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    Fui apresentar meu filme na Universidade de Al-Quds e me chamam a atenção os olhos das moças, fixos em mim. Poucas não usam o hijab. Uma jovem pergunta: "Você viria fazer um filme sobre a nossa luta?" Digo que acho importante eles fazerem seus próprios filmes. A moça sorri. Impressiona-me o jeito seguro e articulado das alunas. Mais um clichê se esvaindo... FOTO: FLAVIA CASTRO_2015

diário

Entre duas narrativas

Uma viagem a Israel e à Palestina

Flavia Castro | Edição 103, Abril 2015

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11 DE DEZEMBRO, QUINTA-FEIRA_Estou no Aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, na fila da polícia. Ensaio mentalmente todas as respostas que me ocorrem às perguntas que os agentes de segurança certamente farão. Amigos me preveniram: “Não se assuste, é assim com todos. Podem até te levar para uma salinha…” Verifico pela décima vez meus documentos. A fila avança.

“O que você veio fazer em Israel?”

“Participar de um seminário sobre os cinquenta anos da ditadura militar no Brasil, na Universidade Hebraica de Jerusalém.”

“Quanto tempo vai ficar?”

“Um mês e meio.”

“Onde?”

“Com meu marido, na rua Smolenskin.”

“Seu marido mora aqui?”

“Não, ele está passando uns meses em Jerusalém, como professor convidado.”

Essas foram as quatro perguntas que a policial formulou. Nem olhou para a carta-convite que imprimi com tanta dificuldade. Diante dos meus dois passaportes, ela me pergunta, já meio impaciente, se quero entrar com o brasileiro ou o francês. Menos de quinze minutos depois de eu ter tocado o solo, desmoronava minha primeira ideia pronta sobre Israel. Afinal, não foi difícil entrar.

No saguão, meu marido, Luís Edmundo Moraes, me espera ao lado de Marcos Gorinstein, que participa da organização do seminário. Gorinstein dá aulas de jiu-jítsu na única escola onde israelenses – árabes e judeus – aprendem os dois idiomas. Duas semanas antes, o local sofreu um atentado no qual não houve feridos, mas o incêndio destruiu a sala de aula do jardim de infância. “Morte aos árabes” foi uma das pichações encontradas nas paredes.

É curioso chegar à noite num país desconhecido e logo pegar a estrada. Tive essa mesma sensação em Havana, no carro que me levava para a Escola de Cinema em San Antonio de los Baños. Sem eletricidade em quase toda a pista, o farol iluminava aqui e ali a figura desbotada de heróis da revolução, pintados nos muros.

Na sinuosa estrada para Jerusalém, a iluminação forte rebate na pedra clara. O asfalto é liso, parece uma pista de Fórmula 1. Vejo tanques verde-claros estacionados no acostamento. Gorinstein explica: “São de 1948, quando Israel tentou tomar da Jordânia essa estrada.”

Penso com certa nostalgia nas figuras evanescentes dos revolucionários nas estradas cubanas. Lá, como aqui, a memória é cultuada, faz parte de uma política de Estado. Mas em Israel os tanques parecem lubrificados, prontos para mais uma batalha.

O apartamento onde Luís está hospedado fica na rua dos fundos da casa do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. É mais de meia-noite quando chegamos. Apesar das malas, Luís pede que Gorinstein nos deixe na esquina, pois é complicado passar de carro pela cancela de segurança, ao lado da guarita policial. Há uma permanente luz branca, parecida com a espada de Guerra nas Estrelas, e de tempos em tempos pisca uma luz vermelha.

Minha imaginação paranoica não resiste à ideia de que no momento em que eu estiver cruzando a cancela uma ressonância magnética revelará todos os segredos do meu corpo, e até de meus pensamentos. Numa cabine envidraçada, em cima da garagem da casa de Netanyahu, percebo silhuetas na contraluz dos monitores de controle. Devem estar ouvindo nossos passos pela escuta que certamente colocaram no gato gordo e simpático que dorme na entrada do nosso prédio.

O apartamento, um pequeno e charmoso estúdio. Situado no térreo, tem duas portas de vidro e uma pequena varanda. Ali, num jardim rebelde, com ares de mata, uma imensa árvore me dá as boas-vindas.

12 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA_“Daqui a pouco fecha tudo e os ônibus param de funcionar.” Depois de duas semanas, Luís já tem sua rotina na cidade e está pronto para sair. O fuso horário e a viagem de quase vinte horas pesam, mas é só abrir a porta que o ar gelado me cura de todos os males.

Em frente ao prédio nos deparamos com um soldado – uma moça, com uma metralhadora Uzi nas costas. Ela nos olha séria, nós sorrimos. “Shalom”, diz Luís. Ela não desvia o olhar nem responde.

Descubro que, mesmo com todos os procedimentos de segurança, nossa rua é charmosa. De um lado, prédios baixos; do outro, um muro feito com as pedras claras de Jerusalém, onde o mesmo gato gordo da véspera se espreguiça.

Caminhamos em direção à cidade velha. Cruzamos com famílias de judeus ortodoxos, reconhecíveis pelo chapelão e pelos peots– os dois solitários cachos de cabelo que descem feito molas na frente de cada orelha. Os meninos parecem miniaturas do pai, com seus ternos pretos e camisas brancas impecáveis.

De longe, vejo a cidade velha pela primeira vez, com suas muralhas recortadas no céu azul. Contraste luminoso, parece uma fotografia de agência de viagem. Entramos pela Porta de Jaffa. Turistas e peregrinos. Árabes, russos, judeus, armênios. Cheiros, temperos, sons. Vamos até o Muro das Lamentações, o Kotel. Está muito cheio. “Não pode fotografar”, grita um homem sempre que um turista, desprevenido ou de má-fé, tira a máquina ou o celular do bolso.

É shabat. E durante o shabat, nas proximidades do Kotel, nem escrever pode. O muro é separado em duas partes: de um lado rezam os homens; do outro, as mulheres. De ambos os lados, rezam baixinho. De repente, do lado dos homens, vejo se formar uma roda. De mãos dadas, cantam a plenos pulmões. Giram, pulam e cantam. Às vezes cai um quipá, alguém pega e continuam. Rodopiam cada vez mais rápido.

Saímos da cidade velha pela imponente Porta de Damasco, no coração de Jerusalém Oriental. Multidão. Mulheres de véu, de cores e estampas variadas, ainda que predominem as de oncinha. Nenhum quipá nem chapelão à vista. Demoro alguns minutos para entender por que o quadro agora me parece mais familiar: é que morei quase uma década a poucos metros da estação Barbès do metrô de Paris, onde a multidão de lenços e hijabs forma a mesma paisagem.

15 DE DEZEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Hoje vou falar, estou tensa e já não acho tão pitoresca a Uzi nas costas da moça que faz a guarda da rua. Para piorar, ela nos barra a passagem. O homem mais poderoso do país está saindo de casa. Uma cortina gigantesca, suspensa por um trilho de aço que atravessa a rua, foi erguida para a operação. Como num teatro de sombras, vejo a silhueta dos seguranças do outro lado da cortina. A moça-soldado tenta se comunicar por rádio com o chefe da operação matinal. Enquanto esperamos, eu a observo em seu uniforme. Ela tem os cabelos castanhos e compridos, como minha filha, Anaïs, e deve ter a mesma idade dela, não muito mais que 18 anos. Por um instante, imagino Anaïs com aquela farda e uma metralhadora automática nas costas. Olho para a moça com mais simpatia, ainda que meu sorriso mais uma vez não seja correspondido. Aqui o serviço militar é obrigatório para todos os judeus israelenses. Dois anos para as moças, três para os rapazes.

O seminário que me trouxe a Israel acontece do outro lado da cidade, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Para ir até o ponto de ônibus, passamos em frente à casa de Bibi, que é como quase todos se referem a Netanyahu. Os seguranças de terno escuro e metralhadora portam um quipá azul. Luís me diz que é possível que eles sejam religiosos nacionalistas. Mas e os ortodoxos? Não são nacionalistas? Depende. Para os ultraortodoxos, como os haredim (que usam o chapelão), Deus destruiu o Reino de Israel e só o Messias está habilitado a recriá-lo. Enquanto espera sua volta, o povo judeu não deveria ter um Estado próprio. Espanto-me: então os ultraortodoxos são antissionistas? Sim, muitos deles.

Faço uma contagem rápida dos diversos tipos de judaísmo que estou me esforçando para aprender a reconhecer pelas roupas, o tamanho do chapéu ou a altura da saia: ultraortodoxos, ortodoxos, nacionalistas, ultranacionalistas, seculares… O motorista freia e grita alguma coisa que só pode ser um palavrão. Esqueço os chapelões dos haredim e volto a me concentrar no seminário. Vou ler um texto em inglês – “O exílio invisível das crianças” –, e isso vem me tirando o sono. À tarde vão passar meu documentário Diário de uma Busca. Organizado por James Green, brasilianista americano, professor da Universidade Brown, nos Estados Unidos, e por Michel Gherman, historiador carioca, especialista em Oriente Médio, o seminário acontece no Departamento de Estudos Latino-Americanos.

O ambiente é acolhedor, está cheio, o que é ótimo para o evento, mas me deixa mais tensa. Encontro os outros convidados que, como eu, vieram especialmente do Brasil: Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia e então secretário nacional de Justiça; Marlon Weichert, procurador da República; e Nemércio Nogueira, jornalista e diretor do Instituto Vladimir Herzog. A leitura transcorre melhor do que eu esperava e, no debate, depois da projeção do filme, estou mais relaxada. São umas quarenta pessoas, de idades e nacionalidades diferentes. As questões são parecidas com as que já escutei em outros lugares. No filme, por um lado tento retraçar a trajetória de vida de meu pai, militante de esquerda nos anos 70, percorrendo os países em que se exilou; por outro lado, busco entender as estranhas circunstâncias de sua morte, ocorrida no Brasil, em 1984.

Alguém me pergunta – mais uma vez – se com o filme eu descobri “alguma coisa a mais” sobre a morte do meu pai, e se eu “realmente” não sei como e por que ele morreu. No início essa pergunta sempre me surpreendia, porque me parecia óbvio que, se eu tivesse alguma certeza de como meu pai morreu, seria apaziguador terminar o filme com ela. Mas não é uma pergunta descabida, porque o final fica em aberto, sem resposta. Ninguém saberá exatamente como nem por que meu pai morreu. Muitas vezes, o espectador tem mais certezas sobre minha história do que eu mesma.

16 DE DEZEMBRO, TERÇA-FEIRA_No encerramento do seminário acendemos a primeira vela de Hanuká. Os judeus presentes cantam. É bonito. Tenho uma irreprimível atração por rituais, e me encanta a festa das luzes, com uma vela acesa a cada dia no início da noite.

17 DE DEZEMBRO, QUARTA-FEIRA_Michel Gherman e James Green organizaram para nós uma excursão de dois dias. Tiveram a excelente ideia de agendar encontros que nos permitam pensar sobre a realidade israelense e palestina a partir de uma experiência direta.

Neste primeiro dia vamos à Universidade de Al-Quds, em Abu Dis, pequena cidade palestina a 20 quilômetros do Centro de Jerusalém. Nosso grupo se divide em dois táxis que Gherman contratou ontem. Ao nos aproximarmos do checkpoint de saída da cidade, observo que a fila é pequena. Um soldado, com a metralhadora apontada para nosso carro, dá uma rápida espiada, pergunta aonde vamos e pronto, passamos. Achei fácil, como no aeroporto. Gherman diz que o problema não é sair de Israel, mas voltar. Não para nós, com nossos passaportes brasileiros, europeus ou americanos, mas para os árabes em geral, e os palestinos em particular. No entanto, 20% dos israelenses são árabes. Eles gozam dos mesmos direitos civis garantidos aos judeus, exceto o acesso ao serviço militar e a algumas profissões do serviço público ligadas à defesa do país.

O muro longo e sinuoso que vinha delineando a paisagem desde a saída agora se torna uma barreira mais concreta. O “muro de separação” começou a ser construído entre Israel e a Cisjordânia em 2002, durante a Segunda Intifada. O objetivo declarado do governo israelense era coibir a entrada de terroristas. No entanto, foi erguido além das fronteiras reconhecidas de Israel, para incluir grande parte das colônias instaladas nos territórios ocupados. Mais de uma década depois, o muro continua lá. Se o objetivo de Israel era separar, pode-se dizer que foi um sucesso. Conseguiu proteger, mas também aumentar a distância física entre israelenses (árabes e judeus) e palestinos. E, sobretudo, foi responsável por piorar a vida já bem difícil dos palestinos, interferindo em seu direito de ir e vir, inclusive entre cidades de seu próprio território.

Do lado israelense, o muro é liso e limpo. Na Cisjordânia, os grafites coloridos se sucedem. “Palestina Livre”, Che Guevaras. Até Banksy, o famoso artista de rua britânico, passou por aqui. Gherman chama minha atenção para Handala, o menino sempre representado de costas e sem sapatos, como andam as crianças nos campos de refugiados. Ainda criança, seu autor, o caricaturista Naji al-Ali, deixou a Palestina com seus pais em direção a um campo de refugiados no Líbano. Em 1987, Al-Ali foi assassinado. O menino Handala, com seus braços cruzados nas costas em sinal de recusa à opressão, sobreviveu. Continua vivo, pelo menos deste lado do muro.

Na entrada da Universidade de Al-Quds, um jovem palestino de cabelos encaracolados nos espera ao lado de um homem baixinho e sorridente, o professor Aziz Haidar. Árabe-israelense, Haidar é pesquisador do Instituto Truman, ligado à Universidade Hebraica de Jerusalém. Foi com ele que Gherman tratou nossa visita.

O Museu do Prisioneiro Palestino, dentro do campus da universidade, é um prédio estreito, com a entrada na forma da letra pi. Ali nos espera um guia, um jovem forte, cabelos curtos, estilo militar. Tudo começa com um mapa. O rapaz nos aponta a Linha Verde, a primeira fronteira entre Israel e os vizinhos, estabelecida pelo armistício que pôs fim à guerra de 1948. Depois, chama nossa atenção para a progressiva ocupação israelense de territórios árabes desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Num ritmo frenético, como se tivesse medo que lhe escapássemos, ele passa sem transição das fronteiras à situação dos prisioneiros palestinos. Aos poucos, a apresentação formal se mistura a sua própria experiência. “Nós, palestinos, somos todos prisioneiros. Não temos liberdade de ir e vir. Quando preciso viajar, os israelenses não me dão visto para ir até o Aeroporto Ben Gurion, preciso passar pela Jordânia.”

Num pequeno monitor vemos uma reportagem na qual dois soldados israelenses prendem dois meninos palestinos de 9 e 10 anos. Ouvimos o choro das crianças, os protestos do pai, dos vizinhos, o pranto da mãe. Os soldados seguem, puxando as crianças em direção a um jipe. Um dos meninos está com a cabeça sangrando. Um homem estrangeiro, provavelmente representante de alguma ONG, explica em inglês aos soldados que os meninos foram atacados por filhos de colonos quando voltavam da escola, que ele estava lá, pode testemunhar. Ele tenta impedir com o corpo a entrada dos soldados no jipe. Os soldados tiram o estrangeiro da frente e empurram os meninos para dentro do carro. Impressiona a banalidade dessas imagens – parece que já vi mil versões filmadas da mesma história. Os números explicam essa sensação de déjà-vu: segundo a Unicef, entre 500 e 700 crianças palestinas são presas anualmente. E, caso único no mundo, a partir dos 12 anos são julgadas por um tribunal militar.

Nosso guia não para de falar, mesmo quando não é necessária nenhuma tradução ou explicação para compreender o teor do que estamos vendo. Diante de uma conhecida fotografia de um terrorista que foi assassinado pelo Shin Bet – o serviço secreto interno israelense – depois de ter sido preso, ele comenta: “Essa história está contada no filme The Gatekeepers, um filme palestino muito bom.”

The Gatekeepers é um documentário israelense que concorreu ao Oscar em 2013, no qual seis ex-dirigentes do Shin Bet fazem uma espécie de mea-culpa em relação a suas práticas. Gherman fica surpreso. “Como assim, ‘filme palestino’?! Você ouviu essa?” Eu tinha achado divertido, pensei que seria uma boa anedota para contar para minha amiga Yaël Fogiel, que é produtora do filme. Mas, à medida que o guia continua explicitando o que as terríveis fotografias expostas já dizem, começo a entender Gherman: para nosso guia militante, não é possível imaginar que um judeu israelense possa fazer um filme crítico à política de seu próprio país. Para caber na sua história, na sua narrativa, o filme precisa se tornar palestino.

O campus da Universidade de Al-Quds situa-se em cima de uma colina que domina a cidade de Abu Dis. A universidade foi fundada em 1984; tudo ali parece novo. O desenho paisagístico é arejado, com muitas árvores e um grande jardim quadrado, onde uma moça lê sob uma árvore. Alguns alunos conversam em pequenos grupos, outros se divertem com nossa presença. São raras as mulheres sem véu.

Bandeirinhas verdes flutuam em vários pontos do campus. “São do Hamas”, diz Gherman. O professor Aziz Haidar explica que há poucos dias parte dos alunos comemorou o aniversário do grupo terrorista. Gherman me pergunta: “Você viu a machadinha?” Havíamos acabado de passar por uma faixa com um machado ensanguentado e um texto em árabe. “O Aziz traduziu o texto. É uma saudação aos assassinatos na sinagoga de Jerusalém, no mês passado”, diz Gherman, referindo-se ao atentado cometido por dois palestinos em novembro, que deixou cinco mortos.

Chegamos em frente ao prédio principal. No hall, a figura de um sorridente Yasser Arafat pintada na parede. O reitor, Imad Abu-Kishk, e um grupo de professores nos esperam. Um fotógrafo se junta ao que já nos acompanhava desde o museu. Flashes, sorrisos, apertos de mão. Nossa presença ganha ares de visita oficial. Numa sala de reunião, nossa “comitiva” senta de um lado de uma imensa mesa oval e o reitor e sua equipe, do outro. Na frente de cada um de nós, um pratinho com doces, água num copo de vidro grosso, suco e café. O reitor fala da importância de ampliar as parcerias com instituições de outros países. Os professores expõem com entusiasmo o trabalho que desenvolvem. Frisam o isolamento de que se ressentem, ainda que tenham firmado acordos com outras instituições, incluindo a Universidade de São Paulo.

Lucy Nusseibeh é responsável pelo Instituto de Mídia da universidade, sediado em Ramallah. Ela fala um pouco sobre seu trabalho como fundadora da ONG Middle East Nonviolence and Democracy, que promove entre os palestinos a forma de luta que ela chama de “não violência ativa”. É gritante o contraste entre as palavras de Lucy e dos professores, a favor de uma paz negociada, e a machadinha ensanguentada lá fora. Paulo Abrão fala em nome do Estado brasileiro, e James Green pergunta se quero dizer alguma coisa. Conto que cresci na França, nos anos 70, e que meus pais eram de um partido trotskista que sempre apoiou a causa palestina. Quando pequena, tinha um disco que eu adorava, cantado por crianças de campos de refugiados. Ofereço a eles um DVD do meu documentário e Lucy me convida para apresentar o filme em Abu Dis e em Ramallah.

Na saída, Gherman comenta: “Só tinha gente importante naquela mesa. A Lucy, essa mulher é incrível! É inglesa, casada com o Sari Nusseibeh. Ele participou dos Acordos de Oslo, é um dos mais respeitáveis intelectuais palestinos.” Os acordos, de 1993, tinham como princípio a troca de terras pela paz e levariam à criação do Estado palestino, o que não ocorreu.

Da Palestina fomos direto para um dos mais importantes memoriais do Holocausto, o Yad Vashem, localizado numa colina nas proximidades de Jerusalém. Luís, meu marido, não ficou para a visita. Antes de ir embora, ele me disse: “Presta atenção na saída do prédio.”

Somos recebidos por Avraham Milgram, simpático historiador brasileiro que trabalha lá há muitos anos. Ele nos diz: “Cada museu do Holocausto tem o seu ponto de vista. Aqui, toda a narrativa é construída a partir do ponto de vista da vítima.”

O grupo se dispersa, cada um de nós com seu fone de ouvido. Na primeira sala, logo na entrada, me encanto com a projeção gigante de um curto vídeo da artista Michal Rovner. Trata-se de uma montagem com cenas de filmes caseiros, dos anos 20 e 30, de comunidades judaicas em diversos países da Europa. Um mundo pulsante de vida, que progressivamente desaparece da tela. A narrativa do Yad Vashem segue com a chegada dos nazistas ao poder, a perseguição e o extermínio dos judeus. Das três horas que tínhamos para percorrer o museu, passei quase duas na primeira metade. Fico impressionada com a quantidade de materiais e a eficácia com que estão expostos.

No meu fone de ouvido alternam-se duas vozes – um homem, com um tom de neutralidade professoral, e uma mulher, com inflexões melodramáticas que acentuam a tragédia. Desnecessário. Ela me lembra o guia do museu palestino. Ainda estou no gueto de Varsóvia quando desisto dos fones.

Precisaria de muito mais tempo para ver tudo com calma. Mas já são cinco da tarde, o museu vai fechar em alguns minutos. Quando encontro a saída e subo para a parte externa, me deparo com uma vista incrível. Como que em continuação do museu, vejo Jerusalém. Israel, “a Terra da Salvação” para uns, “a Terra Prometida” para outros. O fim da narrativa é claro. Estamos nela.

Penso novamente no Museu do Prisioneiro Palestino. A simplicidade de um, a sofisticação do outro. Os dois têm uma coisa em comum: o lugar da vítima, no centro das respectivas narrativas, como ponto de partida para pensar o seu lugar no mundo.

18 DE DEZEMBRO, QUINTA-FEIRA_Ao lado do motorista da van, nosso jovem guia de hoje, Tomer, nos espera. Depois de conviver alguns dias, o grupo está entrosado. Rimos muito, ainda que os esforços para compreender a realidade que nos cerca tomem a maior parte das nossas conversas.

Hoje a “excursão” inclui conhecer uma colônia judaica na Cisjordânia e um encontro com um deputado em Tel-Aviv, passando pelo Mar Morto, para quem sabe dar um mergulho na lama santa.

Tomer tem 26 anos, cabelos encaracolados e olhos azuis. Aprendeu português em casa, já que seu pai, Jayme Fucs Bar, nasceu no Brasil. Fucs Bar mudou-se para o kibutz Nachshon nos anos 80 e atualmente o dirige. Judeu secular, ele defende uma posição humanista, a favor da solução dos dois Estados para o conflito israelo-palestino.

A entrada do kibutz Kfar Etzion, com sua guarita de segurança, lembra aqueles condomínios fechados a que estamos acostumados no Brasil. São dez da manhã e não tem ninguém na rua. Somos recebidos por David Bedein, jornalista e um dos dirigentes do kibutz. Depois de nos dar as boas-vindas, ele abre um mapa. Como no Museu do Prisioneiro Palestino, a narrativa aqui também começa com um mapa. O curioso é que o mesmo mapa, de 1948, serve às duas histórias.

Existem mais de 400 mil colonos judeus vivendo fora das fronteiras de Israel. David Bedein defende a ideia de que a região de Gush Etzion – onde seu kibutz faz parte de um dos maiores conjuntos de assentamentos na Cisjordânia, com aproximadamente 70 mil habitantes – tem um estatuto particular em Israel e não pode ser considerado um “território ocupado”. No pequeno museu de Kfar Etzion, ele nos mostra fotos do início do século XX que contam a história do kibutz: a primeira colônia judaica na área data de 1927. Segundo David Bedein, foi uma terra comprada aos palestinos. Mesmo assim, judeus foram expulsos e tiveram suas plantações queimadas pelos árabes sucessivas vezes. Em 1943, um grupo de judeus religiosos que fugia da Europa Central criou o kibutz Kfar Etzion. Na mesma época, outros kibutzims e instalaram na região.

Em 1947, quando a ONU determinou a partilha da Palestina entre um Estado judeu e outro árabe, a região de Gush Etzion ficou do lado árabe. Na época, os moradores do kibutz Kfar Etzion se recusaram a sair. Os palestinos e os países árabes ao redor não aceitaram a partilha, e a guerra árabe-israelense começou. Os exércitos árabes venceram a batalha no local. David Bedein conta: Pouco antes da Declaração de Independência de Israel, houve um massacre aqui. Mataram 250 judeus. Deste kibutz – Kfar Etzion – sobreviveram apenas três pessoas. Em 1967, quando Israel retomou essas terras, o governo autorizou que esses sobreviventes e os de outros kibutzim que existiam na região voltassem para reconstruir suas casas.”

Perto daqui fica o ponto de ônibus onde, em junho de 2014, foram raptados e assassinados três adolescentes, filhos de colonos. Muitos dizem que o incidente, incomum na região, serviu de pretexto a Benjamin Netanyahu para atacar novamente a Faixa de Gaza. O saldo foi dramático: mais de 2 mil palestinos mortos, a maioria civis, dos quais mais de 500 crianças. Na sequência, o primeiro-ministro autorizou – segundo suas próprias palavras, “em represália” ao assassinato dos adolescentes – a ocupação de mais 400 hectares de terra em Gush Etzion. Ainda assim, David Bedein acredita que é possível viver em harmonia com os palestinos nos territórios ocupados. Para demonstrar como se dão bem, pede a seu filho Noam que nos acompanhe ao supermercado local. Ele acha que o lugar é perfeito para que possamos constatar a boa convivência entre ocupantes e ocupados.

Noam Bedein tem a mesma idade que Tomer. Ambos trabalham como guias de turismo. Tomer cresceu com um pai que sempre defendeu a devolução dos territórios ocupados aos palestinos. Os dois conversam e penso no quanto Tomer põe em prática o que nos disse antes de entrarmos em Kfar Etzion: “É preciso tentar entender o ponto de vista do outro, suas razões, mesmo quando a gente não está de acordo com eles.”

Não sei em que medida Noam tem as mesmas convicções que seu pai. Na relação conosco, ele parece atento à impressão que a viagem está causando em cada um de nós. Depois de alguns minutos por estradas vazias, sem nenhuma casa à vista, chegamos ao supermercado. É gigantesco. Uma espécie de Carrefour no meio do deserto. Como numa festa junina, bandeirinhas de Israel atravessam todo o ambiente. Onde estão os árabes? Vejo um velho com um menino pequeno. Os outros são empregados, carregam caixas de frutas. Marlon Weichert, o procurador da República que é parte do grupo de brasileiros, pergunta a Noam por que não há nenhuma identificação em árabe dos produtos, já que o supermercado é “para todos”. Noam chama a gerente, uma moça maquiada e sorridente. Ela explica que integram uma cadeia de supermercado israelense, não têm como ter embalagens bilíngues. Weichert então pergunta se tem alguma área que não seja kosher, destinada aos muçulmanos. O sorriso da gerente desaparece e ela nos vira as costas, sem responder. Voltamos para a van.

Depois de alguns quilômetros, paramos em frente a um pequeno hospital. O diretor, Yitzchak Glick, nos recebe no hall e pede que o acompanhemos. Numa sala de conferência, faz sinal para nos sentarmos nas carteiras de plástico, enquanto ele se dirige ao palco. Em pé, ligeiramente apoiado num púlpito, ele se apresenta: “Sou médico, nasci em Nova York e estou aqui há dezessete anos. Tenho três filhos…”

Yitzchak Glick nos explica que o hospital foi construído depois da Segunda Intifada. Como a estrada havia se tornado perigosa para os colonos devido aos incessantes ataques terroristas, o Exército israelense frequentemente impedia o acesso a ela. Os colonos não podiam ir até o hospital em Jerusalém. “Era uma situação insustentável. Um simples caso de apendicite poderia se tornar uma tragédia. Então nos reunimos e decidimos construir este hospital. Atendemos entre 50 e 100 pessoas por dia.”

Perguntamos se o hospital atende os palestinos da região. “Claro, nosso hospital é aberto a todos. Mas por questões de segurança nós não deixamos que entrem acompanhados de mais de dois membros da família. E na cultura deles, quando alguém está doente, toda a família tem que vir.” Quantos palestinos atendem por semana? “Dois ou três por mês.” O baixo número nos surpreende. Segue-se uma conversa sobre o sistema de saúde público. Perguntamos se os palestinos conseguem pagar, já que não são beneficiados pelo “SUS” israelense. Yitzchak Glick nos responde: “Eles sempre dizem que não têm dinheiro.”

O tom da sua resposta causa certo mal-estar. Vejo que Tomer, em pé, ao lado de Noam, nos observa. Um de nós menciona os “territórios ocupados” e o médico reage: “Eu sou um homem religioso. Sempre segui e sempre seguirei o que está escrito na Bíblia. E lá está escrito que este lugar é do meu povo. Sempre foi.” O médico sai do tom professoral adotado até então e está quase gritando quando declara: “E ainda temos que retomar todas as terras que faltam e que pertencem a meu povo. Belém e Hebron! Os árabes que se mudem. Ou que fiquem por aqui, mas vão ter que aceitar que nós somos o povo a quem pertence esta terra…”

Levantamos de nossas carteiras azul-real e nos dirigimos ao estacionamento do hospital, onde cada um, a sua maneira, demonstra indignação. Noam não entende português, mas percebe nosso incômodo. Dali deveríamos fazer um pequeno lanche em sua casa, mas por falta de tempo, e também por certa pressa em mudar de ares, decidimos que é melhor ir direto para o Mar Morto. Despedimo-nos de Noam e seguimos.

Penso que eu gostaria de ter ido até a casa dele, ver como vivem, estar perto de outra coisa que não “os discursos”. Tomer diz que Noam também não se sentiu bem com o que o médico disse.

Em Gush Etzion, entendi que há pelo menos dois tipos de colonos e duas formas de defender sua permanência nos territórios ocupados – o direito histórico, evocado por David Bedein, e o direito messiânico, de Yitzchak Glick. Desta vez, a realidade foi pior do que a imaginação.

Lembro-me das palavras do poeta Mahmoud Darwich: “Quem impõe o seu relato herda a terra do relato.” Talvez ainda sob o efeito das palavras racistas do médico, a paisagem no caminho até o Mar Morto me parece lunar. Tomer nos fala de areia movediça. Vejo algumas construções ao longe e ouço Nemércio Nogueira, o diretor do Instituto Vladimir Herzog, mencionar Jericó.

Chegamos numa das “praias” do Mar Morto junto com um gigantesco ônibus de turismo, de onde descem famílias inteiras, todos com camiseta azul-real e boné com a inscrição Nigerian Pilgrims. Animados, os peregrinos nigerianos passam a roleta e correm ladeira abaixo em direção à lama. Nenhum de nós segue o exemplo. Fazemos selfies todos juntos, admiramos o horizonte e vamos almoçar. Já é tarde, e a única outra mesa além da nossa é de um grupo de evangélicos brasileiros.

Quando eu era pequena, chamávamos a sede dos partidos políticos de “local”. O do Meretz, um pequeno partido de esquerda com cinco deputados, é modesto e simpático, com cartazes de campanhas por direitos civis. Nitzan Horowitz, 50 anos, chega de camiseta e calça jeans preta. Era jornalista antes de se tornar o segundo deputado gay assumido do Knesset, o Parlamento israelense de 120 cadeiras. Em 2013, disputou a prefeitura de Tel-Aviv, obtendo 38% dos votos.

Na mesa comprida, de novo nosso grupo se acomoda de um lado, e do outro ficam Horowitz e Dario Teitelbaum, um militante israelo-argentino. Horowitz fala das eleições marcadas para 17 de março. Está otimista com a possibilidade de que, pela primeira vez em anos, uma coalizão de centro-esquerda tenha maioria no Congresso. Comentamos sobre nossa visita à Cisjordânia e perguntamos como o Meretz se posiciona em relação ao conflito. “Neste momento não há nenhuma vontade política do governo israelense para qualquer tipo de solução”, diz Horowitz. “No Meretz temos um plano de partilha. Alguns assentamentos vão ter que sair, mas muitos poderão ficar na Cisjordânia. Então para os colonos não é uma coisa trágica: alguns vão ter que se mover 10 quilômetros para dentro da fronteira israelense, isso é fácil.”

Alguém diz que, depois do que vimos em Gush Etzion, não parece simples “deslocar” os colonos. E Horowitz continua: “Alguns dos assentamentos não são só para ocupar a terra. Os colonos estão lá porque acreditam que Israel deveria ser um Estado religioso, e que os judeus deveriam ter mais direitos do que os árabes. Não acreditam em igualdade, não acreditam em democracia ou em justiça. E os inimigos deles não são os palestinos. Somos nós, sociais-democratas, tolerantes.”

Um de nós comenta que no Brasil a maioria das instituições judaicas é muito conservadora e defende cegamente o atual governo de Israel – o que acaba passando a impressão de que não existe esquerda em Israel.

Horowitz sorri: “The world is complex…”

A conversa na van é mais tranquila do que na saída dos territórios ocupados. James Green sorri: “Entenderam agora por que deixamos a conversa com o Nitzan Horowitz para o final do dia?” De fato, alguns de nós parecem apaziguados.

Nos despedimos de Paulo Abrão, que vai ficar em Tel-Aviv alguns dias, antes de seguir para a China. De dentro da van, a estrada para Jerusalém me parece menos iluminada que na primeira noite. Estou exausta, com a sensação de que ouvi um Bolsonaro e um Jean Willys no mesmo dia.

(Poucos dias depois de conversar conosco, Horovitz declarou que deixaria a política para seguir “em novas direções”.)

24 DE DEZEMBRO, QUARTA-FEIRA_Corro para encontrar Cynthia Gabbay na rodoviária de Jerusalém. Não nos conhecemos. Cynthia soube que eu ia para Israel e me escreveu poucos dias antes da viagem, convidando-me a apresentar meu documentário num festival de “filmes de protesto” na Universidade de Haifa, onde é professora.

Na hora de subir no ônibus, depois de passar pelo detector de metais, fico surpresa de ver uma fila organizada transformar-se em segundos num amontado de pessoas se empurrando para ver quem entra primeiro.

Logo já estamos mostrando fotos dos filhos no celular. Sua filha de 12 anos tem os mesmos olhos azuis da mãe, mas os cabelos lisos e compridos, ao contrário de Cynthia. O filho tem 8. Ela me conta que em julho passado, durante a guerra em Gaza, ela passou duas semanas de férias com as crianças no sul da França, onde mora o pai dela. Sair do clima sufocante de Israel em guerra foi um alívio para os três. E que na hora de voltar seu filho perguntou: “A gente precisa mesmo voltar para casa?” Cynthia fala de seu desejo de conseguir trabalho em alguma universidade fora de Israel. “Antes que as crianças cresçam e precisem ir para o Exército.”

O pai de Cynthia é egípcio. Ele fugiu de seu país nos anos 50, pouco depois da criação do Estado de Israel, quando a perseguição aos judeus sefarditas no Oriente Médio se tornou insustentável. Cynthia nasceu na Argentina, onde morou até os 19 anos. Quando terminou o ensino médio, seus pais tinham se mudado para o Chile e, sem saber muito que fazer da vida, ela foi visitar parentes em Israel. Se apaixonou por um israelense e ficou. Aprendeu hebraico e inglês ao mesmo tempo e entrou para a Universidade Hebraica de Jerusalém. Depois do fracasso dos Acordos de Oslo, as perspectivas de paz mais uma vez foram por água abaixo. A ocupação continuou. Vieram a Segunda Intifada e os atentados suicidas.

Quando ônibus começaram a explodir em Tel-Aviv, Cynthia parou de usar transporte público. Aos poucos, não conseguia mais sair de casa. Vivia em pânico. A vida ficou tão insuportável que ela e o marido se mudaram para Barcelona, onde seu pai morava. Lá os dois terminaram suas respectivas faculdades e depois retornaram a Jerusalém. Ela me diz que, desde que voltou, tornou-se “ativista”. Olha para mim e fala, com certa cautela: “Eu não sei como você vê tudo isso, mas eu não acredito nessa esquerda que se diz sionista. Olha o que aconteceu aqui!” Me dou conta de que Cynthia talvez pense que eu seja judia e sionista, por isso sua hesitação em falar de política comigo. Mal sabe ela que nunca tive tão pouca certeza sobre o que penso.

“Claro que o projeto dos sionistas socialistas, lá no início do século passado, era bonito, mas como toda utopia acabou em tragédia”, diz Cynthia. Então pergunto se ela vota no Hadash – partido que reúne comunistas judeus e árabes, um dos poucos antissionistas com representação no Parlamento.

“Não, eu não acredito na política institucional.”

O pessoal de seu grupo se mobiliza para “ações concretas”. Depois de um atentado, a tensão aumenta em Jerusalém e nacionalistas de direita, organizados ou não, se reúnem para atacar árabes. Foram esses extremistas que queimaram vivo o adolescente Mohamed Abu Jadeir, em “resposta” ao assassinato dos três adolescentes judeus em Gush Etzion.

“Quando desconfiamos que isso pode acontecer, vamos todos para o Centro da cidade e simplesmente ficamos por ali. Às vezes apanhamos junto com os outros, outras vezes nossa presença é dissuasiva.” Aos poucos, entendo que Cynthia é anarquista, que o que ela chama de “seu grupo” são ativistas que se identificam com a esquerda radical israelense, que abarca feministas, veganos, anarquistas e trotskistas. Nenhum com representação partidária no Congresso. Esses grupos se juntam para algumas ações. “Mas mesmo juntos somos poucos, muito poucos”, lamenta ela. “Estou aqui há vinte anos e a situação está cada vez pior. Há muito ódio entre árabes e judeus. Acho horrível dizer isso, mas é verdade. Podem até fazer os dois Estados, mas talvez agora seja tarde demais.”

Amós Oz se refere a essa situação com a metáfora do casal que se separa, mas precisa continuar dividindo o mesmo apartamento pequeno. “Não esperamos que árabes e judeus se amem novamente, mas vão ter que aprender a dividir a mesma casa.”

A solução de dois Estados ainda é vista por muitos como a forma mais razoável para a resolução do conflito. Mas hoje está longe de ser unanimidade. Desde o histórico aperto de mãos entre Yasser Arafat e Yitzhak Rabin selando os Acordos de Oslo em 1993, a colonização da Cisjordânia não parou de crescer. A palavra “desocupar” não tem mais o mesmo sentido, já que se trata de quase meio milhão de pessoas.

25 DE DEZEMBRO, QUINTA-FEIRA_É Natal e Luís vai dar aula, como em outro dia qualquer. É um alívio não ter que sair correndo para comprar algum presente esquecido, enfrentar filas e engarrafamentos absurdos, nem ouvir o insuportável som do Jingle Bell em cada esquina. Mas não consigo evitar o clichê maior: sinto uma certa melancolia ao pensar nos meus filhos que estão longe.

27 DE DEZEMBRO, SÁBADO_Luís e eu chegamos à labiríntica rodoviária de Tel-Aviv no final da tarde. Depois de algumas voltas conseguimos achar a saída, acompanhando o fluxo de pessoas que voltam para casa. Desembocamos numa rua movimentada, cheia de lojas com produtos africanos e cabeleireiros afro.

Atravessamos a cidade a pé. Está escurecendo e Luís se aproxima de uma loja de sucos para poder enxergar o mapa. Eu sou a pessoa mais desorientada do mundo, enquanto Luís tem uma bússola no cérebro. Há muito tempo desisti de escolher os caminhos e me sinto feliz em ser guiada por um Google Maps particular. Assim, posso me concentrar no que realmente interessa. Observo as mulheres que passam, com roupas justas, cabelos soltos. Depois de duas semanas em Jerusalém, sinto certo alívio com essa ausência de religiosidade ostensiva.

Sopra uma brisa suave. Estamos chegando perto do mar e da casa de minha amiga Silvina Landsmann, onde ficaremos hospedados. Não a vejo há mais de quinze anos.

Conheci Silvina nos anos 90 em Paris. Ela nasceu na Argentina, seus pais foram para Israel no final dos anos 70, por motivos políticos: um tio e uma tia de Silvina, irmãos da sua mãe, foram presos com seus respectivos cônjuges. Seus pais recebe-ram ameaças e foram aconselhados a sair do país. Silvina chegou a Tel-Aviv com 11 anos. Mais tarde, seus primos, órfãos de pai e mãe, foram morar com eles. Quando o marido de Silvina foi fazer doutorado em Paris, ela o acompanhou. Tínhamos 26 anos e nos tornamos amigas.

Na época, eu fazia um bico atrás do outro para sobreviver, além da faculdade de cinema. Silvina não precisava trabalhar. Também estudava, mas tinha tempo, e muitas vezes ia me encontrar no meu estúdio em Montmartre, no final do dia. Tomávamos vinho e ficávamos conversando até altas horas. Naquela época ela já se interessava por cinema e por política, que tinha marcado a sua vida de forma tão radical. Em comum, tínhamos nossas infâncias no exílio.

Pouco depois, comecei a trabalhar como assistente de direção no documentário de Richard Dindo, Ernesto “Che” Guevara – O Diário da Bolívia. Silvina tornou-se assistente de Frederick Wiseman, um dos documentaristas mais importantes do mundo. No final dos anos 90, nossas filhas nasceram e pouco depois nos perdemos de vista. Silvina voltou para Israel e eu para o Brasil.

Ela abriu a porta, os cabelos presos no alto da cabeça, o sorriso largo. Pela primeira vez a hipocrisia do “Você não mudou nada!”, tão comum nesses reencontros, fez sentido para mim. Vejo em Silvina os sinais dos quinze anos que passaram, mas a sensação de reconhecimento é mais intensa e de alguma forma mais surpreendente do que a percepção de algumas rugas.

Silvina nos apresenta ao montador do documentário que ela está finalizando por esses dias. Depois de sua experiência com Wiseman, ela seguiu seu próprio caminho. Há três anos, seu filme Soldier/Citizen ganhou uma menção honrosa no Festival de Berlim. Em seu novo documentário, Silvina se debruça sobre a precária situação de trabalho dos imigrantes em Israel. Entende-se por “imigrante” os estrangeiros não judeus, já que qualquer judeu tem direito à nacionalidade israelense.

O apartamento é amplo. Silvina mora com as três filhas. Durante o jantar, não sabemos por onde começar – como resumir quinze anos em algumas horas? Acabamos falando do presente. Ela parece mais otimista que Cynthia. Como Michel Gherman, o historiador que organizou o seminário na Universidade Hebraica, acredita que os partidos do centro e de centro-esquerda possam obter a maioria no Parlamento.

Conto a ela nossa conversa com o deputado Nitzan Horowitz. Ela diz que o Meretz, embora pequeno, é um partido importante para fazer avançar os direitos civis em Israel. “O Nitzan é um ótimo deputado, mas enquanto internamente garantimos cada vez mais direitos e liberdade para nós, israelenses, a política de ocupação continua igual. Como se fosse normal ter direitos aqui e negá-los aos palestinos ali. A verdade é que em Tel-Aviv é possível viver sem pensar no conflito, cada um com sua vidinha, tranquilamente. Até a próxima guerra, ou o próximo atentado.”

29 DE DEZEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Luís foi embora cedo de Tel-Aviv. No início da tarde, Silvina me leva até um terminal de ônibus, de onde vou voltar para Jerusalém sozinha. Os ônibus estão num estacionamento cercado por grades. Silvina me leva para a entrada, mas somos barradas: um objeto não identificado foi encontrado dentro do ônibus que vai para Jerusalém. Ela vai embora e fico esperando ao lado dos outros passageiros. Os israelenses encaram a situação com naturalidade. Apenas eu e alguns turistas acompanhamos avidamente os movimentos do “robô” – gerigonça com garras de ferro acionado a distância que entra no porta-malas do ônibus e sai de lá com o “objeto não identificado”. Parece ser apenas uma mochila esquecida, mas o protocolo de segurança é rígido e eficaz. Um especialista em bombas, vestido como um astronauta, pega a mochila suspeita e se afasta. Minutos depois, abrem a grade e a nossa educada fila de passageiros se transforma no caos do qual já participo ativamente, correndo para dentro do ônibus.

7 DE JANEIRO, QUARTA-FEIRA_O dia está frio e ensolarado. Eu tomo o café da manhã ao sol, na varanda, com a tevê ligada num canal de notícias francês, quando o atentado ao Charlie Hebdo é anunciado. Sinto uma vertigem que piora a cada nova notícia. Wolinski e Cabu morreram. Tento explicar para Luís quem são. Na infância, provavelmente cruzei com Wolinski e Cabu nos corredores do Rouge, jornal de extrema esquerda no qual meus pais trabalhavam. Mais tarde, no início dos anos 90, reencontrei Cabu na redação do La Grosse Bertha, publicação satírica criada contra a Guerra do Golfo.

Preciso saber onde está Anaïs, minha filha, que pela primeira vez viajou sozinha para a França. Falo com minha irmã e mando um WhatsApp para minha amiga Yaël Fogiel, que mora a poucas ruas da sede do Charlie. Yaël ainda não sabe do episódio e pensa que estou me referindo a um atentado em Israel. Para ela, israelense, é a força do hábito. Para mim, é um choque esse atentado ocorrer em ruas que me são íntimas, com pessoas que conheci. Estar num país onde os atentados fazem parte do cotidiano dá uma estranha perspectiva aos acontecimentos. Fico grudada à tevê francesa, que retransmite ao vivo todas as etapas do horror. Só consigo sair de casa dois dias mais tarde, após o desfecho do sequestro no supermercado kosher.

9 DE JANEIRO, SEXTA-FEIRA_Neva sobre Jerusalém. À noite, atravessamos a cidade branca e vazia, a pé, para chegar a uma pizzaria que fica aberta durante o shabat. Michel Gherman me diz: “Eu sei exatamente como você está se sentindo.”

10 DE JANEIRO, SÁBADO_Fomos tomar uma sopa com Cynthia Gabbay e Adam Blumenthal, amigo dela, tradutor de Roberto Bolaño para o hebraico. Magro, cabelos desgrenhados, ar de poeta maldito, Blumenthal nasceu em Israel, mas parece portenho. Não só pelo domínio das gírias, mas também pelo humor sarcástico. Sobre o atentado em Paris, ele diz: “É, assim vocês vão entender como é conviver com o terrorismo.” A mesma frase que ouvi de Michel ontem, só que invertida. Enquanto Michel demonstrou compaixão, Blumenthal desafia em tom de brincadeira: “Você vai nos entender.” Ao longo da semana em Jerusalém, diversas vezes tive a sensação de que pensavam: “E quando o atentado é aqui, quem se importa?”

Durante a última guerra em Gaza, Blumenthal escreveu para um site argentino um texto intitulado “Carta de Jerusalém”, que começa assim:

“Aos habitantes de Jerusalém, parecem ultrajantes as manifestações, tanto contra como a favor de Israel, dos grupos de esquerda que gritam “Viva a Palestina”, mas também das comunidades judaicas que sustentam com veneração cega e nostálgica um Israel que talvez não exista mais e talvez nunca tenha existido. Se vocês não querem reconhecer os erros de Israel, preferimos que não nos apoiem.”

Pergunto qual foi a reação ao texto na Argentina. “Recebi porrada de todos os lados. Da direita da comunidade judaica eu já esperava. Mas não consigo me acostumar com o grau de desinformação da esquerda argentina sobre o conflito. Até de ‘fascista’ me chamaram. Essa recusa em enxergar a complexidade não ajuda nenhum dos dois lados.” Mais uma vez fico em silêncio, com uma sensação de déjà-vu. E as palavras que sempre voltam, as mesmas: complexidade, dois lados.

11 DE JANEIRO, DOMINGO_Ao acordar, a primeira notícia com a qual me deparo é o atentado da véspera cometido pelo Boko Haram na Nigéria. Colocaram uma bomba numa menina de 10 anos que explodiu, matando vinte pessoas. A notícia dura menos de um minuto no jornal dominado pelas imagens da manifestação de solidariedade aos mortos nos atentados em Paris. E quando é na Nigéria, quem se importa?

13 DE JANEIRO, TERÇA-FEIRA_O convite feito por Lucy Nusseibeh, do Instituto de Mídia da Universidade de Al-Quds, se concretiza. Depois de algumas trocas de e-mails, fica decidido que vou conversar e mostrar aos estudantes alguns trechos do meu filme.

Ao chegar ao campus com Luís e Gherman, somos recebidos por Tareq Hardan, um jovem professor formado no Canadá e no Japão, responsável pelo curso linguagem e pensamento, no Departamento de Serviço Social. Simpático e agitado, Hardan explica que a matéria é aberta a alunos de todas as áreas. Eu estava imaginando que iríamos para uma sala de aula, mas ele nos leva para o auditório da universidade.

Sentada à mesa do palco, me chamam a atenção os olhos das moças, fixos em mim. Poucas não usam o hijab. Só depois de um tempo percebo a presença de alguns alunos homens.

Como tínhamos combinado, Hardan coloca um trecho do meu filme, que me servirá de base para falar sobre a relação entre história pessoal e política no documentário. Um tradutor tenta ler as legendas em inglês e traduzir para o árabe. A tarefa em si já seria difícil, mas a forte luz do palco que ilumina a tela a torna quase impossível. Por algum motivo que não entendi, era impossível apagar a luz. Depois de dez minutos que me pareceram uma eternidade, falo um pouco sobre a ditadura no Brasil e sobre minha história familiar.

Na primeira fila, uma jovem de lenço rosa na cabeça e calça jeans pergunta: “Você viria aqui, fazer um filme sobre a gente, sobre nossa luta?” Respondo que acho importante eles fazerem seus próprios filmes, com sua própria visão do conflito. A moça sorri, parece satisfeita com a resposta. Impressiona-me o jeito das alunas. Seguras, articuladas, o olhar firme. Mais um clichê se esvaindo…

Outras questões se sucedem. O ponto de partida é sempre a situação deles, palestinos. Um dos rapazes pergunta: “Você vê alguma relação entre o que vocês viveram durante a ditadura no Brasil e nossa situação?” A pergunta é difícil. Falo da experiência do exílio, do fato de não poder voltar para casa. E digo que agora vivemos numa democracia, mas que ainda temos muito problemas. Como, por exemplo, o fato de que no Brasil morrem cinco jovens por dia, assassinados pela polícia.

O tradutor vai embora, um outro jovem pede a palavra. Hardan ouve atentamente e me explica que ele quer retomar a pergunta anterior. Fico sabendo que houve um erro na tradução: “Eles entenderam que você disse que no Brasil a situação é pior do que na Palestina”, diz. Fico surpresa e confusa de ter que me defender de uma coisa que não disse. Vejo todos os rostos olhando para mim, sérios. Falo da diferença entre ditadura e ocupação, e para terminar digo que não existe nada no Brasil que possa se comparar à injustiça e ao sofrimento de ter seu país ocupado por outro Estado. Eles parecem satisfeitos com a resposta.

Entendo que, à parte o erro do tradutor, o alto índice de assassinatos pela polícia no Brasil gerou surpresa, mas também desconforto. Como se minha fala tirasse o protagonismo da tragédia palestina. Existe o interesse por outro país, por outra experiência, mas sinto que todos teriam ficado mais felizes se eu tivesse declarado minha solidariedade de maneira enfática, como fiz na reunião com os professores, semanas antes. Para eles, o único ponto de partida e de chegada possível para pensar o mundo é a própria tragédia.

No meio da tarde, o ônibus de volta para Jerusalém está cheio. Ao parar no checkpoint, todos os passageiros descem. Pelo retrovisor, o motorista faz um sinal dizendo que eu, Luís e Michel podemos ficar no ônibus. Uma moça do Exército entra, olha nossos passaportes e a identidade israelense de Michel. Ela desce e ficamos alguns minutos, os três, sozinhos no ônibus. Michel fica indignado: “A moça ao meu lado tem uma identidade israelense igual à minha, eu vi! Só que ela é árabe, por isso teve que descer e eu não. Se isso não é apartheid, parece muito!” O ônibus atravessa o checkpoint e os passageiros, que precisaram passar pela polícia e por um detector de metais, voltam para seus lugares.

Ao entrarmos na cidade, o ônibus fica preso num engarrafamento causado pelo enterro dos quatro mortos no atentado ao supermercado kosher de Paris. Luís vai dar aula, Michel e eu resolvemos descer e caminhar por Jerusalém Oriental. Numa livraria, vejo um mapa da Palestina de 1948, igual ao que o guia do museu palestino e o colono usaram para suas narrativas. Entro e compro, talvez numa esperança vã de que o traçado das fronteiras me ajude a dar alguma concretude às mil questões que me assolam.

16 DE JANEIRO, SEXTA-FEIRA_Foram 38 dias. E não falei dos tomates-cereja, do vinho e das romãs. Não falei do mercado, da beleza do deserto. Esqueci de contar sobre o dia em que, dentro do ônibus, um cheiro de frango assado pairava sobre nós, que, famintos, tentávamos descobrir de onde vinha. Luís, zeloso pelos meus modos, me pedia para não olhar para trás. Tentei ser discreta, mas não consegui evitar e me virei. Um senhor humilde sentado atrás de mim tirou de uma sacola uma coxa do frango fumegante e me estendeu. Vendo-me atrapalhada com a gordura escorrendo entre os dedos, ainda teve a gentileza de me dar um guardanapo. Mordi com vontade e agradeci de boca cheia. Logo depois, meu benfeitor saltou do ônibus e desapareceu, deixando Luís à vontade para praticamente arrancar o frango das minhas mãos, esquecendo por completo a etiqueta.

17 DE JANEIRO, SÁBADO_Na fila para entrar no avião, vejo um homem que estava conosco no táxi coletivo que nos levou até o aeroporto. Ele se sentou à nossa frente e tinha me chamado a atenção pela imagem de santo, de tecido colorido, que carregava no pescoço, para trás, sob a nuca.

Guia de turismo, Orhan (nome fictício) tem 35 anos e fala português com fluência. Enquanto esperamos na fila, ele me conta que ainda está nervoso com a passagem pela polícia do aeroporto, quando foi inteiramente revistado. “Fica todo mundo te olhando como se você fosse um terrorista. Não consigo me acostumar.”

Orhan nasceu em Jerusalém, é cristão ortodoxo. Seu avô fugiu da Turquia para a Palestina em 1922, durante uma onda de perseguição aos cristãos. Seu pai era delegado de polícia, está aposentado. Ele estudou numa escola cristã onde aprendeu inglês, hebraico e árabe. Em casa, falam aramaico. (Na hora disfarcei minha ignorância, mas depois fui ao Google: é a língua original de várias partes da Bíblia e do Talmude, e seu alfabeto é a matriz do hebraico e do árabe.)

Ele tem três irmãos, mas é o único religioso da família. Assim como Tomer, Orhan estudou para ser guia na Universidade Hebraica de Jerusalém. Depois se especializou em turismo religioso, “porque paga melhor”. No momento, trabalha com uma agência que recebe grupos de evangélicos, sobretudo brasileiros, muitas vezes acompanhados do pastor. “Esses pastores ficam o tempo todo falando mal dos árabes, não sabem nada de história. Você acredita que eles rezam para o Domo da Rocha ser destruído para o Messias poder voltar?” Símbolo de Jerusalém, a mesquita tem uma cúpula que parece um sol em meio às pedras. Construída entre 688 e 691, é considerada um marco da arquitetura islâmica.

Sagrado para muçulmanos, cristãos e judeus, o Monte do Templo (para os judeus) ou Esplanada das Mesquitas (para os muçulmanos) é frequentemente lugar de tensões. Várias vertentes do messianismo judaico e cristão pregam ser necessário liberar a Terra Santa dos infiéis para a chegada do Messias. Grande parte dos evangélicos simpatiza com essa perspectiva, que de quebra inclui um alinhamento político com a extrema direita israelense, que também quer expulsar os muçulmanos dali.

Orhan declara que ele e toda sua família votam no Meretz. Fico surpresa: um cristão ortodoxo que vota num partido que tem na plataforma o direito civil dos homossexuais? Se já era pouco provável conhecer um israelense cristão – apenas 1% da população de Israel – no avião que me leva de volta para casa, o que dizer do fato de ele votar num dos menores partidos do Knesset? “The world is complex”, diria Nitzan Horowitz.

O jantar chega e vejo que Orhan também arrisca umas palavras em alemão com a aeromoça da Lufthansa. Ele me explica que morou seis anos na Alemanha. “Tive uma noiva em Berlim. Ela era de origem turca. A gente morava e trabalhava junto, no comércio do pai dela. Ele gostava muito de mim. Mas não deu certo.” O guia sorri. “Agora ela está casada com o meu melhor amigo. Eles até me convidaram para a festa.” Depois de uma taça de vinho, Orhan continua a falar de seus amores. “Eu tenho 35 anos e nunca beijei uma judia, você acredita nisso? Nunca!”

Ao se preparar para dormir, ele espia o livro que separei para ler durante a viagem: Um Fósforo Vale por Toda Nossa Filosofia? Novo Olhar sobre o Futuro da Palestina, de Sari Nusseibeh. Não conhece o autor, mas explica que Nusseibeh é o nome de uma família tradicional de Jerusalém, há vários séculos responsável pela guarda da chave do Santo Sepulcro.

Conto a Orhan que Sari Nusseibeh desenvolve em seu livro uma proposta diferente para a resolução do conflito, que num primeiro momento não envolveria a criação de dois Estados. Ele responde, incrédulo: “Isso é loucura, os israelenses nunca aceitariam.” Comento que ele fala “dos israelenses” como se não fosse um deles. Orhan me olha espantado, como se minha observação não fizesse sentido: “Se você não é judeu, é difícil você se sentir israelense.” E como ele se define? Pela origem? Pela religião? Ele pensa um pouco e sorri. “Eu digo apenas que sou de Jerusalém.”

Sari Nusseibeh nasceu em 1949 numa família palestina. Seu pai foi governador de Jerusalém e ministro da Defesa da Jordânia. Ele fez seu doutorado em filosofia em Harvard e casou-se com Lucy, a inglesa que conheci na Universidade de Al-Quds. Depois da Primeira Intifada, nos anos 80, tornou-se um dos conselheiros de Arafat. Era reitor da Al-Quds até meados de 2014.

Nusseibeh conta, no prefácio de Era uma Vez um País, a Palestina, que estava voltando do enterro de Yasser Arafat quando leu no avião o livro autobiográfico de Amós Oz, De Amor e Trevas. Os dois escritores cresceram em Jerusalém, com um intervalo de alguns anos, a poucos metros um do outro. No entanto, os árabes são quase inexistentes na infância de Amós Oz, assim como eram raros os judeus na vida de Nusseibeh. Foi em reação a essa realidade que Nusseibeh decidiu escrever sua própria história. Oz saudou com entusiasmo o livro do amigo, um incansável militante pela paz, como ele. “Essa incapacidade de conceber a existência do outro não está no coração do conflito que nos opõe?”, pergunta Nusseibeh.

Isso me lembra as palavras de Michel Gherman, quando o procurador Marlon Weichert o desafiou: “Se você tivesse que achar uma solução para o conflito, o que você faria?” Michel respondeu: “Há uma disputa de narrativas, e é por aí que precisamos começar. Por exemplo, introduzindo no programa das escolas judaicas e palestinas a história, a narrativa do outro.”

Em seu último livro, que devoro enquanto sobrevoamos o Atlântico, Nusseibeh volta à filosofia, e especialmente à filosofia árabe, para questionar: “Existiria uma verdade única no conflito israelo-palestino, e logo uma solução perfeitamente justa?” ou “A existência de Israel é um direito ou uma violação de direito?”. Perguntas que podem ter como resposta duas verdades únicas e excludentes. Mas, nos diz o filósofo, verdades únicas não ajudaram a resolver conflitos.

Amanhece no hemisfério Sul quando Orhan desperta. Está entusiasmado com a chegada ao Rio de Janeiro, que ainda não conhece. Pergunto onde ele ficou da primeira vez, quando passou oito meses no Brasil. “Em Teresina, no Piauí. Você conhece?”