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E por falar em aceleração… 

Fuga de traficantes inaugura galerias de águas pluviais no Complexo do Alemão

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Numa manhã escaldante de dezembro, dois soldados do Exército se refrescam tomando guaraná em copos de plástico. Escondem-se do sol entre duas construções irregulares de alvenaria. Ocupam a esquina da estrada do Itararé com a rua Joaquim de Queiroz, um dos mais movimentados caminhos de acesso ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

Não foi longe dali que os traficantes arrancaram o revestimento do chão para dificultar a passagem da polícia e das Forças Armadas que ocuparam o Complexo no fim de novembro. O flagrante da rua eviscerada revelava as entranhas da favela, trazendo à luz, na tomada do Alemão, uma legítima e inconfundível galeria de drenagem das águas pluviais correndo sob a Joaquim de Queiroz.

Era uma cena marcante, mas com menos cachê midiático do que as imagens de apreensão de maconha, crack, cocaína e armas pesadas que viriam a seguir. Logo foi rapidamente enterrada na memória da cidade, apesar da hipótese aventada pela polícia e endossada pelos repórteres de que ao menos uma parte dos traficantes – pelo visto mais informados que as autoridades sobre os equipamentos urbanos postos pelo Estado sob seus pés – escapara do cerco pela rede providencial de túneis subterrâneos.

A história era boa. Ajudava a explicar a pífia resistência dos bandidos à ocupação que se consumou quase sem troca de chumbo grosso em menos de duas horas. E cobria o sumiço dos traficantes com a aura romântica da fuga do rebelde Jean Valjean pelos esgotos de Paris em Os Miseráveis, de Victor Hugo. Sem contar a publicidade gratuita aos governos pelo que fizeram no Complexo do Alemão, ao contrário do que sempre se supôs no resto da cidade.

A confirmação veio dias depois da invasão, com a confissão de um traficante capturado pela polícia. Ele teria escapado pelas galerias, saindo no rio Faria-Timbó, onde desemboca um dos canais subterrâneos de drenagem do Complexo do Alemão. Nesse caso, a fuga seria a primeira evidência concreta de que está funcionando na favela o investimento do governo federal em saneamento básico, bancado pelo Programa de Aceleração do Crescimento.

A Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro, envolvida na execução do PAC no Complexo do Alemão, confirma que construiu lá dentro, desde 2008, nada menos de 24 291 metros de rede de esgoto e 15 404 metros de galerias para águas pluviais. E não foi só ela. A prefeitura também tocou projetos de saneamento no Alemão com dinheiro do PAC. Num mapa aberto sobre a mesa em seu gabinete, com o ar-condicionado a todo vapor, o secretário municipal de Habitação Jorge Bittar aponta com orgulho as galerias creditadas à sua gestão.

O labirinto da prefeitura segue, por baixo da terra, eixos importantes do conglomerado de favelas, até desaguar no Faria-Timbó – que, por sua vez, corre para a Baía da Guanabara. As novas galerias se encontram com o rio na altura da rua Miraluz, no ponto onde ele passa sob a Linha Amarela.

Na confluência com o rio, a galeria tem 3,70 metros de largura por 2 metros de altura. Medidas mais que suficientes para a passagem confortável de qualquer adulto. O problema é chegar até lá, atravessando trechos onde a altura do túnel não passa de 1 metro. Nesses pontos, o preço da liberdade é acocorar-se ou engatinhar na água imunda.

 

A essa altura do campeonato, seria o caso de perguntar: a rota de fuga dos bandidos foi federal, estadual ou municipal? É um mistério. A Empresa de Obras Públicas é a primeira a reconhecer que o Complexo do Alemão tem “uma extensa rede de esgoto e águas pluviais existente anterior ao PAC”. Mas não se arrisca a dizer o tamanho ou a idade dessa rede.

Quem deveria saber disso é a Cedae – Companhia Estadual de Águas e Esgotos. A empresa, porém, devolve o problema para a Rio-Águas, da Prefeitura carioca, que cuida especificamente das chuvas que caem sobre a cidade. Esta alega que isso é assunto da Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos, chamada em burocratês castiço de Seconserva, sendo o “Se” relativo à Secretaria e não à conjunção que poria sua eficácia no condicional. Sobre o Alemão, a Seconserva desconversa. Ao ser questionado, o secretário Bittar – que desdenha como “poucas e pontuais” as obras realizadas em gestões anteriores – informa que só é possível mapear as redes de drenagem via Rio-Águas.

Quando todos achavam que o Alemão era o símbolo do descaso do Estado, descobre-se que por baixo dele havia vinte anos de obras públicas. Quase todas desencontradas, o que confere aos bandidos o mérito de serem os primeiros cidadãos a descobrir um modo útil de integrá-las. As galerias pluviais cariocas passaram em segredo por vários governos, desde o Programa de Despoluição da Baía da Guanabara, que se arrasta há quase duas décadas e já custou mais de 1 bilhão de dólares. Nele, os financiamentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da Agência Internacional de Cooperação do Japão exigiam que o Brasil fizesse sua parte na forma de redes de coleta de esgoto, galerias de águas pluviais e estações de tratamento. Afinal, de nada adiantaria limpar a baía se o esgoto in natura continuasse a mergulhar em suas águas através de rios sujos como o Faria-Timbó.

E isso incluía o Complexo do Alemão. Dele segue um tronco ligado à Estação de Tratamento de Alegria, no Caju, que viabilizará a captação de 500 litros de esgoto por segundo, anunciado por Wagner Victer, presidente da Cedae, como prioridade para a próxima etapa do PAC. É uma promessa que a cidade já se acostumou tanto a ouvir e esquecer que, ao fugir dos soldados, os traficantes do Complexo do Alemão fizeram sem querer aos cariocas o favor de recordá-la.



Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial