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despedida

Éramos cinco

É questão de tempo a extinção dos rinocerontes-brancos-do-norte

Roberto Kaz | Edição 108, Setembro 2015

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A tragédia vinha sendo anunciada: desde o começo do ano, Nabiré parecia cansada. Portadora de um cisto no ovário, carregava seu corpo de 31 anos e 2 toneladas com mais dificuldade. Ainda assim, atravessou aquele 27 de julho, uma segunda-feira, em relativa normalidade. Comeu feno, caminhou na areia, rolou na poça de lama para proteger-se do sol. Ao fim da tarde, recolheu-se aos seus aposentos – uma área fechada no zoológico Dvůr Králové, na República Tcheca. Deitou-se, dormiu – e nunca mais acordou. No dia seguinte, o diretor da instituição, Přemysl Rabas, descreveria a perda como “terrível”, definindo-a como “um símbolo do declínio catastrófico dos rinocerontes devido à ganância humana”.

Nabiré representava 20% dos rinocerontes-brancos-do-norte ainda vivos. A espécie está extinta na natureza. Dos quatro remanescentes, três – as fêmeas Nájin, Fatu e o macho Sudán – vivem numa reserva ecológica no Quênia, protegidos por homens armados. O restante – uma fêmea chamada Nola – mora num zoológico nos Estados Unidos. São todos idosos e, até que se prove o contrário, inférteis.

Embora lembre o hipopótamo, o rinoceronte tem parentesco mais próximo com a anta e o cavalo. O antepassado de todos os três habitou a América do Norte 50 milhões de anos atrás. Ao longo dos 40 milhões de anos seguintes, a ordem dos rinocerontes proliferou e se espalhou pela África e pela Ásia, dividindo-se em mais de 100 espécies. Com o passar do tempo, algumas delas ganharam chifres – sempre de queratina, o mesmo componente encontrado no cabelo e na unha dos humanos.

 

Surgido como um adorno que conferia sucesso reprodutivo ao portador (como a juba, no caso do leão), o chifre acabaria por selar o destino trágico do paquiderme. Passou a ser moído e usado para tratar febre, ressaca, câncer e impotência na medicina oriental. De nada valeram os inúmeros estudos científicos que mostraram a inocuidade da substância. O chifre virou artigo valiosíssimo – mais caro até do que o ouro – no mercado negro da caça.

Segundo estimativas do grupo Save the Rhino, no começo do século XX a ordem dos rinocerontes era representada por um plantel de meio milhão de animais. Hoje restam apenas 29 mil, divididos em cinco espécies. Curiosamente, a mais numerosa é a do rinoceronte-branco – por causa da subespécie do sul (Ceratotherium simum simum), que conta mais de 20 mil indivíduos. A que está em estado mais crítico é a subespécie branca-do-norte (Ceratotherium simum cottoni).

“Quando nasci, em 1957, havia mais rinocerontes-brancos-do-norte que do sul”, disse o ecólogo Richard Emslie, que integra a Save the Rhino. “Mas quando o número de animais do sul chegou a vinte ou cinquenta na natureza, iniciou-se um trabalho de conservação.”

 

O rinoceronte-branco-do-sul acabou ajudado pelo contexto político e geográfico. Por ser endêmico da África do Sul – país mais desenvolvido e estável –, protagonizou um projeto que teve condições financeiras de se sustentar. Já o rinoceronte-branco-do-norte era endêmico do Congo – país que ainda sofre os efeitos de uma guerra civil iniciada em 1996 que já deixou um saldo de ao menos 5 milhões de pessoas mortas. Diante desse quadro, não houve quem zelasse pelo animal.


Rinoceronte-branco-do-norte no zoológico Dvůr Králové, na República Tcheca (Foto: Mistvan/Wikimedia Commons)

 

Nabiré foi um dos quatro rinocerontes-brancos-do-norte nascidos em cativeiro. Veio ao mundo em 1983, no próprio zoológico tcheco, quando ainda parecia possível que a espécie fosse salva por meios naturais. Após o nascimento de Fatu, no mesmo zoológico, quinze anos mais tarde, nenhuma outra fêmea de rinoceronte-branco-do-norte conseguiu engravidar.

 

Por isso, em 2009, os quatro rinocerontes-brancos-do-norte que faziam companhia a Nabiré foram levados, de avião, da República Tcheca para a reserva Ol Pejeta, no Quênia. Como nem a inseminação artificial tivesse funcionado, havia a esperança última de que um hábitat selvagem, repleto de zebras e gazelas, pudesse surtir algum efeito. E, de fato, a estratégia pareceu funcionar num primeiro momento. “Eles chegaram a cruzar, mas não engravidaram”, lamentou Jan Stejskal, diretor de projetos internacionais do zoológico Dvůr Králové. Houve ainda uma tentativa desesperada de cruzar o quarteto com rinocerontes-brancos-do-sul, para que ao menos metade da genética fosse preservada. Novamente, não houve resultado.

Nabiré não viajou com o grupo por ser portadora de uma doença: nasceu com o ovário policístico, o que a tornava infértil – e praticamente inútil no esforço de perpetuar a espécie. Permaneceu no zoológico, primeiro na companhia de Nesari – outra fêmea rinoceronte-branco-do-norte, também infértil – e, depois, na companhia de Jesica e Natal – dois rinocerontes-brancos-do-sul. Morreu em função do cisto. “Foi a rinoceronte mais doce que tivemos no zoológico”, disse Stejskal. “Nasceu e cresceu aqui. Foi como perder um membro da família.”

O ovário funcional foi retirado, congelado e armazenado em um banco que contém material genético de doze rinocerontes-brancos-do-norte. Há uma esperança – remota – de que a espécie ainda seja preservada por fertilização in vitro. A fecundação ocorreria em laboratório e o embrião seria implantado em fêmeas de rinocerontes-brancos-do-sul. “Elas serviriam de barriga de aluguel”, explicou Richard Emslie. “Assim as duas últimas  fêmeas de rinocerontes-brancos-do-norte continuariam gerando óvulos para a coleta. Não perderiam tempo com a gravidez, que dura um ano e meio.”

O projeto, orçado em 800 mil dólares, ainda está em fase de estudo e captação de recursos. “Nossa única esperança é a tecnologia”, completou Emslie. “Mas é triste atingir um ponto em que a salvação está em pessoas num laboratório, vestidas de jaleco. Chegamos muito tarde. A espécie tinha que ter sido protegida na natureza.”

Roberto Kaz
Roberto Kaz

É jornalista e redator do Piauí Herald. É autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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