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    Godard, Truffaut e Nouvelle Vague: a juventude aliada à ambição estética e à política desmesurada ILUSTRAÇÃO:CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE

questões cinematográficas

Encerramento inconclusivo

Um documentário verborrágico sobre dois jovens muito diferentes que se aliaram para mudar o cinema

Eduardo Escorel | Edição 45, Junho 2010

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Os poucos seguidores fiéis que restam identificarão com facilidade a voz off do mestre. No início de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, é o próprio Jean-Luc Godard que diz: “Com a morte de François Truffaut, Anne-Marie Miéville me disse: ‘Agora que ele morreu, você vai ficar sem proteção. Ele não te protegerá mais.’ Porque ele era o único da nouvelle vague que fora aceito, que procurou se integrar ao sistema.” A pergunta do interlocutor, feita em seguida – “Como ele te protegia?” –, fica no ar, sem resposta.

A essa magnífica abertura sonora, porém, não correspondem imagens de interesse equivalente. No primeiro plano, um homem não identificado escreve em um computador. Segue-se a capa de um exemplar da Paris Match, com chamada sobre o Festival de Cannes e “os jovens franceses favoritos”. Uma atriz, no papel de pesquisadora da nouvelle vague, folheia a revista – expediente narrativo do mais canhestros que quase anula a força da admissão de desamparo feita por Godard e que compromete o documentário, ao ser usado, repetidas vezes, como elemento de ligação.

Outro recurso inadequado é a narração, excessiva e em tom radiofônico. A entonação pode ser atribuída ao diretor Emmanuel Laurent. Já a responsabilidade pela verborragia deve ser dividida com o roteirista Antoine de Baecque, ex-diretor da revista Cahiers du Cinéma. Autor de duas monumentais biografias – a de Truffaut, escrita em colaboração com Serge Toubiana, com mais de 500 páginas; a recém-publicada de Godard, com mais de 900 –, Antoine de Baecque confia mais no texto off para conduzir a narrativa do que nas cenas dos primeiros filmes dos dois jovens turcos da nouvelle vague e nas imagens de arquivo em que há entrevistas valiosas de ambos.

 

Fora essas deficiências graves, também chama a atenção a falta de um depoimento original de Godard feito especificamente para o documentário. A exceção talvez seja o mencionado registro off da abertura, mas Emmanuel Laurent não se preocupa em esclarecer as circunstâncias em que foi gravado. Sabe-se que Godard se recusou a dar entrevista, recorrendo à velha desculpa de que o que interessa são seus filmes, não sua vida. Pretexto paradoxal, sendo ele um realizador para quem “o cinema sempre foi inseparável da sua experiência pessoal – e sua própria identidade tem sido inseparável do cinema”, segundo Richard Brody, na biografia publicada em 2008, a que deu o título de Everything is Cinema: the Working Life of Jean-Luc Godard (inédita no Brasil).

Ressalvas à parte, o interesse de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague subsiste. Voltado para a relação pessoal dos dois diretores mais influentes do movimento – Truffaut, morto precocemente aos 52 anos, em 1984; Godard, prestes a completar 80 –, trata do período que vai de meados da década de 50, quando atuavam como críticos de cinema, até a ruptura de relações pessoais, em 1973, depois do afastamento progressivo a partir de 1968, resultante, em certa medida, do esquerdismo infantil godardiano.

 

Truffaut, aos 27 anos, e Godard, aos 30, com os demais integrantes da nouvelle vague, não só iniciaram a renovação do cinema francês, mas se tornaram modelo para os jovens mundo afora. Mostraram, ou pelo menos induziram a crença, que era possível realizar o sonho de criar um novo cinema em vários países, inclusive no Brasil. O que uniu os diversos movimentos, acima das diferenças marcantes entre eles, foi a juventude dos realizadores, além da ambição estética e política desmesurada, em combinações e graus variáveis em cada caso.

 

Na primeira sequência de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, vemos o final de Os Incompreendidos, estreia de Truffaut como diretor de longa-metragem. É uma cena conhecida: correndo à beira-mar, o menino interpretado pelo estreante Jean-Pierre Léaud vira e vem em direção à câmera. No momento em que olha para a lente, a imagem congela e o enquadramento é aproximado até o close. Superposta ao rosto do personagem, surge a palavra fin (fim). Um minuto e dezenove segundos depois de o documentário começar, é o caso de se perguntar: fim de quê? Do filme de estreia de Truffaut? Difícil não pensar na declaração feita por Godard, mais de quarenta anos depois: “Quando fizemos a nouvelle vague, pensávamos que estávamos iniciando um novo tempo. Hoje, vejo que era apenas o início do fim.”

A palavra fim, logo no começo, tem o peso de uma sentença, atenuada pelo que é mostrado a seguir: os aplausos no encerramento da sessão de gala de Os Incompreendidos, no Festival de Cannes de 1959. Jean Cocteau, presidente honorário do júri, parece radiante; Jean-Pierre Léaud é carregado em triunfo, e o então crítico iconoclasta, Truffaut, transborda de felicidade, consagrado no festival que denunciara como “sem horizonte, acadêmico e corrupto”.

Ainda durante o Festival de Cannes de 1959, Truffaut e Claude Chabrol, terceiro pai fundador da nouvelle vague, avalizaram Godard junto a um produtor, o que lhe permitiu dirigir Acossado, seu primeiro longa-metragem. Com base no argumento escrito por Truffaut, o projeto original é modificado por Godard. Antes de começar a filmagem, ele escreve ao amigo: “Acho que você ficará surpreso outra vez; acho até que você não gostará desse filme.”

 

Ambiguidades desse teor, além de contradições e crises sucessivas, marcaram as carreiras e a relação pessoal de Truffaut e Godard. Mesmo sendo amigos próximos, eram muito diferentes um do outro. Não tinham a mesma origem social, nem o mesmo caráter, e seus filmes são de natureza distinta. Truffaut sempre procurou aperfeiçoar o domínio do artesanato, enquanto Godard dedicou-se permanentemente a reinventar o cinema. A união dos dois foi tática, respondendo à necessidade de se fortalecerem. Sustentada pelo amor ao cinema, e em interesses profissionais comuns, tiveram uma relação intensa. Quando romperam, a violência foi proporcional ao grande afeto que tinham um pelo outro.

 

Truffaut era generoso, Godard continua dando demonstrações de mesquinharia e insolência, parecendo acreditar sempre que tudo lhe é permitido e devido. O que não impediu Truffaut de apoiar o amigo, chegando a escrever, em 1966, que “há o cinema antes de Godard e depois de Godard”. O veredicto, vindo de um profundo conhecedor, não pode ser ignorado.

Fiel ao propósito de dinamitar a via única do cinema, tabus e leis nunca tiveram qualquer valor para Godard. Sua obra é um marco histórico, constituindo percurso de busca e radicalização ainda em processo. Gênio recluso e intratável, continua produzindo à margem do sistema dominante. Com frequência intolerável, seus filmes ocasionalmente iluminam novos caminhos. É sempre animador saber, como agora, que temos um novo Godard para assistir: o Filme Socialismo, seu mais recente projeto.

Tendo começado bem, o documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague também tem um final inspirado. A última sequência de Os Incompreendidos, mostrada no início, é repetida. E o narrador diz que nunca saberemos o que há no fundo do olhar daquele menino. É um encerramento inconclusivo, à altura do que François Truffaut e Jean-Luc Godard fizeram de melhor.

Eduardo Escorel
Eduardo Escorel

Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes

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