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Em nome dos mares

O mercadinho holandês que abdicou das embalagens plásticas

João Perassolo
Só 9% do plástico que produzimos é reciclado. O resto acaba incinerado ou vai para os oceanos
Só 9% do plástico que produzimos é reciclado. O resto acaba incinerado ou vai para os oceanos ILUSTRAÇÃO: © PIETER VAN EENOGE

“Precisamos mudar o mundo.” É assim, sem temer o clichê, que Maria Westerbos festeja a recente inauguração de um pequeno mercado em Amsterdã. Aberto no fim de março, o Ekoplaza LAB inova por materializar uma ideia disseminada há tempos pelos defensores do meio ambiente: lá, todos os produtos são livres de embalagens plásticas. “Sabe para onde vai uma parte significativa do plástico que consumimos? Para os oceanos. Por isso, temos de evitar cada vez mais o plástico de uso unitário”, explica a holandesa de 56 anos, enquanto toma café da manhã numa padaria.

Para botar de pé a nova loja, a ativista trabalhou lado a lado com Erik Does, CEO da rede de supermercados Ekoplaza, que só comercializa orgânicos. A parceria se concretizou graças à Plastic Soup Foundation. Criada por Westerbos em 2011 e também baseada na capital da Holanda, a ONG luta para que os mares “não se transformem numa imensa sopa de dejetos plásticos”. Quinze militantes atuam na instituição cujo orçamento beirou os 745 mil euros em 2016. O dinheiro se originou de diferentes fontes, em especial doações de pessoas físicas e jurídicas.

Com apenas 60 metros quadrados, o Ekoplaza LAB ocupa o térreo de um prédio residencial em Oud-West, bairro de classe média que passa por acelerado processo de gentrificação. As gôndolas do mercadinho abrigam 682 itens – cada um devidamente etiquetado com um selo em que se lê Plastic Free [livre de plástico]. O leite e o iogurte vêm em garrafas de vidro. As verduras, meio sujas de terra, como que recém-chegadas da horta, estão em sacos de juta. E os grãos de café, em recipientes de papel (“Um modo perfeito de armazenar produtos secos”, propagandeia o aviso na prateleira). Todos esses invólucros, diga-se, são recicláveis.

Já legumes, carnes e pães aguardam os consumidores em embalagens de plástico biodegradável. O material lembra o polímero sintético tradicional, tanto pela consistência quanto por ser transparente. A diferença é que o plástico comum leva cerca de 500 anos para se decompor enquanto o bioplástico se degrada em doze semanas, caso esteja em contato com o solo. Na água, a decomposição exige um pouco mais de tempo.

Confeccionado a partir de celulose, grama, algas, cogumelos e polpa de madeira, o plástico biodegradável deve ser descartado no lixo orgânico, à semelhança dos restos de comida, ou colocado numa composteira caseira para virar adubo. “É muito mais sustentável que os derivados de combustíveis fósseis. Mesmo assim, não se trata da solução perfeita – entre outras razões, porque ainda não temos uma estrutura de compostagem ideal na Holanda”, pondera Westerbos.

Comprar no Ekoplaza LAB também significa fazer concessões. Apesar da variedade de itens à venda, o que inclui café equatoriano e 48 tipos de chocolate, a seção de laticínios é desfalcada e o freezer traz apenas duas opções de carne. Tampouco se oferecem produtos de limpeza ou higiene pessoal. As ausências decorrem do fato de que nem toda mercadoria pode ser embalada de maneira ecológica. Uma semana depois da inauguração, um dos atendentes admitiu que a loja recebia muitos curiosos, mas que boa parte deles acabava indo ao Ekoplaza vizinho – “esse, sim, um mercado completo”.

 

Filha de uma enfermeira e um engenheiro holandeses, Maria Westerbos nasceu em Wonji, na Etiópia, pequena cidade próxima à capital do país, Adis-Abeba. Ela se mudou para Amsterdã quando tinha 2 anos. “Herdei o idealismo de meus pais”, conta, entre um gole de expresso e uma mordida no sanduíche de queijo. Recém-casados, eles haviam trocado a Europa pelo país africano porque “acreditavam que poderiam ajudar a implantar o Welfare State [Estado de bem-estar social] na África”. Mas o casal se defrontou com mais obstáculos do que esperava. “As injustiças que presenciaram na Etiópia os desanimaram e os fizeram voltar.”

Para fundar a Plastic Soup, Westerbos abandonou uma carreira de 25 anos na televisão, onde produzia documentários, programas de entretenimento e shows para crianças. Em pouco tempo, conseguiu que sua ONG alcançasse reconhecimento internacional.

De acordo com a militante, em 2016, Erik Does andava interessado em diminuir as emissões de carbono na rede Ekoplaza. Seria o próximo passo ecologicamente correto de uma cadeia de 75 lojas espalhadas pela Holanda que se tornou sinônimo de vida saudável. Poucos meses antes da Olimpíada do Rio de Janeiro, o executivo tomou conhecimento das ações de Westerbos, quando leu na imprensa que a Plastic Soup tentava desenvolver um plano de despoluição na Baía da Guanabara. À época, o renomado velejador holandês Dorian van Rijsselberghe era embaixador da ONG e garoto-propaganda da Ekoplaza. Estava feita a conexão entre as partes.

 

A organização inglesa A Plastic Planet estima que, ao longo de 2018, o mundo produzirá 360 bilhões de quilos de plástico. Quarenta por cento dele será usado para a confecção de embalagens. Desses 40%, metade deverá acondicionar bebidas e alimentos vendidos nos supermercados. “É o pior tipo de plástico”, alerta Westerbos. “Os consumidores não só o utilizam uma única vez como o descartam rapidinho.”

Recentemente, a publicação norte-americana Science Advances divulgou outro dado alarmante: apenas 9% de todo o plástico fabricado na Terra é reciclado. O resto acaba incinerado quando chega aos lixões. Mas há uma parcela que, descartada à beira dos rios ou na praia, termina nos oceanos, já que o vento leva tais dejetos para as águas.

Até o final do ano, a Ekoplaza promete implantar uma seção sem embalagens plásticas em cada um de seus supermercados. “Estamos de saco cheio do plástico, e nossos consumidores também!”, proclama o site da empresa.

João Perassolo

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