dossiê tortura & maus-tratos

Encontro na masmorra

As vidas paralelas de um torturador americano e um torturado iraquiano em Abu Ghraib

Anita Blasberg e Marian Blasberg
Alguns prisioneiros estão caídos nas celas, quase sem vida, traumatizados. “Odeio a América!”, gritam das celas. Um cartaz ao lado dos portões da fortaleza dizia “Bem-vindo a Oz”
Alguns prisioneiros estão caídos nas celas, quase sem vida, traumatizados. “Odeio a América!”, gritam das celas. Um cartaz ao lado dos portões da fortaleza dizia “Bem-vindo a Oz” FOTO: SCOTT NELSON_STRINGER_GETTY IMAGES

Quando perdeu a inocência aos olhos do mundo, o sargento Javal Davis estava sentado no refeitório da base militar americana montada na prisão de Abu Ghraib, e comia um prato de arroz com atum. Davis engolia mecanicamente, ignorando o que diziam os outros soldados, e olhava de vez em quando para uma tela de televisão.

Era o dia 28 de abril de 2004. Ainda havia insurgentes lançando granadas ocasionais contra sua base, perto de Bagdá, e a CNN transmitia imagens dos Estados Unidos: o campeonato de basquete da NBA, a política da Casa Branca, os negócios de Wall Street. Parecia um dia normal na Base da Vitória. Até que o refeitório, de repente, silenciou. Na tela, a figura de um homem-espantalho, com os braços abertos, a cabeça coberta com um saco de areia. A legenda dizia: “Escândalo em Abu Ghraib”. Seguiram-se outras imagens – prisioneiros com coleiras no pescoço, pilhas de corpos nus.

Alguém no refeitório aumentou o volume e Javal Davis ouviu seu nome mencionado pelo repórter. Uma foto sua, extraída de um anuário escolar, mostrava o garoto negro e forte, de sorriso largo, que ele fora na juventude. Em seguida, apareceu o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, qualificando os sete militares citados no noticiário de degenerados que cobriam os Estados Unidos de vergonha.

Catorze meses mais tarde, Javal Davis está sentado no escritório do seu advogado em Newark, em Nova Jersey. Mandara tatuar um dragão no braço e deixara crescer uma barba que parece deslocada em seu rosto jovem. Davis é incapaz de olhar diretamente para o interlocutor. Foi o primeiro dos nove soldados levados a julgamento, acusados de negligência e conspiração, com maus-tratos e humilhação sexual dos prisioneiros.

O sargento sustenta que o seu país o condenou por crimes sobre os quais ele não tinha controle. Na verdade, diz ele, quem deveria comparecer perante a Justiça são os responsáveis pela criação do sistema de tortura e maus-tratos em Abu Ghraib. Davis folheia uma pasta branca recheada de documentos sobre a sua vida. De vez em quando, separa um desses papéis – o prêmio de empregado do mês, relatórios escolares, um elogio a seu caráter feito pelo prefeito de Roselle, Nova Jersey, onde nasceu.

“Será que eu sou uma pessoa má?”, indaga.

Hajj Ali está sentado no sofá de um quarto de hotel em Amã, na Jordânia. Foi solto de Abu Ghraib em fins de 2003. É um lindo dia de verão, mas ele mantém as cortinas fechadas. Há moças de biquíni na piscina que se vê da janela. Hajj Ali estende a mão direita para um maço de cigarros, e dele tira com os lábios um Marlboro. Depois, liga o laptop e entra num sítio iraquiano, albasrah.net, que mostra as fotos de Abu Ghraib. Faz pausas ocasionais nas páginas do sítio. “Este aqui”, diz Hajj Ali, “é Abu Hudheifa, o imã, ferido a bala e estendido no corredor. E aqui, Sabrina Harman, debruçada sobre um morto da sala do chuveiro.”

Hajj Ali fala baixo e devagar. Sua voz é um pouco rouca. “Graner, aquele porco”, diz. Continua a percorrer as imagens até chegar à do homem encapuzado. Congela e amplia uma das mãos do prisioneiro da foto. “Olhe aqui”, diz ele, “a mão está com algum problema, parece ferida.” Hajj Ali diz estar convencido de ser aquele homem. Usa os lábios para extrair mais um Marlboro do maço. Acende o cigarro e conta a sua história.

No dia em que foi preso, ele usava uma camisa verde por cima da sua dishdasha, a tradicional túnica árabe. Estava a caminho do estacionamento de sua propriedade, usado por visitantes de uma mesquita dos arredores de Bagdá. Lembra o som de motores potentes atrás de si e, ao se virar, viu uma formação de Humvees que avançava na sua direção. Foi rapidamente cercado por 20 soldados de armas em riste, algemas e um capuz. Foi forçado a se deitar no chão. “Seu nome é Hajj Ali?”

Aí, tudo ficou preto.

Nascido Ali al-Shalal Abbas, e honrado com o título de “Hajj” Ali desde que, alguns anos antes, fizera a peregrinação a Meca, o prisioneiro ficou deitado no fundo da camionete. Tentava se manter calmo. Era um homem respeitado em Al Madifai, bairro de Abu Ghraib, cidade com 300 mil habitantes não muito longe de Bagdá. Até a chegada dos americanos, ele era um líder local, um mukhtar – uma espécie de representante comunitário junto às autoridades.

Hajj Ali não sabe dizer quanto tempo demorou a viagem de Humvee. Só sentia o cheiro de gasolina, os solavancos das estradas esburacadas e a dor na mão esquerda, que diz ter ferido num casamento, dando tiros para o alto com o fuzil do pai. O pente de balas tinha explodido, cortando os tendões e mutilando as pontas de dois dedos. O ferimento era recente.

Em algum momento, os soldados o empurraram para fora da camionete e o acorrentaram a uma cerca. Lembra ter ouvido vozes iraquianas no escuro. Hajj Ali perguntou: “Onde estamos?”

“Acho que em Abu Ghraib”, respondeu uma voz.

Quando o sargento Javal Davis, da Military Police (o equivalente americano da Polícia do Exército), atravessou pela primeira vez os portões da fortaleza de Abu Ghraib, no início de outubro de 2003, pouco antes da detenção de Hajj Ali, deparou com o cheiro adocicado e enjoativo de matéria podre. Havia destroços e restos por toda parte: cadáveres de ratos e cães, partes de corpos humanos roídas por animais em meio a uma pilha de lixo. Um cartaz ao lado dos portões da fortaleza dizia “Bem-vindo a Oz”.

Havia 4 mil prisioneiros abrigados nos imundos prédios de concreto, construídos nos anos 60 para servir de centro de tortura na era Saddam Hussein. Outros 6 mil prisioneiros estavam amontoados em acampamentos externos. No total, uma área de 700 mil metros quadrados, guardada por 170 americanos, cercada de muros altos e 24 torres de vigilância.

Informado de que vários prisioneiros têm feridas abertas de tuberculose, hepatite e HIV, Davis foi instruído a usar máscara em alguns corredores da prisão. Numa das salas, viu um cadafalso, um triturador para os corpos e o antigo crematório da era Saddam. No local, ainda se vêem cinzas espalhadas pelo chão.

O sargento Davis gostava de trabalhar no exército americano. Fez parte das forças de paz das Nações Unidas na Bósnia. Viu as sepulturas coletivas, as viúvas, os órfãos e os aleijados, e chegou à conclusão de que os Estados Unidos são os paladinos mundiais do Bem.

No dia seguinte à sua chegada à prisão, Hajj Ali estava de pé, no meio de uma sala fortemente iluminada. A sala fedia a urina. Havia três homens sentados atrás de uma mesa, e o mais velho foi quem fez as perguntas. Sua conversa, como recapitula o prisioneiro, foi mais ou menos assim:

“Quer dizer então que você é terrorista. Onde está Saddam Hussein? E Osama bin Laden? Já esteve com ele? Sabemos que você é conhecido na sua cidade, que conhece muita gente. Você sabe quem são os insurgentes. Conte o que eles estão planejando. Ou você quer que deixemos a sua mão apodrecer?”

Não muito longe do antigo crematório, o sargento Javal Davis e outros oito colegas de farda foram alojados numa cela. Ela era pequena, lembrava um caixão, de cerca de 10 metros quadrados. Janela e portas sumiram. Havia sangue seco nas paredes e água imunda espalhada pelo piso. A primeira coisa que Davis faz é uma faxina. Começa esfregando o piso e as paredes, e depois prega tábuas nas aberturas da janela e da porta. Davis é um homem metódico. Pretende se tornar oficial daqui a vinte anos. Não fuma nem bebe. Ainda é o detentor do recorde dos 110 metros com barreiras, na escola onde cursou o secundário.

Quando partiu para o Iraque, em maio de 2003, acreditava que caçaria terroristas e desenterraria armas nucleares. No início, foi enviado para Hillah, na província de Babilônia, um lugar tranqüilo e silencioso. Sua unidade, a 372ª Companhia, composta de 180 reservistas, treinava policiais iraquianos. No prazo de alguns meses, Davis entregou 4 mil diplomas. Os iraquianos o encaravam com respeito.

Na sua primeira noite em Abu Ghraib, Davis fica estendido no catre, com a sua Bíblia, uma pistola de 9 mm, e fotos de família no chão, ao alcance da mão. Ouve o som de tiros e prisioneiros gritando ou rezando. Eles rezam dia e noite, o tempo todo. Xiítas e sunitas rezam juntos.

Hajj Ali está sentado dentro de uma barraca de 12 metros de comprimento, com outros cinqüenta homens, numa área da prisão conhecida como Camp Vigilant. Quando fazem suas preces, os prisioneiros se agacham muito perto uns dos outros, murmurando os versos com as gargantas secas. Os cinqüenta homens de cada barraca recebem um total de 60 litros de água por dia, o suficiente para beber, mas não para as abluções rituais. Recebem as refeições – geralmente arroz – logo após o raiar do sol. Mas, dado que durante a semana sagrada do Ramadan os muçulmanos não podem comer depois da alvorada, Hajj Ali se recusa a quebrar o jejum.

Três conhecidos seus do bairro de Al Madifai lhe contam por que estão ali. Um diz ter sido trazido para Abu Ghraib porque tentou evitar que um soldado americano destruísse uma calçada com o seu tanque. Outro conta que foi preso no lugar do seu vizinho. O terceiro diz que foi acusado de ser palestino.

Hajj Ali percebe que irá passar muito tempo ali. Todo dia um guarda vem até a barraca e pergunta se o prisioneiro número 151 716 está disposto a falar. Hajj Ali não responde.

Na manhã do décimo dia, os guardas o pegam, cobrem sua cabeça com um capuz e o enfiam num carro. Ele é levado a um prédio onde sente frio e os sons dos passos ecoam nos corredores. Mandam que tire a roupa.

“Continue! A cueca também!”

Arrancam a sua cueca. Hajj Ali treme de medo, as suas mãos e pés são amarrados e seis ou sete soldados o empurram. Um deles ordena que suba as escadas. Hajj Ali cai, arrasta-se e se debate, a mão ferida lateja de dor. Um intérprete o manda latir. Hajj Ali obedece. Depois de alguns passos, começam a açoitá-lo e a dar-lhe pontapés, gritando “Mais depressa!” Alguém lhe arranca o capuz, o agarra pelos cabelos e o arrasta escada acima. Hajj Ali levanta os olhos e vê um homem segurando um megafone no patamar. Parece atlético e agressivo.

A etiqueta no peito do homem diz: “Davis, MP”.

No alto da escada, tornam a enfiar-lhe o capuz, encostam-no contra as grades e amarram as suas mãos bem no alto, acima da cabeça, forçando-o a ficar na ponta dos pés. Hajj Ali enregela de frio, e se pergunta o que podem querer com ele. O guarda com o megafone, provavelmente Davis, volta de tempos em tempos e murmura no seu ouvido: “Que arma você usava para atirar em nós? Um Kalashnikov? Um AK-47?”

De pé, Hajj Ali é preso às grades, por um dia e uma noite. Toda vez que perde a consciência, e os seus tornozelos cedem, atiram-lhe um balde de água gelada para acordá-lo. Em algum momento, ele pergunta ao negro com o megafone se pode ir ao banheiro. O guarda recusa. Mais tarde, urina nos próprios pés.

“E então, como vai ser?”, pergunta-lhe uma voz suave, um pouco depois, “agora vai falar?”

Hajj Ali já parou de pensar e de sentir. Finalmente, os guardas o levam para uma cela. Dizem-lhe que já sofreu bastante, que agora precisa descansar e ouvir música. Amarram-no ao chão, acomodam um megafone junto ao seu ouvido e passam a tocar a balada “Rivers of Babylon” – dez vezes, vinte vezes, pela noite adentro. O som é de explodir o crânio.

Quando Javal Davis conecta o megafone a um pequeno toca-CD, geralmente escolhe um disco do Metallica. E depois aperta o botão “repeat”. Caso o prisioneiro goste do Metallica, ele escolhe música country – ela é sempre tiro e queda.

Davis passou a última semana trabalhando no bloco de celas 1 A/B, a ala de segurança máxima de Abu Ghraib. As celas parecem jaulas, e os prisioneiros ali encolhidos parecem animais assustados. São suspeitos de terrorismo e de insurgência, imãs, políticos importantes e generais. Davis reconhece alguns rostos do baralho de cartas que recebeu do exército com os 52 homens mais procurados pelos Estados Unidos.

Alguns prisioneiros estão nus, as cabeças cobertas por sacos. Outros estão acorrentados em posições que os obrigam a ficar de pé horas a fio, ou se acocoram, atulhados em masmorras escuras, sem privadas. O fedor na ala é pior do que numa estação de tratamento de esgoto.

“Que diabo está acontecendo aqui?”, pergunta Davis ao seu major, mas o oficial se limita a dar de ombros e responder que ele devia perguntar ao pessoal da inteligência militar. “Você é grande, meta medo neles, seja mau”, responde o oficial da área de informações – comandante da ala de segurança máxima. “Faça com que eles tenham uma noite péssima, para ver se amolecem. Grite no ouvido deles com o megafone.” Mas qual é a idéia? “Precisamos de informações. Estão matando os nossos soldados o tempo todo. Pode acreditar, se eles pudessem, cortariam a sua cabeça.”

Davis não é carcereiro. É suboficial da Military Police. Se há uma coisa que aprendeu nos seus sete anos de serviço militar, é que uma ordem é uma ordem. Entrou para o exército aos 19 anos. Um comandante de tanques abordou-o na escola secundária e o convidou a tentar a carreira militar. Parecia animador: ele usaria uniforme, portaria uma pistola de 9mm, dirigiria um Humvee e correria o mundo.

O turno de Davis começa às 4 da manhã. Ele conta os prisioneiros três vezes, depois consulta o livro de anotações no fim do corredor. Cela 25: nada de comida. Cela 30: nada de sono. Cela 40: quatro horas de rádio.

O Javal Davis que só queria servir ao seu país, que idolatra Bill Clinton, que fez discursos no colégio contra o preconceito racial, agora patrulha os corredores da prisão, munido de um megafone, berrando “Acorde!” Força os prisioneiros a tirarem a roupa, despeja água gelada em seus corpos e os conduz para o chuveiro, um antigo banheiro coletivo usado como sala de interrogatório.

Talvez seja um teste, pensa Davis. Talvez seja o que Deus quer que ele faça: obedecer a todas as ordens, sem hesitar.

Alguns prisioneiros estão caídos nas celas, quase sem vida, traumatizados, entregues ao desespero. Outros jogam lixo, restos de comida e fezes em Davis. “Odeio a América!”, gritam das celas. “Babaca”, berra um outro, o tempo todo, “Saddam vai foder com vocês!”

Davis sabe que muitos dos prisioneiros estudaram nos Estados Unidos, e que são inteligentes – têm mais estudo do que a maioria dos carcereiros. Como seus nomes árabes são muito complicados, os carcereiros lhes dão apelidos: Maneta, o gordo da mão ferida; Cagão, de quem Davis gosta porque imita tudo o que ele diz; Sapo, que mais adiante tem o nome trocado para Pistoleiro quando tenta atirar num guarda; e Pequeno Polegar, um leal partidário de Saddam, bem-educado e sempre pronto a cooperar.

Davis tem dificuldade para diferenciar a culpa da inocência. Esses homens são terroristas, assassinos, autores de atentados a bomba. Por que outro motivo estariam ali? Mas também sabe que andaram prendendo irmãos e primos dos suspeitos. Sem falar nas crianças, com quem joga futebol nos corredores.

Durante as folgas, ele fica sentado numa cadeira na ponta do corredor e come os biscoitos que a mãe lhe manda, sempre com pedacinhos de chocolate. Em seguida, ele reza. Davis acredita no Juízo Final. Quer estar do lado certo quando chegar a hora.

Hajj Ali está acocorado na cela 49, na diagonal da sala do chuveiro, no fim do corredor. Faz dias que não come. Faz dias que está nu. Ele usou uma meia como atadura para proteger a mão esquerda latejante.

Um imã sírio vem todo dia à sua cela para coletar as embalagens do almoço empacotado. Às vezes, tira comprimidos da manga, comprimidos que encontrou no lixo, e Hajj Ali os engole, engole todos os comprimidos que lhe caem nas mãos, mas nada consegue atenuar a dor.

A todo momento, um novo intérprete aparece na porta da cela, perguntando se ele está finalmente pronto para falar, e, a cada vez, ele os manda embora, e volta a ser surrado. Alguns dias, ele passa oito horas rezando. Às vezes, ele sonha acordado, e imagina que está andando pelo seu bairro. Imagina andar pela rua em frente à sua casa, até o campo de futebol à beira do rio – um campo que foi a maior obra da sua vida.

Quando seus antepassados se instalaram ali, Abu Ghraib era pouco mais do que uma parada na rota entre Bagdá e Amã. O solo era fértil, e sua família vivia dos campos, cultivando um lote de 25 donum (cerca de seis hectares), cuidando de plantações de tamareiras. Hajj Ali era o mais novo de oito irmãos.

Sempre que voltava da escola, vendia frutos, legumes e cereais, no mercado em Bagdá. Os negócios andaram bem até o começo da primeira guerra do Golfo, em 1991, seguida do embargo, quando os lucros secaram. Hajj Ali buscou conforto na mesquita e passou a estudar a lei islâmica. Fez a peregrinação a Meca. Quando o pai morreu, os chefes tribais lhe pediram que o substituísse como líder local. Assim foi.

Certo dia, deparou com um terreno baldio, pedregoso e irregular, junto ao rio. Aplainou a superfície, construiu dois gols e plantou grama. Todo dia, Hajj Ali regava o campo e traçava as linhas com pó de cal. Ao cabo de duas semanas, dividiu seu bairro em quatro distritos, e no verão, antes da guerra, a liga de futebol de Al Madifai começou a promover suas primeiras partidas.

“Maneta, que tipo de arma você usava para atirar em nós? Um Kalashnikov? Um RPG-7? Está pronto para contar tudo agora?”

Volta e meia, os guardas o arrastavam para fora da cela, trancavam-no na sala do chuveiro e o obrigavam a ficar acocorado ali, por horas a fio. Os dias eram cheios de interrogatórios que não levavam a nada. No final, eles sempre jogavam um balde de água imunda em cima de Hajj Ali. Chamavam o processo de “chuveirada”.

As piores noites são as que Charles Graner está de plantão. Ele chega assobiando no corredor do pavilhão. Às vezes, se finge de garçom, com um pano branco dobrado no braço. Carrega uma bandeja cheia de massa quente. Graner serve cada prisioneiro. Toda vez que um deles recusa a comida, seja por estar de jejum seja por acreditar que a comida pode estar envenenada, Graner ri alto e tira uma foto.

Hajj Ali não sabia que celulares tiravam fotos. Estranho, pensava, por que os americanos seguram os telefones com os braços esticados? Certa noite, quando a dor na mão apertou, ele chamou Graner. Através de um companheiro de cela, que falava um pouco de inglês, pediu um remédio contra dor. “Enfie a mão pelas grades”, disse-lhe Graner. Hajj Ali estendeu a mão, e Graner lhe arrancou a meia ensopada de sangue. Pedaços da carne de Ali, grudados à meia, foram arrancados junto. Graner sorriu e perguntou: “Melhorou a dor, Maneta?”

O americano Davis ficou aliviado quando, na sua segunda semana em Abu Ghraib, foi deslocado para a ala 3 A/B. Trata-se de uma área que abrigava 400 prisioneiros, oito em cada cela – estupradores, autores de pequenos furtos, seqüestradores. Depois da ala de segurança máxima, o trabalho, ali, lhe parece quase tão ameno quanto tomar conta de um jardim-de-infância. Mas Charles Graner continua a mandar que Davis volte para cumprir turnos de trabalho extra na ala de segurança máxima.

Graner, que fora carcereiro em Maryland, passou recentemente a sorrir com mais freqüência. O pessoal da área de informações o nomeou encarregado da seção dos terroristas.

Depois de uma visita do general Geoffrey Miller, comandante-em-chefe da base de Guantánamo, um número cada vez maior de investigadores, analistas e intérpretes começa a chegar a Abu Ghraib. Eles vêm com seus cães. A partir de então, quem manda são eles. Não usam identificação no uniforme, e tratam-se uns aos outros por codinomes, como DJ, John Israel, James Bond. A pressão sobre os prisioneiros aumenta. É fim de outubro de 2003, Saddam ainda está à solta, e há americanos morrendo todos os dias.

Noite após noite, Davis recebe ordens de trazer prisioneiros ao chuveiro, para interrogatórios. Os oficiais de informação trancam a porta, e Davis, do lado de fora, ouve gritos e preces ocasionais. Os prisioneiros parecem gratos quando ele os conduz de volta às suas celas. Davis trabalha 14 horas por dia, das 4 da manhã às 6 da tarde, sete dias por semana. Quando seu turno acaba, desaba na cama ainda de uniforme, o cheiro de decomposição impregnado nas narinas.

A exaustão mina a força dos seus membros, os dias se sucedem sem fim à vista e, às vezes, ele capta de relance, na televisão, alguma imagem do país natal. Quando vê O exterminador do futuro 3, ou algum jogo dos New York Mets, pensa em seu filho Zaniel, na filha Latrice ou na mulher, Zeenethia. Ele ainda estava na escola secundária quando a viu pela primeira vez, num banco da igreja, com os cabelos trançados, o olhar orgulhoso. Davis sentou-se ao lado dela e os dois conversaram. Naquela noite, ele a acompanhou até em casa, e ela lhe deu um beijo de boa-noite.

Davis, que já tivera uma filha, morava na época com o avô, batista devoto, e freqüentava a igreja todo domingo. Era popular no seu coral, na escola, na equipe de atletismo.

Seu pai tinha apenas 16 anos quando Davis foi gerado – o que não era incomum em Roselle, cidade de 21 mil habitantes, na maioria negros. A maior parte dos moradores trabalhava nas usinas siderúrgicas, e quase todos usavam seus salários na construção da casa própria. Os bairros resultantes, com as calçadas bem-acabadas e a bandeira americana à frente dos pórticos, não eram diferentes de tantos outros bairros de pequenas cidades americanas.

Tanto Davis quanto Zeenethia tinham 19 anos quando se mudaram para o estado de Maryland, onde fizeram a faculdade e entraram para as Forças de Reserva. Parecia fácil: apenas dezesseis semanas de treinamento básico, uma ou outra manobra militar, mudanças de endereço. Casaram-se e Davis conseguiu um segundo emprego. Vendia furadeiras profissionais. Virou o maior vendedor da empresa e o casal passou a sonhar com uma BMW, uma boa casa, férias na Europa.

Os nove meses que passou na Bósnia deram a Javal Davis o direito a ficar meio ano em casa antes de ser transferido para o Iraque. Sua ausência causara problemas para o casamento. Zaniel está indo bem, diz-lhe Zeenethia ao telefone, já aprendeu a ir ao banheiro sozinho. Ela fala do novo carro, do cachorro.

Não se preocupe, mente Davis, estou bem.

Hajj Ali ouve um sussurro no corredor, seguido de passos silenciosos. Os prisioneiros sempre sussurram quando Sabrina Harman passa pelo corredor, sozinha, tarde da noite. Harman, perto dos 25 anos de idade, é a única que dá a Hajj Ali a impressão de lamentar tudo que acontece ali. Certa vez, nos seus primeiros dias na prisão, ele rezava ajoelhado no chão da cela, quando a soldado se postou diante das grades. Aguardou o final da prece para perguntar se estava tudo bem.

Hajj Ali pede a Abu Omar, o prisioneiro da cela ao lado que fala um pouco de inglês, para dizer a Sabrina que gostaria de falar com ela. A militar americana se aproxima das grades, olha em silêncio para Hajj Ali e examina seu corpo.

“Moça, por que precisamos ficar nus o tempo todo?”

“Só posso dizer que temos as nossas ordens. O pessoal de lá nos diz quem pode receber um cobertor e quem não deve receber nada”, responde ela.

Javal Davis se sente mais inquieto a cada dia, mais agressivo, mais impotente. Permanece sentado na cama, quando normalmente calçaria o tênis, iria até o bosque mais próximo de sua casa americana e daria uma corrida. É o início de novembro, e a base militar a cada dia é mais alvejada pelo fogo inimigo. Há mortos e feridos no chão enlameado dos pavilhões da prisão, a doença se espalha, centenas passam fome e os prisioneiros se revoltam contra a comida que lhes é servida. Os reforços pedidos ainda não chegaram, e os guardas iraquianos que ajudam na segurança de Abu Ghraib permitem o contrabando de armas para dentro do acampamento. É só uma questão de tempo, pensa Davis, até os prisioneiros tomarem conta do presídio. Se fossem um pouco mais espertos, não teríamos a menor chance contra eles.

Não existem bosques em Abu Ghraib. Davis se exercita no chão de concreto do alojamento, fazendo abdominais para acelerar o pulso e estimular os pulmões.

Os americanos começaram a amontoar os prisioneiros – pilhas de homens nus de capuz – e a arrastá-los pelos corredores, presos a coleiras de cachorro. Hajj Ali fica de pé junto às grades da sua cela, e o que se vê dali é quase mais intolerável do que o tratamento que vem recebendo.

Lembra do rapaz de pé no corredor em frente à sua cela, que implora aos guardas que o levem até o banheiro. Os guardas vendam os olhos do jovem, levam-no para andar em círculo e vão buscar seu pai. Obrigam o pai a se estender aos pés do filho e dizem ao rapaz: “Pronto, você está diante da privada”.

Quando a guerra começou a afetar o seu distrito, Hajj Ali decidiu tomar uma atitude. Em março de 2003, Al Madifai foi praticamente abandonada. Os jovens foram lutar na frente de batalha e os velhos, mulheres e crianças fugiram para o interior. Mas Hajj Ali era mukhtar, não podia simplesmente ir embora. Reuniu os homens que restavam e formou uma milícia de 200 combatentes – camponeses, mecânicos, líderes tribais, veteranos inválidos – alguns dos quais se apresentaram trazendo espadas velhas e fuzis.

Construíram barricadas nas estradas de acesso à cidade, postaram guardas no laticínio e por trás das barrancas do rio – e ficaram à espera. Foi quando 28 mísseis Cruise atingiram a cidade, um enxame de helicópteros Apache apareceu do nada e tanques começaram a se aproximar ao longe. A milícia foi rapidamente dissolvida. Era o início de abril de 2003, e a guerra tinha acabado em Al Madifai. Durara menos de uma hora.

A cidade foi reduzida a ruínas. Os americanos tomaram conta da administração, saqueadores pilharam as fábricas e, com medo de levar um tiro, ninguém se atrevia a caminhar pelas plantações de tamareiras. Os moradores foram procurar Hajj Ali em sua casa. Queriam saber o que aconteceria em seguida. Queriam fazer alguma coisa.

Alguns patriarcas das famílias pensaram em instalar uma escola em algum edifício abandonado, de modo que pelo menos as crianças ficassem fora das ruas. Hajj Ali foi ao acampamento americano conversar com o capitão Lauri, comandante do distrito militar. Lauri aprovou o plano e chegou a ceder três armas ao grupo, para que pudessem proteger o estabelecimento. Pouco antes do começo das aulas, os soldados prenderam um professor porque estava armazenando armas no porão.

Aos poucos, a atmosfera em Al Madifai mudou. Os americanos criaram um sistema de recompensas para informações sobre terroristas, e o sistema floresceu. Ninguém mais estava seguro em Al Madifai. Qualquer um podia ser preso a qualquer momento. Hajj Ali tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, seria preso.

Hajj Ali está acocorado num canto da cela. Poucos dias atrás, a título de cobertor, lhe deram um pedaço de tecido preto com franjas, que ele amarrou e transformou em capa. Sua dificuldade para dormir é permanente. O chão é duro e úmido. A cela nunca está totalmente escura.

“Acordem! Acordem!” Quando Javal Davis caminha pelos corredores com o seu megafone, tudo que vê são criaturas meio enlouquecidas pela raiva e pela fome, gente sem mais nada a perder, tão imprevisível quanto cães encurralados, capazes de qualquer coisa se você tirar os olhos deles por um instante que seja.

Do lado de fora, carros-bomba explodem a cada dia e os americanos se perdem pelas ruas, são seqüestrados, decapitados, têm seus corpos pendurados em pontes. Centenas de soldados são mortos em questão de poucas semanas, e os ataques ficam mais próximos a cada dia. Os prisioneiros de Abu Ghraib detonam explosivos de fabricação caseira. Um dos bons amigos de Davis é ferido, outro é morto por uma chuva de balas.

São piores do que baratas, pensa Davis.

A ala de segurança máxima está superlotada. Mais e mais insurgentes são trazidos diariamente, e a maioria deles passa o tempo todo nus. “Prepare essa gente para o inferno na terra”, recomendam os homens da informação. “Eles não merecem coisa melhor.”

Os agentes de informação dão tapinhas nas costas do sargento Davis: “Bom trabalho, cara, você está salvando vidas. Assim eles quebram mais depressa”.

Davis vê os tampos rachados das mesas depois dos interrogatórios, vê os agentes entrando com cães sem focinheira. Quando conduz os prisioneiros de volta às suas celas, muitas vezes eles sangram, ou estão semi-inconscientes. Um dia, viu um cadáver na sala do chuveiro.

No dia 8 de novembro de 2003, Javal Davis escuta tiros e gritos do lado de fora. O sargento está de serviço e lhe dizem que está havendo um motim. Os prisioneiros de Camp Ganci conseguiram armas e estão atirando nos guardas, arrancando os mastros das barracas e usando pedras e destroços como armas. Quando uma soldado é ferida no rosto, o resto dos soldados perde totalmente o controle. Como são setenta contra centenas, eles simplesmente abrem fogo contra a massa dos prisioneiros.

É quase meia-noite. Davis está furioso quando trazem os sete líderes do levante para a ala 1 A/B. Os iraquianos têm as cabeças cobertas por sacos e as mãos amarradas. Os soldados os arrastam para o corredor e os cercam. Graner faz parte do grupo, assim como o segundo-sargento Ivan Frederick. Graner começa a agredir os prisioneiros, arremessando-os contra a parede até caírem no chão. Quando param de se mexer, ele os amontoa como se fossem animais mortos. Davis está fora de si. Vai até o fim do corredor, toma distância, corre e joga seus 100 quilos sobre a pilha de corpos. Ele os ouve gemer e gritar de dor, escuta as suas queixas por baixo dos capuzes. Em seguida, torna a tomar distância, pula em cima da pilha, corre de novo, volta a pular em cima da pilha. Lynndie England, outra soldado da Military Police que acabara de entrar para o grupo, sobe na pilha – e ambos começam a pular em cima dos corpos como se fossem um monte de lixo, e não pés, mãos e troncos humanos.

Hajj Ali, de pé na sua cela, assiste à cena até aparecer um sargento e gritar: “Parem imediatamente com isso!” Ele vê o grupo desamarrando os prisioneiros e mandando que tirassem a roupa, vê os guardas amontoando-os em pirâmides, erguendo os polegares, rindo e posando para fotografias.

Ele vê quando Ivan Frederick traça uma cruz no peito de um prisioneiro com a ponta do dedo, e em seguida o espanca até deixá-lo desacordado, assiste enquanto Frederick tira o capuz de outro homem, mostra a ele como se masturbar, depois manda que se masturbe, e força outro prisioneiro a se ajoelhar na frente dele, com a boca aberta.

Javal Davis está agitado quando volta para o seu canto naquela noite. Escova os dentes, toma um chuveiro, lava o uniforme com mais capricho que de costume e vai dormir.

Às 5 da manhã, Davis pega a Bíblia que guarda ao lado da cama. Folheia o livro, os Salmos, depois o Livro de Jó, a história do homem que tinha filhos, filhas, esposa, e que foi despojado de tudo que possuía pelo Diabo. Jó se recusa a trair a sua fé mesmo nos momentos de grande dor, aceita o seu destino e se entrega totalmente a Deus.

“Hajj, seu número!”

“Um-cinco-um-sete-um-seis.”

“Muito bem. Interrogatório.”

Pela primeira vez desde que foi trazido para aquela ala, Hajj Ali fica realmente assustado. As coisas pioraram nas últimas semanas, depois da revolta, e mais ainda desde a noite em que Abu Hudheifa, o imã sírio, atirou num guarda com uma pistola que conseguiu contrabandear para dentro da prisão.

O guarda abriu fogo de volta, cinco tiros, e em seguida revistaram todas as celas, espancando Hajj Ali enquanto, no corredor, o imã sangrava até morrer. Hajj Ali teve a sensação de que não estavam procurando apenas armas escondidas. Procuravam maneiras de retaliar.

Um dos guardas arranca seu capuz e aponta para um emaranhado de fios pendentes do teto, fios vermelhos e azuis, com anéis de cobre presos às pontas. Depois, o arrasta para alguns passos mais perto da parede, onde há um caixote no chão, o tipo de caixote de papelão que, às vezes, Hajj Ali foi obrigado a carregar cheio de comida. Finalmente, o guarda retira suas algemas e prende os anéis de cobre aos seus dedos. Volta a botar-lhe o capuz, e alguém diz: “Agora você precisa subir no caixote, e fique em cima dele. Se descer, vai levar um choque”.

Hajj Ali sobe no caixote, apalpando-o cuidadosamente com os pés. Em cima dele, abre os braços para se equilibrar. Começa então a balançar os braços, oscila, e sente o caixote ceder sob o peso do seu corpo. Silêncio na sala.
“Maneta, se você quiser falar, é melhor falar agora.”

Ele fica de pé um minuto, dois minutos, três minutos. Não diz nada. Através do capuz, vê então o clarão dos flashes de câmeras fotográficas. De repente, sente o golpe da corrente elétrica passando pelas suas veias, e é como se os seus olhos estivessem sendo arrancados das órbitas. Os dentes cerrados rangem, tudo treme e sacode, e ele cai em cima da mão esquerda, a mão ferida. Hajj Ali fica deitado no chão e, quase inconsciente, ouve risos. Alguém lhe toma o pulso e diz: “Ele está bem. Podem continuar”.

Quando volta a ficar de pé em cima do caixote, Hajj Ali deseja, pela primeira vez na vida, que tivesse morrido. Dessa vez, ele cai do lado direito.

Javal Davis não acredita mais em sobrevivência. Está sentado bem ereto numa das torres de vigia, o dedo perto do gatilho de seu fuzil MG-249. É dezembro. Os acampamentos de prisioneiros ficam abaixo da torre e franco-atiradores se escondem nas sombras do lado de fora dos muros. Davis não consegue vê-los, mas ouve o som intermitente de tiros na noite.

O americano sente muito frio. Está no alto da torre há catorze horas e se esforça para ficar de olhos abertos. Está prestando serviço de sentinela porque andam dizendo que o sargento Davis só sabe gritar com os prisioneiros, e que está a ponto de perder totalmente o controle. Davis contempla a escuridão, cochilando de tempos em tempos, sabendo perfeitamente que os franco-atiradores adorariam conseguir acertá-lo.

Hajj Ali está sentado na carroceria de um caminhão, a cabeça coberta por um capuz, cercado por outros prisioneiros. É fim de dezembro, três semanas depois dos choques elétricos. Faz dois meses e meio que está encarcerado em Abu Ghraib.

Repetiram os choques mais duas vezes. Ao cabo de alguns dias, um sargento chamado Joyner, acompanhado por um investigador, veio até a sua cela, com um caderno na mão. Passaram algum tempo ali, e lhe ofereceram um cigarro. E então Abu Omar, o intérprete improvisado de Hajj Ali, ouviu o investigador dizer que 151 716 era inocente, ordenando a Joyner que tomasse nota.

Um pouco mais tarde, vestiram-lhe um macacão laranja e o trouxeram de volta para o acampamento. Hajj Ali vomitou quando viu o sol.

O caminhão acelera. Já devem estar fora do acampamento, pensa ele. Há quarenta pessoas apinhadas na carroceria, e ele sente o homem ao seu lado tocar a sua mão. “Olá”, sussurra o homem, “você é Hajj Ali?” “Sou. Aonde estão nos levando?” “Para casa”, diz o desconhecido. “Ouvi dizer que estão nos levando para casa.”

No final de abril de 2004, pouco depois de ter visto a sua foto no noticiário da televisão, Javal Davis foi preso. Pouco depois, ao desembarcar nos Estados Unidos, os jornais já o chamavam de criminoso de guerra. Um psicólogo pronunciou o diagnóstico de trauma. Davis mal comia, caminhava quilômetros e quilômetros à espera do julgamento. Os Estados Unidos da América versus Javal Davis, um rapaz de Nova Jersey.

No julgamento, num tribunal militar de Fort Hood, no Texas, em fevereiro de 2005, ele declarou, aos prantos, que aquele era um mundo estranho, que o tinha deixado louco. Disse que, quando tinha pulado em cima daquela pilha de corpos, não tinha qualquer intenção de ferir ninguém, só de assustá-los.

A defesa convocou vinte testemunhas. “Meu filho”, disse a mãe de Davis, “é um homem bom. Sinto muito orgulho dele.”

“Ele era humilde, calado e sempre prestativo”, declarou Chris Satterfield, seu antigo treinador de futebol. “Não acredito que Javal seja culpado. Só estava no lugar errado, na hora errada.”

“Não havia supervisão, nem treinamento, nem estrutura de comando clara”, explicou o major David DiNenna. “Reinava o caos no acampamento, que era uma terra sem lei.”

“O comportamento de Javal Davis foi completamente normal nas circunstâncias”, afirmou o doutor Ervin Staub, psicólogo da Universidade de Massachusetts. “Ele simplesmente seguiu os demais.”

“Davis é pai, um homem que não se furtou a assumir suas responsabilidades. Pedimos justiça. Quando alguém é obrigado a viver como um animal, alguma coisa se parte dentro dessa pessoa”, afirmou seu advogado, Paul Bergrin.

Os juízes condenaram Davis a seis meses de prisão, por agressão física, e o dispensaram do exército com desonra – uma sentença branda.

Javal Davis mudou-se de volta para Roselle, separou-se da mulher, tem dificuldades para dormir. Vive calado, perdido nas suas memórias. Um dia, diz, vai escrever sobre isso tudo.

Pouco depois de ser solto da prisão de Abu Ghraib, Hajj Ali foi tratado por um psicólogo, que lhe receitou sedativos para dormir e outras drogas para estimular o apetite.

No passado, diz ele, acreditava que o perdão é sempre melhor do que a vingança, mas agora se sente cheio de um ódio do qual não consegue se livrar. “Como é possível”, pergunta ele, “agora que as vítimas estão sendo convocadas como testemunhas, que ninguém queira ouvir a sua versão da história? Como é possível que alguém como Davis só seja condenado a seis meses de prisão?”

Em maio de 2004, Hajj Ali decidiu tirar vantagem da sua notoriedade. Fundou a Associação das Vítimas das Prisões da Ocupação Americana, que tem a sede na sua casa e conta com mais de 40 mil membros. É ali que recolhem as narrativas das vítimas e as reúnem em dossiês para divulgação nos jornais. Querem justiça.

A Associação abriu um processo num tribunal cível americano contra as empresas particulares de segurança responsáveis pelos interrogatórios em Abu Ghraib. São companhias como a Titan e a CACI, que teriam desempenhado um papel central na tortura.

Recentemente, Hajj Ali recebeu uma carta das forças de ocupação, pedindo-lhe que retomasse as funções de representante da comunidade. Prometeram-lhe um carro e um salário digno. Recusou a proposta. É cedo demais para perdoar.

Anita Blasberg

Marian Blasberg

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