esquina

Enfermeira mãezona

Jeitinhos num campo de refugiados

Bruna Tiussu
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Numa manhã do final de novembro passado, Sinia Margareth, uma enfermeira de 60 anos, trabalhava compenetrada no preparo de uma pequena porção de mingau. Depois de ajeitar uns pedaços de carvão no compartimento adequado e acender a chama, posicionou a panela sobre o fogão. Mexeu o conteúdo – farinha de painço, água e leite – ritmadamente por cinco minutos, até ele ganhar a consistência desejada. Em seguida, levou o recipiente à mesa e provou do resultado. “Quer ver como ele vai comer com gosto?”

O pequeno Laurence Bidal de fato aceitou algumas colheradas da mistura. Sentado com o corpo contorcido e visivelmente desnutrido, o menino de 3 anos tinha acabado de quebrar um jejum de dois dias, fazendo sua mãe sorrir aliviada. Margareth sorriu de volta e avisou: “Se perguntarem, ele tem 2 anos. Combinado?”

Segundo as normas da ONG que emprega Margareth, a Action Against Hunger – uma organização de origem francesa com programas de combate à fome em quase cinquenta países –, a enfermeira só pode dar reforço nutricional a crianças de até 24 meses de vida. Mas ela não se constrange em driblar as regras “sempre que necessário”. Age assim desde que se tornou uma das 41 funcionárias alocadas no centro médico de Bidi Bidi, o maior assentamento de refugiados do mundo.

O campo, um dos doze existentes em Uganda, deu abrigo em casas de barro com telhados de palha, em meio à amplidão da savana, a mais de 280 mil sul-sudaneses que em 2016 fugiram de seu país. Situado no nordeste da África, o Sudão do Sul se tornou independente em 2011, e desde 2013 é palco de conflitos étnicos e guerra civil.

A gestão dos 250 quilômetros quadrados de Bidi Bidi, divididos em cinco zonas, está a cargo do governo local e do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. Mas eles não dão conta do recado sozinhos. Trabalham em parceria com ONGs que atuam em setores como saúde, educação e nutrição a fim de tentar oferecer condições básicas de vida à população.

 

Quando soube da chegada da Action Against Hunger em Bidi Bidi, em agosto de 2016, Margareth se inscreveu para uma das oito vagas abertas. Recém-aposentada, mas com energia de sobra – Retired, but not tired, ela diz –, seguiu animada para a entrevista. Ao pisar no centro médico da zona 1, porém, não pôde esperar de braços cruzados. Já estava ocupada, organizando a triagem das mais de 200 mães e crianças que lotavam a precária estrutura de madeira e lonas brancas, quando o gerente de relações humanas gritou seu nome. “Acenei para ele, que me viu e não entendeu nada. Após cinco minutos, aproximou-se e perguntou: ‘Você pode começar amanhã?’”

Desde então, a enfermeira bate ponto no centro todos os dias, salvo alguns domingos, quando tem festa na paróquia de Moyo, sua cidade natal. Católica fervorosa, gosta de dizer que a igreja é seu marido. “Muito melhor que o anterior”, completa, referindo-se ao companheiro que há doze anos a abandonou com dois filhos – que hoje estão criados e moram em Kampala, a capital de Uganda.

Margareth socorre diariamente crianças como Laurence. E atende mães como Rosary e Stella, que às 11h15 daquele dia foram pedir suplemento alimentar infantil. Ao entregar os ingredientes, a enfermeira assumiu um tom professoral e explicou como preparar mingau e posho, um purê de farinha de milho típico da culinária ugandense. Suas dicas são uma tentativa de fazer render os parcos 6 quilos de comida que cada refugiado recebe por mês.

A enfermeira sabe o nome da maioria das mulheres que frequentam o posto médico. Ativa e falante, dá atenção a todas, revezando-se entre vários idiomas – além da língua oficial de Uganda (inglês) e da mais falada no Sudão do Sul (árabe), é fluente em kakwa, acholi, ma’di e lugbara, dialetos comuns a ambos os países.

Em árabe, Margareth perguntou a Rosary sobre a família dela. Brincou com o bebê de Stella imitando voz infantil no dialeto kakwa. E brindou as duas com um mimo extra. Apesar de não ser dia de distribuição de kits de higiene, entrou por uma porta e de lá voltou com um sabão para cada. Recomendou-lhes discrição: “Nada disso saiu daqui.”

A postura protetora lhe rendeu um apelido entre as sul-sudanesas: Habbuba. O termo em árabe é um sinônimo carinhoso para avó. “É bonitinho, embora eu prefira as que me chamam de mamma”, disse, em tom de brincadeira. De fato, a pele negra bem hidratada, o rosto lisinho e o corpo pequeno lhe dão uma aparência bem mais jovem. A disposição física também é invejável. Margareth pode passar as oito horas de trabalho em pé sem protestar. Raramente almoça – come frutas levadas de casa quando dá tempo – e tampouco reclama do estômago vazio.

 

Não faz muito tempo, a enfermeira passou a conciliar o trabalho na Action Against Hunger com outro, de assistência a pacientes com Aids tratados no centro de refugiados por médicos da Real Medicine Foundation. O acúmulo de função – na camaradagem, pois não tem vínculo formal com essa ONG – foi sugestão dela. Margareth estudou a doença a fundo durante uma especialização no mais antigo hospital de Uganda, o Mengo, em Kampala.

Em Bidi Bidi, ela tem acompanhado Loyce, um refugiado soropositivo de 31 anos. Mas anda descontente com os modos do rapaz, que não é disciplinado com os remédios e tampouco comparece às consultas. Naquela manhã, ele tinha horário agendado às 11 horas, mas só deu as caras perto das 17 horas, quando a enfermeira já esperava a van que a levaria para casa.

Margareth sabia que a visita tardia era sinônimo de fome. Trocou poucas palavras com o paciente e o pôs sentado. Em silêncio, dirigiu-se para a cozinha e começou a vasculhar potes. A enfermeira olhou para um lado, para o outro, e colocou num saco plástico uma banana e um tanto de posho que tinha encontrado. Deu um nó na embalagem e, antes de deixar o recinto, salientou: “Se perguntarem, você não viu nada.”

Bruna Tiussu

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