dossiê tortura & maus-tratos

A América de Jack Bauer bate sem dó nem piedade

No seriado 24 Horas a tortura dá mais resultado do que no Iraque

Jane Mayer
Antes do 11 de setembro, menos de quatro cenas de tortura apareciam por ano no horário nobre. Hoje, são mais de cem. Para o ator Kiefer Sutherland, <i>24 horas</i> “não passa de entretenimento”
Antes do 11 de setembro, menos de quatro cenas de tortura apareciam por ano no horário nobre. Hoje, são mais de cem. Para o ator Kiefer Sutherland, 24 horas “não passa de entretenimento” FOTO: FOX LATIN AMERICAN CHANNELS

A mesa do escritório de Joel Surnow – co-criador e produtor executivo de 24 Horas, o popular seriado da Fox sobre o combate ao terrorismo – dá de frente para uma parede dominada por uma bandeira americana, emoldurada numa caixa de vidro. Uma pequena etiqueta esclarece que aquela bandeira já esteve hasteada em Bagdá, depois da invasão americana de 2003. Surnow ganhou-a de presente de um regimento americano, cuja coleção de DVDs de 24 Horas acabou destruída no Iraque, por uma bomba inimiga. “Os soldados adoram o nosso programa”, contou-me Surnow. Ele tem 52 anos e a energia contida e relaxada de um atleta. Quando jovem, trabalhou com o pai, ajudando-o na venda de tapetes. O segredo para vender qualquer coisa, aprendeu, é exibir uma postura confiante nos primeiros cinco minutos, para conquistar a simpatia do freguês. O que ele faz como ninguém. “Muita gente no governo também gosta da série”, diz. “O programa é patriótico, eles tinham de gostar.”

A produtora de Surnow, a Real Time Entertainment, fica no vale de San Fernando, na Califórnia. Ela ocupa uma antiga fábrica de lápis: um prédio industrial razoável, no meio de uma vasta área degradada, ocupada por estacionamentos e lanchonetes de fast food. Surnow, um entusiasta de charutos, converteu uma das salas que dá para o mesmo corredor que o seu escritório num salão equipado com umidificadores e um bar abastecido de tudo. O térreo da fábrica tem um estúdio imenso, no qual são filmadas muitas das cenas de interior do seriado, inclusive as que se passam na sede de Los Angeles da Counter Terrorist Unit, a sempre tensa CTU – uma agência federal imaginária, dedicada a perseguir os inimigos da América com férrea competência.

Cada temporada de 24 Horas, que vem sendo exibida nos Estados Unidos pela Fox desde 2001, e no Brasil desde o ano seguinte, retrata um único dia em que, sob o signo do pânico, Jack Bauer – um heróico agente da CTU, interpretado por Kiefer Sutherland – precisa descobrir e derrotar alguma conspiração que põe a nação em risco. Terroristas aparecem prestes a lançar mão de bombas nucleares ou armas biológicas, decididos em certos casos a aniquilar cidades inteiras. As reviravoltas da trama costumam obrigar Bauer e seus companheiros a uma série de escolhas terríveis entre, de um lado, a liberdade e, de outro, a segurança nacional. Muitas vezes, o dilema é extremo: um suspeito mais obstinado pode ser submetido ao processo normal de inquérito – o que permitiria que o plano terrorista fosse executado – ou então ser torturado em busca de pistas.

Invariavelmente, Bauer opta pela coerção. Com uma eficácia implacável, os suspeitos são espancados, asfixiados, eletrocutados, drogados, esfaqueados ou submetidos a maus-tratos ainda mais exóticos. Quase sempre, acabam revelando segredos cruciais.

O grande apelo do seriado está menos em sua violência do que em sua versão literal, e estonteante, de um clássico recurso narrativo dos filmes de suspense, conhecido como a “bomba-relógio ativada”. Cada episódio de uma hora de duração representa uma hora na vida dos personagens, e cada minuto que se passa na tela empurra os Estados Unidos um minuto mais para perto da destruição. Até meia-dúzia de tramas entrelaçadas podem se desenrolar ao mesmo tempo – muitas vezes numa tela subdividida – e antes e depois de cada intervalo comercial um relógio digital aparece no vídeo, assinalando a passagem de cada segundo com um sinistro som metálico. O resultado é uma irresistível sensação de velocidade narrativa.

Bob Cochran, que criou o programa junto com Surnow, admite que “a maioria dos especialistas em terrorismo dirá que a situação da ‘bomba-relógio ativada’ nunca ocorre na vida real, ou só muito raramente. Mas no nosso programa ela acontece toda semana”. Segundo Darius Rejali, professor de ciência política no Reed College e autor do livro Tortura e Democracia, a idéia da bomba-relógio acionada apareceu pela primeira vez num romance de Jean Lartéguy, Les Centurions, escrito em 1960, durante a brutal ocupação francesa da Argélia. O herói do livro, depois de espancar uma dissidente árabe até reduzi-la à submissão, descobre um plano de iminentes atentados a bomba em toda a Argélia, e precisa correr contra o relógio para desativá-los. Rejali, que examinou os arquivos disponíveis sobre o conflito, disse-me que a história do livro não tem qualquer base factual. A seu ver, o enredo de Les Centurions serviu para dar aos liberais franceses uma justificativa mais palatável para a tortura, praticada pelos ocupantes, do que as explicações racistas de outras fontes (como a idéia de que os argelinos, intrinsecamente simplórios, só entendiam mesmo a força bruta). O enredo de Lartéguy explorava uma insegurança que se pode encontrar em várias sociedades liberais – o medo que as salvaguardas civilizadas de seus sistemas legais as tenham deixado mais vulneráveis aos atentados contra a segurança.

Ganhador do prêmio Emmy de melhor série dramática no ano passado, 24 Horas concentra um volume improvável de intrigas no decorrer de um dia, e seus exageros o definem como uma fantasia que se filia aos barrocos romances caça-níqueis produzidos em série por Tom Clancy ou Vince Flynn. Ainda assim, é óbvio o quanto o seriado explora as ansiedades que assolam os Estados Unidos desde o 11 de setembro. Sua mensagem política é clara: “a América quer que a guerra contra o terror seja travada por Jack Bauer; ele é um patriota”.

Apesar de todas as liberdades ficcionais, 24 Horas retrata uma luta contra o extremismo islâmico parecida com a definição dela feita pelo governo Bush: uma guerra total pela sobrevivência americana que demanda o emprego das táticas mais inflexíveis. Pouco depois do 11 de setembro, o vice-presidente Dick Cheney aludiu vagamente ao fato de que, no combate ao terrorismo, os Estados Unidos precisavam começar a operar no “lado escuro”. Em 24 Horas, o lado escuro é mostrado com riqueza de detalhes. Surnow, que em tom de brincadeira se autodefine como um “verdadeiro pirado de direita”, tem a mesma visão linha-dura exibida pelo seu seriado. Sobre a tortura, ele me disse o seguinte: “Não é óbvio que, se uma bomba atômica estivesse a ponto de explodir em Nova York – ou em qualquer outra cidade deste país – mesmo que você acabasse indo para a prisão, ela seria a coisa certa a fazer?”.

A partir do 11 de setembro, as cenas de tortura se tornaram mais comuns na televisão americana. Segundo a Human Rights First, organização sem fins lucrativos, antes dos ataques, menos de quatro atos de tortura eram mostrados, por ano, no horário nobre da televisão. Atualmente, são mais de cem. Segundo David Danzig, diretor da Human Rights First, “os torturadores mudaram. Antes, eram quase só os vilões que torturavam. Hoje, muitas vezes, a tortura é perpetrada pelos heróis”. O Parents’ Television Council (“Conselho dos Pais sobre a Televisão”), um grupo de fiscalização apartidário, contou 67 cenas de tortura nas primeiras cinco temporadas de 24 Horas – mais do que em qualquer outro programa.

Geralmente, são os vilões que praticam as torturas mais sangrentas: suas vítimas são penduradas em ganchos de metal, como carcaças num açougue; apunhaladas com bisturis aquecidos a rubro; ou têm a pele esmerilhada por lixadeiras elétricas. Em vários episódios, porém, são heróicos agentes americanos que atuam como carrascos.

Num dos episódios, um presidente americano fictício ordena que um membro do serviço secreto torture um suspeito de traição: seu conselheiro de segurança nacional. A vítima sofre choques de desfibrilador com os pés mergulhados numa banheira cheia d’água. À medida que a voltagem aumenta, o presidente, apresentado como um líder escrupuloso, acompanha o sofrimento do suspeito num vídeo. O espectador, que sabe que o conselheiro é culpado e guarda muitos segredos, é transformado em cúmplice, e quer que a tortura funcione. Pouco antes de o suspeito confessar, o presidente enuncia o credo básico do programa: “todo mundo acaba falando”. A única exceção à regra é o próprio Jack Bauer. A temporada atual começa mostrando Bauer sendo solto de uma prisão chinesa, ao cabo de dois anos de torturas incessantes. Cicatrizes riscam as suas costas e suas mãos estão queimadas, mas o comunista que o entrega à custódia americana afirma que ele “nunca quebrou o silêncio”.

Os agentes da CTU utilizam métodos de interrogatório empregados pelos Estados Unidos com alguns suspeitos de pertencerem à Al Qaeda. Numa cena, Bauer recusa analgésicos a uma terrorista ferida à bala, exatamente como oficiais americanos reconheceram ter feito com Abu Zubaydah – um dos agentes mais importantes da Al Qaeda capturados pelos americanos.

O programa às vezes brinca com o desconforto do público com interrogatórios violentos. Na segunda temporada, Bauer ameaça matar a mulher e os filhos de um terrorista, um a um, diante do prisioneiro. O suspeito assiste, num circuito fechado de televisão, o que parece ser a execução sumária do seu filho. Ameaçado com a chacina dos outros membros da família, o pai acaba revelando informações vitais. Acabamos sabendo, porém, que a morte do menino tinha sido uma encenação. Ainda assim, nos termos das leis americana e internacional, execuções simuladas são consideradas tortura psicológica, e, portanto, ilegais.

Noutra ocasião, Bauer não tem coragem de torturar, mas o programa dá a entender que condena os seus escrúpulos. No episódio, Bauer tenta fazer um suspeito confessar enterrando uma faca no seu ombro. Os gritos da vítima o perturbam. Bauer diz a um de seus companheiros, de maneira pouco convincente, que olhou nos olhos da vítima e sabe que “ele não vai contar nada”. O outro agente toma a iniciativa, cravando com vontade um formão no joelho da vítima – ao que o suspeito confessa, aos gritos, os detalhes de um plano para detonar uma bomba atômica em Los Angeles.

Ao longo de toda a série, personagens secundários fazem objeções morais a táticas violentas de interrogatório. Ainda assim, o seriado nunca mostra uma discussão séria sobre o tema. Ninguém jamais afirma que a tortura não funciona. Ao contrário: os personagens que manifestam dúvidas tendem a ser indivíduos ingênuos, de coração mole. Um liberal trêmulo, que defende um vizinho de origem árabe da perseguição de outros cidadãos, acaba morto quando se revela que o suspeito, de fato, é um terrorista.

Noutro capítulo, um advogado defensor dos direitos humanos, filiado a uma organização fictícia chamada Anistia Global, diz a Bauer, que está prestes a espancar um suspeito de terrorismo sem acusação formada, que assim ele estará violando a Constituição americana. E Bauer responde: “Não quero ignorar a Constituição, mas as circunstâncias são extraordinárias”. E apela para o presidente, afirmando que não existe forma de interrogatório permitida por lei capaz de dar conta do recado.
– Está falando de torturar esse homem?, pergunta o presidente.

– Estou falando de fazer o necessário para impedir que esse artefato seja usado contra nós, responde Bauer.

Quando o presidente hesita, Bauer decide se afastar temporariamente do seu cargo, de maneira a evitar a desobediência – e quebra os dedos da mão do suspeito. Nem assim o interrogado fala. Bauer encosta uma faca em seu pescoço, o que finalmente traz à luz as informações desejadas. Bauer então nocauteia o suspeito com um murro, e comenta: “Isto vai aliviar a dor”.

Vários exemplares de um famoso manual de interrogatórios elaborado pela cia em 1963 (o KUBARK) podem ser encontrados nas salas de criação do 24 Horas. O próprio Howard Gordon, principal roteirista da série, e responsável direto pela criação das cenas de tortura, as qualifica de “improvisos de sadismo”. Ele acrescenta que, “na maioria dos casos, a fonte é a nossa imaginação. Às vezes, as idéias são sugeridas pela locação, ou pelos objetos de cena que temos no estúdio”. Gordon explica que boa parte do horror é imaginado pelo público. “Ver um bisturi e, em seguida, saber que ele está em ação fora do quadro é muito mais assustador do que ver a coisa toda. Quando você usa movimentos rápidos de câmera e alguém gritando, a coisa funciona.” Nos últimos anos, disse ele, “andamos recorrendo a coisas farmacológicas”. Um personagem chamado Burke – funcionário federal da CTU que sempre carrega uma maleta cheia de imensas seringas hipodérmicas – tornou-se indispensável. “Ele injeta substâncias que provocam dores horríveis, capazes de derrubar as defesas de qualquer um”, disse Gordon. “Quando não sabemos o que fazer, a decisão costuma ser: Vamos chamar o Burke!” Ele completou: “Já estamos sentindo um certo desgaste; está ficando difícil não repetir as mesmas técnicas de tortura várias e várias vezes”.

Gordon, que é um “democrata moderado”, declara ficar preocupado quando “os críticos dizem que reforçamos e refletimos o apetite do público pela tortura. Ninguém quer se ver a serviço de uma política sem controle, que admita a tortura como técnica legítima de interrogatório”. E prossegue: “Mas a premissa do 24 Horas é a bomba-relógio a ponto de explodir. O enredo sempre parte de uma situação fora do comum e a transforma na espinha dorsal do programa”.

Em novembro passado, o general Patrick Finnegan, general-de-brigada do Exército e reitor da Academia Militar de West Point, pegou um avião para o sul da Califórnia a fim de se reunir com a equipe de criação do 24 Horas. Acompanhado de três dos mais experientes interrogadores das forças armadas e do FBI, chegou ao estúdio durante uma filmagem. Vestido com um imaculado uniforme do Exército, e o peito coberto de fitas e medalhas, Finnegan a princípio provocou um mal-entendido: foi confundido com um ator, e alguém lhe perguntou a que horas ele entrava em cena.

Na verdade, Finnegan e os outros tinham vindo manifestar sua preocupação. Para eles, a premissa política central do programa – de que a letra da lei americana precisa ser sacrificada em nome da segurança nacional – vinha produzindo um efeito tóxico. A seu ver, o programa defendia iniciativas antiéticas e proibidas por lei, tinha uma decorrência adversa no treinamento e no desempenho dos soldados de verdade. “Eu queria que eles parassem”, disse Finnegan, referindo-se aos produtores da série. “Eles deviam criar um programa onde a tortura saísse pela culatra.”

A reunião, que durou algumas horas, foi organizada por David Danzig, da Human Rights First. Vários dos produtores do seriado estavam presentes. Surnow, ostensivamente, decidiu não comparecer. Ele me explicou: “Não consigo ficar tanto tempo assim, sentado numa sala. Sou hiperativo – não consigo ficar parado”. Disse ao grupo que a reunião estava marcada para o mesmo horário de uma conferência telefônica (previamente agendada) com Roger Ailes, o presidente do canal Fox News.

Antes do encontro, Stuart Herrington, um dos três interrogadores veteranos, tinha preparado uma lista com dezessete técnicas eficazes de interrogatório, nenhuma das quais envolvendo maus-tratos físicos. Ele e os outros descreveram várias táticas, como a de deixar que o suspeito envie um cartão-postal para a família, obtendo assim o nome e o endereço de seus parentes. Depois que Howard Gordon, o chefe dos roteiristas do seriado, ouviu algumas das sugestões de Herrington, deu um soco na mesa e exclamou, brincando: “O senhor está contratado!” Animado, ele também perguntou à delegação de West Point se eles conheciam algum soro da verdade realmente eficaz.

Noutros momentos, a conversa foi mais tensa. Finnegan disse aos produtores que, ao sugerir que o governo americano tortura, 24 Horas é lesivo à imagem internacional do país. Finnegan, que é formado em direito, durante anos ministrou um curso sobre as leis da guerra para os alunos do último ano de West Point – cadetes que em seguida assumiriam postos de comando nos campos de batalha do Iraque e do Afeganistão. E sempre tenta ensinar seus alunos a distinguir não só o que é ou não legal, mas o que é correto. Está se tornando cada vez mais difícil convencer alguns cadetes, no entanto, de que a América precisa respeitar a lei e os direitos humanos, mesmo que os terroristas não se comportem assim. Um dos motivos para a resistência cada vez maior, sugeriu, são as percepções equivocadas difundidas por 24 Horas. “Os meninos assistem ao seriado e dizem, ‘se a tortura está errada, como explicar as coisas que acontecem em 24 Horas?'”, disse-me E completou: “o mais perturbador é que, embora a tortura possa provocar uma certa angústia em Jack Bauer, ela sempre acaba sendo a escolha mais patriótica”.

Gary Solis, professor aposentado de direito que criou o currículo da cadeira de Lei de Guerra para Oficiais em West Point, disse que teve discussões semelhantes com os seus alunos. Assinalou que, nos termos da lei americana e internacional, “Jack Bauer é um criminoso; na vida real, ele seria levado a julgamento”. Ainda assim, vários dos seus alunos afirmavam ter o mesmo lema de Jack Bauer: “Tudo que for preciso”. E ficaram especialmente impressionados com uma cena em que Bauer irrompe numa sala onde um suspeito obstinado está detido, dá-lhe um tiro numa perna e ameaça atirar na outra se ele não falar. Em menos de dez segundos, o suspeito revela que seus comparsas ameaçam assassinar o secretário de Defesa. Disse-me Solis: “Tentei mostrar a eles que essa técnica abriria as portas erradas, mas foi a mesma coisa que tentar destruir um formigueiro com um pontapé”.

Os produtores do 24 Horas responderam aos militares e policiais dizendo que sempre tomavam o cuidado de não glamourizar a tortura. Assinalaram que Bauer nunca tira satisfação da dor que provoca, e que o programa deixa patente o alto custo psicológico que tudo aquilo tem para o personagem. Finnegan e os outros discordaram. Eles disseram que Bauer sempre conserva uma racionalidade serena depois de cometer atos bárbaros, inclusive a decapitação de uma testemunha com uma serra. Joe Navarro, um dos maiores especialistas do FBI em técnicas de interrogatório, estava presente à reunião. “Só um psicopata é capaz de torturar e não ficar alterado”, diz ele. “Você não quer gente assim na sua organização, eles não são confiáveis.”

Na reunião, Bob Cochran quis saber o que os interrogadores fariam, caso se vissem ante a ameaça de um atentado nuclear iminente contra Nova York, e tivessem sob custódia um suspeito que conhecesse a maneira de impedi-lo. Um dos interrogadores respondeu que só usaria a coerção física se recebesse uma ordem direta do presidente. Mas Navarro, que calcula ter conduzido cerca de 12 mil interrogatórios, respondeu que a tortura não é uma forma de ação eficaz. “Eles são pessoas muito determinadas, e não vão mudar de idéia só porque você arrancou uma das suas unhas”, disse-me ele. Finnegan afirmou que, no caso de terroristas islâmicos fanáticos, a tortura é especialmente improdutiva. “Eles quase desejam a tortura”, disse. “É uma coisa que eles esperam, eles querem ser martirizados.” E se houvesse uma bomba-relógio em contagem regressiva, afirmou ele, os suspeitos se mostrariam ainda menos dispostos a falar. “Eles sabem que, se conseguirem agüentar algumas horas, sua glória será maior – é só o tempo da bomba explodir.”

A idéia de que a coerção física não funciona bem em interrogatórios, embora amplamente difundida entre oficiais da área de informações e agentes do FBI, vem sendo firmemente rejeitada pelo governo Bush. Em setembro passado, o presidente defendeu o uso de “um conjunto alternativo de procedimentos” pela CIA. Para “salvar vidas inocentes”, disse ele, a agência precisava estar autorizada a lançar mão de medidas “mais extremas” para obter “informações vitais” de prisioneiros “perigosos” com conhecimento de “planos terroristas que não temos como obter em outro lugar”.

24 Horas tem uma audiência semanal de 15 milhões de espectadores, e atinge muitos outros milhões por meio da venda de DVDs. Tony Lagouranis, ex-interrogador do Exército também presente ao encontro, contou à equipe de produção da série que DVDs de programas como 24 Horas circulam intensamente entre os soldados americanos no Iraque. “Eles assistem aos programas, depois entram nas cabines de interrogatório e fazem as mesmas coisas que acabaram de ver”, disse.

“No Iraque, nunca vi a tortura produzir informações”, contou-me Lagouranis. “Trabalhei com uma pessoa que usava a técnica do afogamento” – um método que envolve quase-asfixias dos suspeitos. “Usei hipotermia grave, cães e privação de sono. Estive com suspeitos depois que soldados haviam entrado em suas casas e quebrado seus ossos, ou os obrigaram a sentar em canos de escapamento quentíssimos, até sofrerem queimaduras de terceiro grau. Nada aconteceu.” Algumas pessoas, disse ele, “acabaram confessando, mas só o que já sabíamos”. Se a dor física produz alguma coisa, disse, “é fortalecer a obstinação dos suspeitos em não falar”.

Lagouranis disse à equipe de 24 Horas o que as forças armadas americanas e o FBI ensinam aos verdadeiros profissionais da área de informações: a “construção de relacionamentos”, o lento processo de conquista de informantes, é o método que geralmente funciona melhor. Também existem os estratagemas não-violentos, explicou, e maneiras de surpreender os suspeitos. A equipe de 24 Horas deu a impressão de se interessar pelas possibilidades narrativas de técnicas desse tipo. “Eles nos disseram que adorariam incorporar alguns desses estratagemas, além da construção de relacionamentos.” Ao mesmo tempo, disse ele, Cochran e os outros membros da equipe de 24 Horas temiam que essas abordagens pudessem “levar tempo demais” para um programa televisivo de uma hora. Para Lagouranis, os autores de 24 Horas “ficaram um pouco irritados: eles lá com aquela máquina de ganhar dinheiro, e nós a dizermos a eles que aquilo é imoral”.

Danzig e Finnegan tiveram ainda uma conversa no estúdio com Kiefer Sutherland que, ao que se diz, ganha 10 milhões de dólares por ano para fazer o papel de Jack Bauer. Sutherland, neto de Tommy Douglas, o líder socialista canadense, disse que as suas convicções políticas pessoais são contrárias à tortura, e ele tem uma certa simpatia pela esquerda. Segundo Danzig, Sutherland afirmou que sempre tenta dizer às pessoas que o programa “não passa de entretenimento”. Danzig propôs que Sutherland participasse de um ciclo de debates em West Point. Ou aparecesse num filme de treinamento em que ficasse claro que as cenas de tortura do programa não devem ser copiadas. Surnow, quando lhe perguntaram se aceitaria aparecer nesse vídeo, respondeu: “nem pensar”.

Numa entrevista recente, ficou palpável a ambigüidade de Sutherland em relação aos métodos do seu personagem. Ele condenou os maus-tratos na prisão de Abu Ghraib, afirmando que eram “absolutamente criminosos”. E acrescentou: “Se você torturar alguém, ele pode simplesmente lhe dizer o que você quer ouvir. A tortura não é um bom modo de obter informações”. Mas também apontou que as coisas são diferentes na televisão: 24 Horas, disse ele, “é um programa fantástico. E a tortura é um recurso dramático”.

Os criadores de 24 Horas negam que o programa só apresente a visão conservadora. Mencionam os democratas que acompanham fielmente o seriado – entre eles Barbra Streisand e Bill Clinton – e a diversidade de convicções políticas existente entre seus roteiristas e produtores. De fato, as tramas às vezes apresentam um ligeiro viés liberal. A conspiração que é mostrada no enredo da quinta temporada, por exemplo, gira em torno de empresários oligarcas, que vão a extremos inqualificáveis a fim de proteger seus interesses nos negócios do petróleo – o mesmo tema de filmes de suspense paranóico-liberais como Syriana. Na temporada atual, uma diretiva da Casa Branca, que define como traidores em potencial todos os funcionários federais americanos cuja família tenha vindo do Oriente Médio, foi apresentada como excessiva e insensata.

O produtor Surnow ostenta com satisfação sua condição de minoritário na indústria da diversão, dominada por simpatias de esquerda. “Os conservadores são a nova classe oprimida”, gracejou. “Não é estranho que, em Hollywood, seja mais fácil dizer que é gay do que conservador?” Seu sucesso com 24 Horas, acredita, serviu para protegê-lo das figuras mais inflamadas de Hollywood. “No momento, eles são obrigados a me tratar bem”, disse. “Mas se o seriado perder audiência, tenho certeza de que eles acabam comigo.”

Embora tenha sido criado em Beverly Hills, Surnow disse que sempre se sentiu marginalizado. Seus colegas de turma eram quase todos ricos, enquanto seu pai era um vendedor itinerante de tapetes que se mudara de Detroit para a Califórnia. Sempre que o pai conseguia fazer uma venda, voltava para casa com os polegares erguidos. Surnow conta que nove de cada dez noites terminavam em fracasso. Sua mãe, vendedora numa loja de roupas, “passou a vida inteira lutando contra a depressão”.

Os pais de Surnow eram democratas da linha Franklin Roosevelt. “Não podiam ter sido outra coisa, especialmente na comunidade judaica” – à qual sua família pertencia – “Mas depois você começa a questionar as premissas dos seus pais. ‘Será que eu sou mesmo judeu? Será que eu sou mesmo democrata?'” Muitos dos seus colegas na Universidade da Califórnia, em Berkeley, eram liberais ou radicais. “Eram todos socialistas e marxistas, mas vivendo do dinheiro da família”, lembrou ele. “Eu achava que havia nisso uma hipocrisia evidente. Era uma coisa absurda.” Embora não tivesse consciência política, disse ele, “sentia que era diferente daquelas pessoas”.

Enquanto estudava em Berkeley, Surnow trabalhou como lanterninha no Pacific Film Archive, onde assistiu a pelo menos 500 filmes. Em 1975, matriculou-se no curso de cinema da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Obteve um sucesso apenas modesto e, ao longo de muitos “anos perdidos”, pensou várias vezes em desistir de tudo e assumir o comércio de tapetes do pai. A grande mudança ocorreu quando começou a escrever para o seriado Miami Vice, em 1984. “Foi um estalo – eu simplesmente entendi como era!”, lembrou. “É como acontece quando você não sabe falar uma língua, mas aprende de uma hora para outra: descobri como se conta uma história.” Ao fim daquele ano, a Universal, que produzia o programa, encarregou Surnow de um seriado próprio, The Equalizer, sobre um agente da CIA que decide fazer justiça por conta própria.

A dura experiência em Hollywood, explicou, ensinou a Surnow que existem dois tipos de pessoas na indústria do entretenimento: “os que querem ser gênios e os que querem trabalhar”. Num primeiro momento, contou, “eu queria ser um gênio, mas a certa altura percebi que na verdade eu queria desesperadamente trabalhar”.

Ao longo de três décadas como roteirista, Surnow foi se tornando cada vez mais conservador. “Odiava o sistema de welfare“, a previdência social americana, que a seu ver distribui esmolas pelo governo. Os tribunais liberais também o deixavam irritado. Adorava a “força” de Ronald Reagan e desprezava as idéias de Jimmy Carter. Disse também que achou os anos Clinton insuportáveis. Ao longo dos anos, Surnow teve inúmeras discussões com colegas liberais, dos quais alguns pararam de falar com ele.

Embora apóie o presidente Bush – “os Estados Unidos vivem os seus dias de glória”, diz –, Surnow critica a maneira como a guerra no Iraque vem sendo conduzida. Na qualidade de “isolacionista” sem “nenhuma fé na idéia de construir uma nação ali”, ele acha que “devíamos ter saído de lá há três anos”. Depois de ter derrubado Saddam Hussein, afirmou, os americanos deviam “ter entregue tudo para os baathistas, e instalado no poder algum monstro que mantivesse aquela gente na linha, mas não fosse agressivo conosco”. Na sua opinião, a América “é uma espécie de pai do mundo, e temos de ser severos, mas justos, com as pessoas que se rebelam. Não podemos ser complacentes. Isso não quer dizer que devamos maltratá-los”.

Nos últimos anos, Surnow participou do Liberty Film Festival, um grupo dedicado à promoção do conservadorismo através do entretenimento de massas. Surnow disse-me que gostaria de se opor à imagem estabelecida do senador Joseph McCarthy, apresentado como demagogo e mentiroso. “Achei que seria realmente provocador fazer um filme que pudesse apresentar McCarthy como um herói americano, ou como o defensor de uma boa causa que talvez tenha cometido alguns excessos.” Comparou os simpatizantes comunistas da década de 1950 aos terroristas de hoje: “nos anos 50, o Departamento de Estado estava infiltrado de pessoas que eram como a Al Qaeda”. Mas acabou engavetando o projeto: “como a lista negra é a ortodoxia de Hollywood, não é um filme que pudesse ser feito agora”.

Em junho do ano passado, Virginia Thomas – que trabalha na Heritage Foundation, um centro de estudos conservador – organizou um debate em torno do 24 Horas. O simpósio recebeu o título de “24 Horas e A Imagem da América no Combate ao Terrorismo: Verdade ou Mentira – Será que Importa?” O secretário de Segurança Interna, Michael Chertoff, espectador assíduo do seriado e participante do encontro, elogiou o programa, por mostrar a guerra contra o terrorismo como “a tentativa de fazer a melhor escolha diante de uma série de más opções”. E foi adiante, dizendo que “o programa reflete a vida real”. Roger Director, amigo de Surnow, disse, brincando, que os roteiristas conservadores de 24 Horas se transformaram “numa espécie de anexo da Casa Branca na televisão de Hollywood, uma ala auxiliar”.

No mesmo dia em que ocorria o simpósio na Heritage Foundation, um almoço privativo para Surnow e outros profissionais do seriado se realizava na Casa Branca. Entre os presentes estava Karl Rove, subchefe da assessoria da Presidência, Tony Snow, o porta-voz da Casa Branca, Mary e Lynn Cheney, a filha e a mulher do vice-presidente Dick Cheney. Depois do almoço, contou Surnow, ele e seus colegas passaram mais de uma hora na sala de Rove. “As pessoas têm uma imagem dele como um sujeito cheio de segredos e metido em intrigas, mas no fundo ele não passa de um professor de história”, disse Surnow. Ficou menos impressionado com o Situation Room, a sala onde se discutem as situações de emergência, que, à diferença da versão elegante e high-tech da CTU, “parecia uma sala de chá de uma casa vitoriana”.

Muitos conservadores proeminentes falam de 24 Horas como se fosse real. John Yoo, o advogado do Departamento de Justiça que ajudou na preparação do “memorando da tortura” do governo Bush – que, em 2002, autorizava os maus-tratos a detidos – invoca o programa em seu livro A Guerra por Outros Meios. Laura Ingraham, apresentadora de um programa de rádio, citou a popularidade do seriado como prova de que os americanos são favoráveis à brutalidade. “Eles adoram Jack Bauer”, afirmou ela na Fox News. “Para mim, não pode haver nada mais próximo de um referendo aprovando o uso de táticas mais duras contra agentes de alto nível da Al Qaeda.” Surnow já compareceu ao programa de Ingraham, e ela lhe disse que, enquanto se submetia à quimioterapia para o tratamento de um câncer de mama, “era um conforto ver Jack Bauer torturando aqueles terroristas, e eu me sentia melhor”.

Como bom inimigo da correção política, Surnow parece não se incomodar com a controvérsia provocada pelo seriado. 24 Horas, reconhece, é criticado como racialmente insensível, pois representa freqüentemente americanos de origem árabe como terroristas. “Nossa única orientação política é a de que os terroristas são maus”, disse. “Em alguns círculos, isso é visto como uma declaração política.” Enquanto me mostrava o cenário da Situation Room dos estúdios da Real Time, perguntei-lhe se 24 Horas tinha planos de usar o método de interrogatório do “afogamento”, defendido pelo vice-presidente Cheney e considerado tortura pelos militares. Surnow riu e disse “Claro! Mas só com água mineral engarrafada – estamos em Hollywood!”.

Num tom menos jocoso, ele disse: “Recentemente, estiveram aqui vários especialistas em tortura, e eles falaram ‘Vocês não têm idéia do número de pessoas que é influenciado por isso. Tomem cuidado’. Eles dizem que a tortura não funciona. Mas eu não acredito. Não acho que seja honesto dizer que, se uma pessoa amada estivesse presa, e você tivesse cinco minutos para salvá-la, você não usaria tortura. O que você faria? Se alguém tivesse raptado uma das minhas filhas, ou a minha mulher, eu iria querer ter a oportunidade. Não existe nada – nada – que eu não fosse capaz de fazer”. E continuou: “Os jovens interrogadores não precisam do nosso seriado. O que a mente humana é capaz de imaginar é muito maior do que mostramos na televisão”.

Jane Mayer

Jane Mayer, jornalista americana, trabalha na revista The New Yorker.

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O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Dona Hermínia, Blake, Schofield e Adoniran Barbosa – as peripécias para conseguir assistir a um filme

Barulho, informação errada e sala em péssimo estão no caminho de quem tenta ver documentário sobre compositor paulista

Na piauí_161

A capa e os destaques da revista que começa a chegar às bancas esta semana

Mais textos
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A pensão de 107 anos

Herdeiros de servidor público receberam legalmente benefício da Previdência de 1912 a 2019 – atravessando nove moedas e trinta presidentes brasileiros

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Asfaltando a Amazônia

Bolsonaro inaugura trecho de rodovia federal e planeja mais mil quilômetros cortando áreas protegidas de floresta no Norte do Pará

3

Laudos, versões e milícia

Documentos e imagens da casa onde miliciano Adriano da Nóbrega foi morto contradizem relato de policiais sobre operação

4

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

6

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro

9

Foro de Teresina #88: O miliciano morto, o Bolsa Família e o Pateta, e uma São Paulo submersa

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