CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2025
O sonho e o teclado
Um cozinheiro paraibano degusta o sucesso na música
Danilo Marques | Edição 232, Janeiro 2026
Em busca de melhores condições de vida no Rio de Janeiro, Edmilson Soares de Lima deixou a Paraíba, seu estado natal, em 1994, com o irmão Francisco. Os dois foram trabalhar num sítio em Maricá, mas Edmilson não gostou. “Porra, saí da roça para morar em outra roça?”, reclamou. Decidiu tentar a sorte na capital – e arranjou um apartamento bem no Centro do Rio, próximo à Central do Brasil, região onde mora até hoje, sozinho.
Em busca de trabalho, Edmilson abriu os classificados de um jornal e viu um anúncio de ajudante de cozinha. Ele se dirigiu bem cedo ao restaurante Ponto de Encontro. “Você tem alguma experiência?”, perguntou o proprietário. Edmilson foi franco: “Só entrei em cozinha pra comer.”
Apesar da falta de experiência, ele foi contratado. Está até hoje na mesma vaga, no mesmo restaurante, onde cozinha de tudo. Seu carro-chefe é o steak de filé mignon. Ele dá a receita: “É um bife de filé mignon com queijo coalho grelhado em cima, alho frito e acompanhado de arroz – de brócolis ou ‘arroz maluco’ – e batata portuguesa ou frita.”
Na negociação com o dono do restaurante, Edmilson estabeleceu uma condição: trabalharia só de segunda à sexta-feira. Queria deixar sábados e domingos livres para se apresentar em botecos dos mais diversos bairros, tocando um gênero musical que aprecia desde pequeno, o brega.
Ele tinha entre 8 e 9 anos quando começou a arranhar algumas melodias no violão de seu irmão mais velho, Esdras, que ficou na Paraíba. Com 12 anos, já se apresentava em pequenas bandas e acabou aprendendo a tocar vários instrumentos. A música o acompanhou desde então, embora nunca tenha ganhado a vida com esse talento. Situação que agora parece estar mudando para o músico de 49 anos.
Quem passa à noite pela Rua do Senado, no Centro do Rio, na altura do Quartel Central do Corpo de Bombeiros, vê uma aglomeração em frente a um bar modesto, o Cantinho Maranhense. O interior do boteco não comporta todo o público que vai lá para beber e ouvir música e, por isso, parte da rua é invariavelmente ocupada pelas pessoas. Embora Edmilson já se apresente ali há sete anos, foi há cerca de um ano que começou um alvoroço em torno do show que ele faz nos fins de semana.
Seu público aumentou e mudou: se antes era formado por pessoas de menor poder aquisitivo e idade avançada, agora, como ele mesmo diz, é a “playboyzada” que curte seu som. “É a galera jovem que puxa meu forró”, ele define. Foi esse mesmo pessoal que colocou o Cantinho Maranhense no mapa dos locais antenados da noite carioca – com Edmilson incluído. “Eu fico feliz pra caralho com esse reconhecimento”, ele diz.
Agora, nos fins de semana, Edmilson dos Teclados faz de três a quatro shows por noite, em aniversários, restaurantes e bares, geralmente concentrados entre o Centro e a Zona Sul. “Às vezes, não tenho tempo nem para ensaiar”, diz. Devido à alta demanda, ele só consegue se apresentar uma ou duas vezes por mês no Cantinho Maranhense, o bar em que se projetou.
Seu show é o de um homem só, com um só instrumento. Edmilson solta a voz em um vasto repertório de canções bregas brasileiras e internacionais, que inclui pérolas como Me usa, da banda paraibana Magníficos, uma das mais aguardadas por seus fãs. Embora tenha mais intimidade com instrumentos de corda, ele optou por se apresentar com um teclado. “É mais prático e facilita muito o meu trabalho, em termos de locomoção e ensaio”, ele explica. Foi assim que passou a ser conhecido como… Edmilson dos Teclados.
Para a música brega, o teclado foi essencial: transformou o gênero nos anos 1980. No Maranhão, o instrumento se enraizou fortemente tanto na seresta quanto no brega, fenômeno que o historiador maranhense Bruno Azevêdo mapeou em seu livro Em ritmo de seresta, de 2014. A epígrafe do trabalho diz: “Numa banda, o teclado é só preenchimento. Na seresta, o teclado é o coração.”
O produtor e empresário Marcos Quental, de 29 anos, cuida da carreira de Edmilson dos Teclados há quatro meses e tem sido fundamental para alavancar a carreira do cantor e tecladista. Quental já trabalhou com nomes relevantes da atual cena musical carioca, como Ana Frango Elétrico e Os Garotin. Não só. É ele que está impulsionando a fama de Edmilson junto a celebridades cariocas, que o têm contratado para festas – ele cobra entre 600 e 1,2 mil reais. Só para a artista plástica Adriana Varejão, já fez três apresentações. A artista plástica o considera um grande performer. “Sozinho no palco, apenas com seu teclado, transforma qualquer lugar em festa, em ritmo dançante, fazendo todos cantarem juntos. Ele é um fenômeno”, disse Varejão à piauí.
Em novembro passado, Edmilson fez sua estreia em um festival, tocando no Rock The Mountain, evento que acontece em Itaipava, um distrito de Petrópolis. Foi a sua apresentação de maior destaque até agora. O produtor está planejando variadas ações para incrementar ainda mais a carreira do novo cliente. Tem no forno o projeto de uma turnê na Europa, que até já ganhou um título: Um teclado e um sonho. “A maior dificuldade para se apresentar hoje na Europa é justamente os custos logísticos. Mas, sendo uma pessoa só, fica mais fácil de viabilizar”, diz Quental, que também lançou um produto destinado ao merchandising do artista: uma camiseta estampada, de efeitos brilhantes e chamativos, com o rosto do tecladista.
Edmilson encara a fama recente com muita parcimônia. E não considera largar a cozinha do restaurante Ponto de Encontro, pois teme que o sucesso seja efêmero. “Pode ser uma carreira meteórica, que passa e depois some”, diz. Além disso, embora se considere melhor músico que cozinheiro, desenvolveu uma paixão pela culinária. “Eu conseguiria sobreviver tanto da música como da cozinha, mas tenho tesão mesmo é na música.”
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