midosi está para a sede do Jockey Club do Rio de Janeiro assim como Pero Vaz de Caminha para o Brasil. É uma testemunha das origens. Tem carteirinha de sócio desde 1926, ano em que o clube se mudou para o Jardim Botânico, e nunca esquecerá o esplendor da festa de inauguração, à qual foi levado pelo pai. Desde aquele dia, mantém o ritual de assistir a todas as corridas. “Só falto por doença”, disse, bem-apanhadíssimo nos seus 94 anos.

Caía a tarde de segunda e o calor de dezembro não tinha por que amainar. Do topo da marquise da tribuna de honra, uma portentosa teia de aranha vinha estender-se até a mureta da varanda do restaurante. Sentado ao lado de Midosi, a uma mesa com toalha de tecido barato, um sócio observava a lenta movimentação dos aracnídeos. Enquanto os cavalos não largavam, era sempre uma distração. “Veja a que ponto chegou a decadência…”, disse, mordiscando tristemente um sanduíche de queijo cujo pão francês já vira dias melhores. Midosi o secundou: “Era tudo tão chique…”

As luzes do hipódromo se acenderam e o locutor anunciou a largada do sexto páreo. Midosi pega o binóculo e o aponta para a pista. Nas tribunas e na varanda do restaurante, uns gatos pingados repetem o gesto. Dali a minutos Ultra Bike cruza em primeiro lugar a linha de chegada, fato que não causará qualquer comoção no mundo do turfe. Midosi encomprida o olho na direção da Lagoa: “Não existe lugar mais bonito que esse, mas hoje o Jockey é uma casa vazia.”

Midosi tem viva lembrança das tribunas lotadas. O clube foi fundado em 1868, por admiradores do hipismo, esporte aristocrático que rendia cachê social a grupinhos que se sonhavam em Paris. Em 1920, o milionário Linneo de Paula Machado, paulista radicado no Rio, negociou com a prefeitura a troca da então sede do Jockey – onde hoje funciona o Maracanã – por um latifúndio pantanoso à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Paula Machado iniciou a construção da nova sede com dinheiro do próprio bolso e a “sympathia do poder público”, como informa a placa de bronze na entrada do clube. Não economizou. O prédio, de arquitetura eclética, era – e é – um deslumbramento, assim como os interiores, repletos de escadarias, mármores e grandes lustres de cristal.

Com os gaúchos capitaneados por Getúlio Vargas, veio também um entusiasmo atávico por equinos, o que ajudou a transformar o clube no lugar mais cobiçado da República. O luxo atingiu o paroxismo com a criação do Grande Prêmio Brasil, em 1933. No dia do evento, realizado sempre num domingo de agosto, a tribuna de honra era tomada por políticos, empresários e diplomatas. Aquilo eram bons tempos.

Lugares de poder precisam de poderosos. Como quase toda decadência na cidade, a do Jockey também teve início com a transferência da capital federal para Brasília. O último presidente da República a assistir a um Grande Prêmio foi Ernesto Geisel, há quase quarenta anos. Hoje, nem prefeito passa por ali. A receita advinda do jogo também foi para o brejo. Com a criação das várias loterias, os apostadores preferiram tentar a sorte em outras pastagens.

 

O clube foi fazendo ginástica para sobreviver. Primeiro, abriu a porteira para novos sócios. O título hoje está saindo por 20 mil reais, dez vezes menos do que o do Country Club. E os novos associados querem distância da cavalaria. Estão ali por causa de outras amenidades, como piscina, sauna e quadras de tênis. Uma sócia chegou a anunciar que detestava “sentir o cheiro das cocheiras”, despautério igual a um sócio do Iate dizer que tem horror ao mar.

A heresia ganhou curso e converteu as altas instâncias do poder interno. O atual presidente do clube, Luis Eduardo da Costa Carvalho, achou que seria uma boa ideia transferir as cocheiras para a região serrana do Rio. No lugar delas, seria erguido um imenso complexo de escritórios. Estava com contrato quase fechado com a Odebrecht – mas aí o pessoal do turfe estrilou. Desencadeou-se uma guerra religiosa. Os corredores do Jockey tornaram-se impróprios a moças de família.

Os sonhos imobiliários de Costa Carvalho abriram a possibilidade de saldar as dívidas do clube – 660 milhões de reais só de impostos – pelo caminho da alienação de patrimônio histórico. Dentre medidas cosméticas e medidas desesperadas, ele demitiu 30% do quadro de funcionários e propôs a instalação de máquinas caça-níquel, ideia recebida com nova enxurrada de críticas. Era só o que faltava.

O presidente anterior, o advogado Luis Alfredo Taunay, é o maior antagonista. De bermuda e tênis, na sala de seu apartamento na Vieira Souto, Taunay foi inclemente: “Ele não tem sensibilidade e vai destruir o clube. É gente do mercado financeiro.” (Costa Carvalho é dono de corretora.)

 

O chiquê se foi, talvez sem volta. Na sede social, um punhado de apostadores no limite superior da terceira idade espalha-se por cadeiras de plástico que bambeavam sobre o piso de mosaico já meio estragado. No pequeno bar de bronze e madeira de lei, vende-se cocada e paçoca. Há muito a indumentária deixou ser aquela que orna Paris. Mesmo na tribuna de honra – o último bastião da elegância – foi autorizado o uso de bermudas. Hoje a paisagem se povoa de senhores de sandalhão e pernas de fora, enfiados em camisetas das quais se projetam suas barrigas alentadas.

A César o que é de César: quem liberou geral foi Taunay. Mas Costa Carvalho, em sinal de que não é dado a mesquinharias, defendeu a medida: “Temos que liberar a bermuda se quisermos atrair público para o Jockey.” (Como o público não tem aparecido, parece que não se tocou dos benefícios.)

Segundo Marcello Macedo, advogado dos sócios descontentes, no dia 13 de dezembro foram entregues 600 assinaturas a Costa Carvalho – 200 além do necessário –, em requerimento para que convoque uma assembleia cuja pauta será o seu próprio impeachment. Decorrido o prazo de trinta dias, se nada se mexer, os descontentes poderão pedir a convocação da assembleia na Justiça e a luta continua. Costa Carvalho contesta os números e diz que fica até o final do mandato, em 2012.

Cansado de incompreensão, ele desabafou. “Nós não temos dinheiro, essa é que é a verdade. O futuro é negro, mas eles ficam sonhando com um tempo de glórias. O Suburbano Country Club tem mais classe do que isso aqui.”



Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras